Aproximadamente 30 anos atrás.

A mesa de trabalho estava sobrecarregada de anotações interminadas. Livros estavam abertos por todas as partes e, por debaixo da luz amarela do lampião, residia um homem. Ele mal havia atingindo a faixa dos trinta anos, mas seus primeiros cabelos brancos pareciam vacilar na corrente do tempo. O homem estava imerso num pequeno caderno, na capa vermelha tinha um contorno de uma mão dourada e, no centro dela, um número 2 pintado. Escrevia às presas, revisava o progresso. Stanford estava no processo mais frustrante do seu trabalho como cientista.

O de entender as anomalias de Gravity Falls.

A ideia de construir um portal para outra dimensão havia surgido bem recentemente. Ford chegou num ponto onde as suas teses científicas já não eram mais suficientes, a frustração já era palpável e pairava sobre o ar. Tinha dias que Stanford achava que nunca seria capaz de entender completamente aquela cidade e as estranhezas que ela guardava. O homem deixou-se descansar sobre o encosto da cadeira, repousando uma das mãos sobre a sua testa, a silhueta dos seus seis dedos incomuns se projetaram diante dos seus olhos cansados. Então ele começou a se lembrar das estranhas visitas que ele costumava ter nos seus sonhos de um bizarro ser amarelo de um olho só. A criaturinha triangular que insistia em dizer ser um ser interdimensional tinha feito contato com Stanford há pouco mais de um mês, tinha dito que Ford era uma das mentes mais genuínas já encontradas por ele. Stanford se sentia honrado de poder ter sido escolhido para trabalhar ao lado de uma existência tão grandiosa quanto a de Bill Cipher.

Ford então fechou os olhos, concentrado numa espécie de sono com meditação. A sua frustração já havia enchido a própria paciência. Ele precisava se contatar com Bill mais uma vez, precisava dos seus ensinamentos e companheirismo. Entrando num transe que já começava a se tornar comum, Ford elevou o grau da sua mente a outro patamar de existência. Quando os abriu, já não estava mais no seu escritório que ficava dentro da cabana na floresta. As paredes havia desaparecido num piscar de olhos e os arredores dele foram substituídos por extensões imensuráveis de uma luz abalaustrada com pontículos mais fracos como se ele estivesse flutuando numa constelação perdida. O solo sob os seus pés já não era mais o mesmo.

Stanford havia entrado no mindscape.

Uma extensão dentro da mente que ele pôde alcançar com muita meditação e esforço.

Aquele era um dos únicos meios que ele havia encontrado de manter contato com aquele ser que insistia em surgiu nos seus sonhos sem previsão prévia.

– Procure bater na porta da próxima vez. – a voz de escárnio ecoou naquele estranho espaço que mais parecia outra dimensão.

– Bill Cipher...! – Ford saudou-o, reconhecendo imediatamente aquele tom sarcástico tão icônico que aquela entidade carregava. A criatura se aproximou dele, o olho único se avolumando na medida em que ele se aproximava dele.

– O que te trás aqui, Seis dedos?

– Os nossos planos. – respondeu ele. – Encontrei algumas... complicações.

– Eu passei tudo exatamente do jeito que está nas suas anotações, Stanford. Não tem erro.

– Reconheço. Mas eu sinceramente não faço a menor ideia de como eu acharia metade das máquinas que você listou para conseguir montar o portal. Eu nem sequer sei se existe tecnologia o suficiente na minha dimensão para realizar tal feito.

– Você pode encontrar isso tudo certamente em Gravity Falls. – disse o triângulo, desenhando formar ovais numa plataforma interdimensional. – Existe um lugar onde você pode pegar as peças necessárias.

Ford levantou uma sobrancelha, ele pensou em todas possibilidades possíveis de adquirir aquilo que era requerido para a máquina funcionar e ele tinha quase a certeza de que não havia nenhum lugar em Gravity Falls capaz de fornecer aquilo. E Stanford acreditava ser capaz de conhecer aquela cidade na palma da mão, talvez mais ainda do que seus próprios habitantes desavisados sobre as peculiaridades de outros planetas que aquele lugar escondia.

– Onde?

Uma risada travessa eclodiu do triângulo flutuante naquela voz rascante e histérica.

– Tem algo especial que você ainda parece não ter descoberto, pequeno Ford.

O peito do cientista ricocheteou na sua caixa torácica, abalando seus sentimentos e despertando o seu lado que o fazia se sentir como uma criança novamente. A ideia de ainda ter mistérios aguardando para serem descobertos era animadora para Ford, ele teve que se conter para não dar pulinhos. Então apenas deu um sorriso bobo como se tivesse acabado de ver o brinquedo mais desejado numa vitrine.

– O que é? V-você vai me dizer, não é?

– Claro. Afinal, como seremos capazes de colocar o portal para funcionar a tempo se não trabalharmos depressa? – a coisa fingiu limpar a garganta teatralmente, enquanto finalizava seus rabiscos sobre o ar. Ford observou uma série de linhas ovais se conectarem e se perguntava o que seria aquilo que Bill estava tentando exibir. Foi quando os rabiscos começaram a fazer sentido e se tornarem familiares.

– N-não pode ser. Isso é uma... é verdade mesmo? – Ford estava admirado com o que Bill estava a mostrar a ele.

– Sim, Stanford. Uma espaçonave.

– Tem um OVINI em Gravity Falls?!

– Precisamente. E ele está a sua espera.

– Pelos céus, eu não acredito que vou realmente ver uma coisa dessas de perto! – Ford fraquejou, mostrando toda a sua exaltação e batendo as palmas rapidamente como um garotinho. Quando percebeu o que estava fazendo, se conteve, as bochechas ficando vermelhas. “Eu não acredito que fiz isso na frente dele” pensou embaraçado, “Você precisa ser profissional, Stanford. Mostre que você é um homem sério.” Ele não queria assumir para si, mas estava extremamente honrado de poder trabalhar com a mente mais incrível que ele já havia encontrado: Bill. – E... onde ela está?

– No bosque. Próximo às colinas. Tenho certeza que você será capaz de encontrar. – Cipher respondeu, sem ver necessidade de dizer o quanto achava o cientista uma graça quando ficava daquele modo. – Ela está abandonada há anos... a nanotecnologia avançada dos extraterrestres será capaz de complementar o nosso projeto.

– Incrível...! – Ford estava boquiaberto, o seu cansaço havia se dissipado só com aquela informação. Ele já se via motivado o suficiente para embarcar numa expedição atrás não só do sentido de todos os mistérios da cidade, mas como o sentido dele mesmo. Ford passou boa parte da sua vida reprimido pela sua própria... diferença. Ele relançou na direção da sua mão com dois dígitos a mais, se afundando em monólogos interiores. A razão de sua existência era um mistério até mesmo para ele mesmo, num mundo no qual todos condenavam o anormal, ali estava Stanford, sendo a definição própria. Ele havia passado anos esperando pelo momento em que ele poderia finalmente achar um sentido para ele mesmo. Uma razão na qual lutar a favor da sua imensurável capacidade de QI, seus sonhos e ambições. A forma de Ford descobrir os mistérios do mundo a sua volta era também um modo dele descobrir sobre ele mesmo. Por toda a sua vida, ele esteve atrás de um sentido no qual ele não sabia que estava atrás até aquele estranho ser amarelo surgir no cenário do seu enredo existencial. Bill Cipher, como aquela coisa se denominava, foi como uma inesperada reviravolta no final de um livro. Uma presença que pareceu virar seu destino do avesso, deixar suas emoções interiores são bagunçadas, mas, estranhamente, de um jeito que Ford sentia nunca estar tão arrumadamente perfeito.

O motivo da sua existência estava ali diante dele. Uma peculiar forma simétrica ambulante, Ford tinha que admitir, a aparência do seu parceiro de trabalho era cômica. Mas não era exatamente sobre isso que ele se sentia atraído. Talvez fosse o intelecto... bem, Ford não sabia ao certo o que era. Mas, desde o dia do seu primeiro contato, Ford sentiu algo a mais. Era como achar um ponto final de um parágrafo na vida dele. Ele ainda se lembrava daquela tarde, cercado pelos tremoceiros roxos, descansando sob um carvalho numa tarde dourada quando, de repente, Bill apareceu dizendo que precisava de Stanford e de sua mente incrível para realizar um grande feito.

Havia sido a primeira vez que Stanford tinha escutado algo como aquele.

Alguém dizendo que precisava dele.

Alguém que não condenava a sua inteligência, e sim, alguém que simplesmente implorou para que pudessem dividir conhecimento.

Alguém que o valorizava e o admirava e que Ford podia considerar valorizar e admirar de volta.

Bill Cipher.

O maior enigma que havia surgido na sua busca até então.

Pensar naquelas coisas fazia o coração de Ford encolher, ficando tão pequeno quanto um grão de mostarda. Bill foi o mais perto que ele havia tido até então para chamar de amigo. Certo, havia Fiddleford, mas o rapaz era ocupado demais com a família que estava começando a nutrir e não desejava nada além com Ford do que ser um ajudante nas suas pesquisas. Além do mais, Stanford não havia contado sobre os monstros que moravam em Gravity Falls para ele, o fato já era perigoso suficiente para uma pessoa só saber.

Bill era o amigo que Ford não podia tocar.

Ele era apenas uma existência falha numa dimensão inacessível até então.

O fragmento de uma fonte infinita de conhecimento.

Bill não podia ir para o mundo de Ford por algum motivo.

Stanford sempre tinha que ir sozinho nas expedições em busca dos estudos de monstros e maneiras de abrir a barreira entre os dois mundos para que fosse possível entender a verdade por trás do universo. Era solitário. Era extremamente solitário. Claro, ele compartilhava todos os estudos com a criatura, mas não era a mesma coisa do que sair pelos arredores atrás da verdade e tocá-la com suas próprias mãos. Não era como se ele trocasse algum tipo de memória ou experiência com Cipher. “Que tipo de amigos não compartilham memórias juntos?”

– Eu queria que você pudesse ir comigo. – admitiu sem perceber, o triângulo virou-se na direção dele num rompante com uma expressão atônita estampada no seu único globo ocular.

– Stanford... – Bill suspirou. – Nós... nós já conversamos sobre isso... Você sabe que eu não posso sair daqui. Que isso é o máximo que podemos estar juntos. Eu não posso ir para o mundo real sem tomar o corpo de alguém com o devido consentimento.

– Eu sei... – levou a mão até a nuca, envergonhado. – Desculpe. Foi um momento de fraqueza.

– Oh, Sixer... – a forma geométrica se aproximou dele, Ford podia jurar que havia sentido compaixão na voz robótica dele e, ao olhar no olho dele, se assustou. Ford nunca pensou que algo tão distante da sua espécie parecesse tão humano. – Pense pelo lado positivo: assim que o portal estiver completo, e o alinhamento entre as duas realidades desaparecer, eu serei capaz de cruzar para o seu mundo e tomar uma forma física, então...

– Você será capaz de assumir uma forma humana própria. Sim, eu sei disso. – sim, Ford sabia, e muito, pois não parava de pensar sobre isso todos os dias. Às vezes ele se pegava pensando sobre como seria Bill em forma de uma pessoa. Como seriam seus olhos, sua cor de cabelo, seu corpo... e, até mesmo, como seria tocá-lo, sentir sua pele, ouvir sua voz... Ele tinha de admitir: ele podia muito bem estar atrás do portal para seus estudos, mas tinha uma parte dele que queria mais fazer isso pela ânsia de ter Bill ao lado dele oficialmente. E essa parte crescia e crescia cada vez mais a cada dia sem controle prévio de Ford, enchendo-o de esperanças e expectativas para o que seria deles em diante.

Um silêncio tomou conta do ambiente, pesando como a culpa que estava nas costas de Stanford. Objetos diversos (livros, anotações dos experimentos, xícaras, bules e peças do xadrez interdimensional) orbitavam avulsamente em volta dos dois como estrelas perdidas, procurando seu eixo numa constelação de perdições. Stanford pegou uma das peças que pairavam sobre o ar, relembrando das vezes em que havia passado horas jogando xadrez com Bill à base de um bom papo e uma xícara do chá mais refinado que ele já havia provado. Ele estava prestes a chama-lo para outra partida, no intuito de diminuir o muro que havia se instalado entre os dois repentinamente, quando notou uma etiqueta colada na base do peão: Dipper. “O que é ‘Dipper’, afinal?” se perguntou, mas logo ignorou, soltando a peça que, teimosa às leis da gravidade, saiu a flutuar para longe do seu plano de vista.

– Ford... – Cipher começou. – Pense na dimensão do feito que estaremos fazendo juntos. Tem como imaginar que você será o primeiro homem a conseguir isso que está para conseguir? Eu não te escolhi à toa. Tudo há um motivo. Você é bastante... especial. – olhou discretamente para a mão com seis dedos dele, a marca que o diferenciava dos demais. A marca de um Índigo. A marca de um ser humano no qual Bill havia manipulado seu nascimento e destino em prol de libertá-lo daquela realidade. – Vamos conseguir isso tudo juntos. Estamos mais próximos do que você imagina que estamos.

– A-acho que sim, Cipher...

Se Bill não fosse uma forma voadora, Ford poderia ter jurado vê-lo sorrir.

– Em breve isso tudo irá acabar, Sixer. Confie em mim.

Mas não era o fim que aguardava por eles.

Era apenas o começo.

Um terrível e massacrante começo.

Notas finais
Poxa... não foi dessa vez que você descobriu o que a Pacifica sabia. kkkkkkkkkkk escrever esse capítulo foi uma luta, descobri recentimente que tenho problemas com descrever e narrar flashbacks, eles são tão cansativos para mim, mas eu vejo a necessidade que eles têm às vezes... achei que seria importante detalhar um pouco como foi a relação do Ford com o Bill no passado e explicar bem como cada coisa acabou sendo o que era hoje. Próximo episódio, MUITO em breve! ;)