No Other

28 Capítulo 28 - Video Games


Notas iniciais
Hola, personas! Então, eu até tinha pensado em postar mais cedo hoje, but acontece que eu tinha que ver Olga pra aula de história amanhã, então fui ver ne? :p Enfim, o filme é bom ^~^ Meu Caquinho Ciocler de Carlos Prestes < 3 Enfim, boa leitura :3 Video Games, da Lana Del Rey : https://www.youtube.com/watch?v=cE6wxDqdOV0

Assim que o padre me indicou o microfone comecei a tremer. Todos na igreja me encaravam. Olhei a bíblia aberta na frente do microfone. Estava aberta em um salmo, mas não li.

Meu despertador tocou às 6 da manhã. Vesti meu vestido de renda preto e um sapato de salto que minha mãe me dera, preto também. Penteei o cabelo e passei maquiagem, um rímel e um batom marrom escuro.

Suspirei, de pé na frente do espelho. Bartle uma vez me dissera, naquelas conversas nos intervalos da educação física, que gostava quando eu me maquiava. Eu sempre respondia que era implicância da minha mãe e ele só ria.

O pai de Shaun foi responsável pelas despesas de Bartle. Era ele quem custeava a missa seguida pelo memorial da cidade. Por todas as mortes da cidade. A catedral estava cheia, por isso.

Achei Shaun sentado no meio de um dos bancos, usando um terno azul marinho. Parecia nervoso, ansioso. No dia do anúncio no ginásio, ele me ligou pouco depois de Duran me deixar em casa.Tinha decidido que tinha que pronunciar algo pelo amigo.

– Ei. – Me sentei ao seu lado, ouvindo-o murmurar em resposta. Nunca tinha visto Shaun tão ansioso. Ele chegava a ficar balançando a perna.

Foi uma missa mais lenta que o normal. O corpo de Bartle chegou, com outros dois desconhecidos para mim. Só conhecia o ocupante do caixão branco com entalhes dourados.

– Alguém entre os presentes gostaria de dizer algo por estas almas aqui presentes? – O padre esperava uma resposta, mas ninguém parecia conseguir se mover. Nem Shaun. Ele mal parecia respirar. Fiquei de pé, antes que o padre voltasse à missa.

Foi assim, desse jeito simples, que acabei de frente para toda a catedral, estudando os vidrais sobre as portas. O que eu ia falar? Eu nem conhecia todos que estavam ali para serem enterrados. Desisti de pensar e falei.

– Não conhecia muito bem Bartle, a gente só trocava uma ideia durante as aulas de educação física. Não conhecia os outros que estão aqui. Sobre Bartle, no entanto, eu sei que ele tem um irmão que ele amava muito. James.

“Eu sei que muita gente sente falta dele. Muito mais do que eu jamais vou sentir. É por essas pessoas que eu subi aqui. Por mim também. Eu quero espalhar isso, deixar essa ideia clara de uma vez por todas. Essas pessoas não morreram. Ainda não. Eles estão aqui conosco, assim como todos os outros que já perdemos.”

Vi a senhora Jackson, a mãe da garotinha do parque. Talvez a filha também fosse homenageada no memorial. Me lembrei de um pedido que ela me fizera.

“Uma pessoa só morre de fato quando a última pessoa que se lembra dela morre, ou se esquece. Então, não os esqueçam. Assim como eu não esqueci.”

O padre concordava com a cabeça, lentamente. Respirei fundo e continuei, pegando o celular na bolsinha.

– Bartle tinha vergonha de assumir, mas ele amava Lana Del Rey. E a música favorita dele era Video Games. Pode não ser o melhor momento, mas... – Me afastei do microfone, me abaixando perto de uma das caixas de som e conectei o celular a um cabo deixado ali. – Minha última mensagem.

Video Games encheu a catedral. O padre deu um sorrisinho fraco. Vi todos em silêncio com a música. O padre voltou a falar, encerrando a missa. Voltaram e pegaram os caixões. Enquanto as pessoas iam saindo, eu fitava o celular.

– Foram belas palavras, minha querida. – Senti um tapinha nas costas. O padre sorria fraco.

– Benção. – Abaixei um pouco a cabeça, sentindo-o estender a mão sobre meus cabelos e responder.

– Deus te abençoe, filha. – Sem dizer mais nada, ele desceu do altar e foi atrás da procissão. Suspirei, me ajoelhando para desligar o celular.

– Achava que era...que era Ride. – Shaun estava parado no seu lugar, tremendo. Fiquei de pé devagar. Ele tinha o nariz vermelho, os olhos inchados. – Obrigado por...

– Shaun... – Desci do altar e caminhei até ele e me sentando ao seu lado.

– Eu não posso perguntar mais...qual ele preferia. – Ele encarava o altar, como se esperasse eu dizer algo. Não o fiz. Deitei a cabeça no ombro dele, olhando para frente.

– Acho mesmo que era Video Games. – Falei, sentindo-o tremer sob minha cabeça. Shaun abraçou meus ombros, apertando-os e soluçando alto.

Não sei quanto tempo ficamos ali. Não chorei. Não me senti no direito de chorar. Minha tristeza não era nada perto da de Shaun. O meu celular continuava tocando.

– Shaun, temos que ir. – Falei, quando ele parou de soluçar. Ele me soltou, secando o rosto. Parecia envergonhado, não olhava para mim. Sorri de leve e fiquei de pé, indo buscar o celular.

– Obrigado. – Ele estava de pé, no meio do corredor. Fora os olhos inchados, ele mal parecia ter chorado. – Por falar por mim.

– Gosto de achar que faria o mesmo. – Naquele salto, eu ficava da altura dele. Coloquei o cabelo atrás da orelha. – De nada.

– Eu tenho que ir. – Ele suspirou. – Você vem?

– Num instante. Pode ir. – Sentei de novo, olhando as pinturas no teto.

– Ok. Se cuida. – Ele deu um beijo na minha bochecha e saiu andando, as mãos nos bolsos. Sorri em resposta, vendo-o procurar por algo no bolso do paletó.

Olhei o crucifixo no altar, preso na parede. As imagens de anjos pareciam tristes. Aquilo era o que me incomodava na catedral. O rosto de sofrimento por todos os lados.

Fiquei de pé e fiz o sinal da cruz me virando. Quase trombei em Duran. Ele usava um terno preto, muito lindo. Nem tinha o visto na hora que cheguei.

– É a primeira vez que alguém me faz chorar com “algumas palavras.” – Ele coçou o nariz. – O que houve?

– Sei lá, o que eu disse. Pode até parecer meio clichê, mas parece que ele está mesmo aqui. – Dei de ombros. – Bart aqui. Sentado ali. As poucas vezes que eu vim com minha mãe, ele sempre estava esperando pra se confessar.

Eu tinha apontado para um dos bancos ao fundo, onde ele geralmente esperava. Parecia que ele esperava naquele momento.

– Então temos que ir. Pra ele poder se confessar. – Duran segurou meus ombros por trás de mim. – Vamos?

– Uhum. – Puxei as mãos dele para baixo dos meus braços, colocando-as na minha cintura. Ele me abraçava por trás.

– Eu te deixo em casa. Vem. – Pegou minha mão depois de um beijo na minha bochecha e me levou para fora da catedral. Segui-o, cantarolando Video Games.

“It’s true, it’s true, it’s all for you

Everything I do

I tell you all the time

Heaven is a place on Earth with you

Tell me all the things you wanna do...”

Duran apertou minha mão de leve enquanto caminhávamos. Não me surpreendi em vê-lo chorando em silêncio. Eu mesma chorava. Sorri para ele.

Notas finais
Ficou menor que o usual, mas espero que tenham gostado :) Até mais :D