No fim do túnel
17 Dez e sete
Notas iniciais
O assoalho frio irradiava a tristeza que eu não queria reconhecer ser minha. O silêncio ensurdecedor parecia querer me engolir conforme o excruciar dos meus pensamentos me provocavam.
Eu me perguntava onde estava ele. Desaparecera, como que de costume, mas já fazia algum tempo que não vinha me atormentar novamente. Não que estivesse pedindo para que voltasse — longe de mim! —, mas desconfiava do silêncio.
Puxei a fotografia que pousava em minha mesa de cabeceira, ao lado do meio maço de cigarros que comprei depois que aqueles que eu deixei guardados por meses acabaram.
Um dos seus cantos era incinerado, pretificado pelo fogo logo antes de ser salva, e a borda estava carcomida pelas traças. Nela, em cores fantasmagóricas das fotos antigas, a mãe sorria como nunca a vi fazer em vida.
No verso da fotografia, na miúda letra redondinha que ela possuía — lembrança do verão de 72, Arraial do Cabo.
Mas tudo naquela fotografia era mentira. Pura aparência.
O sorriso era falso.
O verão era falso.
A felicidade era falsa.
O amor com que eu segurava aquela fotografia nas mãos… essa sim era a parte mais falsa de todas.
Jamais perdoei a mãe pela infância que eu tivera.
Isso sim não era falso.
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