No coração do inverno

5 O Beijo do Anjo da Morte


–Eu acho que o acidente afetou sua sanidade mental Fallen... — Aaron preferia chamar Edward pelo sobrenome. Não queria intimidade com Edward.

–Eu lembro de tudo Aaron... de Tudo!

–Se você se lembrasse de tudo não diria uma besteira dessas. A Lana está morta, mas você não matou ela...

–Mas eu podia ter evitado!

...A Lana está morta...
Essa frase atingiu Edward como um tiro na testa. Lana, a única pessoa que Edward realmente amou depois da morte de seus pais, a pessoa que deu um sentido à sua vida vazia estava morta, e ele nem ao menos pôde se despedir. O quê eu vou fazer daqui pra frente?, pensava, sentindo uma dor que jamais havia sentido.

...

Berg, Joe e Danny estavam dois quarteirões depois, indo em direção ao apartamento em que viviam. Berg e Joe pareciam apreensivos quanto à reação que Edward teria ao saber da notícia, mas sabiam do choque que Edward sentiria. Enquanto isso, Danny mantinha a serenidade. Danny sempre era alheio a tudo, parecia desligado do mundo, e isso às vezes irritava o resto da banda. Berg já havia perdido as contas das vezes que havia chamado Danny para se divertir com o resto da banda e Danny havia recusado.

Enquanto Aaron, Joe, Berg e Edward bebiam e se divertiam nos bares de NY, Danny se trancava no quarto e tocava Mozart, Beethoven e Bach em seu piano, lia livros da literatura gótica e estudava ocultismo. Danny sempre se interessou por espíritos, demônios, bruxas... Às vezes isso assustava o resto da banda, como na vez em que Danny se entupiu de cocaína e ficou tão chapado que começou a dizer que estava possuído por Baphomet, e que era o Anti-cristo, Ideia que sumiu de sua mente quando o pó parou de fazer efeito.

...

–Era 31 de Novembro de 2010, aniversário da Lana. — Edward falou tentando demonstrar serenidade, se é que isso era possível — Eu fui para o ensaio, como sempre, e na ida, quando passei no banco para tirar dinheiro eu vi que tava com pouco mais de 9000 dólares em caixa. Nós ensaiamos, bebemos, e na volta, ao passar pela Keep Riding — uma loja de motos da cidade — vi que eles estavam em promoção, e a Comet estava por 8500.

–Eu sempre te disse que não vale a pena comprar naquela loja. — Aaron sabia porque o próprio dono da Keep Riding o contara. Na loja eles vendiam até mercadoria roubada.

–Eu não estava pensando nisso. Eu comprei a moto, comprei um colar de pérolas na loja ao lado e fui buscar a Lana na faculdade, de moto. Eu queria fazer uma surpresa a ela.

Bela surpresa — Pensou Aaron, ironizando, enquanto tragava um Lucky Strike de menta, seu cigarro preferido.

–Ela deu um sorriso de felicidade quando viu a moto... — Edward sentiu um aperto no peito ao se tocar de que ele nunca mais veria aquele sorriso de novo — Ela subiu na garupa e nós pegamos à estrada, fomos para longe do trânsito de NY. chegando num ponto afastado da cidade, onde praticamente não haviam casas por perto, nós paramos a moto, deitamos na grama que havia do lado da pista e ficamos lá, abraçados, vendo o céu cheio de estrelas e a Lua branca, sentindo o vento gelado do início do inverno tocando os nossos corpos, jurando amor eterno um ao outro... — Naquele momento Edward deixou cair uma lágrima.

Aaron tirou o toco de cigarro que ele tinha da boca, jogou na calçada e pisou para apagar qualquer resquício de chama. Calmamente ele tirou outro cigarro do bolso, acendeu e deu uma tragada forte. Apesar de não demonstrar nenhuma empatia, Aaron ouvia atentamente à história de Edward.

–Já estava tarde. Nós subimos na moto e fomos em direção ao centro de NY, onde morávamos. Mas no caminho começou a chover, a pista ficou escorregadia e a minha visão ficou embaçada. Mesmo assim eu não me importava nem um pouco. Estava feliz demais para me importar com a chuva, ou com o que quer que seja. Quando a chuva apertou senti o toque delicado os braços da Lana me apertando. Sentia sua respiração na minha nuca, seus cabelos tocando o meu rosto, mas eu precisava vê-la. Fui tomado por uma vontade louca de ver o seu rosto, como se... como se fosse a última vez.

Edward deu uma pausa. Ficou calado, com as mãos nos bolsos, olhando o reflexo de seu belo rosto em uma poça d'água que estava no chão, depois olhou para o céu, sentindo a noite que o cercava. Edward respirou fundo e prosseguiu:

–A pista estava escorregadia, e isso deixa a moto suscetível a deslizes. As rodas deslizaram no asfalto molhado e quando eu olhei pra frente vi um clarão, provavelmente de algum veículo que vinha na minha direção. eu virei para o lado rapidamente, e a moto foi na direção de uma árvore que havia do lado da pista. Eu tentei frear, mas os freios não obedeceram... era tarde demais.

O celular de Berg tocou. Era seu pai, Greg.

–Alô, pai?

–Oi filho. Vocês deram a notícia ao Edward?

–Sim pai. É melhor a gente deixar para falar sobre isso outra hora... Tá sendo difícil pra gente também.

–Tudo bem. Não era sobre isso que eu queria falar.

– E sobre o que é? Não me assusta!

– Preciso me encontrar com vocês o mais rápido possível, ainda essa semana. É de extrema importância.


X

–Que cara é essa Berg? — Disse Joe, quando Berg desligou o celular.

–Meu pai disse que quer falar com a gente.

–E onde ele está?

–Não agora. Ele disse que quer falar com a banda toda, e disse que é algo que pode mudar nossas vidas.

–Estranho... será que alguma gravadora grande quer gravar com a gente?

–Será que ele não vai mais ser nosso empresário?

–Será que ele vai morrer? — Danny disse com a cabeça baixa escondendo um sorriso sarcástico.

–Cala a boca porra! — Berg falou irritado, dando um soco no braço de Danny, que ria como uma criança.

A morbidez de Danny sempre irritou Berg, apesar de não atrapalhar a convivência dos dois. Joe, que sempre teve o riso fácil, se divertia com isso.
Uns 10 metros depois, Berg tirou uma chave do bolso da calça jeans e abriu a porta do apartamento em que os três viviam juntos.

...

Gena Benjamin era uma mulher obstinada. Aos 12 anos começou a trabalhar, vendendo roupas que ela mesma costurava (apesar de que sua família tinha dinheiro para sustentá-la). Aos 18 ela entrou na faculdade de administração, onde conheceu Greg Michael. Eles começaram um romance, e tiveram um filho, que decidiram dar o nome de Berg. Quando Berg tinha 7 anos seus pais se separaram, pois sua mãe achava que seu pai era um "sonhador lunático", e que "ser empresário musical não era uma profissão digna. Ela foi morar em Oakland, onde ela abrira uma empresa, e Greg foi morar em NY, que era onde estavam as melhores bandas.

Greg cresceu. aos 19 anos decidiu estudar música. Sua mãe o rejeitou, disse que ele era um "sonhador lunático", igual ao pai, e que ele nunca seria ninguém se quisesse viver de música. Seu pai o apoiou e disse que cuidaria dele, pagaria a faculdade e jurou que Berg seria o melhor baterista que Gena veria tocar. Berg então foi morar em NY e passou a viver às custas de Greg, que era dono do Rockin' It, um rock bar conhecido em NY.

Na NY University Berg conheceu Joe, que também estudava música, e Danny, estudante de literatura, que diariamente fugia de seu quarto no setor de humanas do campus da universidade para ver Jessie, uma gótica estudante de música que tinha um caso com ele. Eles montaram uma banda, mas não faziam muitos shows.

As festas das universidades eram como nos filmes americanos no estilo american pie. Um bando moças e rapazes bêbados ouvindo música alta e se pegando em algum lugar do campus da universidade. Em uma dessas festas, Joe, Berg, Danny e mais umas 4 pessoas decidiram ir além dos limites que a faculdade permitia e foram para uma "área proibida", o que resultou na expulsão deles da universidade.

Greg ocultou o ocorrido. Greg jamais deixaria Gena saber que ele havia "falhado" na criação de Berg. Ele deu um apartamento para Berg, Joe e Danny, deu os melhores instrumentos para eles e resolveu ser empresário da banda que eles montaram. Mesmo assim a banda não ia muito bem. Para resolver esse problema, Greg chamou os dois melhores músicos que ele já viu tocar em New York, o prodígio da guitarra Aaron Lindstrom e o ainda desconhecido Edward Fallen.

...

Berg abriu a porta e eles entraram no quarto.

Berg era não era muito alto, devia ter um metro e setenta, e estava ligeiramente acima do peso. Tinha a pele branca, cabelos negros encaracolados que batiam na metade de sua nuca, olhos castanhos e um rosto redondo quase sem barba. Apesar do apartamento não ser grande e das janelas estarem fechadas, um vento gelado passou por eles e fez Berg arrepiar-se. Os três se olharam ao mesmo tempo.

–Estranho esse frio — Berg disse se aquecendo com os braços — e não é a primeira vez que eu sinto esse calafrio.

–Estranho mesmo. Deve ser por causa do inverno... — disse Joe.

–Pode ser... mas não lembro disse em nenhum inverno.

–Dizem — interrompeu Danny — que calafrios são um aviso de que pessoas mortas estão próximas. espíritos dos mortos que não atingiram a paz, e vagam pela terra em busca de respostas.

–Cala a boca Danny! Você sempre começa a falar sobre fantasmas, e toda essa esquisitisse!

–Esquisitisse pra você... muitas pessoas acreditam nisso. Se é verdade ou não, eu não posso afirmar. Mas se for, já faz algum tempo que esse espírito está nos acompanhando. Esses calafrios começaram semana passada, e só acontecem com a gente, e principalmente com o Edward.

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O cheiro do fim do outono exalava no ar.

Edward ficou um longo tempo em pé, na calçada, chorando, sentindo o frio da noite de inverno de New York tocar sua pele branca. Quebrou o silêncio umas duas ou três vezes, falando sobre a Lana, sobre o quanto ele a amava, sobre como eles poderiam estar felizes juntos, sobre como a vida era injusta... O anjo da morte beijou a face da única mulher que Edward amou em toda sua vida. A dor era imensurável, e consumia Edward por dentro.

Aaron estava sentado no meio-fio da calçada, tragando um cigarro, já impaciente. Odiava sentimentalismo exagerado. No fundo, Aaron não entendia o amor, pois nunca havia amado. Aaron se declarava incapaz de amar alguém, pelo menos de amar de verdade, e isso se tornava evidente pelos seus atos. Aaron era egocêntrico, e seu ego comandava sua vida. Apesar disso, era extremamente leal àqueles que ele convivia diariamente, e que eram fundamentais para seu bem-estar, e essa lealdade o fez permanecer com Edward naquela noite.

Aaron era belo. Como um bom descendente de escandinavos, tinha olhos verdes, cabelos loiros que batiam nos ombros, e a pele branca. Era alto, um pouco menor do que Edward. Media um metro e oitenta e seis. Não estava nem acima nem abaixo do peso. Não era musculoso, mas, mesmo assim, tinha um corpo que muitos queriam ter. Seu olhar tinha um tom sarcástico, e com esse olhar ele conseguia persuadir quem ele quisesse com extrema facilidade.

O dono do bar fechou as portas. Quando Aaron percebeu, todos os estabelecimentos estavam fechando, o dia estava amanhecendo. Ele se levantou dando um bocejo, andou na direção de Edward, bateu em seu ombro e disse baixo, quase num sussurro, um amigável “se cuida”.

Edward deitou na calçada. Não tinha ânimo, para nada, e pelo visto dormiria ali mesmo. O frio do inverno de New York não importava. Mesmo assim, Edward sentia uma sensação persistente, um calafrio.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.