Mason não saberia por quanto tempo havia ficado parado na mesma posição.

Mas ele saberia, com clareza e para todo o sempre, como o sangue do corpo do seu antigo professor fazia-se quente a escorrer pela sua pele, manchando as suas roupas e sua alma numa cascata de vermelho; como o grito que ficara entalado na sua garganta era doloroso; como tudo queimava e desmoronava ao redor dele e dentro dele; como o terror ecoava por dentro do seu ser, debatendo-se nos ossos da sua caixa torácica, desesperado feito um pássaro engaiolado.

Os restos das roupas que Evum costumava usar voaram pelo ar, e os pertences que costumavam estarem guardados dentro do seu paletó foram expostos, caindo no chão. O embrulho misterioso de Tom caiu no gramado, ficando intacto, porém, a esfera mágica que continha as memórias das pessoas da linha temporal passada não teve o mesmo destino: rolou até acertar o concreto, quebrando-se.

Os filetes dourados e cintilantes de magia contidos naquela pequena bolinha de gude saíram, tremulando pelo ar como serpentinas espectrais sendo atiradas para longe. Um filete foi até à cabeça de Stanford e ele ficou parado na mesma posição, como se reagisse a um novo tipo de sensação. Outra voou até alguém que estava caído inconsciente no gramado, próximo ao equipamento em chamas: Mabel. O coração de Pines se esmagou mais ainda ao notar que os olhos dela estavam bem abertos, mas não havia nada a ser visto neles, estavam totalmente negros, como se o corpo dela estive oco... como se ela... Ah, não!

Quando deu por si, Dipper estava lutando contra Time Baby no pátio em chamas. Os seus poderes saíram sem ele ter percebido, e, agora, ele rodopiava nos céus, atirando raios e disparos daquela energia azulada que saía pelos seus dedos na direção de Wirt. Ele não tocava o chão. Ele estava voando, como Bill. Voava com Time Baby no encalço dele, o demônio rebatendo e desviando dos ataques com uma risada perturbadoramente animada.

— Então foi aí que os meus poderes foram parar, não é? — riu-se ele convencido, de volta ao solo, próximo à massa de órgãos e sangue que costumava ser uma pessoa. — Parece que isso será mais complicado do que eu planejava...

O demônio no corpo do ex-namorado de Dipper curvou-se, abaixando-se para pegar o embrulho de Evum. — Ele podia ser um patético emotivo, mas pelo menos fazia o trabalho direito... — retrucou enquanto abria o tecido e o conteúdo fora revelado: uma tesoura.

Não seria muito impressionante se não tivesse sido pelo fato de que Time Baby colocou-a entre os dedos e começou a usá-la no nada, como se tentasse cortar o ar com ela de propósito. Com esse movimento, a ferramenta começou a, de fato, surgir efeito e a tesoura começou a abrir uma fissura dimensional no meio do nada, uma luz esverdeada escapando por entre as suas frestas. Era como se Wirt recortasse uma cortina de átomos, abrindo um vácuo diante dele, ou fazendo um furo no meio de uma pintura. Logo, um portal estava aberto diante dele e, num gesto rápido, ele estalou os dedos de novo e mais duas correntes surgiram dos seus dedos.

As coleiras prenderam o corpo desfalecido de Mabel e o atônito de Stanford, e, como os arreios de animais, Time Baby puxou os dois com violência para as garras dele.

— NÃO! — Dipper berrou, entrando em surto. Voando depressa a caminho dos dois, mas tudo que recebera de resposta fora a risada entretida do seu inimigo. — Ford! — chorou por ele.

O seu tio-avô levantou o rosto, como se, em contato com a voz do sobrinho, tivesse saído de um encanto. — Dipper! — Esticou a mão inutilmente para a direção do outro. E, assim que os olhos de Stanford encontraram os dele, Dipper não teve dúvidas: ele sabia. Ele se lembrava. Lembrava-se de tudo do tempo anterior. Aquele olhar era irreconhecível.

Porém, não durou muito tempo. Time Baby pulou com os dois para dentro do portal e eles sumiram. A passagem começou a enfraquecer e colapsar, Dipper apertou o passo no seu voo descontrolado e, no último segundo, conseguiu atravessar a entrada para a outra dimensão.

Girando numa bruma de cores e desalentos, Dipper perdeu altitude, despencando de uma altura incalculável. Só deu tempo de ver um chão desértico e arenoso se aproximando antes dele acertá-lo.

Uma dor lancinante percorreu seu espírito, e o garoto permaneceu ali, sem ar nem forças, jogado em uma dimensão completamente desconhecida a não ser pelo seu nome:

Mindscape.

Virou o rosto para o lado assim que reconheceu o som de algo atingindo o solo ao lado dele. Era um pequeno objeto.

A fita-métrica do tempo. A mesma que ele usara para voltar no tempo há quatro anos atrás, a mesma que Ford havia guardado antes deles irem para escola naquele dia infernal. Devia ter caído do bolso dele na confusão.

“É a minha chance...”, foi a única coisa que a menta combalida de Pines foi capaz de pensar, mas o deu impulso suficiente para que ele começasse a se arrastar até ela sofregamente. “É a minha única esperança.”

Quando estava apenas a alguns dedos de distância do objeto, pensou, “Eu posso mudar isso. Eu posso fazer direito dessa vez. Posso fazer de novo e não errar. Eu posso. Eu não ligo...”, pensou brevemente nos rostos Stanford e Bill, que mandaram um calor encorajador no seu coração. “Eu não ligo de viver para sempre preso nesse labirinto interminável... se for por vocês... eu faço de novo e de novo... para sempre!”

Mas, antes que ele pudesse finalmente se agarrar à sua única opção de saída, algo se avultou no seu campo de visão. Uma silhueta se aproximando. Time Baby saiu da tempestade de areia daquele deserto misterioso e olhou para baixo, desdém e desprezo direcionados ao garoto.

“É agora que você vai me matar...?”

Não. Baby fez uma coisa pior. Num movimento único, ele pisou na fita-métrica, esmiuçando-a em milhares de pedacinhos, tornando-a inutilizável. Dipper olhou para cima pela última vez e foi despedido pelo sorriso sádico do seu algoz que, num piscar de olhos, sumiu para o interior daquele mundo novo.

Dipper ficou sozinho.

Como ele sempre ficava no final de tudo.

Virou a barriga para cima, tentando achar algum tipo de beleza naquele céu desconhecido. Como não achou nenhuma, tentou procurar conforto nas suas memórias, mas, por algum motivo, tudo que encontrou foi uma pequena música que ouvira Bill Cipher uma vez cantar tão alegremente nos dias anteriores, mas que não ajudava nem um pouco:

Você voltará

Que nem antes

Eu irei lutar a luta e vencer a guerra

Pelo seu amor

Pelo seu louvor [...]

Então não joguem fora essa coisa que nós tínhamos

Porque quando um empurro se tornar um empurrão

Eu matarei seus amigos e família

Para lembrá-lo do meu amor

FIM DA SEGUNDA TEMPORADA.

Update: TERCEIRA TEMPORADA JÁ DISPONÍVEL! Corram lá pra acompanhar!

Notas finais
TERCEIRA TEMPORADA JÁ DISPONÍVEL NA MINHA CONTA! Corram lá pra acompanhar! Obrigado por ler :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.