No meio de tudo
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Bernardo
— É sério isso Doutora? To de alta? De tudo? — Não consegui conter minha felicidade quando a médica me entregou os papéis da alta. Depois de tanta fisioterapia, consultas e exames, eu estava de alta, livre, e me desculpem todos os profissionais que lidaram comigo, mas eu não queria voltar nunca mais.
No dia em que tive alta do hospital, Doutora Nathália me encaminhou para uma cardiologista, por causa da hemorragia interna, meu coração e pulmões poderiam ter sequelas, tive que fazer sessões de fisioterapia para treinar minha respiração e nunca achei de seriam tão difíceis.
Doutora Nagylla olhou pra mim e sorriu, assentindo.
— Nunca mentiria pra você Bernardo, todas as possíveis sequelas estão curadas. Você está novinho em folha, toda sua dedicação na fisioterapia valeu a pena.
O se valeu, valeu demais. Não conseguia tirar o sorriso de meu rosto, como um estalo, minha mente mandou uma lembrança. Helena me fazendo prometer que só sairiamos quando estivesse completamente recuperado. Meu sorriso se alargou ao ponto que minhas bochechas doíam.
— Parabéns Bernardo, e nunca mais quero te ver aqui. – Sem querer ofender Doutora, eu também não quero mais entrar nesse consultório.
Nós dois rimos e eu a abracei, não conseguia expressar em palavras a gratidão que eu tinha por essa mulher.
Logo que saí do escritório, meu celular já estava em minha mão. Eu e Helena não perdemos o contato nesses dois meses de minha recuperação, ficamos mais próximos. Conversávamos por mensagem todos os dias, ela me acompanhou em algumas sessões de fisioterapia. Helena me contou sobre seu chefe que abusava da autoridade que tinha e como ela tinha medo de ser expulsa da corporação por alguém conhecido vê-la ali, como eu queria ela perto de mim, queria sentir aquela energia, aquele choque que me fazia querer ela sempre mais próximo, sempre zelei por sua privacidade, nenhum dos profissionais da clínica ou do consultório conhecia ela.
Helena atendeu no segundo toque.
— QUE RUFEM OS TAMBORES! — Ela gritou e fez barulhos que deduzi ser os tais tambores. Eu ri, entrei na brincadeira e fiz barulhos também por uns segundos até parar, ela parou junto comigo.
— Estou liberado, de tudo. — Anunciei orgulhoso.
— Meus parabéns Bernardo! — Ela quase gritou novamente, pude sentir a felicidade em sua voz e, apesar de ser uma conquista minha, a felicidade de Helena também importava. Meu coração acelerou de ansiedade com o que estava a perguntar, a minha parte da promessa estava realizada, agora só faltava a dela.
— Você tá trabalhando hoje? — Perguntei, controlando a minha voz.
— Estava, acabei de chegar em casa. — Meu coração estava para sair pela boca, batia tantas vezes por segundo que se eu ficasse mais um milímetro ansioso, eu teria um infarto.
– Conheço um restaurante muito bom no centro. Você quer ir ás 8? — O infarto estava perto, ouvi o silêncio do outro lado da linha. Me sentei em um banco para me acalmar, não acredito que essa mulher estava fazendo isso comigo. — Eu cumpri a minha parte da promessa. — Soltei esperançoso, com a voz embolada, e o coração quase saindo voando pelo meu peito.
— Bernardo…- a voz dela ficou baixa, receosa, eu sabia porquê. Helena tinha medo de perder a carreira que ela tanto sonhara, era seu trabalho dos sonhos desde a escola, apesar de querer nosso encontro, eu entendia seu medo.
— É só um jantar. — Falei com charme em minha voz, nem que eu fosse com quentinhas na casa dela, nós iríamos ter esse jantar.
Eu não iria desistir dessa mulher.
Helena respirou fundo, tão fundo que eu ouvi claramente no telefone e falou.
— Tudo bem, você me pega as 8.
—--------
Helena
— Esse vestido não tá colado demais não? — Estava parada em frente ao espelho, puxando tecidos aqui é ali.
— Está, essa é a intenção, e para de mexer assim. — Nathália deu um leve tapa na minha mão, recuei e olhei para ela com deboche.
Não tinha como eu não contar do jantar, ela estava junto comigo em todo processo, me convencendo a ir na fisioterapia com ele, mandando enviar mensagens para ele. Até parecia que Nathália queria que nós ficassemos juntos. Pensar na possibilidade fez nascer um sorriso em meus lábios.
— Quem, quem não vai dormir em casa hoje? — Nathália cantarolou dançando na minha cama, peguei um travesseiro e joguei nela com força. Ela caiu rindo.
— Helena, assuma, você gosta desse cara.
— Eu gosto, mas eu não posso gostar dele. Você sabe muito bem porque. — Resmunguei.
— Eu sei, sei sim. — Nathália cantarolou. — Mas um cara que faz questão que ninguém te conheça em uma clínica de reabilitação só pra ter a sua companhia na sessão dele é pra segurar e não largar nunca mais. — Nathália abraçou o travesseiro que eu joguei nela e começou a beijá-lo rolando na cama. Eu não me aguentei e gargalhei.
— Vou ter que lavar os lençóis amanhã. — Nathália parou de beijar o travesseiro e me mostrou a língua.
— Mas sério, só curta a noite, converse com ele e se rola. Rolou. — Ela mexeu os ombros na última palavra, eu ri sem graça.
A campainha tocou. Minha expressão de relaxada e risos mudou em um estalo de dedos para rigidez e ansiedade.
— Já vai! — Nathália gritou se levantando da cama. — Eu vou atender, você retoque esse batom vermelho e trate de sair dessa porta com muita segurança de si. — Nathália bateu na minha bunda e saiu.
Voltei para a minha imagem no espelho, Nathália tinha feito a maquiagem, escolhido o vestido e os sapatos. Eu sempre fui vaidosa, mas quando o assunto é sair com homens, ela que entende sobre o que vestir, o jogo da sedução. Enquanto eu era uma pata desengonçada.
— Segurança Helena, segurança. — Falei para a minha imagem no espelho retocando o batom, sua cor era de um vermelho vivo que realçava meus lábios, os deixando mais carnudos que o normal, os olhos estão menos chamativos, mas a mistura de sombras que Nathália escolheu fazia com que ficassem mais claros.
— Segurança. — Repeti mais uma vez respirando fundo.
Meu subconsciente se intrometeu “Leve tudo com uma brincadeira.” Olhei mais uma vez para o espelho, eu estava linda. Então a brincadeira da noite era fazer ele me achar linda também.
Abri a porta do meu quarto.
Bernardo
— Então você e a Helena são amigas desde…- Nathália me interrompeu
— Faculdade — Ela respondeu sorrindo.
Não pensei que seria recebido por outra pessoa, principalmente Nathália, se tivesse trago as quentinhas, será que Nathália também estaria aqui? Eu espero que não.
Desde da saída do hospital descobri que as duas eram melhores amigas, Nathália foi quem chamou Helena para conversar comigo e eu não podia ser mais agradecido. Um barulho de porta abrindo me fez parar de pensar e olhar.
Meu Deus, ela estava absolutamente linda.
Um vestido preto que marcava todas as curvas de seu corpo, duas faixas de tecido se encontravam, rodeavam seu ombro e ia para as costas, naquela maquiagem eu só conseguia perceber a sua boca e o desejo que eu sentia de beijá-la, beijá-la até não sobrar mais nada de batom, até o batom dela estar na minha boca. De salto alto, ela parecia desfilar em minha direção. Ela riu e eu não entendi o porquê.
Só entendi que era por causa de minha boca aberta quando Nathália me cutucou. Pigarriei tentando achar minha voz.
— Vamos?
— Vamos. — Ela disse com confiança e eu gostei. Seu meio sorriso só me fazia admirá-la ainda mais.
Será que eu estava me apaixonando?
—------
— Que lugar lindo. — Helena sussurrou olhando todo o restaurante. Parecia uma grande casa do nordeste do país, com paredes, chão e telhado de madeira, a iluminação era feita por pequenas lâmpadas presas em lamparinas no teto. Havia uma banda cantando músicas de toda região em uma pequena pista de dança onde só havia casais da terceira idade.
— Me lembra da minha cidade natal. — Falei sem pensar, Helena se assustou.
— Você não é daqui? — Balancei a cabeça em negação. Se queria algo com ela, teria que me abrir mais, mas ela não perguntou minha cidade, ou porque sai, ela só olhou pro teto pensativa e acariciou minha mão que estava entrelaçada com a dela.
— Obrigada por compartilhar comigo. — Ela sorriu, um sorriso sincero. Meu coração quase pulou em felicidade. Droga, estou me apaixonando por ela.
Quando chegamos a nossa mesa, o garçom já estava a espera. Helena deu boa noite para ele e vi o garçom puxando a cadeira para ela sentar, estava quase me sentando quando dei um pulo e arranquei as mãos do garçom da cadeira. Helena prendeu o riso.
— Deixa comigo, valeu chefe. — Olhei para Helena, que ainda estava sorrindo.
— Senhorita.
— Obrigada. — Ela sentou na cadeira e eu empurrei levemente. Sentei em minha cadeira e o garçom voltou com o cardápio. Helena deu uma olhada rápida e disse.
— O que você sugere? — Estava esperando a resposta do garçom, quando percebi que ela estava me olhando esperando a resposta.
— Eu? — Perguntei confuso.
— Claro, é sua cidade natal. Me fale seu prato favorito ou algo do tipo. — Ela já tinha fechado o cardápio e olhava para mim com interesse, ela havia levado em consideração que eu estava em um território conhecido. Sorri envergonhado e pedi nossos pratos.
— Você vai adorar. — Falei quando o garçom saia da mesa.
Começamos a conversa sobre o dia que nos conhecemos, ela já havia me contado sua parte da história e achava incrível o fato de logo após eu ter orado ela ter aparecido, era algo que fazia seus olhos brilharem. Nossas bebidas chegaram e ela começou a me perguntar sobre meu trabalho, o que eu fazia, tudo.
— Sou Sargento do grupo especial de operações.
— Eita. — Helena soltou parecendo uma criança ouvindo uma história de terror e eu ri.
Quando nossa comida chegou, o álcool do vinho já tinha me deixado mais relaxado, mais sorridente e mais desinibido. Olhava mais para Helena e acho que o vinho teve esse efeito nela também, porque ela não desviava de meus olhares. Começamos a comer, Helena colocou a primeira garfada do prato na boca e deu pequenos pulinhos na cadeira.
— Isso é muito BOM. — Ela falou com intensidade o bom na frase e colocou outra garfada na boca, eu ri satisfeito com a escolha, era realmente meu prato preferido e o fato dela ter gostado desse jeito me fazia querer casar com ela.
Do meio pro final do prato Helena começou a analisar a pista de dança, acompanhando os passos de todos que dançavam, agora não tinha mais só idosos, mas gente de todo tipo, de crianças a adultos. Ela terminou de comer primeiro e quase se esqueceu de mim olhando para a pista de dança, apressei as garfadas e quando terminei de engolir a última.
— Me ensina a dançar? — Ela quase não falou claramente de tanta empolgação, sorriu tentando me seduzir.
Passei o guardanapo na boca lentamente , criando um suspense, para ver qual seria a reação dela. Ela percebeu que eu não iria responder rápido e levantou, veio até mim dançando, balançando os ombros desengonçada com a mão estendida pra mim, eu soltei o guardanapo e ri, nem que eu não soubesse dançar, eu não iria resistir a esse sorriso.
Helena estava quase correndo para pista de dança me deixando para trás, me pergunto se isso foi o vinho ou sua naturalidade. Não sei, eu só sei que gosto. Quando chegamos na pista ela parou na minha frente com os braços colado no corpo e ficou me olhando. Pigarriei.
— Bom, não tem jeito melhor de eu te ensinar te mostrando. Primeiro, coloca a mão esquerda no meu ombro. — Acompanhei sua mão indo ao meu ombro com os olhos, ao sentir sua mão em meu corpo, foi a primeira vez na noite que eu senti.
A corrente veio do meus pés e subiu até a minha cabeça, correu por todo o meu corpo. Ela queria me dominar, me fazia desejar Helena de corpo inteiro, me fazia querer sentir seu corpo em mim. Helena pareceu sentir também, pois quando voltei a olhá-la, seu olhar estava diferente, mais calmo, mais lento, diretamente a mim. Tentei falar o mais devagar possível.
— Eu vou colocar a minha na sua cintura. — Minha mão tocou seu corpo e o meu quase explodiu em um curto circuito de emoções. Helena pigarreou e se apressou.
— Acho que a direita ficam juntas. — Sua voz saiu embolada, frágil.
Assenti e peguei sua mão direita, tive que me esforçar para começar a dançar e não pegar Helena e sair dali.
Comecei com passos pequenos, dois pra lá, dois pra cá. Ela olhava para os meus pés tentando acompanhar, ignorava a corrente entre nós e focava nela.
— Acho que to conseguindo. — Ela falou feliz, uma felicidade inocente de quem estava aprendendo algo novo, sorri orgulhoso e continuamos a dançar.
Nossos olhos se encontraram durante a dança, tentei ousar alguns passos extras para assustá-la, mas ela acompanhou, rodou na duas direções que a conduzi e depois tocamos os quadris. Nossos rostos quase colaram, eu pude senti sua respiração ofegante perto de mim. Voltamos a ficar frente a frente e então tudo ao nosso redor pareceu ficar em câmera lenta, a música da banda não era nada além de uma sinfonia ao fundo, apesar de nós dançarmos no ritmo da música, a corrente elétrica? Acho que estava ao nosso redor fazendo um campo de força onde só nós dois importava.
Ela me olhava nos olhos com ternura e uma felicidade, ela os fechou e trouxe seu corpo mais perto de mim, me fazendo quase pular de alegria. Nossos rosto estavam colados testa com testa, e eu queria mais, queria nossas peles coladas, queria sentí-la mais, queria de toda para mim.
Helena estava de olho fechado curtindo a música, fechei os olhos também e tentar curtir como ela estava, ela começou a roçar sua testa na minha, delicada, como se estivesse fazendo carinho em mim, nossos narizes roçaram, meu olho ficou colado no dela e eu entendi aquilo como uma deixa, levei meus lábios até o dela.
Ela desviou sutilmente e começou a rir, ela só podia estar de brincadeira comigo, ela vai me deixar louco roçando o rosto dela no meu daquele jeito. Deixei alguns segundos se passarem e tentei de novo e seus lábios foi de encontro aos meus.
O curto circuito aconteceu e dentro de mim parecia ter fogos de artifício, não sei explicar como, mas nós ainda estávamos dançando enquanto nossos lábios tocavam, mas eu queria mais, eu queria cada parte do corpo dela pra mim. Parei de dançar, com a mão que estava em sua cintura eu a trouxe para mais perto de mim, quase a esmagando em meu corpo. Ela também parou de dançar, nossas línguas brincavam juntas com o ritmo da música, como as crianças na pista de dança, seu hálito era quente por causa do vinho com um leve gosto de morango que eu não conseguir explicar de onde veio. Suas mãos estavam no meu pescoço, suas unhas cravadas em mim, mas eu não me importava, eu queria nossos corpos juntos o mais fisicamente possível.
Helena começou a parar o movimento com sua língua, meu coração reclamou e meu corpo, como um viciado, pedia por mais, entrelacei ela para mais perto e ela recuou, soltando seus lábios dos meus.
— Isso são palmas? — Ela perguntou ofegante, quase não conseguindo falar. Meus ouvidos voltaram para o nosso redor pela primeira vez, sim, o barulho era de palmas. Várias palmas.
Abrimos os olhos sincronizados e olhamos ao nosso redor, o campo de força parecia ter sumido e no lugar estava um grupo de mais ou menos 30 pessoas batendo palma para mim e para Helena.
— Viva o amor!
— Sejam felizes para sempre!
— Saiam daqui pelo amor de Deus! — Não sei de onde veio o último grito, mas concordei. Nós precisávamos sair daqui.
Olhei para a Helena, nossas mãos da dança continuavam entrelaçadas, ela gargalhava, incrédula com o ocorrido, eu só queria saber de pagar a conta o mais rápido possível.
Fale com o autor