No me Ames
1 Oneshot
No me Ames
Meu olhar se encontrava com o dele assim como os olhares de todos ali presentes. Seu talento em atuação era magnifico e fascinante. Eu odiava teatro, mas por ele eu ia até a um concerto de ópera, seu sorriso era tão envolvente, nas fotos tiradas sem consentimento brilhante ele ficava. Ah como ele era perfeito. Seu nome, Thales Cooper, dançarino, ator e roteirista, como ele era cheio de artimanhas e talentos, seu robe? Comer jujubas antes de entrar em ação. –Um dia você vai morrer de diabetes. –Assim ironizei em uma noite chuvosa de verão, era a sua trigésima apresentação do mês e ele nem ao menos estava cansando. Sua felicidade me contagiava, eu, Benjamim Valter, um filhinho da mamãe que era sustentado pelos pais, assim dito por ele quando eu o chamava para sair.
O Sr. Cooper era mais velho que eu uns dez anos a mais, eu com vinte seis e ele já com seus trinta e seis, ele se nomeava meu tio e que eu era o tesouro dele, algo que Deus assim dito, lhe deu de presente naquela noite de sexta feira da qual ele encheu a cara após saber que o diagnóstico do mês deu positivo. Saber que a partir daquele dia ele seria um paciente terminal, o fez se odiar e ficar depressivo e depois de muito sofrimento ele me adotou como seu motivo de viver. Isso me fez sentir-me realizado, a herança do meu pai não poderia comprar o sentimento que havia entre nós dois, eu o amava e ele a mim e isso era o que importava.
–Benjamim, passe-me aquele pó.
–Sim, Sr. Cooper.
–Faz três anos que eu lhe peço para me chamar de Thales.
Fazia três anos que eu o conhecia e a nossa rotina sempre era a mesma, porém antes, não foi tão fácil.
Em uma noite de calor eu tinha acabado de brigar com meu pai, pois ele queria me levar para a França para estuda artes lá, não conceituei tal absurda opção. Pensei em trancar minha faculdade e usei meu cargo de primogênito como chantagem emocional. Fugi de casa, porém antes ouvi as desculpas de meu pai, mas como um jovem revoltado a ignorei totalmente e com a cabeça quente sai sem destino e quando eu me dei conta estava na frente do bar onde eu conheci o Sr. Cooper.
Entrei no bar e pedi um whisky duplo, ao meu lado ele estava eu nem reparei tamanha depressão e a aura negativa que o cercava. O garçom serviu meu Whisky e me encarou fazendo a seguinte pergunta:
–Vai ter dinheiro para paga, meu jovem?
Peguei aquele copo e joguei todo o liquido na cara do garçom que logo se enfureceu e me pegou pela gola da blusa dando-me um soco. Aquele depressivo homem que estava ao meu lado não moveu um nervo sequer, apanhei que nem um condenado. –não paguei o whisky.
Saí do bar com o nariz quebrado e cuspindo sangue lamentando o quão covarde fui ao não revidar aquela agressão em meu corpo. Sentei na calçada tirando a minha blusa para estancar o sangue que não parava de escorrer de meu nariz. Fiquei naquela situação por alguns minutos até que, ele surgiu diante de mim se ajoelhando no chão empoeirado dando-me um lenço de papel.
–Tome, chega de drama por hoje.
–Quem é você? –Perguntei ignorando o lenço oferecido.
–Chamo-me Thales Cooper, não gosto de ver crianças como você chorando pelas calçadas por motivos fúteis. –Foi sua resposta.
–Criança? Você não me conhece, e... E eu não estava chorando.
Meus olhos não derramaram lagrimas, mas meu coração chorava pelo fato daquele dia ter sido o pior da minha vida e em questão de minutos ele se tornou o primeiro dia do resto dela.
–Aquele garçom não mereceu receber tal ignorância sua. Ele só estava fazendo o trabalho dele.
–E é o seu trabalho se intrometer nos assuntos alheios?
–Não... Não costumo a oferecer ajuda a vagabundos que nem você. Então, tenha uma boa noite. –Se despediu levantando-se.
Eu não pude deixa-lo ir e segurei em sua mão pegando o lenço que ele tinha me oferecido anteriormente, logo vi um meigo sorriso se formar em seu rosto, disse meu nome a ele e seguimos sem rumo naquelas ruas de sereno constante conversando sobre algo da atualidade, deixando a tensão formada pela rixa, inexistente. Ele me levou para seu camarim no teatro central, era um quarto pequeno, porém tudo era bem posto em seus lugares, os livros do armário eram organizados em ordem alfabética, e seu gosto literário era rico. Eu fiquei a flertar cada centímetro daquele cômodo, suas roupas estavam dobradas encima da cama. –Você mora aqui? –Perguntei-o.
–Sim e não. –Respondeu.
Continuei a indaga-lo sobre tudo em sua vida ele me respondia com sinceras respostas.
Parecia que a discussão com meus pais nem tinha existido.
Notei um envelope, ele aparentava ser algo novo minha curiosidade fez-me pega-lo e quando o Sr. Cooper percebeu logo o tomou de minhas mãos, assustado fiquei e o perguntei o que era aquilo, ele me respondeu com um silêncio acompanhado da mesma expressão que eu vi em sua face naquele bar. Enquanto ele apertava aquele envelope em seu peito eu percebi o logotipo de um clinica particular da qual meu pai sempre me levava.
–De quem é esse enxame? –Pergunte-o.
–São meus... –Respondeu pondo aquele envelope na parte superior de um armário.
–São exames de rotina? –Indaguei e ele me respondeu balançando a cabeça positivamente.
O silencio tomou conta daquele quarto e eu sabia que era algo grave, continuei a pergunta-lo sobre o enxame e suas respostas eram frias e incompletas dando assim a certeza da gravidade daquele resultado. Mudei de assunto e ele me convidou para tomar um chá. Sua briaguês era visível, porém ele estava sóbrio a ponto de conversar sem demandas desnecessárias.
E então a partir daquele dia, nós dois nunca mais nos separamos, e o resultado daquele envelope fiquei sem saber qual era durante dois anos até a data de seu aniversário.
Comprei um presente e quis escondê-lo em algum lugar que ele encontraria fácil e vasculhando seu armário revi aquele mesmo envelope, porém com a data atual, olhei para trás não vi sinal de ninguém vindo e pus a abri-lo, hesitei em ler as citações iniciais e fui logo para a barrinha de resultado –“A doença se espalhou”. Ao ler tal resultado quase surtei e amacei aquele papel pressionando-o em minha testa. –ele surgiu no quarto e me encontrou em prantos.
–Até quando você ia esconder isso de mim? –Indaguei jogando o papel amaçado em seu peito.
–Quem mandou você mexer nas minhas coisas?
–Não fuja do assunto seu idiota.
Eu fiquei eufórico e andando pra lá e pra cá, o Sr. Cooper tentava me acalmar, e minha garganta doía com o peso das palavras que eu tanto quis dizer quando percebi que eu estava o amando.
–Por que você está com raiva?
–N-Não é raiva.
–Então o que é? Por que você está tão abalado? O quão importante eu sou para ti?
–Cale essa sua boca, pare de fazer tais perguntas.
Ele fez a ultima coisa que eu pensava que fosse acontecer naquele momento.
Senti suas mãos macias em meu queixo levantando meu rosto cabisbaixo pude encarar aqueles olhos azuis que estavam avermelhados, eu não tinha percebido, mas ele também estava chorando.
–Eu preciso saber Benjamim.
Aproximou seu rosto ao meu e pude sentir minhas bochechas queimarem, eu não era gay, mas por ele meu sangue fervia.
–Sr. Cooper, eu... Não consigo seguir sozinho, por favor, não morra. Não antes de o que está dentro de mim se concretizar ao bem maior.
–Você diz sentimentos?
–Não, eu digo, o amor.
Ele se afastou de mim e com a voz tremula ele enfiou uma estaca em meu peito em forma de palavras.
–Não me ame, Benjamim. Por favor, saia de meu quarto e volte para a sua casa.
–Quê? Como assim? Não seja imaturo, não quero deixa-lo agora.
–E o que você quer que eu faça? Alimentar esse sentimento que você tem por mim e ficar por isso mesmo? E quando eu partir? Como vai ser? Sinto muito Benjamim, não quero deixa a dor como herança pra você.
Ele indagava de costas. Saí daquele quarto sem olhar para seu rosto. Meu coração em pedaços bambeava as minhas pernas e eu só pensava em voltar a aquele bar e por milagre vê-lo novamente em seu tão melancólico silencio. Porém... Passei dois meses sem vê-lo, uma ligação naquela manhã de domingo me acordava, o choque ao saber que ele teve uma recaída me fez chorar e em prantos sai em busca dele, cheguei a seu camarim no teatro central e por azar ele não estava lá, estava tudo vazio, sem nada dele, perguntei ao dono do local sobre o paradeiro daquele homem. Ninguém sabia. O desespero tomou conta do meu eu, bati no hospital onde me ligaram dizendo que eles tinham achado o meu numero na carteira do paciente, ele tinha sido transferido, corri para o endereço que eles me deram, chegando lá eles disseram que o tinha dado alta. Implorei para eles darem o endereço da nova casa do Sr. Cooper e com suborno consegui tal informação.
Em meu carro andei até o outro lado da cidade, parei em frente ao numero manuscrito no papel, uma casa simples cheia de flores e mato. A única esperança que eu tinha era de encontra-lo lá. Saí de meu carro e caminhei até a porta daquela casa, a maçaneta estava aberta e eu a abri.
Meus olhos logo se encheram de lagrimas ao perceber que a organização daquele quartinho nos fundo de um teatro, era a mesma daquela casa. Segui em busca dele, procurei em todos cômodos até que, quando chegue a um certo quarto, lá estava ele e logo notou a minha presença.
Chorei me aproximando dele.
–Diga-me por que choras? –Indagou.
–De felicidade. –Respondi.
–E porque se afoga em tuas lágrimas?
–Na solidão eu não podia viver mais, Sr. Cooper.
Sentei-me ao lado dele na cama, seus olhos inchados e sua pele pálida me fez tremer e em sua mão segurei o abraçando.
–Diga-me, para quê segura tão forte a minha mão? Posso senti-lo em leves toques.
–Meus sentimentos, por favor, os considerem. Peço-lhe que me aceite.
–Teus sentimentos vão te levando a um poço fundo e escuro, não me peça tal coisa. Por favor.
Seu corpo estava mais magro, vê-lo naquele estado era cruel e em seu rosto eu toquei delicadamente.
–Eu te quero tanto.
–E porque será?
Suas duvidas me torturava mais que a sua recusa, o deitei na cama e uma lagrima escorrera em seu rosto.
–Louco, teimoso, não duvide mais! Recusar-me só irá machucar nós dois, Apesar de que no futuro vai ter um obstáculo imenso, eu não tenho medo. Quero me apaixonar por ti.
Debrucei-me sobre ele na cama e o beijei, ele não hesitou fiquei mais calmo, porém ele continuava a chorar, Sr. Cooper ainda não estava seguro quanto aos meus sentimentos por ele. Eu precisava do amor dele, eu precisava ser aceito pela única pessoa que fazia feliz.
–Benjamim, não me ame, pois pensas que sou diferente, o meu caso é terminal.
–Você pensa que não é justo passar os nossos tempos juntos, esse tempo que Deus nos deu, por favor, não o perca.
–Não tem como eu aceitar essa situação, pois entendo a mentira que seria.
–Se teu amor eu não mereço, então não me ame, mas me queira como teu, neste único dia!
Exclamei despindo-me. –Transamos. E por melancolia nossos afagos ecoavam naquele quarto.
Depois daquele dia, ele passou a me aceitar. E em sua trigésima apresentação eu o aplaudia mais forte que todos alí presente. Voltamos a nos encontrar em seu camarim no teatro central. Sua doença avançava ainda mais, porém, junto a ela nosso amor crescia mais e mais.
O Sr. Cooper não me negava, porém ainda continuava a temer a minha dor pela sua partida.
Duas semanas depois formos convidados a um baile pelo dono do teatro. Ele recusou o convite, estava sem ânimo para tal festança, porém depois de convencê-lo, lá estávamos nós com as nossas roupas elegantes em meio a pessoas ricas e orgulhosas, acabei por entender o porquê do Sr. Cooper ter recusado o convite.
–Benjamim, você pode está acostumado a esse ambiente luxuoso, mas eu sou mais reservado, por favor, vamos embora assim que eu chegar ao meu limite, certo?
–Sim, querido.
Eu também não estava suportando aquele clima opressor e logo pensei em sair dali, porém o Sr. Felix, gerente do teatro nos avistou de longe, e em rápidos passos se aproximou de nós dois e apresentou sua bela esposa, nos agradeceu por termos comparecido ao seu tão luxuoso baile e ficou a falar coisas desinteressantes e uma delas era sobre o filho do dono do teatro, ele falava que ele era um rebelde e que não respeitava os pais.
–Ah, mas isso é normal, os jovens de hoje em dia são todos assim. –Falou em um doce sorriso.
–Sim. Oh, falando nele, o rei aparece. Sr. Valter...
Quase que meu coração parou ao ouvi-lo dizer tal nome. Meu pai era o dono daquele teatro e eu nem ao menos sabia.
–Benjamim? O que você está fazendo aqui? –Perguntou-me já enfurecido.
–Não é da sua conta! –Exclamei.
–Quem é esse que está com você?
Olhei para o lado e vi o Sr. Cooper sereno, e seu olhar negativo para mim me fez temer e em silencio ele se retirou daquele baile sem se despedir de mim.
–Diga-me Benjamim... –Segurou-me pelo braço. –Quem era aquele homem?
–Nossa, que saia justa. –Alegou o Felix se retirando com a sua esposa, deixando-me sozinho com o meu pai.
A única coisa que me tomava era o fato d’eu ter magoado o Sr. Cooper, mesmo sem ter culpa.
–É com vagabundo que você anda saindo? –Indagou enfurecido.
–Solte-me! Ele não é um vagabundo. –Retirei o meu braço da forte pressão de sua mão.
–Então o que você estava fazendo com ele?
–Ele... Ele é meu namorado, pai!
Exclamei saindo daquele lugar, corri na esperança de ainda encontrá-lo nas ruas, mas elas estavam vazias, tentei ligar para o numero dele, mas ninguém atendia. Entrei em desespero novamente, e o medo de perdê-lo tomava conta de meus pensamentos, eu não podia pensar em tal coisa, não antes de esclarecer para ele que eu não sabia que meu pai era dono daquele teatro.
Contudo, aluguei um quartinho e dei um tempo para ele pensar e respirar, mas a saudade me massacrava eu tinha que vê-lo novamente, aquelas duas semanas já tinham sido suficiente para ele pensar. Fui para a casa dele e como sempre a porta estava aberta, o encontrei no mesmo lugar em seu quarto. Ele notou a minha chegada.
–O que você veio fazer aqui? O que você quer? Você acha que é um herói que pode mudar o mundo? Que pode mudar o meu mundo pelo simples existir de um sentimento mentiroso?
Permaneci em silencio e me aproximei dele sentado naquela cama. Ele se afastou um pouco virando sua cabeça para o outro lado.
–Eu juro que eu não sabia que o dono do teatro era o meu pai, por favor, acredite em mim.
–Estou perdido, você me confunde, você me entristece da mesma forma que me traz alegria. Por que isso está acontecendo logo comigo, Benjamim?
–Porque é o destino, porque não podemos ficar separados, somos um espelho. E você assim, seria meu reflexo.
–Não me ame tanto assim, para morrer numa guerra cheia de arrependimentos.
–Arrepender-me de te amar? Eu enfrentaria qualquer guerra por ti, meu Thales.
Ao me ouvir chama-lo pelo primeiro nome logo me encarou e com lagrimas nos olhos na minha mão ele segurou.
–Não sei o que decidir, essa que é a verdade. Se a gente se unir, eles saberão nos separar.
– Você e eu partiremos para longe daqui, eu sei que você não vai aceita, de qualquer forma eu irei fugir, não quero viver mais aqui, porém, nessa fuga não me deixe sozinho, por favor.
Implorei abraçando-o logo sinto seus braços me apertarem.
–Não me deixe, não me deixe, não me escute se te digo: não me ame. –Alegou ao cair em pranto abraçado a mim.
–Nunca mais desarme meu coração com esse "não me ame".
–Porém, quando chegar a hora, por favor, não me ame, te suplico, não ame um fantasma. –Implorou ao me desabraçar em pranto.
–Tu sabes bem que não posso, que é inútil, que sempre te amarei.
–Te farei sofrer quando meu coração para de bater.
–Thales, eu quero que você entenda que eu quero teu amor, mas não quero apenas para assim esquecer de seus dias ruins, quero que me ame só por me amar. Quero que seja meu namorado, amante, amigo, eu quero que você viva por nós, quero passar esses dias acordando com você ao meu lado, meu coração cansou de sofrer pela sua insegurança.
Ele me abraçou novamente e eu pude sentir seus lábios junto aos meus. Ficamos bem e conseguimos fugir.
Xx
Passamos um ano juntos, noivamos e casamos. Adotamos uma criança e ela foi feliz conosco. Porém... No dia vinte nove naquele mês de outono ele partiu deixando como herança para mim, a felicidade de viver sendo amado. Seu sorriso em meus devaneios me fazia feliz mesmo seu corpo não estando ali comigo, seu calor seus beijos eram impossíveis, porém seu amor, aquele amor que ele tanto recusou e que eu tanto sofri pra ter, permanecia em meu coração fazendo-me seguir em frente sem lamentar a sua partida precoce. Um ano depois fui morar na França, estudei artes e passei a frequentar peças teatrais, conheci amigos novos passei a ser mais social, eu estava vivendo por ele. E dois anos depois em meados de uma peça conheci uma jovem francesa, passei a sair com ela e sua simpatia acabou me cativando, depois de três meses de amizade ela se declarou pra mim, resolvi corresponde-la, pois meu amor só ele tinha e a única coisa que eu poderia oferecer a ela era o meu respeito e carinho. Alguns meses se passaram e por pressão de meus pais me casei, nove meses depois ela me deu um filho, o nome dele?
Thales Benjamim Cooper.
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