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No compasso do silêncio — Studio


Escrita por: Tropicalflower



Capítulo 1 — Studio


Janeiro costuma ser quente em Buenos Aires, mas o fim daquele parecia um pouco pior. Patrícia odiava sentir calor, a irritava, a incomodava profundamente. Por ela, Buenos Aires e Montevideo seriam cobertas por uma eterna neve. O verão não combinava com a sua idéia de civilização e de europeidade, o verão combinava com o Caribe, com o Brasil, com a Colômbia, com o México e com a África. Pato, como era conhecida, não se via como racista ou xenófoba, afinal, ela nasceu e cresceu em Montevideo, via as murgas e os candombes, apesar de nunca era dançado nada disso, só em eventos escolares durante a sua infância, já estivera em Florianópolis, no Rio de Janeiro, em Bogotá, em Cartagena, só acreditava que certas coisas, como o sol, o calor, as tempestades e o verão, eram bons para países mais pobres e exótics. Não ligava muito para política ou para economia, seus focos eram o flamenco, seu marido e o estúdio que tinha em Belgrano. Gostava de ler, de ouvir boa música, de assistir a bons filmes, não era para nada uma mulher inculta, só que já desistira da política. Bem, da política mais progressista, que ela classificava de "esquerdota", era dessa que ela havia desistido.

Havia recebido uma mensagem da recepcionista avisando que não iria trabalhar naquele dia, pois o filho estava doente e a outra professora que trabalhava com ela estava dando aulas em outra academia.

A contragosto e enfrentando o seu pior inimigo, o verão portenho, foi para o estúdio. Havia uma pessoa que iria fazer uma aula experimental naquela tarde e outra iria à noite. A da tarde era uma senhora perua, que procurava um novo hobby e queria se reconectar às raízes espanholas. Era o tipo de aluna que dança por diversão, raramente evolui e se contenta em gastar com o figurino da apresentação de fim de ano. Pato a tratou a mesma gentileza que trataria uma estrela dos tablaos. A senhora, Leonora era o seu nome, se sentiu encantada e ficou de retornar na semana seguinte. Quando a noite chegou, também chegaram as alunas que não haviam viajado, e as que já haviam retornado das férias. Umas bronzeadas pelo sol de algum litoral, outras com a cor de todo dia.

Foi no horário das 20h que chegou Lílian, uma brasileira risonha e falante. Quando entrou em contato, disse que já fazia aulas e que era de nível avançado. Quem havia tratado tudo era a recepcionista, Andréa, que estava fora. Podia ser o calor, podia ser o estresse das aulas dadas e podia ser simplesmente a postura aberta de Lílian, mas, de cara, Patrícia já pegou uma implicância. Ao fim da aula, chamou a brasileira para uma conversa.

_ Veja, não sei quem te disse que você é avançada, pode ser lá no seu país, aqui você seria básica 2. Eu te recomendo ir para uma turma assim.

_ Bem, eu fiz workshops em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Salvador com professores brasileiros e internacionais e eu estava no avançado. Eu não posso ir nem para uma turma de intermediário 1?

_ Não creio que você consiga acompanhar, mas podemos tentar. Se eu notar que você está perdida ou atrapalhando a turma, não pensarei duas vezes em te mandar para uma de básico.

_ Está bem. _ a brasileira abriu um largo sorriso.

_ Ah, como você pretende pagar as aulas? _ a pergunta continha uma curiosidade com uma maldade, que não foi percebida de cara pela brasileira.

_ Cartão de crédito ou de débito. _ parecia normal para ela.

_ Eu prefiro dinheiro em espécie. Aqui trabalhamos assim para evitar problemas. _ havia uma mentira ali, mas a professora não queria correr riscos. Os brasileiros tinham fama de malandros e ela não queria correr tomar um calote.

_ Está bem. Eu trago o valor da matrícula e da mensalidade na próxima aula. Uma coisa, aqui vocês não trabalham com planos trimestrais ou semestrais? É que no Br...

Lílian nem terminou a frase e a outra mulher já fez que não com a cabeça.

_ Só faço esses planos para alunos nativos.

Lílian voltaria na próxima semana, em outro dia, na terça, no horário das 19h para as aulas do intermediário. Pato acreditava que a brasileira logo desistiria. Ela sabia que suas aulas eram de alto nível e nem todos aguentavam.

Ao voltar para a casa, o marido, Marcelo, professor de economia, a esperava para jantar. Conversaram sobre o novo semestre de ambos. Pato lhe contou.

_ Hoje foram duas novas alunas, Leonora e Lílian. A segunda é brasileira. Eu me pergunto de onde aquela gente tira dinheiro para fazer aulas de dança numa academia como a minha.?!

_ De repente ela tem dinheiro e você não sabe, meu amor.

_ Duvido! Ela é negra.

_ Vai ver arrumou um amante rico. Enquanto ela te pagar, vá dando as aulas. Só espero que ela não seja daquelas que vêem em racismo em tudo.

_ Ah, se for, logo a ensino que aqui não é como no país dela. Se não gostar, que vá para a África salvar uma criança morrendo de fome.


Quando voltou para seu apartamento, Lílian mandou uma mensagem para a amiga, Isa, brasileira que já havia feito aulas com Patrícia.

"Amiga, ela me disse que sou do nível básico. Poxa, achei que era avançada, que nem você!"

"Ah, amiga, não entendi essa! Faz as aulas e veja o que você acha."

" Eu vou fazer, mas, se eu não gostar, vou caçar outra escola. Beijos."

A amiga respondeu com um emoji de beijos.

Lílian tinha de arrumar os materiais de estudos, pois o mestrado começaria na semana seguinte. No momento, o flamenco era para distrair um pouco das pressões de estudar e pesquisar antropologia em uma cidade tão longe da sua.


Notas finais
Murga: agrupamento carnavalesco típico do Uruguai. Alguns dizem que sua origem remete aos imigrantes italianos e espanhóis, outros que teria origem nos festejos dos negros escravizados que foram levados para a região do rio da Prata. Candombe: ritmo musical e dança afrouruguaia. Belgrano: bairro de classe média alta em Buenos Aires.