Notas iniciais
Oii, temos grandes surpresas... Espero que gostem.

Capítulo 6

Pov Samuel

O caminho de volta até o carro pareceu mais longo do que realmente era. Desde que Elisa terminou de contar sua lembrança — aquela em que eu a “salvei” daquele cara insistente — alguma coisa no ar tinha mudado.

Algo… denso. Quente. Indefinido.

E quando nos sentamos no carro, lado a lado mais uma vez, eu finalmente entendi o que era: silêncio.

Mas não o confortável que sempre existira entre nós.

Era um silêncio cheio. Pesado.

Quase… revelador.

Dei partida no carro, tentando agir naturalmente.

— Está tudo bem? — perguntei, mantendo os olhos na estrada.

— Está sim — respondeu ela, com uma voz suave demais para ser natural. — Só… pensando.

E aquilo me desmontou um pouco por dentro.

Porque eu também estava pensando.

Pensando demais.

As lembranças que todos tinham contado ainda dançavam na minha cabeça, mas a minha… a minha memória dela entrando no escritório, toda atrapalhada e luminosa, parecia ter acendido em mim uma espécie de coragem inesperada.

Elisa mexia demais comigo. Desde sempre.

Mas ouvir da boca dela que eu tinha sido importante para ela… que eu a tinha protegido… que ela lembrava daquilo…

Meu coração não tinha gostado nada daquele silêncio.

Ele queria respostas. Ele queria movimento.

E pela primeira vez em muito tempo, eu admiti para mim mesmo:

Eu não queria mais esconder o que sentia.

Enquanto dirigia, tentei organizar meus pensamentos — sem sucesso.

“É agora.”

A ideia me atravessou com força.

O almoço, o jogo, os olhares trocados, o modo como ela me escutava, o modo como reagiu à minha lembrança… tudo isso me empurrou para um limite que eu vinha adiando por meses.

Eu respirava fundo, tentando evitar olhar diretamente para ela.

Se olhasse, talvez falasse ali mesmo dentro do carro.

E apesar da vontade ser enorme, eu queria fazer isso direito.

Quando estacionamos em frente à casa dos meus pais, o silêncio ainda estava ali, firme, quase palpável.

Elisa abriu a porta devagar, como se estivesse evitando qualquer movimento brusco que quebrasse alguma coisa invisível entre nós.

— Vamos entrar? — ela perguntou.

Eu dei a volta pelo carro e fechei a porta dela com mais calma do que o necessário.

— Na verdade… — minha voz saiu mais grave do que eu pretendia — você pode vir comigo por um minuto?

Ela franziu a testa, surpresa.

— Aconteceu alguma coisa?

Balancei a cabeça.

— Nada de ruim. Eu só… preciso conversar com você. — respirei fundo — Lá no jardim. Pode ser?

Ela me olhou como se tentasse decifrar algo em mim.

E talvez fosse isso mesmo.

Talvez ela estivesse sentindo a mesma coisa que eu.

— Claro — respondeu, com um daquele seus sorrisos pequenos e nervosos.

Caminhamos lado a lado até o jardim dos meus pais. Eu sentia meu coração acelerado, como se estivesse prestes a dar um salto sem volta.

Em cada passo, uma certeza crescia dentro de mim:

Era agora. E eu ia falar.

Tudo. Do jeito certo.

Nem que minhas mãos tremessem até lá.

Povo Elisa

Seguimos até o jardim, sentamos nas cadeiras que tinham ali. Eu estava nervosa; não sabia o que Samuel queria dizer, mas a maneira como ele caminhava ao meu lado, o jeito como evitava meu olhar, deixava claro que era sério. Também precisava falar com ele… precisava tentar mostrar como me sentia em relação a tudo até aqui, mesmo que isso não tivesse um final feliz. Ele merecia saber. E eu merecia ter, finalmente, um ponto final nessa incerteza que corroía meus pensamentos silenciosos.

— Elisa… — disse ele, apreensivo, a voz baixa, quase trêmula. — Nem sei por onde começar. Mas quero pedir que me ouça, sem interrupções. Depois você terá todo o tempo do mundo para comentar, me bater, fugir… o que precisar fazer. Eu vou entender.

— Sam… — tentei falar, mas ele ergueu a mão num gesto suave.

— É sério, sem interrupções. Pode me ouvir? — perguntou, com uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto nele.

Concordei com a cabeça. Tinha medo de a voz falhar se tentasse abrir a boca.

— Eu… vamos lá. Eu estava ensaiando há muito tempo como dizer essas coisas pra você — começou, mexendo nervosamente as pontas dos dedos. — É simples, mas ao mesmo tempo não é. — Ele respirou fundo, o peito subindo devagar, como se tentasse conter o próprio coração. — Eu tinha muito medo… medo das consequências que isso poderia desencadear. Mas não posso fingir que não sinto nada.

Enquanto ele falava, eu observava seu nervosismo. As pernas inquietas, os dedos entrelaçando e soltando, o olhar que evitava o meu por segundos… e voltava. Aquilo me deixava tão nervosa quanto ele — talvez mais.

— Sabe, Lisa… — disse com a voz embargada de sinceridade. — Foi uma grata surpresa te conhecer. Lembro da primeira vez que entrei no escritório do Lucas e você estava lá… tão linda, tão doce… tão você. — Ele sorriu, pequeno, nostálgico. — Você conseguiu me encantar com apenas um sorriso. Mas era o sorriso mais lindo do mundo. E eu me apaixonei.

Meu coração parou. Literalmente. Ou foi a sensação.

— Me apaixonei pela sua verdade, sua simplicidade, sua alegria… Você é tão bonita, inteligente, bondosa, amorosa… — Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado consigo mesmo. — Deus poderia te dar todos os adjetivos existentes no mundo e ainda assim não seria suficiente pra expressar o que sinto.

Meu estômago se revirou. Meu peito apertou. Minha respiração falhou por um segundo.

— Mas eu estava com tanto medo — continuou. — Medo de você não sentir o mesmo… medo de estragar a amizade que construímos nesse tempo. Mas estar com você… sentir você, ouvir você, estar na sua presença… — Seus olhos finalmente encontraram os meus, intensos, sinceros, quase suplicantes. — Cada momento, cada lembrança… tudo isso me fez querer, me fez precisar tomar essa atitude. Eu precisava saber o que você sente.

Silêncio.

Ele engoliu seco.

— Então é isso. Estou apaixonado por você. Fim. — Ele soltou o ar, exausto, como se tivesse carregado esse peso por meses. — Quero te ouvir.

Meu Deus…

Meu peito explodiu num milhão de emoções que eu não sabia nomear.

Tinha medo.

Tinha surpresa.

Tinha alívio.

Tinha uma alegria tímida… profunda… que eu não ousava admitir até agora.

E, principalmente… havia a verdade que eu vinha empurrando para o fundo do peito, fingindo que não existia.

Eu ainda sentia o peso das palavras dele ecoando dentro de mim, como se cada uma tivesse encontrado um canto diferente do meu peito para vibrar. Eu precisava responder… mas como colocar em ordem tudo aquilo que eu mesma levei meses para entender?

Respirei fundo, tentando organizar o caos doce que se formava dentro de mim.

— Sam… — comecei, a voz frágil, quase um sussurro que eu não reconheci como meu. — Eu… eu não sabia que você sentia tudo isso. — Meus olhos baixaram por um segundo, envergonhada, desnuda, como se ele tivesse visto meu coração antes mesmo de eu oferecê-lo.

Ele arqueou a sobrancelha, preocupado, como se esperasse o pior.

— E pra ser sincera… — continuei, apertando minhas próprias mãos para criar coragem — …nem eu sabia direito o que eu sentia. Eu achava que era só amizade. Tentava me convencer disso, sabe?

Engoli seco, porque a verdade inteira ainda estava ali, na garganta, pedindo para sair.

— Mas… toda vez que você chegava perto, toda vez que me tratava com esse carinho que você nem percebe que tem… eu ficava mexida. — Minha respiração tremeu. — Eu sentia alguma coisa crescendo, mas eu tinha medo. Medo de estar confundindo tudo. Medo de te perder. Medo de ser só eu sentindo… e você nada. Então eu guardei. Guardei tudo. Me escondi de mim mesma.

Levantei os olhos devagar e encontrei os dele me observando com uma atenção que me desmontou.

— Sam… — minha voz falhou, mas eu forcei o resto a sair — …hoje, ouvindo tudo isso, ouvindo você falar de mim desse jeito… eu percebi que eu sinto sim. E sinto muito. — Meu coração parecia bater no pescoço. — Eu também estou apaixonada por você. Não é só amizade. Não é só carinho. Eu tento negar, eu tento diminuir… mas sempre esteve aqui. — Toquei meu peito com a ponta dos dedos. — Sempre.

O rosto dele mudou. Não foi só um sorriso — foi alívio, incredulidade, felicidade pura… como quem finalmente respira depois de muito tempo debaixo d’água.

Ele deu um passo na minha direção, hesitante, como se ainda tivesse medo de que fosse um sonho.

— Elisa… — murmurou meu nome de um jeito que pareceu abraçar tudo em mim. — Você não faz ideia do que acabou de fazer com meu coração.

Ele tocou meu rosto com um cuidado tão carinhoso que me fez estremecer. Sua mão era quente, firme, segura. A outra repousou na minha cintura, me puxando de leve, perguntando sem palavras.

Eu dei a resposta com o olhar.

Ele se aproximou devagar, muito devagar, como se quisesse decorar cada segundo antes do beijo acontecer. Nossas respirações se misturaram e meu corpo inteiro se acendeu num arrepio que me percorreu dos pés à nuca.

E então… ele me beijou.

Um beijo que começou suave, quase tímido, como se ele tivesse medo de machucar o momento. Os lábios dele tocaram os meus com delicadeza, só um encostar… e esse simples encostar foi suficiente para me desmontar inteira.

Depois, como se ambos tivéssemos sido puxados para o mesmo centro gravitacional, o beijo se aprofundou. Calmo, mas intenso. Sincero, mas cheio de desejo guardado. Um beijo que dizia tudo o que nenhum de nós teve coragem de dizer por meses. Um beijo que tinha sentimento, alma, tremor, entrega.

Eu passei as mãos pela nuca dele e senti seu corpo reagir, como se ele finalmente tivesse encontrado onde pertencia. Ele me puxou mais, envolvendo minha cintura com firmeza, como se não quisesse me soltar nunca mais.

Quando nos afastamos, ainda com a testa colada, ele riu baixinho, aquela risada emocionada de quem está muito feliz e um pouco incrédulo.

— Elisa… — disse, a voz rouca, tomada de emoção. — Eu preciso te perguntar uma coisa, e não quero esperar nem um segundo a mais.

Ele segurou meu rosto com as duas mãos, olhando direto nos meus olhos com aquela intensidade que fazia meu mundo inteiro estremecer.

— Você quer namorar comigo? — Ele sorriu, um sorriso de homem apaixonado, seguro, decidido. — Porque eu prometo… prometo de coração… que eu vou cuidar de você, respeitar você, caminhar ao seu lado. E eu não pretendo soltar sua mão. Nunca.

Meu coração explodiu num calor tão forte que quase doeu.

Meu sorriso saiu sem permissão.

— Quero, Sam — respondi sem hesitar, sentindo a felicidade subir como um sol dentro de mim. — Eu quero sim.

Ele me abraçou tão forte, tão cheio de alívio e felicidade, que eu soube ali… naquele segundo… que tudo tinha mudado. Que aquele abraço era o começo de algo verdadeiro, sólido, profundo.

Que enfim… eles tinham se encontrado.

Pov Samuel

Quando as palavras finalmente saíram da minha boca, senti como se algo dentro de mim — algo que eu carregava há meses, silenciosamente, com medo — finalmente tivesse encontrado descanso. Era como tirar um peso imenso do peito, como respirar pela primeira vez depois de muito tempo preso por dentro.

Eu estava nervoso, claro… mais nervoso do que achei que fosse possível. Mas também havia uma tranquilidade nova, suave, como se eu tivesse finalmente feito o que meu coração implorava desde o primeiro dia em que ela sorriu pra mim.

E então… ela disse que sentia o mesmo.

O mundo simplesmente… parou.

Eu nunca vou conseguir explicar a sensação. Era alegria, era surpresa, era alívio, era gratidão — tudo ao mesmo tempo. Era como se alguém tivesse colocado luz em todos os cantos escuros que o medo tinha deixado. Naquele instante, quando ouvi a voz dela tremendo, confessando que também se apaixonou… eu entendi que aquilo ali era meu sonho ganhando forma. Era o tipo de amor que eu sempre quis, mas nunca achei que teria.

E quando eu a beijei…

Meu Deus.

Foi melhor do que tudo o que eu imaginei.

O beijo dela tinha verdade. Tinha ternura. Tinha desejo. Tinha um tipo de entrega que me fez jurar, ali mesmo, que eu jamais deixaria que ela se sentisse insegura um dia sequer. E sentir ela retribuindo… sentir as mãos dela em mim… a forma como o corpo dela respondeu… aquilo me tirou o ar, me deu um choque no peito, como se eu tivesse encontrado algo que eu estava procurando a vida inteira sem saber.

E quando ela disse “quero” ao meu pedido…

Eu senti vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

De agradecer a Deus.

De abraçá-la tão forte que ela entendesse — sem palavras — o tamanho do que eu sentia.

A única coisa que passava pela minha cabeça era:

Eu vou cuidar dela. Eu vou honrar isso. Eu vou fazer valer a pena. Eu não vou machucar essa mulher por nada nesse mundo.

Eu não vou deixá-la. Nunca.

Ela era tudo que eu queria.

Tudo que eu esperei.

E agora ela era minha — não como posse, mas como promessa, como caminho, como resposta.

E eu sabia, com uma certeza tão profunda que chegava a doer de tão bonita,

que aquele era o início da melhor parte da minha vida.

Pov Olivia

Nós tínhamos acabado de chegar na casa quando, ao sair do carro vi, pelo canto do olho, Elisa e Samuel indo em direção ao jardim.

Juntos.

Sozinhos.

Meu coração deu um pulo tão alto que quase fez barulho.

“Ah não… é agora. É AGORA.”

Sem pensar duas vezes — e já sabendo que isso não era nada elegante — esperei todos irem para dentro e segui alguns passos atrás, devagar, na ponta dos pés, me escondendo atrás da parede da varanda. Não era pra eu estar ali. Eu sabia. Deus é testemunha de que eu sabia. Mas eu também conhecia muito bem minha amiga para perceber quando um momento importante estava prestes a acontecer.

E aquele… meu Deus, aquele tinha CARA de momento decisivo.

Fiquei ali, coladinha na sombra, torcendo para ninguém aparecer e estragar tudo.

E então ouvi.

A voz do Samuel — trêmula, sincera, carregada de sentimentos que ele claramente guardou por tempo demais.

“Eu me apaixonei por você…”

Eu levei a mão à boca para não soltar um gritinho.

Senti meus olhos se encherem de lágrimas tão rápido que até me assustei.

Eu queria bater palmas, gritar, empurrar a Elisa no colo dele…

Mas fiquei parada. Imóvel.

Respirando baixinho.

E quando ouvi Elisa responder… meu coração virou pura manteiga derretida.

A voz dela vacilando, o jeito tímido, confuso e verdadeiro.

Era como assistir uma cena de filme de romance, daquele tipo que a gente espera ansioso — porque eu sempre, SEMPRE senti que havia algo ali, mesmo quando a própria Elisa não via.

Quando ela disse que sentia também… eu quase cai no chão.

“MEU DEUS, ELA ADMITIU!!!”

Foi meu pensamento.

Eu queria chorar, abraçar o mundo, agradecer por estar viva para ver aquilo.

Mas nada — nada — me preparou para o que veio em seguida.

O beijo.

Quando vi ele se aproximando, a mão na cintura dela, o olhar dos dois, aquele silêncio carregado de sentimento… senti um arrepio percorrer minhas costas. Era tão lindo, tão sincero, tão cheio de tudo aquilo que eles negaram o tempo todo… que meu peito ficou apertado de emoção.

E foi aí que percebi:

eu não tinha o direito de estar ali.

Aquilo era deles.

Deles e de mais ninguém.

Antes que o beijo acontecesse por completo, dei dois passos para trás, na ponta dos pés, respirando fundo para não fazer barulho nenhum. Eu estava sorrindo igual uma boba apaixonada — irônico, eu sei — e com o coração tão cheio que parecia que ia transbordar.

Saí devagarinho, pé ante pé, como quem foge de uma cena sagrada.

Era o momento deles, e eu jamais estragaria isso.

Quando já estava longe o suficiente, deixei escapar um suspiro emocionado, apoiando a mão no peito.

Minha amiga finalmente encontrou o que nem sabia que estava procurando.

E eu?

Eu não poderia estar mais feliz por ela..

Entrei dentro da casa ansiosa para quando ela me contaria todo o restante e o que sentiu.

Pov Elisa

Depois do beijo e do pedido, ficamos ali, naquele jardim que de repente parecia o lugar mais bonito do mundo. Eu não sabia quanto tempo tinha passado — minutos? horas? — mas o céu já começava a mudar de cor, denunciando o fim do dia.

Conversamos sobre tudo o que vivemos até ali, sobre cada pequeno detalhe que tínhamos guardado, cada medo, cada expectativa silenciosa. E, entre palavras, sorrisos e carícias que ainda eram novas para mim, mas tão acolhedoras, tão certas… me dei conta de uma coisa simples e quase engraçada:

Nós não tínhamos ido às cataratas.

— Sam, acho que perdemos o passeio… não íamos nas cataratas? — perguntei, rindo baixinho.

— Poxa, é mesmo. — ele riu, passando o polegar pela minha mão — Mas estar aqui com você valeu bem mais a pena. As cataratas estarão lá em outra oportunidade. Me abrir com você tinha que ser agora.

Sorri. Ele tinha razão. Doía até pensar que eu quase deixei esse momento escapar por causa do medo.

Estar ali, ao lado dele, valia incomparavelmente mais que qualquer passeio.

Agora… nós tínhamos um relacionamento.

E isso me trouxe à mente outra questão — uma que fez meu estômago dar um nó daqueles.

— Sam… como vamos contar sobre nós?

Ele se virou para mim com uma expressão indignada-fofa, sorrindo como se a resposta fosse óbvia.

— Ué, contando… do mesmo jeito que contamos um ao outro o que sentíamos.

É… ele estava certo. Eu que estava aqui, me embolando com ansiedade, como sempre. Ainda era tudo muito novo para mim:

contar que sentia algo, admitir que gostava de alguém, e agora… contar à família e aos amigos que eu tinha um namorado.

Espera.

Namorado.

Meu Deus, eu realmente tinha um namorado agora.

E ele era o Samuel.

Isso era… surreal. Incrível. Um pouco assustador. Mas principalmente… algo que aquecia meu peito de um jeito tão bom que dava vontade de rir sozinha.

Quanta coisa tinha acontecido em menos de dois dias.

Essa viagem tinha rendido muito mais do que eu imaginava.

— Tá certo… quer contar no jantar ou quer contar agora? — perguntei.

— Por mim, contaria agora… mas se quiser esperar até o jantar…

— Não, imagina o tanto de questionamentos que vão surgir dos nossos amigos? Prefiro jantar tranquilamente. — soltei uma gargalhada que estava presa desde que acordei naquele dia.

Ele riu também.

— Pois então, bora contar. — levantou-se e estendeu a mão para mim — Você chama Olivia e Nico, e eu chamo o restante pra sala. Pode ser?

Concordei com um aceno e seguimos cada um para um lado.

Fui até o quarto onde Olivia estava hospedada e bati na porta.

— Eles não estão em casa… — disse Susana, surgindo pelo corredor com uma animação tão típica dela — Foram às cataratas! Achei que você tinha ido junto. Não vi você nem Sam.

— Não… estávamos no jardim. — sorri, meio decepcionada — E eles nem nos procuraram…

— Eles já devem estar voltando, e logo é o jantar, minha querida. Vai descansar um pouco.

— Ok, Susie… Sam está os procurando também. Se o vir, avisa que estou no quarto e que o pessoal não está?

— Claro. — sorriu — Aviso sim.

Entrei no quarto com uma pontinha de frustração.

Eu queria contar logo.

Queria ver o brilho nos olhos dos nossos amigos.

Mas teria que esperar o jantar.

Respirei fundo, fui tomar um banho, troquei de roupa e deixei meu corpo relaxar um pouco.

Quando terminei, já dava pra ouvir no corredor o som de risadas, passos, conversas — o pessoal finalmente voltando do passeio.

Resolvi ficar ali até estar mais perto do horário do jantar.

O que me fez levantar de verdade foi o cheiro delicioso que vinha lá de baixo — impossível resistir.

Desci e encontrei Susie, Bert, Luke e Beca espalhados pela sala, conversando animadamente.

Logo chegaram Olivia, Nico e Sam, e fomos todos para a mesa.

Sentei entre Bert e Samuel, de frente para Luke e Beca.

Meu coração batia num ritmo descoordenado — eu sabia que em algum momento ele faria o anúncio. E eu também sabia que aquela mesa inteira, tão cheia de pessoas que amávamos, ficaria elétrica com comentários, risadas, provocações…

— Esse jantar está uma delícia, mãe… — começou Sam.

— Obrigada, meu filho — ela respondeu, orgulhosa.

E aí veio o golpe.

— Desculpem por interromper o jantar de vocês, mas eu tenho um anúncio a fazer…

Todos largaram os talheres ao mesmo tempo.

O som metálico ecoou como se tivesse sido ensaiado.

Meu Deus.

Que nervoso. Que ansiedade.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

Ele abriu um sorriso, limpou a garganta…

— Família, amigos, eu…

Eu prendi a respiração.

Pov Samuel

Caminhei pelo corredor procurando o pessoal, mas a casa estava silenciosa demais. Encontrei minha mãe saindo da cozinha, secando as mãos no avental, com aquele sorriso tranquilo de sempre.

— Mãe, cadê todo mundo? — perguntei, ainda com a cabeça meio nas nuvens depois de tudo o que tinha acontecido no jardim.

Ela riu baixinho.

— Foram às cataratas, meu filho. Achei que você e a Elisa tinham ido junto. Não vi vocês saírem.

Pisquei devagar, absorvendo a informação.

— Não… ficamos no jardim. Conversando.

“Trocando declarações, beijos e mudando completamente nossa vida”, pensei, mas não disse.

Ela arqueou uma sobrancelha como quem entende muito mais do que revelaria.

— Hum… entendi.

Meu rosto esquentou — era ridículo que, depois de adulto, eu ainda ficasse vermelho com essas coisas.

— E a Elisa? — perguntei, tentando parecer casual.

— Foi para o quarto descansar. Você também deveria. — disse ela, gentil. — O jantar já está quase pronto.

Assenti. Talvez eu realmente precisasse respirar um pouco. Porque, desde o beijo no jardim, era como se meu peito estivesse cheio demais — de alegria, alívio, desejo, medo, esperança… tudo misturado numa euforia que eu nunca tinha sentido antes.

Subi, tomei um banho mais longo do que o normal, tentando colocar os pensamentos em ordem — mas não tinha como. A lembrança dela dizendo que sentia o mesmo por mim voltava como uma onda quente, preenchendo tudo.

A forma como ela me olhou.

Como tremeu um pouco antes do beijo.

Como sorriu quando eu pedi para namorar com ela.

Como aceitou.

Eu me olhei no espelho enquanto abotoava a camisa: eu estava feliz. Visivelmente. Sem conseguir disfarçar.

Quando desci para a sala, acompanhado de Olivia e Nico, o restante estava já na sala. Meus olhos só focavam em uma coisa… ou melhor em uma pessoa… Elisa… ela estava ali radiante e animada, só essa visão aqueceu meu coração.

Nossos olhos se encontraram por um instante que pareceu mais longo do que realmente foi. Não podíamos contar nada ali, não ainda, mas meu coração bateu forte mesmo assim.

Fomos todos à mesa, rindo, conversando, como sempre… mas minhas mãos suavam. Eu sentia o momento se aproximando.

Ela sentou ao meu lado. A simples presença dela ao meu lado parecia acalmar e incendiar ao mesmo tempo.

— Esse jantar está uma delícia, mãe… — falei, tentando dar início ao que precisava vir.

— Obrigada, meu filho — respondeu Suzie, carinhosa.

Respirei fundo. Era agora.

— Desculpe interromper o jantar, mas… eu tenho um anúncio a fazer.

Todos pararam.

Talheres repousaram.

Olhares se levantaram.

Até o silêncio pareceu prender o ar.

Eu senti a Elisa ao meu lado ficar um pouco rígida — nervosa. Compartilhávamos o mesmo medo, a mesma ansiedade, mas também a mesma certeza.

Sorri e pigarreei.

— Família, amigos… eu…

Olhei para a Elisa por um breve segundo. Ela me encarava com os olhos grandes, brilhando, e aquilo me deu coragem.

— Eu e a Elisa estamos namorando.

O impacto foi instantâneo.

— O QUÊ?! — quase gritou a Olívia, já meio que levantando da cadeira.

— Finalmente! — exclamou Beca, batendo palmas.

— Já tava na hora, meu irmão, murmurou Luke, rindo.

— Eu sabia! Eu sempre soube! — comemorou Nico.

— Meu Deus, meus parabéns! — disse Suzie, com um sorriso tão largo que quase parecia que ela esperou a vida toda por isso.

Bert ergueu o copo:

— Brindaremos depois disso, com certeza.

E eu… eu só conseguia sorrir.

Um sorriso bobo.

Incontrolável. Pleno.

A Elisa estava vermelha, tentando esconder o rosto com as mãos. Isso só deixou a mesa ainda mais animada.

— Como assim começou? — perguntou Beca.

— Quem se declarou primeiro? — quis saber Olívia, olhos brilhando.

— Foi no passeio? No jardim? — especulou Luke.

— QUANDO FOI QUE ISSO ACONTECEU E EU NÃO VI? — reclamou Nico, indignado.

Eu dei risada, sentindo uma felicidade quase infantil.

— Calma, calma… depois a gente conta tudo. — falei.

Mas os olhares famintos por detalhes continuavam.

Só que, por dentro…

por dentro eu estava em paz.

Eu finalmente tinha dito.

Finalmente tinha tido coragem.

Finalmente estava com ela — de verdade, sem medos, sem suposições, sem “e se”.

E essa alegria vinha acompanhada de uma promessa silenciosa, que se instalou firme no meu peito enquanto eu observava a Elisa sorrindo, tímida, mas radiante:

Eu nunca vou machucar você.

Nunca vou te deixar.

Nunca vou te perder.

Eu esperei tanto por isso — por nós — e agora que aconteceu…

eu vou cuidar desse amor com tudo que eu sou.

O jantar seguiu leve, animado, cheio de risadas, perguntas e brincadeiras.

A Elisa apertava meu joelho discretamente por baixo da mesa, como quem ainda estava se acostumando com tudo aquilo — e, ao mesmo tempo, achando tudo lindo.

E eu… eu só sabia agradecer mentalmente por cada segundo.

Por ela. Por nós.

Por este começo.

E por a vida finalmente ter colocado a Elisa na minha.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.