No Regrets
3 Capítulo 3
Houve cinco segundos de silêncio e uma tonelada de tensão emanada no ambiente.
Benjamin e Enrico se encararam de maneira feroz.
HAHA, mas é muita audácia desse garoto. — Disse Enrico ainda segurando o braço de Melissa. — Quem é você para se intrometer no meu relacionamento com minha namorada? Me diz. Quem é você?
— Não interessa quem sou eu. Larga o braço dela e seja minimamente civilizado. — respondeu Benjamin na mesma altura de voz.
— fique longe de mim e da minha namorada, tá ouvindo? Ou...
— Ou? Ou o que? Vai, diz aí — Disse Benjamin de forma firme e cruzando os braços.
Nessa hora todos que estavam no refeitório se puseram em volta deles.
— Enrico, por favor. — Falou Melissa.
Enrico olhou para Melissa que o olhava assustada, olhou para a plateia que se formava a sua volta e soltou o braço dela, caindo em si.
— Me desculpa, Mel. Me perdoa, por favor
Melissa saiu correndo e Benjamin foi atrás dela. Enrico quase correu atrás dela também, mas Alice o segurou.
— Você é um babaca, Enrico. Vai acabar ficando sozinho, desse jeito. Melissa merece coisa melhor. — Disse Alice, deixando Enrico sozinho.
Não era a primeira vez que Enrico fazia Melissa passar por uma situação constrangedora. Ele sempre tinha ataques de ciúmes quando via Melissa conversando com algum menino, mas nunca tinha sido tão tenso como dessa vez.
— Melissa, espera! — Disse Benjamin, correndo para alcança-la.
Ela continuou correndo em direção ao ginásio, ignorando Benjamin e com lágrimas nos olhos.
Quando ela chegou no vestiário feminino, entrou o mais rápido que pôde e tentou fechar a porta, mas Benjamin impediu que ela fechasse colocando sua pena na abertura da porta.
— Me deixa, Benjamin. Me deixa um minuto só, eu estou bem. — Disse Melissa lutando contra a voz embargada.
— Melissa, eu sei que nós dois não somos mais o que um dia fomos. Sei que você se sente incomodada com minha presença, e sinceramente eu até entendo... Sei que hoje somos duas pessoas completamente diferentes, e até podemos nos considerar estranhos. Mas por favor, não me peça pra te deixar sozinha nesse vestiário agora, porque eu não serei capaz de fazer isso. Me deixa entrar, por favor.
Melissa não conseguiu mais impedir a entrada dele, e saiu de perto da porta.
Ela andou pelo vestiário e sentou-se no chão, do outro lado da sala.
Benjamin a acompanhou em silêncio. Eles ficaram um tempo assim, sentados no chão, sem falar nada.
O celular de Melissa tocou. Era uma mensagem de Alice:
Onde você está? Estou te procurando.
Antes que ela pudesse responder, o celular começou a tocar. Era Enrico ligando.
— Você não vai atender esse babaca miserável não, né?
Melissa ficou em silêncio e desligou o celular.
— Melissa, me responda uma coisa. Por que diabos você está com esse idiota? — Perguntou Benjamin sentindo seu sangue fervilhar em suas veias.
Melissa tapou os olhos e respirou profundo.
— Não sei, Benjamin. É difícil explicar.
Ele se virou totalmente para ela e observou cada detalhe do seu rosto.
Ela era tão linda. O seu rosto era perfeito, os traços só melhoraram com o passar do tempo. Sua pele, seus olhos, seu nariz e sua boca. Ah, e que boca perfeita. Parecia que tinha sido desenhada à mão e ele pensou naquele momento como deveria ser beijá-la. Tinha lhe roubado um único beijo pouco antes de partir para Londres, e desejou fazê-lo de novo ali, mas conteve seu impulso.
— Melissa, nenhuma mulher merece estar ao lado de um cara tão, tão babaca. O pouco que eu vi dele já me fez perceber que ele é péssimo pra você, e que você merece coisa bem melhor.
Ela ficou calada e sem olhar para ele.
— Quando ele pegou no seu braço daquele jeito eu quase morri de ódio. Eu não sei como consegui me controlar, só sei que na próxima vez que eu o ver, não serei nenhum pouco responsável pelos meus atos.
— Benjamin, você não vai fazer nada. — Disse Melissa o olhando nos olhos pela primeira vez.
— Por que não? Você tem medo que eu o arrebente?
— Não, não é isso...
— Me diga então, você o ama?
Melissa ficou em silêncio e olhou mais uma vez nos olhos de Benjamin, dessa vez de forma intensa.
— Não precisa nem responder, eu já entendi. — disse ele.
— Benjamin, por que você está fazendo isso? Não tem nem 24 horas que você chegou ao Brasil e você acha que me conhece? Você não sabe nada sobre mim, então não venha fazer especulações sobre o que eu sinto, ou sobre o que eu acho, porque você não me conhece. Como você falou, nós somos estranhos, completos desconhecidos.
— Tem razão, Melissa. Eu não sei quem você se tornou nesses últimos anos. Nossos caminhos tomaram percursos distantes um do outro, e eu não sei nada sobre essa nova Melissa, mas eu conheço a antiga, a Mel. A minha Mel... E eu quero o melhor pra você...
— Mas você nem sabe o que é melhor pra você, Benjamin, ou você acha que eu não sei porque sua vovozinha despachou você, um Zé droguinha, de volta pro Brasil? Antes de vir aqui tentar salvar a princesa indefesa, olhe para si mesmo e tente se salvar.
Benjamin ficou surpreso com a frieza de Melissa, e resolveu ficar calado.
— Me desculpa, você tem razão, e eu não vou falar mais nada. — Disse ele se pondo de pé. — Vou te deixar sozinha como você queria. — Ele foi andando em direção a porta, mas antes que ele saísse, Melissa falou:
— Benjamin. Espera. — Ela se colocou de pé e deu dois passos à frente. — Me desculpa pela maneira como falei, eu não quis te ofender. Já está bastante claro pra mim o que eu tenho que fazer. Meu relacionamento com Enrico já não vai bem há muito tempo, mas eu meio que me acostumei com isso, sabe? parece meio tóxico mas é assim que eu me sinto... sei que me faz mal mas não consigo largar dele
— Mel.. Quer dizer, Melissa, eu cheguei ontem ao Brasil e me deparei com tudo novo. E isso é óbvio, né? eu mudei, você mudou, nós crescemos e passamos por várias coisas na vida. O que eu te disse hoje eu falaria para qualquer pessoa, porque ninguém merece viver em um relacionamento que te faz se sentir assim. Eu não acho que sei muito sobre o amor, mas o pouco que eu sei é que ele tem que ser vivido de uma maneira leve, e você merece viver isso, um amor leve que te deixa em paz, e que não te apronta uma ceninha daquelas. — disse Benjamin dando um passo em direção a ela.
— Obrigada de verdade pelo que você fez... Eu fiquei com medo, sabe? quando você me defendeu eu pensei que vocês iriam brigar ali e que ia ser uma briga feia, porque eu sei que você não foge de briga e o Enrico tem um gênio muito forte e ele estoura fácil. Ah, e eu não te contei, mas ele é filho do diretor desse colégio.
— Que bom que eu não tenho medo de diretorzinho, nem muito menos do babaca do filhinho dele.
— Pois deveria. — Falou uma voz que surgiu da entrada do vestiário surpreendendo Melissa e Benjamin.
— Enrico, o que você faz aqui???? Como você me achou?
— Não importa como eu te achei, e eu é quem te pergunto, Melissa de Lucca. O que você faz aqui sozinha com esse filho da puta?
Benjamin riu alto.
— Pode xingar minha mãe a vontade, nem ligo. Mas sabe que ouvir sua voz já tá começando a me deixa extremamente irritado. — Disse Benjamin em tom de ironia se aproximando de Enrico.
— Vamos embora, Melissa. — Disse Enrico se virando e ignorando Benjamin.
— Ela não vai!
— Benjamin, nos deixe a sós. Por favor – disse Melissa.
— É sério? É sério isso? Depois do que esse babaca te fez passar?
— Benjamin, por favor.
— Ok, Melissa. — Benjamin fez o que Melissa pediu e saiu do vestiário, passando bruscamente por Enrico.
— Enrico a gente tem que conversar. E não vai ser uma conversa longa, nem se preocupe. — falou Melissa.
— Mel, me deixa explicar. Me desculpa, eu sei que passei de todos os limites, mas é porque eu me senti inseguro com esse tal Benjamin. Eu sei quem ele é e o que ele representou e ainda representa pra você Eu descobri sobre sua história com ele.
Melissa ficou surpresa e falou:
— Eu e Benjamin tivemos nossa história na infância, e só! Nada, absolutamente nada justifica o seus ciúmes e a forma como você agiu no refeitório diante de todo mundo. Enrico, por conta dessas suas atitudes machistas as coisas entre a gente vão acabar agora.
— Melissa, não.. Por favor!
— E antes que você venha dizer que é por culpa do Benjamin, ou qualquer outra PARANÓIA sua, eu vou logo te dizer e espero que fique bem claro: O único responsável por isso é você mesmo.
Melissa disse firmemente e saiu andando.
...
— Amiga, onde você estava???? Estou há mó tempão te procurando – Disse Alice assim que viu Melissa no corredor.
— Alice, eu posso te falar depois? Eu só quero ir pra casa agora.
— Claro, amiga, posso ir na sua casa mais tarde? Assim você me conta tudo
— Ok. Agora eu vou lá, aproveitar que o ônibus está saindo. Beijos, até mais tarde. — Disse Melissa dando um abraço rápido em Alice e saindo da escola.
Melissa foi durante todo o caminho para casa pensando em tudo que tinha acontecido naquela manhã. Parte do mundo dela desabou, Benjamin tinha chegado e em pouco tempo já tinha mudado muitas coisas dentro dela. Ela não conseguia acreditar em toda humilhação que Enrico a tinha feito passar diante de toda a escola. Ele já havia tido inúmeras crises de ciúmes, mas para agir de forma tão desrespeitosa como aquela nunca tinha acontecido, e aquilo com certeza foi o auge para ela, e ainda assim ela mal podia acreditar que tinha acabado de terminar seu relacionamento com Enrico. Uma lágrima tímida desceu pela maçã do seu rosto e ela rapidamente enxugou. Sabia que terminar tudo com ele era a coisa mais certa a se fazer, se não tivesse acontecido naquele momento iria acontecer em outro talvez até pior. Pensar que o seu amigo fofo e carinhoso tinha se transformado em um ser humano tão detestável e difícil de lidar lhe causava uma tristeza. Naquele momento ela só queria se deitar em sua cama e dormir.
Quando ela chegou em casa, tomou um banho e vestiu uma calça jogger xadrez, com um cropped branco de mangas longas e um vans preto. O legal de trabalhar para Beatriz é que ela deixava Melissa bastante à vontade quanto a suas roupas. Ela se olhou no espelho e não gostou da sua aparência, então resolveu passar um pouco de corretivo nos olhos, pó, blush, rímel e lip tint.
— Chegou em casa cedo, filha. Tá tudo bem? – perguntou o pai de Melissa, Roberto.
— Oi, pai. Está sim. É que eu não tive aula no último horário e resolvi vim logo. — Falou Melissa tentando parecer convincente.
— Hm. Está tudo bem mesmo, Mel? Estou te achando meio tristinha.
— Não, paizinho. Só estou com muito sono, queria poder dormir, mas o dever me chama. Estou indo lá. — Disse Melissa bocejando. Ela deu um abraço e um beijo no rosto do pai e saiu em direção a casa principal.
Ela passou pela área externa da casa e entrou pela cozinha. Lá estava Magda e Mazé preparando o almoço da família Castelli.
— Ôxe menina! O que tais fazendo aqui uma hora dessas? — Disse Mazé com seu sotaque pernambucano bem característico.
Melissa se preparou para ser mais convincente. Sabia que enrolar sua mãe não era tarefa fácil.
— É que... O professor liberou cedo, sabe? Aí aproveitei e vim logo.
— E por que o Benjamin não veio com você? Vocês não saíram juntos hoje? — Perguntou Magda sem acreditar muito na filha.
— Ah, o Benjamin resolveu ficar lá, sabe? Se enturmando. A Bia já está em casa, mãe?
— Sim, e ela está dormindo agora.
— E cadê o resto da família?
— O resto da criançada ainda está na escola, Beatriz foi a uma consulta médica e Seu Henri saiu cedinho, acho que nem vem almoçar em casa. Pouco tempo depois que você e Benjamin saíram eles tiveram uma briga feia. — Magda falou a última parte sussurrando, mesmo sabendo que Mazé era de confiança e que seus patrões não estavam em casa.
— Ihhhhh
— Ei, mas me conta, como foi a ida com Benjamin, de ônibus?
— Ah, mãe, foi normal. Nós até conversamos um pouquinho.
— Jura?? Fico feliz, Mel. Eu sonhava tanto com vocês juntos um dia, me dá até esperança de tê-lo com genro “de novo”. — Magda fez as aspas com os dedos.
— Haha, vai sonhando dona Magda.
— Brincadeira, Mel. Eu sei que você está com o Enrico. Apesar de que eu não acho que ele seja o cara certo pra você. Ele é todo esquisito, não acha Mazé?
— Rapaz, eu não queria falar nada não, mas já que tu perguntasse minha opinião eu vou dizer. Eu acho ele muito é esquisito, Mel. E eu acho que você combinaria mais com o Benjamin, mas não vá ficar com raiva de mim não, mulher, é só minha opinião. — Disse Mazé dando uma risadinha no final.
Melissa ficou não muito surpresa com os comentários, e resolveu falar logo o que tinha acontecido, escondendo alguns detalhes que envolviam Benjamin e de uma maneira bem descontraída.
— Ah... Então... Eu terminei com o Enrico hoje. Mas e aí, qual o cardápio de hoje? — Disse Melissa abrindo a geladeira para pegar uma maçã.
— Melissa?? Você está bem, minha filha? O que houve?? Porque você terminou? O que ele fez? AHHH foi por isso que você chegou cedo hoje! — Disse Magda chegando perto de Melissa com um ar de muita preocupação.
— Calma, calma, mãe. Eu estou bem, está tudo bem. E eu terminei porque como já estava claro pra todo mundo, a gente não estava mais dando certo. E não precisa se preocupar porque estou bem. Agora eu vou ver como está a Bia, depois falo mais sobre isso.
Melissa saiu da cozinha terminando de comer sua maçã.
Magda e Mazé ficaram na cozinha se olhando e chocadas com a reação tranquila de Melissa.
— Relaxe viu, Magda? Esses jovens de hoje são assim mesmo, num instante superam um namoro e já partem pra outra. Assim é que é bom, pelo menos não sofre né?
Magda não falou mais nada e ficou pensativa. Ela conhecia bem sua filha, sabia que mesmo que ela bancasse a durona, continuava sendo sua menininha frágil e cheia de sentimentos.
...
Benjamin não assistiu as outras aulas. Procurou por Melissa, e quando soube que ela tinha ido embora, pegou o ônibus e também veio pra casa. Assim que abriu a porta de casa deu de cara com Melissa na sala indo em direção das escadas.
— Oi, como você está?
— Bem, eu acho.
— Vejo que você não está com nenhum olho roxo, fico feliz por isso.
— E eu lá sou garoto de voltar com olho roxo pra casa? No máximo volto com um nariz quebrado.
Melissa riu e as borboletas no estômago de Benjamin pularam.
Benjamin se aproximou mais dela e falou olhando em seus olhos:
— Você fica linda sorrindo. Deveria sorrir mais
Melissa ruborizou como de costume e as borboletas ficaram mais violentas.
— Obrigada mais uma vez, não sei como te agradecer.
— Pode me agradecer ficando longe de babacas.
— Acho que posso fazer isso. Eu terminei com ele.
— Sério? Espero que você fique bem. Bom, que tal um sorvete, um filme, uma tarde juntos, pra esquecer esse mané?
— Benjamin...
— Só pensa nisso, não precisa me dizer nada agora. Só pense, por favor. O que você vai fazer hoje à tarde?
— Eu trabalho aqui, esqueceu? Eu cuido da Bianca. Inclusive tenho que ir ver como ela está agora.
— Ah, bom, não quero mais te atrapalhar, por favor. — Ele falou apontando a escada.
Melissa subiu a escada, e quando estava quase no topo Benjamin a chamou.
— Melissa?
— Oi
— Sabe o que falei sobre ficar longe de babacas?
— Sim
— Prometo que a partir de hoje não serei mais um babaca, assim serei digno de estar com você.
Melissa riu e foi embora. Ela passou o resto do dia pensando em tudo que tinha acontecido naquela manhã. Enrico não parou de ligar e durante boa parte do seu dia ela teve que deixar seu celular desligado. Sabia que ele não aceitaria o fim do namoro de forma rápida, Enrico não aceitava um não como resposta, ele era muito insistente, mas ela não se arrependeu de ter terminado em nenhum momento, pelo contrário, se sentia muito aliviada, parecia que tinha tirado um peso enorme das suas costas. Naquele momento, Melissa decidiu que só iria se concentrar em si mesma e eu seus estudos.
Mal sabia ela que o futuro lhe aguardava com inúmeras surpresas...
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