Rodovia 589 — snt. Atlanta-08

Eu estava congelando. O vento frio castigava toda minha pele, que parecia agora estar enrijecendo. Já não era novidade para mim. Meus pés pareciam deslizar pela folhagem seca — eu estava embrenhado na floresta onde um dia eu descobri quem eu era de verdade. Os reflexos me permitiam desviar de troncos e obstáculos com tamanha facilidade, que chegava a ser cômico — eu ali, correndo na velocidade de um gavião por entre as árvores. Isso tudo tinha um motivo, e por mais que eu quisesse esconde-lo de mim mesmo, eu sabia.

Mas isso não importava agora. Eu estava sendo seguido. Após tantos anos, finalmente, eles me descobriram, e agora estavam vindo atrás de mim, me caçando, jogando comigo. Eu não podia reclamar, afinal, eu adorava aquilo. Durante anos, pensei que esse dia nunca chegaria; Durante anos, acreditei que minha identidade jamais fosse descoberta, e eu teria que passar a eternidade trancafiado, de hotel em hotel, como um fugitivo. Mas agora não importava mais, eu ia morrer, e nada do que eu fizesse agora, me salvaria. Eu tinha que aproveitar o resquício de vida que ainda beirava sob meu futuro — eu precisava vê-la, sabendo que, depois de tantos anos, ela poderia não ser a mesma. E apesar de tudo que eu havia passado, eu sentia uma dor profunda, quase atormentadora, que alfinetava meu coração de forma desumana — a morte estava chegando, e mais cedo ou mais tarde, tudo que um dia julguei real, se tornaria fútil.

Não antes de vê-la, não antes de sentir seus dedos afagando minhas madeixas loiras novamente, não antes de sentir seu hálito fresco soprando em meu rosto, não antes de... Eram tantas coisas, tantos sentimentos, que mal pude perceber quando passei como um raio pela entrada de Chance Harbor. O frenesi tomou conta do meu corpo, e todo aquele frio que me agoniava, se transformava num calor insuportável — uma febre incurável, que me castigava, cada centímetro do meu corpo.

Faziam exatamente dez anos. Dez anos de fuga, de desespero, de saudade, de eternidade. Eu realmente não sabia o que me esperava, mas eu não podia morrer sem vê-la novamente. Eu precisava me despedir, eu precisava concertar tudo que fiz com ela, eu precisava pingar os "is" antes de ir embora para sempre. Acima de tudo, eu sabia que precisaria preencher o vazio no coração de Cassie, pelo menos por alguns dias, algumas semanas, alguns meses — até que eles me achassem.

— Hãããã... Olá!? — senti algo me cutucar, e num reflexo tão rápido como o que me fizera parar, me virei — Você está perdid... Oh não... Não... Jake!? JAKE, É VOCÊ, JAKE!?

Eu não sabia se esboçava um sorriso e forçava um "Oh, nossa, quanto tempo!" mesmo sabendo que aquilo pareceria tão falso como qualquer outra reação que eu fosse tomar naquela momento — ou se apenas iria embora, em busca do que realmente havia me levado para lá. O motivo deste devaneio era Caroline Forbes, uma jovem loirinha, muito bonita e atraente, porém portadora de uma chatice sem limites — que agora se esticava na minha frente, sorrindo e ofegando de forma muito estúpida.

— Hey! Caroline, né? — fiquei feliz ao ver o sorriso dela se desfazer com o suposto golpe que eu havia dado em sua auto-estima.

— Fico feliz que ainda lembre meu nome — ela fez uma pausa, parecia decepcionada com o ocorrido — pelo menos isso...

— Mas me diga qual o cordial motivo que o trás a essa ridiculamente pequena cidade? — ela sorriu.

— Bem... Eu adoraria ficar aqui e te contar os inúmeros motivos que me trazem de volta a Chance Harbor — concluí — mas, realmente não estou com tempo para isso. Até mais, Caroline.

Parti em disparada pelas ruas estreitas e alegres da cidadezinha, agradecendo por ser cedo o suficiente para que as pessoas ainda estivessem repousando em seus lares. A nostalgia tomou conta de mim a cada passada rápida que eu dava por aqueles paralelepípedos de pedra — não significava que eu sentia saudades do que havia acontecido ali. Por uma estreita viela, que levava a lugar algum, tal pelo fato de que as casas estavam muito distantes dali, avistei uma portinha com vidraças que aparentavam ter muitos anos, esboçando um sorriso que a tempos não era estampado em meu rosto. Girei a maçaneta, estranhando o fato de não ter que ser convidado para entrar. Estava tudo como antes — velho, mofado, bagunçado. Eu me sentia feliz ali, era meu espaço. Não só por isso. Tudo aquilo me lembrava ela.