No Quarto ao Lado
2 Capítulo 02
Notas iniciais
“Só um minuto.” Grimmjow adentrou o apartamento e entrou em um cômodo, que provavelmente era seu quarto. Ichigo aproveitou para dar uma olhada no apartamento vizinho. A sala tinha vários tons de cinza acompanhados de preto e branco. O sofá em couro negro parecia ser um ótimo local para uns... Melhor não comentar. Uma decoração bem minimalista tomava conta da sala, e Ichigo conseguia ver a cozinha de relance. Um belo apartamento.
“Ei, vamos?” Grimmjow apareceu novamente, agora com um suéter cinza e o cabelo molhado em misto de alguns fios secos. Os óculos de armação fina com gotículas de água tornava a figura do vizinho de cabelos azuis ainda mais atraente.
“Vamos.” Ichigo tomou um pequeno susto. Eles não poderiam demorar muito, afinal a viagem seria... Até a casa do lado.
“Desculpe por não te dar muito luxo no momento. Eu me mudei hoje.” Ichigo entrou no apartamento e pegou os chinelos de visita para Grimmjow. O último se sentou a frente da pequena mesa, na qual Ichigo colocou dois copos de refrigerante e duas porções de lámen. Pegou hashis e ofereceu a Grimmjow. Logo se sentou com o vizinho.
Um belo vizinho de olhos azuis.
“Então... Posso te perguntar algumas coisas, Grimmjow-san?”
“Fique a vontade.” A voz baixa e grossa de Grimmjow invadiu os tímpanos do ruivo.
“Bom... Primeiramente, como você sabe o meu nome? E a faculdade que eu curso?” Ichigo ficou encabulado novamente. Era desconfortável perguntar qualquer coisa a um homem que acabara de conhecer. Colocou um pouco de lámen na boca enquanto aguardava as respostas.
“Eu estudo na mesma faculdade que você, só que de manhã. Já ouvi falarem muito sobre você, Kurosaki-san. Dizem que você é um dos melhores alunos de arquitetura lá.” Grimmjow também colocou um pouco de macarrão na boca.
“Eu não sabia. Obrigado... ?” Ichigo ficou levemente envergonhado. “Agora eu quero saber de você.” O ruivo continuava encabulado.
“Bom... O meu nome é Grimmjow Jaegerjaques. Eu completei 23 anos há pouco tempo e estou terminando a faculdade de jornalismo. Eu trabalho no jornal da cidade como tradutor e colunista, por enquanto. Sou mestiço de uma mãe japonesa com um pai espanhol e... Eu gosto do meu cabelo azul. Só.” Grimmjow tomou um pouco de coca cola no fim, logo sorriu levemente. Ichigo olhava fascinado.
“Cara... Que incrível. Quais línguas você sabe falar?”
“Espanhol, japonês e inglês.”
“Que inveja.” Ichigo soltou um riso.
“Que nada. Até hoje eu arranho no japonês.”
“Mas você fala muito bem... Quando começou a estudar?”
“Eu ando tendo aulas desde os 16 anos. Decidi que iria vir morar com minha mãe e que iria cursar uma faculdade. Quando eu completei 18 anos, me mudei para a casa dos meus pais aqui. Aproveitei também para aprimorar meu inglês.”
“Incrível.” Ichigo não tinha muitas palavras no momento. O homem a sua frente seria no mínimo, o super homem. Ou até mais do que isso. “Outra coisa, sua mãe ainda está aqui no Japão?”
“Não. Ela voltou pra Espanha só dois meses depois. Depois disso, comecei a me virar.”
“Se você morava com sua mãe antes... Então há quanto tempo você mora nesse apartamento?” Ichigo indagou com curiosidade.
“Pouco mais de um ano.”
“Interessante.” Ichigo deu um sorriso fino.
“Agora eu quero saber de você.” Grimmjow colocou mais lámen na boca após finalizar a frase.
“Então... Meu nome é Kurosaki Ichigo. Eu tenho 19 anos, duas irmãs que moram com o meu pai, arranho um pouco de karatê, trabalho em um posto de gasolina e curso arquitetura... Só?” Ichigo fez bico no fim.
“Arquitetura é algo legal. Mas nunca gostei de matemática.”
“E eu nunca fui bem no inglês.” Ambos riram.
“Agora quem está com inveja sou eu.” Grimmjow ajeitou os óculos e mostrou os dentes em um sorriso. “Não sei desenhar nem um boneco palito.”
“Mas quem dera se eu pudesse falar mais do que um ‘thank you’.” Ichigo arriscou um obrigado, mas o som saiu completamente ‘orientalizado’. Grimmjow soltou um riso.
“Algum dia desses vamos nos dar aulas.” Grimmjow tomou mais coca cola.
“Concordo inteiramente.” Ichigo comeu mais um pouco de lámen.
“E espanhol, você sabe algo?” Grimmjow perguntou curioso.
“Absolutamente nada.” Ichigo soltou uma risada, levando o vizinho a fazer o mesmo.
—
O pequeno jantar passou voando. As conversas tiveram vários temas, tais como o preconceito sofrido pelo espanhol quando chegou ao Japão até as surras que Ichigo levou da melhor amiga Tatsuki quando mais jovem. Do mesmo jeito que Ichigo não conseguia pensar como um cara tão incrível pôde sofrer algum tipo de discriminação, Grimmjow não enxergava Ichigo apanhando de uma garota, com sua estrutura física atual. Os dois eram muito parecidos, porém suas diferenças os tornavam ainda mais curiosos e aptos a conhecerem um ao outro. Risadas e olhares de admiração deram o ar da graça aos montes, vindos principalmente de Ichigo. Grimmjow era um homem realmente incrível. Quando terminasse a faculdade de jornalismo, começaria psicologia. Incrível e inteligente. E carismático. E bonito. E sexy. Era demais, não?
—
“Kurosaki-san, com licença.” Grimmjow pegou os copos de lámen e os de coca cola, logo colocando na pia. Subiu as mangas do suéter e fez menção de abrir a torneira, mas foi interrompido por Ichigo.
“Não precisa, Grimmjow-san.” Tem alguma palavra pior do que encabulado para definir o estado de Ichigo? Caso Grimmjow lavasse a louça, o ruivo ficaria ainda mais sem graça.
“Você me convidou para jantar, é o mínimo que posso fazer.”
“Mas foi um convite meu. Não se sinta obrigado a nada, por favor.” Ichigo fez questão de pegar os copos da mão de Grimmjow, chegando bem perto de seu corpo. Encostando suas mãos no pulso de Grimmjow, acabou aproximando o corpo demais e levou de brinde uma amostra grátis do aroma amadeirado no pescoço do mesmo. Perigosamente tentador.
Grimmjow apenas ignorou Ichigo tentando impedi-lo de lavar a louça e lavou os dois copos.
“Não precisava, Grimmjow-san...” Ichigo foi em busca de uma toalha para Grimmjow secar as mãos, razoavelmente desapontado. Além de desapontado, encabulado. Encabulado quatro, cinco, seis vezes. Até a louça Grimmjow conseguia lavar com perfeição. Será que ele existia de verdade e o homem com cabelo azul não era uma miragem criada pela animação de morar em local novo?
Grimmjow já ia embora; porém Ichigo o convenceu a ficar um pouco mais. A presença do vizinho estranhamente, lhe fazia bem.
“Ei, Grimmjow-san... Desculpe te perguntar, mas como você conseguiu trabalho com o cabelo azul?” O ruivo soltou uma risadinha.
“Isso é uma pergunta interessante. Eu pinto o cabelo com spray preto e até hoje ninguém sabe que faço isso, pelo menos até o momento em que pegam no meu cabelo.” Grimmjow soltou uma risada baixa. Corajoso. Enfrentar regras tão rígidas como as do Japão era um desafio de mestre.
“Você enlouqueceu, só pode.” Ichigo soltou um riso.
“Viver normalmente nunca foi atrativo.” Grimmjow arrumou a armação dos óculos e sorriu.
“Bom, acho que eu já vou, Kurosaki-san. Obrigado pelo jantar.”
“Por nada, Grimmjow-san. Você é muito bem vindo aqui. Volte quando quiser.” Ichigo acompanhou Grimmjow até sua casa, demasiadamente ‘longe’, com apenas dois metros e meio de distância a cada porta de entrada.
“Obrigado. Boa noite, Kurosaki-san.” Grimmjow entrou no seu apartamento e Ichigo voltou para seu lar.
Ichigo se escorou na porta soltando um suspiro alto. Estava se sentindo demasiado estranho. Seu vizinho lhe intrigava tanto... Ele estava disposto a conhecer cada vez mais daquele homem de cabelo azul chamado Grimmjow Jaegerjaques.
—
Segunda feira, 07h30.
Ichigo acordou no horário certo para ir trabalhar no posto de gasolina. Da cama, foi direto para o chuveiro quente para relaxar as costas, razoavelmente doloridas com as três noites dormidas no futon. No dia anterior, foi à casa de seu pai buscar alguns objetos para deixar seu novo lar menos monocromático.
Grimmjow não apareceu naquele domingo.
Ichigo ficou pensativo por dois motivos. Primeiramente, pensava no porque do vizinho não ter aparecido ontem. Seguido de um sentimento de culpa: estava pensando no seu vizinho enquanto tomava banho. Céus. Era demais, não?
Ichigo tomou uma xícara de chá e trancou as portas do apartamento. Cumprimentou Yoshida, tão sonolento quanto ele e foi trabalhar. Não encontrou Grimmjow. Provavelmente seu vizinho tinha saído de casa antes para pegar o ônibus da faculdade no horário certo. Ou então ele poderia ter um veículo, que era a ideia mais plausível. Ichigo acordou cedo e 25 minutos eram uma caminhada razoável. Mas o ruivo já se arrastava no chão de preguiça. Gostava do cheiro da gasolina até começar a trabalhar com ela. Pelo menos ficava parado grande parte do tempo e dava uma espiada em seus livros de arquitetura sempre que arranjava uma brecha. Já Grimmjow, na faculdade, assistia a suas últimas aulas de jornalismo com entusiasmo e satisfação.
14h44.
Ichigo se preparava para ir embora do trabalho. Meio período não pagava tão bem, mas já era o suficiente por enquanto. O ruivo tinha uma meia bolsa, tendo como resultado sua mensalidade reduzida à metade. Não havia dúvidas de que Ichigo tornou-se alguém mais esforçado e responsável. Sua adolescência foi ligeiramente conturbada, porém contribuiu para a boa pessoa que se tornou nos dias de hoje. Porém nem tudo são rosas. Se antes, Ichigo chamava briga por onde passava, hoje prefere dormir e deixar o mundo acabar não dando a mínima. Oh, responsabilidades. Trazendo o cansaço para uma alma tão jovem!
Ichigo chegou em casa perto das 15 horas. Teria faculdade daqui a algumas horas e precisava descansar. Queria ver Grimmjow. Queria estranhamente ver seu vizinho. Queria perguntar o que o belo moço de cabelos azuis achava sobre uma vida resumida em trabalhar, dormir, comer, estudar. E após almoçar o único copo de lámen que sobrou do sábado, Ichigo foi tirar um cochilo. E sonhou com o vizinho. Estava curioso em saber sobre a vida sexual de Grimmjow. Talvez o homem daquela aquela aparência comportada fosse um cafetão dono de uma série de prostitutas, tivesse um bordel em seu nome e quando lhe apetecia, traficava algumas moças para o seu segundo bordel na Espanha.
E um riso habitou o rosto inconsciente de Ichigo. Sonhou alto demais; era hora de parar.
E a vida sexual de Ichigo, onde estava? Inexistente já fazia quatro meses. Após terminar com a última namorada, a palavra ‘sexo’ não se encontrava mais no seu dicionário. Mas... Como seria ter sexo com Grimmjow?
O problema de Ichigo era sono.
E tirando um certo homem de cabelo e olhos azuis de seus pensamentos, Ichigo voltou a ter um sono... Normal. Se bem que a normalidade era algo que iria faltar na sua vida a partir do momento em que se mudou.
Era algo atrativo. Estranhamente atrativo.
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