No canto escuro
1 À espera de um convite
Notas iniciais
Numa madrugada fria, de um dia qualquer, um homem estava sentado diante de seu computador. Queria escrever algo, mas sentia que estava sem criatividade. Para se inspirar, começou a ver uns vídeos na internet, ler algumas histórias. Mas nada instigava sua criatividade, nada chamava sua atenção. Decidiu contar uma história real – algo que tinha acontecido há muito tempo e que ele ainda lembrava -, mas escreveria como se fosse ficção.
Sua primeira frase foi “É difícil contar essa história”. Então escreveu, como se fosse uma recordação, de um dia, há muito tempo, quando via coisas que não conseguia explicar.
Quando tinha dezesseis anos, tinha acordado no meio da noite e na penumbra do quarto havia uma silhueta escura: um homem de chapéu de preto e com uma capa da mesma cor. O personagem estava imóvel ao lado da sua cama, apenas observando. Lembrou-se de como ficou paralisado diante da figura escura e soturna que estava no seu quarto. Tentou se mover, mas não conseguiu. Tentou falar, mas não conseguiu.
No instante seguinte, o homem de chapéu preto desapareceu. E quando isso aconteceu, recobrou seus movimentos e sua fala. Levantou-se da cama e saiu do quarto. Lembrava até hoje que viu sua mãe ainda acordada mexendo em alguns papeis do trabalho para o dia seguinte. Ela não acreditava que fosse alguma coisa para ser levada a sério. “É apenas um sonho”, disse na época. Ela não acreditou. Talvez mais ninguém acreditasse. E assim foi...
Mesmo assim, decidiu que era essa a história que iria escrever. Talvez enfeitasse um pouco, mas queria que as pessoas soubessem daquilo sem ter certeza se era real.
Quando escreveu a primeira linha, sentiu o ambiente mudar. O vento lá fora fazia as árvores farfalharem, o latido dos cachorros se tornava perturbador, ou mesmo os gatos correndo em cima da casa pareciam assustá-lo.
O texto foi indo adiante, escrevia e descrevia aquela cena sombria da sua adolescência. De repente, percebeu o que estava fazendo. Aquele relato trazia energia ruim. Lembrou de um amigo da igreja que tinha dito há muito tempo que “falar sobre espíritos faz com que você os chame para perto de você”. Talvez fosse aquilo que estivesse fazendo agora, naquela madrugada. Mas o pior foi lembrar da segunda parte da declaração do seu amigo, “falar sobre os demônios é um convite para que eles se aproximem”.
Respirou fundo. Fazia tempo que já não acreditava mais naquelas histórias. Havia abandonado a igreja por não acreditar mais nesses relatos. Continuou escrevendo. Mas seus pensamentos traíam sua autoconfiança. Pensava: “e se eu estiver vulnerável por justamente estar fora da igreja?”. Notou, então, que estava sentindo medo.
Mesmo assim, continuou escrevendo sua história. Mas seu temor era tanto que não demorou muito e sentiu uma presença. Era como se alguma coisa estivesse atrás de sua cadeira naquele momento. E estava parado, apenas observando. Não viu, mas sentia. Nunca ousou olhar para saber se tinha algo mesmo ali. Preferia não saber. E o homem da capa preta também permaneceu ali no escuro, em silêncio, porque sabia que o que o homem sentia era medo. Ele sempre estivera à espreita, rondando a casa, assustando os animais quando caminhava escondido por dentre as árvores, esgueirando-se nas sombras da noite. Estava apenas à espera de um convite para entrar, e naquela noite o convite finalmente tinha chegado.
O homem escrevia suas últimas linhas. Sentia que havia uma presença no canto do seu quarto, mas não se atrevia a conferir. E foi bom nunca ter virado para trás. Os olhos vermelhos cor de sangue tê-lo-iam aterrorizado além do que poderia suportar.
Suas últimas palavras no conto foram: “Sempre que você fala no demônio, ele se aproxima de você. Mas ele não aparece porque gosta de sentir o seu medo. Gosta de estar atrás de você quando você não o pode ver. Gosta de te observar por entre as árvores quando sai de noite. Gosta de estar no canto escuro para observá-lo enquanto dorme. Ele não entra, mas está ao seu redor da sua casa. Está apenas esperando você chama-lo para entrar. E, talvez, por você estar lendo este texto agora, ele esteja mais perto de você. Talvez ele venha observá-lo hoje quando você estiver dormindo”.
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