No Other
22 Capítulo 22 - Draw Your Swords
Notas iniciais
Nunca tinha dormido tanto. Só acordei às 3 e meia da manhã do sábado. Alguma coisa me parecia estranha, fora do lugar. Me levantei e peguei meu celular, acendendo a luz.
O resto da casa estava silenciosa, deixando bem claro que minha mãe e meu irmão dormiam. Se é que estavam em casa. Não procurei saber. Infelizmente, meu quarto não tinha nada para se fazer e eu não conseguiria dormir tão cedo. Caminhei até minha estante.
Havia todo tipo de livro ali. Fino, grosso, grande, pequeno, todos os gêneros possíveis. Peguei um dos menores, folheando-o. A capa me parecia bem familiar, com uma fadinha na capa. Era infantil.
A fada que tinha ideias. Não me lembrava direito da estória, mas sorri. Voltei para a cama, abrindo na primeira página.
Li o livro todo. Terminei as 6 da manhã, em ponto. Ouvi a porta do quarto da minha mãe se abrindo. Fiquei de pé, esticando meus braços. De novo, estava sem ter o que fazer.
Peguei meu celular, abrindo nas mensagens. Não esperava encontrar nada de especial ali, mas serviu para clarear bem minha cabeça. A primeira conversa era com Alice. E tinha muitas mensagens. Fui olhando as debaixo: Duran, Louis e Lólli, Shaun, Kim. Eu não me lembrava daquelas pessoas.
Suspirei. Alice era minha amiga, afinal. Minha melhor amiga. Fui lendo as mensagens, com vários flashs inundando minha memória, assim como lágrimas inundavam meus olhos. Eu corria com ela, ria com ela, andava até minha casa.
A culpa por não me lembrar dela piorou. Eu me sentia horrível por não ter me lembrado dela. Como eu podia tê-la esquecido?
Ignorei o fato de ser 6 da manhã de um sábado e liguei para ela, respirando fundo. Algumas lágrimas já manchavam meu rosto. Ela não me atendeu. Suspirei de novo, agora de frustração.
Comecei a trocar de roupa, ligando para Duran. Peguei as roupas com que eu dormira, as mesmas com as quais eu fui para a escola, e as coloquei no cesto de roupa suja do meu banheiro. Eu estava quase desistindo da ligação, quando ele me atendeu.
– Alô? – Sua voz estava meio rouca, provando que ele acabava de acordar.
– Duran, ei. Me desculpa por te acordar as 6 da manhã assim, no sábado, mas eu preciso muito de um favor seu.
– O que foi, Megs? Você está bem?
– Você sabe o endereço da Alice? – Apoiando o celular entre a orelha e meu ombro, comece a vestir uma calçaa jeans, com dificuldade.
– Sei. – Ele ficou uns instantes em silêncio. – Bem, na verdade eu sei onde ela mora, mas não sei o endereço.
– Ai, merda! – Fechei o botão, pegando o celular de novo. – Olha, me perdoa o pedido abusivo, mas você poderia me levar até lá?
– Posso, mas antes eu preciso trocar de roupa. Me espera ai, chego em quinze minutos.
– Obrigada, eu te amo. Eu te amo! – Estalei um beijo pelo telefone, um pouco mais ansiosa. – Estou esperando.
Foi o tempo que ele gastou, exatamente quinze minutos. Quando a campainha tocou, minha mãe se assustou. Ela pegou sua xícara de café, me encarando.
– Eu preciso ir até Alice. Volto logo. – Falei, dando-lhe um beijo na bochecha. – Tchau, mãe.
Abri a porta, vendo Duran. Ele ainda parecia bem sonolento, com os olhos ainda meio inchados pelo sono e o cabelo bagunçado. Abriu um sorriso ao me ver. A calça jeans e a blusa azul pareciam vestidas na pressa.
– Não precisava correr tanto por mim. – Falei, saindo de casa. Ele colocou as mãos nos bolsos, dando de ombros. – Bom dia.
– Bom dia. E eu estou bem, não se preocupe. – Sorri com a resposta dele. Se ele era meu namorado, eu ainda continuava chocada. Ele era tão perfeito. – Vamos?
Apesar dos sorrisos e da calma, ele evitava me olhar. Parecia que ele sofria por não poder me dar um abraço ou pegar minha mão. Fui andando ao seu lado. Minha ansiedade estava a ponto de explodir.
Foi incômodo. Eu não sabia o que dizer, e ele não parecia querer falar muito. O silêncio no entanto parecia querer nos esmagar. Por fim, ele decidiu falar alguma coisa.
– Você anda tendo aqueles flashs? Quer dizer, muitos? – Mais que preocupado, ele me parecia bem ansioso.
– Sinceramente, não gosto nem um pouco daqueles flashs, mas queria ter todos de uma vez. Lara disse que minha recuperação tem sido rápida, mas...
– É bom saber disso. – Ele deu um sorriso fraco. – Você não deve mais aguentar isso.
– O pior é saber que eu me lembro tão pouco dos colegas de escola e menos ainda da minha família. Nem lembro o rosto do meu irmão por conta própria. – Dei de ombros.
– A sua convivência na escola era bem maior. Deve ser por isso. – Ele passou uma mão pelo cabelo escuro. Concordei com a cabeça, voltando a ficar em silêncio. Ele parou em frente um portão verde.
– Pronto. Chegamos. – Com uma mão na nuca e encarando a calçada entre seus pés, ele esperou eu tocar a campainha. Fiquei encarando o portão verde alguns segundos, hesitante.
Será que ela me perdoaria? Não que eu achasse que fosse culpa minha, mas ainda assim. Tremendo, toquei a campainha, ouvindo meu coração batendo desesperado.
Cada segundo se assemelhava a uma tortura. Duran tinha se virado para ir embora, mas o puxei de volta, entrelaçando sua mão à minha.
– Fica aqui comigo, por favor. – Ainda olhava o portão, mas dei um leve aperto em sua mão. Ele retribuiu o gesto, concordando. Alice finalmente abriu a porta, ainda de pijama. Parou assim que me viu. O “oi” pronto que eu tinha se desmanchou quando vi sua expressão endurecer.
– O que foi? – Ela cruzou os braços. – Olha aqui, se for aquela história que Jessica te disse sobre o carro, saiba que eu nunca escondi o que eu faço dos outros. Então, não te envolvi.
– Não é isso. É... – Hesitei. Ela usava um tom de voz tão cortante. Duran me disse pra continuar, apertando minha mão, mas Alice falou antes.
– Por que não vai atrás dela discutir seus problemas?
– Eu vim aqui pedir desculpas. – Minha voz saiu baixa, ainda mais do que eu esperava.
Um nó se formara em minha garganta, comecei a ver tudo embaçado. Ali franziu um pouco um cenho, mas não abaixou a guarda.
– Pelo que? – Soltei a mão de Duran, tentando desfazer aquele aperto na minha garganta. Mal percebi o que eu tinha respondido.
– Sei lá, Alice. Deve ser por eu ter esquecido de você, mesmo que isso não tenha sido culpa minha. Afinal, eu não lembro de ter escolhido ficar com essa maldita amnésia! – Eu chorava, mas eu totalmente ignorei aquele fato. – Se você ficou brava por causa da Jessica, saiba que ela soube me tratar melhor que você.
– Megs... – Duran me chamou, mas não respondi. Sai correndo dali, sem saber a direção em que corria, ou meu destino. Eu só queria me afastar ao máximo. Meu rosto ia ficando cada vez mais molhado pelas lágrimas.
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Eu não soluçava mais, mas minhas lágrimas continuavam abrindo caminho pelo meu rosto, lentamente. Estava sentada, abraçando meus joelhos, observando o mar.
Não sabia que praia era aquela. Muito menos o caminho de volta. O que eu sei com certeza foi que assim que cheguei na areia, meus joelhos pararam de me sustentar, cansados de tanto correr. Quase sem ar, eu ainda assim soluçava, chorando.
Eu devia ter sido uma péssima amiga, para Alice ter tanta raiva de mim? Eu tinha uma vaga memória dela chorando na hora do recreio na sua carteira e eu não ter feito nada. Talvez ela simplesmente não confiasse em mim.
– Por que eu só não morri de uma vez? – Berrei, encarando o céu. Não sei se eu esperava que alguém me ouvisse. – Se você existe, Deus, porque você me pune assim? O que eu fiz?
O céu agora estava ficando mais escuro. Quanto tempo eu passara naquela fuga? E do que adiantara correr tanto? Eu acabei no mesmo beco sem saída que era não ter memórias.
– Por que eu continuo com essa merda de vida? – Agora foi um sussurro.
Merda de vida...As únicas pessoas que ainda pareciam gostar de mim eram minha família, Kyu e Duran. O resto das pessoas me olhavam feito algum leproso na rua. Nada de bom tinha acontecido. Tiroteios, amnésia, saber da vida daquela garotinha no parque...Nada.
Me levantei, os joelhos trêmulos. Deixei minhas coisas para trás. Celular, sandálias, minha carteira de identidade. Tudo. Não me serviam para mais nada. Uma brisa leve carregava o cheiro forte de maresia.
– Por favor, acabe logo com isso. – Chorei, de volta para o céu. – Acabe com essa dor.
Meus passos iam leves e hesitantes em direção ao mar. No meio do trajeto, eles passaram a ser mais arrastados, mas mais firmes. Respirei fundo, fechei meus olhos. As ondas cobriam meus pés, me convidando.
A água fria ia ficando cada vez mais alta, mas eu continuei caminhando. Frio. Milhares de pequenas agulhas encravadas por todo meu corpo. Minhas roupas coladas ao meu corpo. Pesadas. A água cobriu minha cabeça.
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Meu pior arrependimento, foi desistir sem ter mais tempo. Só percebi o que eu estava fazendo quando meus pulmões começaram a queimar, implorando por ar.
Um a um, num turbilhão de memórias, fui tendo flashs. Não compreendia as imagens, no entanto. Borrões confusos e sem nexo. Meus pulmões pareciam em chamas.
Tentei emergir. Buscar ar, respirar de novo. Mas não conseguia. Meus membros pareciam chumbo, pesados demais para que eu os controlasse. E minhas roupas pesavam tanto.
Reagir ao mar era muito cansativo. Era uma força que eu tinha certeza não ter capacidade para vencer. Minha cabeça ficava cada vez mais leve, cheia daquelas imagens. Queria vê-las, mas a água me atrapalhava.
Por fim, desisti. Pra que tentar?
“Deus deve ter adorado brincar comigo assim.” Pensei.
Meu cabelo flutuava ao meu redor, algumas vezes passando por meu rosto. Fechei meus olhos, sentindo-os pesados demais.
Era o fim.
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Senti meu cabelo sendo puxado e um dos meus braços fora agarrado. O ar que entrou nos meus pulmões quase me sufocou, entrando pelas minhas narinas em quantidades absurdas. Pisquei, atordoada.
Vi Alice me arrastando até a praia, fazendo tamanho esforço que imaginei se ela não estaria se machucando. Assim que chegamos à areia, ela largou meu cabelo, me deixando caída com a cara no chão.
Meu peito subia e descia com dificuldade contra o chão, mas sempre buscando mais ar. Coloquei as mãos no chão, me apoiando nos joelhos. Ali, de quatro, tossindo e arfando, com os olhos ardidos, fitei Alice.
Ela chorava, deitada ao meu lado. Chorar fazia meus olhos arderem ainda mais, mas não pude conter as lágrimas. Ela me salvara.
– Você ficou retardada depois do tiro? – Ela se sentou, ainda chorando. Tirou o cabelo do rosto. – O que ia fazer, se matar?
– Não sei. – Eu não sabia o que sentir. Gratidão por Ali me salvar. Vergonha por estar naquele estado. Dor pelos pulmões ainda pedindo por ar.
– Nunca mais faça isso comigo, ouviu? – Ela me abraçou, chorando alto. Concordei com a cabeça, abraçando-a.
– Eu só queria esquecer...Que você me odiava...
– Você se esquecer? – Ela riu. – Eu não te odeio, Megs. Deus, eu fui tão idiota, eu sei.
Ela finalmente me soltou, secando o rosto. Me sentei também, respirando fundo. Fiquei a poucos segundos da morte. Morte e memórias infinitas.
Memórias...
– Ali. – Ela me fitou, ainda chorando um pouco. – Você não gosta da Jessica. Ela gosta de Shaun. Jack tem uma banda na Inglaterra. Ele, Ian, Jared e Liam. Ele é baixista. Eu desenhei o símbolo deles. Meus pais são divorciados, ele se casou de novo, ela namora. Ele tem outra filha. Você me fez gostar de kpop. – Eu sorria, chorando de novo. Dessa vez, de alegria.
Ela concordou com a cabeça para tudo, sorrindo também. Continuei falando, cada detalhe.
– Eu te ajudei a ficar com Kyu. Muito mal, mas ajudei. E você me fez sair com Duran. – Ri alto, feito louca. – Eu me lembro, Ali. Tudo.
– Como se nunca tivesse se esquecido? – Concordei. Ela me abraçou de novo. – Fiquei com medo de nunca te ter de volta.
Eu fiquei de pé depois que ela me soltou do abraço. Meu cabelo pingava, meus olhos ardiam e eu tremia. Mas eu estava plenamente feliz.
– Bem, foi bem frio. – Me encolhi, vendo-a tremer também. – Liga pro seu namorado, manda ele buscar a gente.
– Que namorado? – Ela falava normalmente agora, pegou minhas coisas e me entregou. – Aqui.
– O que você quase me matou por aparecer de toalha pra ele. Por acidente. – Respondi, dando pulinhos para me aquecer.
– Kyu não é meu namorado. – Ela olhou pro chão.
– Anda logo. – Bati nas costas dela de leve. – Falando sério, estamos perto da mansão do Kyle. Tenho quase certeza.
– Liga você. – Revirei os olhos, ligando para ele.
– Depois você reclama que não tem intimidade com ele. – Suspirei. Ele me atendeu. – Kyu, oi. Você está em casa?
Olhei ao redor, procurando alguma coisa pra usar como ponto de referência. O máximo de diferente ali era uma casa de dois andares vermelha.
– Sim, por que?
– O Kyle mora perto de uma casa vermelha, bem chamativa? – Ele concordou. – Pode nos buscar aqui, eu e Ali? E trazer umas toalhas também...
– Não me diga que entrou no mar de noite. E como se lembrou de Kyle?
– Não posso dizer não sobre a questão do mergulho. E anda logo, te explico logo.
– Me de dois minutos. – Desligou. Me virei para Ali, sorrindo.
– Ele vem nos buscar.
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Não sei bem se chamá-lo foi minha melhor ideia. Em cinco minutos ele nos achou, carregando uma toalha e um pente. Tentei sorrir e não falar do mar, mas assim que parou na minha frente, ele me bateu com o pente.
– Você é idiota! – Dali eu não consegui mais entender. Não queria saber o que as frases em coreano significavam.
– Para! – Segurei o braço dele, evitando o quinto golpe do pente. Ele jogou a toalha na minha cabeça e começou a secar meu cabelo, tentando arrancar meu pescoço. – Ai. Não precisa desse ódio todo, eu me desculpo por te tirar de casa.
– Acha mesmo que esse é meu problema? Megs, se você não me matar até o fim do ano, no mínimo vai me deixar tomando doses cavalares de calmante.
– Desculpa. Gamsainnimida. – Sorri para ele, agradecendo em coreano. Pouco do que eu sabia.
– Você também... – Ele secou o cabelo de Ali com carinho. Maldito.
– Você podia ter sido legal comigo também.
– Ela não merece isso. Primeiro, aposto que ela estava te seguindo, esse tipo de ideia imbecil é sua. Segundo, você é minha amiga, posso te maltratar.
– Favoritismo.
– Favoritismo? – Ele riu, como se não prestasse atenção em mim.
– Claro, quem é afim de você é ela. Por isso, ela recebe carinho. – Ali me fuzilou com um olhar. Ri pra ela.
– Pode ser isso também. – Ele concordou, sorrindo. Ali só faltou ficar da cor de um tomate. – Agora que eu pensei nisso...Você se lembra?
– Sobre isso...Estou de volta. Todos os segredos, detalhes vergonhosos e loucuras. Sei tudo de vocês. – Sorri. – É como se nada tivesse acontecido nos últimos dias.
– Foi bem rápido. Quer dizer, foram apenas alguns dias. Uma semana.
– Basicamente. Mas Lara me disse que seria rápido sob questões...induzidas. – Ele não me perguntou, só passou a desembaraçar o cabelo de Ali. – Podemos ir? Está frio.
– Se você não existisse, eu ia ter que te inventar. – Ele sorriu, caminhando. Sorri, agradecida pelo carinho.
– Filha da mãe! – Ali me puxara pelo braço, falando entre dentes. – Como você fala com ele aquilo? E para de ser shippavel com ele.
– Estou te ajudando e não somos shippaveis. Ele concordou com o favoritismo por você.
– Mesmo assim...
– Para de ser dramática e vai agarrar o braço dele ao invés do meu.
Empurrei-a pra cima de Kyu. Ela foi andando do lado dele, depois de tropeçar e ele a ajudar a se levantar. Dava pra ver as orelhas dela vermelhas.
Ali precisava da minha ajuda pra tudo. Revirei os olhos, puxando Kyu um momento para longe dela.
– Dá pra fazer o favor de agilizar. Agarra ela logo. – O soltei, voltando a andar atrás dos dois.
Meu pedido funcionou. Em menos de um minuto fiquei sendo a vela. Mas não reclamei. Depois de salvar minha vida, eu podia retribuir Ali com aquele pequeno favor. Fui caminhando calada, sorrindo.
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