No meio de tudo
3 Capítulo 2
Por ele
Finalmente chegamos a ambulância, Helena veio conversando comigo o caminho todo para eu não desmaiar. Perguntou coisas básicas sobre mim, tentei responder todas sem compartilhar muito da minha vida, só para ela saber que estava acordado, para ser sincero, eu focava naquele sorriso em cada pergunta.
Empurraram a maca em que estava até ouvirem o “clic”, indicando que estou preso. Conseguir relaxar, iria ficar bem, não iria ficar naquele inferno até que alguém me achasse morto. Meu escapulário — presente de minha mãe — pesou em meu peito, agradeci mais uma vez por Helena ter me achado.
Olhei para ela, agora de máscara, seu lindo sorriso estava escondido. Ela estava concentrada, tinha tirado os curativos que fez na pressa e analisava meu ferimento, enquanto conversava com seus colegas de equipe. A outra mulher — que podia ser Bárbara — me furava com a agulha para começar os medicamentos.
— Merda. — Helena soltou, fiquei rígido. O que poderia ter acontecido? Será que eu não iria viver? Ela olhou pra mim, abaixou a máscara até seu queixo e chegou mais perto.
Seus olhos eram cor de mel, a preocupação estava clara neles. Na polícia você aprende a analisar as pessoas para interrogatórios, já sabia que Helena era o tipo de pessoa que não sabia esconder o que sentia. O que é bom e ruim, bom porque sei o que está acontecendo e ruim, porque eu sei o que está acontecendo. Ela entrelaçou minha mão na dela e apertou.
— Bernardo, a situação tá pior do que eu pensei. Não significa que você vai morrer, mas eu preciso tirar essa bala, e pra fazer isso, eu preciso te apagar.
Recebi a informação assustado. Como assim me apagar? Ela me mantém acordado esse tempo todo para depois me apagar? Não, não deixo. Comecei a rir, talvez de nervoso, talvez de desespero ou os dois juntos.
— Não, você não vai me apagar. — Percebi que ela já falava nomes de remédios para Bárbara. — Helena! — Gritei, ela se assustou, mas manteve a firmeza. — Você. Não. Vai. Me. Apagar.
Ela soltou a respiração, olhou nos meus olhos e chegou perto de mim. Seus olhos estavam calmos e eu entendi que algo estava errado quando ela arrumou meu cabelo como forma de carinho.
— Desculpa. — Minha cabeça pesou, encostei na maca. Tentava brigar com ela, mas o resto de forças que eu tinha estava escapando de mim, rindo da minha cara. Apagado, me sentia vulnerável. Meus olhos foram fechando sem a minha permissão e a escuridão me acolheu.
Por ela
— Por favor não me processe. — Sussurrei enquanto soltava a mão dele. Não porque tinha feito isso, eu sempre fui cuidadosa com meus pacientes, mas Bernardo estava me fazendo ter uma atenção especial com ele.
— Valeu Bárbara. — Falei aliviada, não saberia o que fazer se Bernardo ficasse violento. Não por achar que ele podia me machucar, mas sim por achar que a ferida dele pudesse piorar.– Esses homens não resistem ao seu charme. — Bárbara falou zombando enquanto pegava a bolsa de instrumentos e botava na maca. — Mas, por um momento pensei que você não iria resistir ao charme dele, ele é um gato.
Ri sem graça, olhei para Bernardo anestesiado. Seu cabelo loiro sujo cortado no modelo militar, seu rosto másculo e seus olhos verdes mexeram comigo, porém, eu tinha que manter o profissionalismo e nunca iria assumir. Pigarreei e disse.
— Cadê o bisturi?
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— Homem, jovem, baleado no tórax do lado direito, consciente, orientado, possível hemorragia interna, mas consegui estancar e a bala consegui tirar. — Levantei a mão até o rosto balançando o frasco com a bala dentro para os funcionários que estavam ao redor de Bernardo. Não entendia de armas, mas aquela com certeza era de uma arma grande. – Doutora Helena, sempre salvando a gente da parte mais legal. — Doutora Nathália falou ironicamente. Nathalia era a médica de plantão e nas horas vagas minha melhor amiga. – Você vai ter muita diversão por aqui. — Falei rindo, entreguei o frasco para Nathália e voltei minha atenção para Bernardo. — Eu anestesiei ele contra a vontade dele, talvez ele acorde não muito bem humorado. — Sussurrei. – Puta merda Helena, quando você fala em diversão é isso? vou ter que acalmar um “polícia” zangado? — Nathália gritou, não sabia o que dizer.
Quando você é um médico em uma cidade que está em crise, o médico é o primeiro vulnerável. Todos acham que podem mandar nele, mesmo ele seguindo todas as regras. Sabia que tinha que anestesia-lo, ele poderia morrer se não fizesse. Contudo, sabia que poderia entrar em encrenca com o chefe da emergência, suspirei nervosa, meu chefe não é uma flor que se cheire, seu ego não caberia nesse hospital, ao pensar na possibilidade de ser chamada para prestar depoimento com ele.
— Se ele quiser brigar, me liga. — Falei rapidamente. — Eu explico.
Nathália assentiu ainda com raiva, mas vi a preocupação dela com a situação.
Quando você lida com pessoas, elas acham que podem mandar em você,
Ronaldo, o motorista da ambulância, gritou.
— “Doc”! Já temos trabalho!
Helena acordou de seus pensamentos, olhou para a amiga que mandou um beijo para ela, ela retribuiu e saiu correndo. Só conseguiu ouvir o grito de Nathália.
— Vê se não morre!
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