Lílian era mestranda em Antropologia cultural, havia estudado na UFPB (Universidade Federal da Paraíba), saiu de Salvador para João Pessoa por um sonho que a sua família não entendia direito. Se formou e voltou para a capital bahiana sem um emprego, teve de trabalhar no comércio e com artesanato até conseguir se classificar para o mestrado na UFBA. Seus pais se preocupavam com o futuro de uma filha inteligente que estudava uma coisa que não dava dinheiro. A mãe dizia que ela devia ter feito medicina ou odonto, ao menos ia ajudar as pessoas e ganhar muito dinheiro para ter um apartamento bom em Pituba ou na Barra.

Lílian conseguiu estudar inglês e espanhol graças aos cursos comunitários. Não era pobre, mas uma classe média baixa, onde o dinheiro não sobrava para complementar os estudos com cursos extracurriculares.

Ainda no ensino fundamental já fazia aulas de dança afro e de ballet, tudo em centros comunitários. Um dia viu uma apresentação de flamenco e se apaixonou, mas não tinha como pagar as aulas. Uma professora lhe ofereceu uma bolsa parcial quando tinha 17 anos. Ao ir para João Pessoa, Lílian levou os sapatos consigo, na esperança de poder estudar lá também. Achou uma escola, mas não tinha bolsa. A dona do estúdio lhe disse que dava aulas num projeto para mulheres vítimas de violência doméstica, num bairro periférico, se ela quisesse, podia ir, mesmo sem se encaixar no perfil atendido. Ali, a baiana se sentiu acolhida e aplicou suas primeiras noções de Antropologia na prática. O projeto durou até o fim do sétimo semestre da universidade. Então, Lílian dançava em parques e no campus para não perder a técnica, já que vivia em uma república feminina e não tinha espaço e nem podia atrapalhar as colegas com os seus taconeos.

O retorno a Salvador, ao fim da graduação, deixou um coração ferido. Lílian começou um relacionamento com uma jovem atendida pelo projeto onde fazia flamenco. Já havia experimentado ficar com meninas em Salvador, além de meninos. Temia uma reprimenda familiar, então não se assumia para os pais e irmãos. A outra moça não era assumida, pois vinha de uma família muito religiosa e os pais eram conservadores. Até denunciar o ex-namorado causou brigas e reprimendas por parte dos pais e do pastor da moça paraibana. A separação foi sofrida, com juras de se reencontrarem e promessas de fidelidade à distância. Nada disso durou muito. As duas terminaram e a paraibana a bloqueou nas redes sociais. Logo, Lílian ficou sabendo que a ex estava com outra mulher. Havia se assumido para a família, saído de casa e ido viver com a nova parceira. Tinha até cortado o cabelo e platinado. Não houve choro ou cena por parte da soteropolitana, ela sabia que amor à distância não dura mesmo.

Na capital bahiana, a antropóloga voltou às aulas de dança afro comunitária e, mais tarde, ao flamenco, agora podendo pagar pela classe semanal.


Antes da ida para Buenos Aires, para o intercâmbio de estudos da "bolsa sanduíche", Lílian estava namorando um rapaz, um sociólogo poliamorista. Ao conseguir a oportunidade de estudar, o liberou para dar seus afetos a quem ele quisesse. Não havia mágoa, afinal, ela aceitara a relação aberta e nem tinha o porquê ter ciúmes.


Na capital argentina, havia a curiosidade e a sexualização de seu corpo, afinal.ela não era o que os homens locais não viam com frequência: negra, orgulhosa de seus cabelos crespos, sorridente, confiante e livre. Muitos homens interpretaram a sua natural simpatia como um convite sexual. Ela não iria mudar, eles que tratassem de entender que ela era uma mulher empoderada e não estava dando confiança para todos eles. Ainda não tinha ficado com ninguém. Se rolasse, beleza; se não rolasse, tudo bem também. O foco era estudar, aprender e aplicar o que aprendesse à sua pesquisa de dança afrodiaspórica.



Na terça, às 18h50, a brasileira chegou para a aula. Algumas alunas estranharam a novata, mas logo ficaram curiosas sobre ela.

_ Lílian, vou te observar hoje. Se eu não achar que está apta para esta turma, te mandarei para o básico 2. _ Patrícia já anunciou antes de entrarem. _ Ah, você trouxe a matrícula e a primeira mensalidade? Pague para Anahí, nossa recepcionista!

_ Eu já paguei. E tudo bem quanto à aula, acredito que conseguirei acompanhar, sim.

E ela acompanhou. Ou ao menos acreditou acompanhar. Sempre sorria no fundo da sala, onde foi colocada. Seu sorriso parecia incomodar Pato, porém Lílian não percebeu. Ao fim da aula, foi conversar com a professora.

_ Lílian, você se esforça, mas não tem a.mesma técnica das outras. Sou uma professora exigente. Não creio que este nivel seja o mais adequado para você.

_ Mas eu já tenho alguns anos de estudos. Não acredito que sou tão ruim para estar numa turma de básico 2.

_ Pois eu não vejo onde você poderia ser intermédia! _ Pato cruzou os braços, ergueu a sombrancelha em atitude desafiante.

_ Me deixa ficar um mês aqui, pelo menos

A uruguaia respirou fundo.

_ Não é assim que eu trabalho. E eu não gosto que me desafiem. Eu sou a autoridade na minha escola.

_ Desculpa. Não queria te desafiar.

_ Ótimo! Você vem por um mês. Se não acompanhar ou se não evoluir, vai pra outra turma. Não admito esse comportamento mas minhas aulas. Não gosto de risonho irônico e nem de desaforos. Estamos entendidas?

Lílian sorriu e fez que sim e estendeu a mão para selar o compromisso. A sua mão ficou no ar, a professora não a pegou de volta para o cumprimento.

_ Eu não gosto de brincadeiras. Conheço bem a sua gente. Aqui não é o circo que é o seu país.

_ Desculpa. Não era uma brincadeira.



Lílian saiu da escola pensando se havia mesmo feito uma boa escolha. Mas agora, já havia pago e teria de encarar o primeiro mês de aula. Se não se adaptasse, podia sair. Não havia assinado nenhum contrato.

Mandou uma mensagem para a amiga quando chegou em casa.

"Ela não é a boa pessoa que você disse, minha irmã. Tem certeza de que é a mesma pessoa que te deu aula?"

Meia hora depois chegou a resposta:

"Oxe, comigo ela foi massa. Talvez ela esteja num dia ruim".

Lílian respondeu com um joinha e foi ver TV. Não ia se preocupar com aula de dança. A sua prioridade era a sua pesquisa.


Notas finais
Taconeo é o nome que se dá ao sapateado flamenco. Também chamado de zapateado. Bolsa sanduíche: um tipo de bolsa-pesquisa que se inicia no país de origem do estudante, passa-se um ou dois semestres em uma universidade parceira em outro país, e termina o mestrado ou o doutorado de volta ao país ou universidade de origem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.