No coração do inverno
4 Aaron e Edward: Os Anjos Infernais
Outubro de 2010, verão de New York
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Um ano se passou depois do primeiro beijo. Edward e Lana começaram a se encontrar todos os dias, mesmo que rapidamente. Depois de um tempo resolveram morar juntos no apartamento de Edward. Dessa forma, pagavam apenas um aluguel, e as contas de água e luz diminuíam. Edward conheceu os pais dela. O pai dela não gostou dele no começo, mas depois se acostumou com a ideia de que sua "menininha" estava namorando um músico. A faculdade de direito dela ia bem, ela era a melhor aluna da classe. Mas talvez a coisa mais importante a se destacar tenha sido a evolução da banda.
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Era junho de 2005 quando Edward, aos 18 anos, saiu da fria cidade de Pittsburgh e comprou uma passagem de ônibus só de ida para New York. Edward chegou lá com pouco dinheiro e poucas roupas. Seu bem mais precioso era seu violão da marca Gibson que ele herdara de seu avô.
Sem ter onde dormir, Edward foi para um bar, onde convenceu o dono a tocar lá por uma noite. A única coisa que ele pedira em troca foi comida e um lugar pra dormir. A voz de Edward era celestial. Grave, rouca, potente... quando ele começava a cantar a única coisa que podia ofuscar o brilho de sua voz eram os arpejos extremamente limpos de seu violão.
O processo se repetia a cada noite, até que em uma de suas andanças pelos bares de New York Edward conheceu Aaron, guitarrista extremamente talentoso. Greg, dono de um bar, viu o talento de Edward, que se apresentava em seu estabelecimento pela primeira vez, e pediu para que Edward e Aaron tocassem juntos. No início Aaron relutou — era extremamente egocêntrico, recusava-se a aceitar que alguém pudesse ofuscar seu brilho -, mas cedeu, e quando Edward e Aaron tocaram stairway to heaven juntos, alguns dos que estavam presentes não contiveram as lágrimas. A voz de Edward não ofuscava o timbre da guitarra de Aaron, e a guitarra de Aaron não ofuscava a voz imponente de Edward. Ambos se completavam. "Esses dois são como anjos infernais. Não sei como eles conseguiram esse dom, mas só pode ter vindo do inferno!", brincou um rapaz na plateia.
"Meu filho está formando uma banda. Se quiserem ver ele tocar qualquer dia sintam-se a vontade!" Disse Greg no final do show. Aaron queria uma banda para ganhar fama, Edward queria uma banda para sobreviver. Alguns dias depois, Edward e Aaron se juntaram à Berg — filho de Greg -, Danny e Joe, fizeram algumas jams e começaram a se apresentar juntos, como uma banda. Assim surgia o Endless Sorrow.
No início a banda só se apresentava no "rockin' it", bar de Greg. Mas a fama que Aaron adquiriu na cidade, por causa de seu talento na guitarra e de sua extrema habilidade de persuasão que o fazia ficar amigo de quase todas as pessoas que passavam na sua vida — apesar de ele não gostar de verdade de quase ninguém — fizeram com que o Endless ficasse famoso na cidade.
Em 2010, o Endless, como era chamado pelos membros da banda, já era conhecido no underground da cidade. Eles resolveram gravar uma demo e enviar para uma gravadora média de new York. A gravadora gostou, gravou um single chamado Endless Tears, e divulgou a banda.
Eles não ficaram extremamente famosos, mas a situação da banda melhorou muito. A ajuda da gravadora, aliada ao talento de Greg — pai de Berg, que passou a ser o empresário da banda -, fez o Endless Sorrow ganhar mais dinheiro, fazer shows em outros estados e a abrir shows para bandas famosas.
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Edward estava ganhando relativamente bem, não fazia sentido continuar andando de metrô — até porquê ninguém mais na banda andava de metrô, e a própria banda já tinha uma van -, então ele começou a juntar dinheiro para comprar uma moto.
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Era mais um dia normal de outono em NY.
Era outubro, e o vento gelado do fim do outono tocava as folhas caídas, o milagre do orvalho. Todas as cores pareciam acinzentadas. O céu branco e cinza, coberto de nuvens que tapavam o sol e escureciam o ambiente, dava um clima melancólico à cidade de NY.
Edward acordou por volta das 8 da manhã, tomou um banho, trocou de roupa e foi para o ponto com Lana.
Estavam andando de mãos dadas, sem muito assunto. O silêncio era natural entre os dois, era o reflexo da timidez de Lana e da introspecção de Edward, que só se abriam quando estavam juntos. Chegando no ponto, Edward e Lana sentaram um ao lado do outro. O metrô de Edward chegou primeiro. Ele entrou no vagão, sentou em um dos bancos, botou os fones de ouvido e foi para o estúdio onde a banda ensaiava.
Na Sixth Avenue, um prédio verde escuro de dois andares descansava imponente em uma rua estreita, não muito movimentada. Acima estava escrito com letras prateadas “OverDrive Studio”. Lá estavam Aaron Lindstrom (Guitarrista), Joe Steele (Baixista), Berg Michael (Baterista), e Danny Thomas (tecladista) que, quando se juntavam a Edward, deixavam de ser músicos independentes de New York e passavam a ser o Endless Sorrow, a banda mais promissora da região.
Eles conversaram, comeram, tomaram cerveja — cerveja era o combustível da banda — e ensaiaram até umas seis da noite. Guardaram seus instrumentos, beberam mais cerveja e depois cada um seguiu seu rumo. Danny, Berg e Joe foram para o apartamento onde moravam juntos desde a época da faculdade, Danny foi para algum bar para virar a noite bebendo e saindo com as mulheres de New York (como sempre) e Edward voltou para seu apartamento, onde vivia com Lana.
Era para ser um dia normal, mas algo estranho aconteceu. Diferente dos outros dias, Edward não acordou com o despertador do celular...
Edward abriu os olhos com dificuldade. Apesar de ter dormido uma boa noite de sono, se sentia exausto. Ao invés do calor do seu cobertor, ele estava sentindo um vento gelado vindo da parede. Um clarão acima de sua cabeça embaçava sua visão. Depois de batalhar contra as próprias pálpebras, Edward finalmente percebeu o que acontecia.
"Isto é um... hospital?"
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Era estranho para Edward, mas não podia ser diferente. Imagine você dormir em casa são e salvo e acordar em um hospital sem lembrar de absolutamente nada do que havia acontecido.
Por reflexo, Edward tentou se levantar, mas foi em vão. Ele imediatamente sentiu um estalo em sua costela e uma dor arrepiante em seu braço, e só então percebeu que estava todo enfaixado.
Olhou em volta e viu que estava em um típico quarto de hospital. No fim do quarto estava uma enfermeira e no banco ao lado da cama estava Aaron, que percebeu que Edward estava se acordando. Aaron chamou a enfermeira.
Por extinto, ao ver Aaron, Edward juntou as únicas forças que tinha e fez a pergunta que ninguém naquela sala estava preparado para responder:
–A Lana... onde está a Lana?
De repente toda a dor do corpo de Edward parecia não existir.
"A Lana não me deixaria nessa situação sozinho", pensava. Edward foi tomado por uma sensação de que algo ruim estava acontecendo, e queria saber o que era. Ele tentou se levantar de novo, mas a tentativa foi em vão novamente. Dessa vez foi pior. Edward caiu da cama, bem em cima do braço que estava enfaixado, dando um grito de dor. Sem se levantar da cadeira, Aaron deu um riso sutil e fez sinal para a enfermeira ajudá-lo.
–Ela está bem cara, calma! — Disse Berg, baterista da banda, entrando no quarto e ajudando-o a levantar.
Naquele momento o médico chegou e mandou Edward tomar uns comprimidos.
–Tome isso. Vai aliviar a sua dor.
Edward tomou o comprimido contra a sua vontade — Edward odiava quando as pessoas tentavam dizer o que era melhor para ele. De repente suas pálpebras começaram a pesar mais do que deveriam. Edward adormeceu.
Quando acordou, uma faxineira do hospital, Aaron e Berg estavam no quarto. Aaron encarava uma caixa de cigarros que trouxera em seu bolso, e que não poderia desfrutar por causa das regras do hospital. Berg ria de um programa que passava na televisão do quarto. Edward estava mais calmo, em partes porque Aaron disse que Lana estava bem, e em partes porque ainda estava muito grogue por causa dos medicamentos.
–Acordou bela adormecida? — Brincou Berg, fazendo Aaron dar um riso falso, daqueles em que se imita um débil mental para ridicularizar o autor da piada, mas com um sarcasmo que só Aaron conseguia passar.
–Caras.... onde eu tô? — Perguntou Edward
–Acho que em um hospital. — Aron ironizou enquanto ajeitava seus longos cabelos loiros, sem se importar com o sofrimento de Edward.
–Palhaço... — Edward botou a mão na testa com uma dor de cabeça insuportável — mas como eu vim parar aqui?
Berg olhou para Aaron, esperando para ver o que ele respondia.
–Você vai saber na hora certa. — Aaron respondeu com sua frieza de sempre.
–E a Lana?
–Se você se dedicasse à banda como se dedica à fazer perguntas...
–Ela teve que viajar, mas vai voltar. -Disse berg, interrompendo Aaron, pois sabia como essa conversa geralmente acabava.
Edward nunca gostou muito de Aaron. Quando o Endless Sorrow começou Aaron buscava fama, e Edward buscava uma forma de sobreviver. Aaron sempre detestou o jeito melancólico de Edward, e Edward sempre detestou o ego enorme de Aaron. Edward via Aaron como um guitarrista promíscuo que passa mais tempo bêbado do que sóbrio, e Aaron via Edward como um músico a mais no Endless, "sua" banda, que em sua opinião, ele carregava nas costas. Edward e Aaron viviam constantemente em atrito por causa da importância de ambos na banda. Fogo e gasolina...
–Mas ela sabe que eu estou assim?
–Quando você receber alta eu vou te explicar tudo melhor — disse Aaron.
A serenidade de Edward se transformou em irritação.
Passou-se uma semana até que Edward recebesse alta e finalmente pudesse deixar o hospital. Berg, ficou ao seu lado durante todo o tempo, enquanto Joe (baixista), Danny (tecladista), e Greg (pai de Berg e empresário do Endless Sorrow) iam visitá-lo às vezes. Aaron estava ocupado demais bebendo e saindo com suas fãs.
Aaron, berg, Joe e Danny o levaram para casa, o ajudaram a trocar de roupa (deixando-o extremamente desconfortável), e foram para um rock bar. Chegando lá, sentaram-se, pediram uma garrafa de whiskey e começaram a falar sobre assuntos aleatórios. Música, futebol americano, mulheres...
–Então, me expliquem! — Interrompeu Edward, que estava calado desde que todos se sentaram.
Eles estavam tentando descontrair o clima ao máximo, mas quando Edward falou isso todos de repente ficaram sérios. Joe, Danny e berg saíram, disseram que tinham que "resolver uns problemas". Ao levantar Berg bateu no ombro de Aaron, dando a entender que tudo foi combinado.
–O que você quer saber? -Aaron disse seco, com sua frieza característica.
–Por que eu dormi uma noite tranquila de sono e acordei em um quarto de hospital todo enfaixado? e onde está a Lana?
Aaron pegou a garrafa de Jack Daniel's que estava em cima da mesa, encheu seu copo, deu um gole lento e começou a falar...
–Lembra que você estava juntando dinheiro para comprar uma moto?
–Sim. faziam seis meses. eu ia comprar uma Kasinski Comet. Porquê?
–Bom... semana passada foi o aniversário da Lana e você quis fazer uma surpresa pra ela. Você acabou comprando outra moto, mais barata.
–Hã? Eu? — Disse confuso. "como poderia ter comprado uma moto e não me lembrar de nada?!", pensou.
–Sim, você. Você comprou a moto, e de noite foi pegar ela na faculdade.
Isso é loucura! Como eu poderia ter feito tudo isso e não me lembrar de nada? Ele pensava. Aaron prosseguiu:
–Você perguntou se ela não queria dar uma volta. Ela subiu na garupa da moto e vocês pegaram a estrada juntos. Vocês pararam em um trecho qualquer da estrada e ficaram na grama por um bom tempo. Quando viram que já estava tarde resolveram voltar.
Tudo estava muito confuso para Edward. Por um momento Edward achou que aquilo não passava de uma invenção de Aaron para implicar com ele, mas logo tirou isso da cabeça, pois Aaron dificilmente mentia. Berg brincava dizendo que Aaron só mente quando diz para alguma mulher que a ama. Boa parte das inúmeras brigas que Aaron já teve ocorreram por causa de sua sinceridade.
–Enquanto vocês estavam voltando começou a chover. Estava de noite e a chuva começou a engrossar...
–Mas eu sempre pilotei bem na chuva — Disse Edward.
–Mas a moto veio com um defeito de fábrica. Os freios estavam totalmente desrregulados. Então...
Edward gelou. O aspecto confuso de seu rosto sumiu e deu lugar a uma expressão perplexa. De repente todas as memórias surgiram como um flash em sua mente e ele conseguiu lembrar de tudo o que havia ocorrido no dia em que ele foi para o hospital. Antes que Aaron terminasse de falar, Edward levantou da cadeira e saiu do bar, tentando engolir o choro. Aaron foi atrás dele.
O vento frio da noite de inverno de New York tocava suavemente os cabelos negros de Edward. Ele botou suas mãos dentro dos bolsos da jaqueta de couro por causa do frio, mas o frio naquele momento não importava. Edward sentia algo estranho. Uma mistura de ódio de si mesmo e de tristeza. Estava andando depressa, pela calçada, running with no direction, como dizia em uma música do Endless Sorrow.
–Preciso terminar? — Disse Aaron, que estava um pouco atrás, acendendo um cigarro.
Edward sabia que Aaron percebeu o que estava havendo. Então Edward disse com a voz engasgada, em um choro escondido num semblante de raiva:
– Você disse que ela estava bem cara! você disse que ela estava bem! — Edward falou de costas para Aaron, que estava uns cinco metros atrás.
–Ela está em um "lugar melhor" — Aaron disse cheio de sarcasmo.
O choro contido de Edward se transformou em uma expressão de fúria. As lágrimas escorriam em seu rosto. Lágrimas de ódio. Ódio de Aaron, ódio de si mesmo, ódio de tudo...
Edward virou-se subitamente, e deu um grito que assustou as poucas pessoas que passavam na rua naquele momento.
–EU MATEI ELA!
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