Notas iniciais
Desculpa a demora pra postar, mas eh q eu tava meio q sem net.... Esse ficou maiorzinho, espero que curtam!

Pov Cristal Hale

Hoje eu acordei com um som esquisito na frente da porta do meu quarto. Era um som repetido, mas abafado no carpete. Pareciam passos.

Eu me levantei da minha cama. O sol ainda não despontara no horizonte, mas não haveria de demorar muito para isso acontecer, pois o quarto estava inundado de tons de rosa e laranja suaves. Lúcia dormia confortavelmente, acompanhada de manta e travesseiros, no divã que ela sempre usa quando adormece aqui no meu quarto. Eu calcei meus chinelos de modo a não despertá-la, e corri para a porta. Do lado de fora, vi uma pessoa caminhando apressadamente em direção ao Hall de entrada. Usava uma capa cinza e roupas escuras, de modo a não ser reconhecido; embora aqueles cachinhos loiros não sejam facilmente escondidos.

– Rilian? — eu chamei, e ele parou.

– Volte a dormir. — ele disse, rude.

– Não posso. Não consigo. — eu falei, fechando a porta — Você me assombrou nos meus sonhos. A noite toda.

Ele ficou parado, imóvel, sem se virar para mim. Eu sabia que ele estava me ouvindo, ou ele teria seguido seu caminho.

– Já está partindo? — eu perguntei.

– Quero ir antes que o sol nasça. — ele respondeu.

– Será que adiantaria se eu pedisse mais uma vez para que você não fosse? — eu sussurrei, triste.

– Não. — ele respondeu no mesmo tom.

– Mais ainda sim, eu devo pedir. — eu senti as lágrimas se formarem novamente em meus olhos. — Rilian, você não faz ideia do quanto é importante para mim. Ninguém aqui conseguiu me compreender tão bem quanto você. Você é a única pessoa em quem eu consigo confiar! Todos aqui tem sido muito bons comigo, até mesmo o Pedro... ele quebrou meu pulso... mas ninguém aqui esteve do meu lado como você. Você já me viu chorar! E não foi só uma vez! Você sabe como isso é raro? Apenas um dos meus amigos no Brooklin já me viu chorar. Em Nárnia, a mesma coisa.

Ele respirou fundo, apenas analisando minhas palavras. Não posso parar de falar agora.

– Rilian... você é meu melhor amigo. Eu me importo muito com você. Eu gosto de você, muito mesmo. E, apesar de não ser do jeito que você queria, meu amor por você é grande! — eu fechei meus olhos — Já que vai morrer... pode pelo menos me perdoar por magoar você?

Eu senti os braços dele me abraçarem com força. Ele enterrou seu rosto em meus cabelos, e eu permiti que as lágrimas rolassem por meu rosto, abraçando-o. Rilian consegue fazer isso comigo. Consegue revelar um lado meu, que eu jamais revelaria para ninguém. Revela minha sensibilidade.

– Ah minha sereia... — ele sussurrou em meu ouvido, me abraçando forte — Pode me perdoar por ficar tão furioso? A culpa não foi sua... Eu fui muito ingênuo para perceber... Você sempre esteve ali comigo... Me fazendo rir... Eu só não pude perceber, que você não era pra mim...

– Rilian, eu sou sua! Pro que der e vier! Apenas não posso te dar aquilo que procura... — eu respondi — Eu sempre vou estar do seu lado! Só não vá aonde eu não possa te seguir! Não faça isso, Rilian, desista desse plano louco! Por favor!

– Não posso, Cristal... — ele disse — Nisso eu empenhei minha honra, não posso voltar atrás! Não posso!

– Sendo assim, — eu me afastei dele, me soltando de seus braços — vou ficar aqui e esperar você voltar.

– Vou tentar, minha sereia. — ele beijou suavemente sua mão.

– Espero que encontre aquilo que procura. — eu tentei sorrir. Mas não sou boa em fingir.

– Acho que eu já achei. — ele sussurrou, sorrindo.

– Ah é? — eu sorri, empolgada — Quem?

– Espere meu retorno, e eu te conto. — ele brincou.

– Então tente não morrer! — eu ri.

Rilian se afastou, seguindo seu caminho. Eu ainda não consigo me conformar que ele vai fazer isso.

– Rilian! — eu o chamei, fazendo-o se virar — É sério. Não morre, tá.

– Só porque você pediu. — ele sorriu uma última vez. E seguiu seu caminho.

A minha vontade era de agarrá-lo com força, arrastá-lo para o meu quarto, e trancá-lo no guarda-roupa, de modo que ele não pudesse fugir. Mas tudo o que eu consegui fazer foi observar ele partir, e desabar a cada passo que ele dava, em direção à sua missão. Ao suicídio.

Passei o dia todo na biblioteca, escondida de tudo e de todos. Não quero ser insensível, mas sinto que quem mais está sofrendo com tudo isso sou eu. Acusadora e delatora eram as palavras que me afrontavam, como se estivessem gravadas em minha testa. Isso dói! Eu sinto como se todos me odiassem, embora saiba que isso não é verdade. O único que me acusava, me perdoou, mas ainda sinto como se fosse verdade. Eu vi o mal em uma pessoa. Justamente aquilo que eu nunca quis ver.

Peguei dezenas de livros para ler, mas não conseguia me concentrar em nenhum. Parecia que em todos eles, tinha sempre um traidor, que entregava seus amigos para os perversos. Aí então eu jogava o livro longe, chorava de raiva, e pegava outro. Logo o chão estava forrado deles, e estavam por toda a parte. Você pode até me achar idiota por pensar assim, mas será que nunca aconteceu com você de estar chateada com algo, ou com alguém, e de tudo o que você olhava te lembrava disso? Você muda os canais da televisão para tentar fugir, mas parece um complô contra você, todos falam algo a respeito. Coloca uma música no celular, e era a música de vocês, ou a música fala sobre o que lhe magoa... Quando você menos espera, está chorando com o comercial de plano de saúde que mostra uma família muito feliz, ou um cachorrinho.

"Um espião medieval era uma peça chave nos feudos, onde eles arriscavam sua própria vida, procurando informações e fraquezas bélicas e militares dos inimigos de seu senhor feudal, em troca de uma recompensa injusta, e muitas vezes, inexistente."

Esse foi o trecho do último livro que eu li. Joguei-o muito forte, mas nem vi onde ele foi parar. Eu me deitei sobre o chão, com as mãos no rosto, chorando compulsivamente.

– Ah Rilian! — eu soluçava — O que você fez?

Eu só me lembro de chorar muito, até enfim, adormecer. E pela primeira vez em muito tempo, eu tive um sono longo e tranquilo, sem Rilian, sem feiticeiras, sem Jasmine. Um sono sem sonho algum. Um sonho que me revigorou as energias.

***

Eu me sentia sendo carregada, quase como se flutuasse acima do chão. Era uma sensação boa, a de flutuar sobre os problemas.

Abri meus olhos lentamente, erguendo minha cabeça. Eu podia ver o rosto lindo dele, preocupado, olhando o caminho. Seus cabelos dourados e lisos se agitavam a cada passo, como uma bandeira suave e flamulante.

– O que pensa que está fazendo? — eu sussurrei gentilmente, embora a pergunta por si só já soe hostil.

– Estou levando você para seu quarto, para que possa descansar. — Pedro olhou docemente para meu rosto.

– Então, neste caso, pode continuar. — eu fechei meus olhos, aninhando-me em seu peito quente.

***

Eu abri meus olhos. Estava em meu quarto. A escuridão da noite deixava meu quarto com um clima de penumbra, e a Lua parecia iluminar pouco esta noite. Tentei me levantar, mas senti algo me segurar. Um braço abraçava minha cintura.

Eu me virei lentamente, tentando identificar aquele que me abraçava, e um sentimento de ternura invadiu-me. Pedro dormia profundamente ao meu lado. Ele me abraçava. Seu rosto é doce e sereno, e sua respiração é tranquila. Em um instante, lembrei de como vim parar em meu quarto. Ele deve ter me carregado até aqui, mas acabou adormecido ao meu lado. Tão doce...

Olhar aquele rosto angelical de repente me trouxe um aperto. Lembrei de Rilian, e do motivo de tudo isso estar acontecendo. E meu coração doeu ainda mais.

Eu me levantei lentamente, de modo a não acordar ele, e saí do quarto. Caminhei pelos corredores até chegar as escadarias. A sala de jantar estava acesa, todos ainda estavam lá. Eu podia ouvir a voz do Caspian e de Lúcia. E até a de Edmundo, rindo de alguma piada. Deixar eles se divertirem foi um comando de minha consciência. Saí pela porta da frente, passando pelo Pátio Interno, que era todo de pedra. Eu saí pelos portões, e me vi no campo de tiros, com os alvos à distância. Caminhei sem rumo por muito tempo até quase chegar ao Jardim Externo, que foi quando eu parei.

As montanhas são muito coloridas de dia, tão vivas, verdes e alegres, que de qualquer lugar do castelo pode se ver o rosa, amarelo e azul de algum ipê em flor. Tudo é muito vivo, inspira esperança, paz e coragem. Mas agora, sob a penumbra da noite, as montanhas parecem frias e escuras, enormes gigantes de gelo que amedrontam. Eu mal posso imaginar o que Rilian deve estar passando agora. Medo, tortura, tontura, calafrio, arrepio, terror, pânico, tudo isso se pensar positivamente que a Vera não o achou ainda. O que também não demorará muito a acontecer... Pobre Rilian!....

– O que faz aqui fora, sozinha? — uma voz quebrou meus pensamentos. Pedro tinha os braços cruzados, olhando para mim.

– Não queria te acordar. — eu disse.

Ele se aproximou de mim lentamente, apenas caminhando na minha direção.

– Caspian está dando um jantar hoje. — ele comentou — Comemorando o aniversário dele.

– Mande meus parabéns depois, mas não estou com paciência pra festa hoje. — eu sussurrei.

Ele olhou para as montanhas.

– Rilian, certo? — ele sussurrou.

– Ele saiu já faz muito tempo. — eu comentei.

– Ainda nem deu um dia, Cristal. — ele me olhou — Dá uma chance pra ele...

– Uma chance pra quê? — eu me revoltei — Para ele morrer? Ele devia ter esperado! Devia ter bolado um plano melhor! Devia ter...! Devia ter....!

– Cristal....! — ele sussurrou.

– Esquece, tá!..... Esquece..... — eu virei de costas pra ele, de modo a esconder as lágrimas.

Eu tentei controlar o choro, tentei parar de chorar, para não fazer papel de idiota na frente dele. Mas eu estava tão frustrada! Tudo ficou louco de repente, de um jeito que que eu não posso controlar! Eu queria.... pelo menos... entender....

– Ah, minha Lua... — eu senti os braços dele me abraçarem — Vai ficar tudo bem... Eu juro.... Já passamos por isso antes... Você vai ver..... Vai ficar tudo bem.... Vai sim....

Eu me virei, abraçando-o fortemente. Deixei as lágrimas rolarem denovo, chorando a tristeza. Dizem que nem todas as lágrimas são ruins..Por isso que não se deve dizer Não Chore...

– Eu queria tanto que fosse tudo diferente, Pedro.... — eu solucei — Chego até a me arrepender de ter conhecido vocês.... Se eu não os tivesse conhecido, nada disso teria acontecido...

Pedro me afastou dele, olhando em meus olhos. Sustentava uma expressão que eu não consegui decifrar.

– .... Então se arrepende de ter me conhecido? — ele sussurrou.

Eu senti meu coração gelar. Não, não me arrependo de ter conhecido ele... Mas infelizmente foi exatamente isso o que eu disse...

– Eu... — gaguejei.

– Tudo bem, Cristal. Não precisa negar. — ele falou, palavras me cortaram o coração — Estou feliz por pelo menos você ter sido sincera.

– Mas... Pedro, eu não... — eu gaguejei, desesperada.

– Não minta, Cristal, não adianta mentir agora. — ele me repreendeu — Apenas peço que não diga isso para Lúcia. Ela vai chorar muito.

E ele me soltou, virando-se e caminhando em direção ao castelo.

– Pedro, espera! — eu corri até ele — Por favor, espera!

Ele caminhava, sem nunca parar. Céus, como ele é rápido! Eu corri até ele, e parei na sua frente.

– Pedro, pare, por favor! — eu implorei — Me perdoe! Não é verdade! Eu me arrependo de ter sido eu a denunciar a Valentiny! Me arrependo de magoar o Rilian, e de agora ele estar lá no inferno, e eu não poder ajudar! Mas eu não me arrependo de você!.... Não de você!....

Ele ficou parado ali, apenas me olhando. Eu não consegui identificar sua expressão, pois hoje a Lua não estava iluminando muito bem.

– Por favor... — eu sussurrei, tentando não chorar — Perder o Rilian é duro demais... Mas eu jamais me perdoaria se eu perdesse você... Não faça isso comigo...

Eu fechei os olhos, apenas tentando não chorar. Por idiotice, agora parece que até o Pedro eu perdi... Nada agora pode me consolar.

– Cristal... — eu o ouvi sussurrar, com a voz trêmula.

Senti ele me puxar pela cintura com força para perto de si, mas como era meio o que eu queria, não revidei. Ele segurou meu rosto com os dedos da mão livre, e rapidamente uniu seus lábios aos meus, num beijo forte e decidido. Eu me assustei de início, mas meus olhos se fecharam lentamente a medida que eu abraçava seu pescoço, e tudo em que eu consegui pensar era o Pedro. Somente ele. E isso era bom. Bom demais.

– Espera! — ele interrompeu o beijo, assustado — Eu... eu não devia... Desculpa... eu não devia....

Ele se afastou de mim, muito arrependido. Ele tentou voltar para Cair Paravel, mas eu segurei o seu pulso com força. Acontece que eu não me arrependo.

– Cristal... — ele me olhou, confuso.

– Por que não devia? — eu olhei nos olhos dele — Devia sim!.... Está até meio atrasado!....

Ele sorriu, rindo. Abraçou minha cintura, tirando meus pés do chão, e me girou no ar. Essa era a confirmação. Pedro estava feliz.

– Eu te amo, minha Lua... — ele sussurrou, colocando-me no chão outra vez.

– Eu te amo, meu Sol... — eu respondi no mesmo tom.

Ele sorriu mais uma vez, e voltou a unir seus lábios nos meus, desta vez um beijo doce e suave. Meu Sol... Radiante, resplandescente, dourado e alegre. Meu lindo Sol nascente.

De mãos dadas e dedos entrelaçados, caminhamos juntos, em retorno ao castelo. Eu mal podia acreditar. Ele também me ama. Isso é incrível. É perfeito. É maravilhoso.

– Espera. — Pedro parou, de repente.

– Que foi? — eu olhei para seu rosto, alegre.

Mas ao perceber a direção do seu olhar, meu sorriso se desfez. Pedro olhava na direção das montanhas. Um cavalo vinha, correndo desesperado, daquela direção.

– Parece o Destro... — Pedro comentou.

– É o cavalo que o Rilian foi! — eu me alegrei — Ele está voltando!

– Não, minha Lua.... — Pedro sussurrou, alarmante — O cavalo está sozinho.

Notas finais
Um cavalo sem cavaleiro nunca é um bom sinal.... Mas diz aí, esses dois não são fofos juntos?