No Meu Pégaso Branco
15 Discuto com um juiz estranho
Notas iniciais
Era muito difícil compreender o
que ele – eu acho que era ele – dizia, mas era algo como: Venha comigo, entre
aqui, só um pulinho. É como em filme de terror, se isso fosse um eu já tinha
pulado, apesar de todos os apelos dos telespectadores de que eu tivesse pelo
menos um pouco de inteligência e não fosse para a morte iminente. Fiquei parada
esperando que aquilo fosse só fruto da minha imaginação, mas se passaram cinco
minutos e nada de Nico voltar muito menos do buraco sumir, decidi pegar um
batom e deixar um bilhete na calçada, por que o buraco estava começando a sugar
postes e pessoas desavisadas que passavam por ali.
Destampei
meu batom rosa, não era meu preferido, não sou idiota de escrever com meu
preferido na calçada. Deixei um bilhete explicando tudo da maneira mais rápida
possível, literalmente: “Buraco, Monstro, Suga, Tchau, eu volto”. Nesse momento
o poder desse buraco e sua voz ficaram mais fortes e eu fui sugada, a tempo de
ver Nico chegando segundos antes de a escuridão tapar minha visão.
Consegui
ver que ele tentou pular junto, mas instantes antes de ele conseguir a entrada
se fechou, agora eu estava em uma queda livre que parecia não ter fim,
totalmente amedrontador.
-
Quem é você?!? – Gritei para o vento que me cercava, a voz havia sumido. – O
que você quer?!? – Claro que não obtive nenhuma resposta.
De
repente eu encontrei o chão, ai você pode pensar: depois de uma queda livre
aparentemente alta a caída num chão duro deveria deixar até um semideus um
tanto machucado. Aí é que você se engana, eu caí em algo como um colchão bem
molenga, cheio daquelas bolinhas que vem nos pufes e quando rasga faz uma
bagunça daquelas.
-
Ahhh você chegou! – No começo era uma voz feminina, mas ai ela foi se
transformando em uma bem máscula e grossa, no entanto ainda bem diferente
daquela que me arrastou para aquele fim de mundo.
-
Quem é você e o que quer de mim? –
Perguntei me levantando, com a adrenalina circulando pelo sangue, arranquei as
ataduras do meu braço e minha mão voou para a barra do casaco indo a procura do
prendedor.
-
Ah, você está procurando aquela presilha que tem os símbolos nojentos dos
deuses gregos? – A voz perguntou, e nesse instante se acendeu uma luz que
queimou meus olhos, a luz focalizava um tipo de pedestal no qual estava o meu
prendedor.
-
Então você faz o tipo covarde que vai querer lutar com alguém sem arma? –
Perguntei com os punhos cerrados.
-
Quem falou algo sobre lutar? Só quero te mostrar uma coisa filha de Hermes. – Quem quer que seja, sabe muito bem que eu não
sou filha de Hermes...
De
repente o ambiente ao meu redos começou a se transformar, eu estava em um tipo
de julgamento, tinha um juiz estranho, Zeus, Poseidon e Hades em algumas
cadeiras e Hera de pé atrás deles, então a voz estranha se despediu e foi se
transformando até assumir a forma de Perséfone e pousar as mãos sobre seu
ombros, não antes de piscar para mim.
O
ambiente era claramente no subsolo ( isso não tem nada a ver com o fato de eu
ter caído para debaixo da terra) não tinha nenhuma janela, a luz era meio
fraca, em frente a mesa do juiz e das cadeiras dos três grandes tinha uma
cadeira simples, atrás dela uma fila, todas as filhas de Afrodite estavam lá...
Na cadeira estava sentada a própria.
O
tempo começou a passar rápido, o juiz foi dando suas sentenças numa velocidade
que eu não consegui acompanhar, mas quando ele tinha acabado com todas, estavam
alinhadas com caras tristes, eu não podia ficar parada.
-
Chega dessa palhaçada! Elas estão sendo julgadas injustamente! – Gritei com
todos os meus pulmões batendo a mão no banco de madeira, fez o tempo parar e
todos prestarem atenção em mim.
-
Então prove, filha de Hermes! –
Perséfone falou, mas após um olhar maligno de Hades ela se calou.
-
Afrodite não fez nada! – Gritei mais uma vez, dessa vez foi o juiz a retrucar.
-
Menina, você pode nos mostrar agora por que ela é inocente? – O juiz perguntou
com uma calma que chegava a me irritar.
-
Não, agora não, mas se você me der uma semana
eu provo isso tudo e ainda exponho quem realmente merece esse
julgamento! – Gritei com o rabo do olho em Perséfone, boa coisa aquela ali não
aprontou.
-
Você tem 5 dias, contando a partir do momento que você reencontrar sua equipe.
A próxima audição será no próprio Olimpo. Audiência e todas as decisões
tomadas, canceladas. Estão dispensados por enquanto. – Ele falou antes de bater
seu martelinho legal.
Fui
correndo abraçar Piper e todas as outras, não ia abraçar minha mãe mas ela
mesma veio correndo na minha direção e me deu um abraço um tanto asfixiador.
-
Acalmem-se está tudo indo bem. – As avisei.
-
Você já descobriu quem fez isso? – Tara perguntou saindo do meio do monte de
gente.
-
Não, e pra ser sincera não estou muito perto disso. Mas eu prometo fazer o
possível e o impossível para tirar vocês dessa! – Gritei já um pouco longe,
pois aquela mesma força de antes começava a me arrastar.
-
Bom, acho que vai ser difícil Filha de
Hermes por que você nunca vai sair daqui! – A voz, agora a própria de
Perséfone gritou enquanto voltávamos para o ambiente preto com minha arma no
pedestal, ela me prendeu na parede (até hoje não sei como) e foi embora. – Se
precisar de alguma coisa, é só chamar.
A
essa altura eu começava a me perguntar, onde diabos eu estou, onde diabos Nico
e os outros estão, como eu vou fazer para sair daqui uma vez que a essa altura
ninguém deve me achar tão cedo.
As
horas foram se passando, nada mudou em volta de mim, mas eu comecei a ficar
cansada. Resisti o máximo que pude, mas acabei dormindo. No meu sonho eu estava
vendo meu próprio reflexo em uma pérola gigante, de repente a pérola estourou e
eu acordei.
Não
estava nada fisicamente diferente, mas eu podia ouvir alguns barulhos no
corredor.
-
Perséfone não tente impedir meu caminho! –
Eu reconheceria tal voz muito facilmente se ela não estivesse tão abafada.
-
Garoto insolente o que tenho aqui não é da
sua conta! – Perséfone gritou, seguido de um baque em uma parte da parede,
podia ser ali a porta, eu tinha que fazer alguma coisa.
Normalmente
isso só adianta para cansar prisioneiros, mas eu comecei a testar os limites da
cordas que me prendiam, eu conseguia chegar a mais ou menos um metro do
pedestal.
O
que eu ia fazer agora, ia me ferrar muito sério, mas eu ia pegar meu prendedor
e no determinado momento isso que importava. Um tempo atrás no orfanato eu fiz
ginástica olímpica, ou pelo menos acho que lembro de ter realmente feito. Eu
saltei esticando ao máximo as cordas e consegui envolver o pedestal com meus
pés, quando eu caí no chão estalando todos os ossos do meu corpo, o prendedor
caiu do meu lado.
Tive
que me esforçar e ignorar a dor, foi difícil, mas era isso ou esperar Perséfone
abrir aquela porta e me matar. A discussão com o garoto (que eu começava a
suspeitar ser Nico) ainda estava bem animada. O prendedor estava relativamente
perto, mas com a dor que parecia penetrar meus ossos até chegar ao outro lado e
espetar diversas agulhas grossas e dolorosas pelos meus músculos, levou um bom
tempo para estivar o braço (na hora do desespero, caí em cima dele).
Quando
toquei no prendedor ele começou a brilhar, pensei em uma adaga e esperei, em
alguns instantes o prendedor tinha sumido e em seu lugar estava uma adaga preta
e rosa com metal estígio. Cortes as cordas/correntes que me prendiam e acredite
se quiser, foi a parte mais fácil.
Difícil
foi me levantar e caminhar até a porta, mas depois de cambalear um pouco eu
cheguei na outra parede e aí foi só tatear em busca da porta, quando a achei
coloquei o ouvido.
-
Pode fazer o que quiser, mas eu vou
acha-la! – A voz de Nico gritou.
-
Pode tentar! – Perséfone gritou, ela
estava apoiada na porta. Não pensei duas vezes.
Abri
a porta e em um milésimo de segundo Perséfone caiu, cravei minha adaga no braço
dela e de novo na perna dela, depois agarrei o braço de Nico e saí correndo
pelos corredores.
-
V.. Vic... Victoria? – Demorou pelo menos dois minutos para ele se dar conta do
que tinha acontecido. – Boa garota, aprendeu direito.
-
Onde nós estamos? – Perguntei sem diminuir o ritmo da corrida.
-
Mundo Inferior. – Nossa, agora parecia tão óbvio, como não tinha pensado nisso
antes? – Deixei Vita, Travis e os outros no meu quarto, é só chegarmos lá que
já deixei quatro pérolas separadas, quanto antes formos embora daqui melhor.
Nesse
instante começaram os gritos enfurecidos de Perséfone não muito distante dali,
aceleramos a corrida.
Depois
de alguns minutos de corrida, vários corredores e muitas, (MUITAS) portas,
entramos no quarto do Nico.
-
Gatinha! – Travis falou quando me viu, mas assim que parei de correr e a
adrenalina passou, a dor voltou a fazer efeito e que efeito foi aquele... Caí
no chão e me encolhi de dor.
A parte mais interessante é que até que os
Senhores espertalhões percebessem que eu estava toda ferrada e pegassem
ambrosia, deu pelo menos dois minutos ali encolhida.
-
Já tá melhor? – Duda perguntou depois de eu ter ingerido uma quantidade
significante de ambrosia.
-
Sim, já podemos ir. – Falei me levantando. Na hora certa, a voz de Perséfone
continuava a assombrar meus ouvidos.
Eu,
Vita, Duda e Travis estouramos as pérolas no chão, imediatamente fomos envoltos
em uma bolha que começou a subir, subir, fiquei com medo de que isso batesse no
teto, mas ele passou e foi seguindo até o oceano. Ah, e Nico não ficou para
trás, mas ele chegou lá por viagem nas sombras.
Fomos
passando pelo mar até emergimos perto da praia, Duda e eu molhadas, fomos
nadando na velocidade que nos foi permitido uma vez que estava realmente
difícil nadar. De vez em quando pegávamos impulso em uma onda ou outra. Quando
estávamos a uns 6 metros de chegar, deu para ver Nico surgindo por detrás de
uma árvore.
Mais
um pouquinho nadando e estávamos na praia, uma praia particularmente conhecida
por mim... A praia na qual eu ia quando era menor, a três ruas da minha casa.
-
O que aconteceu quando eu saí? – Perguntei para Travis enquanto nadávamos.
-
Muita coisa... – Ele falou enquanto continuava nadando. – Mais tarde você vai
saber de tudo.
Então
eu senti no meu pé, areia, tão bom... A partir daí parei de nadar e fui
caminhando, passos lentos, de vez em quando a água ajudava, outras vezes ela
estava contra. Por um segundo fechei os olhos, ignorei os problemas, imaginei
que tudo estava bem, aquele era só mais um dia na praia.
Aí
eu abri os olhos e lembrei de tudo, agora tinha mais um detalhe: Eu só tinha 5
dias para salvar minha mãe e minhas irmãs.
Cheguei
na praia um tanto ofegante, me sentei no chão ignorando totalmente o fato de
estar sujando minha roupa de areia – eu realmente odeio areia, principalmente na roupa – parei para respirar um pouco
e depois contei para eles cada parte do tempo que passei lá.
-
É melhor irmos logo atrás de pistas. – Duda falou se levantando.
-
Minha casa não é longe daqui, 5 minutos e chegamos lá. – Falei me levantando
também, instantes depois estávamos andando pela rua, quando a casa apareceu ao
longe, me senti enjoada, cambaleei um pouco, me segurei, era coisa demais para
uma semana, descobrir que os últimos anos da minha vida eram mentiras, que
minha mãe não era exatamente minha mãe, que de certo modo eles morreram por
minha causa, não só eles como as outras crianças do orfanato, deuses gregos
existem, sou filha de Afrodite, que está em perigo, tenho 5 dias para
encontra-la e para isso vou ter que revirar todo o passado que eu procuro deixar
quieto há anos. – É aquela ali. – Concluí apontando para a casa branca e de
madeira, um tanto moderna, grandes janelas de vidros e portas duplas altas. Um
grande jardim na frente.
Nos
aproximamos, chegamos perto da porta pelo caminho de pedras que ia até a porta,
a abrimos e demos de cara com um corredor imenso que só parava na parte externa
nos fundos do terreno, era realmente grande. A nossa direita uma sala onde
costumávamos ver televisão, onde meu pai estava me ensinando a jogar sinuca,
primeiro fui mostrar a casa, ignorando as plaquinhas de onde cada pista foi
encontrada e as manchas de sangue. Mais adiante à direita uma grande parede de
vidro que separava o corredor do “jardim de inverno” que na verdade era uma
área aberta no centro da casa onde papai gostava de jogar ping pong, a mesa era
cercada por quatro daqueles sofás/camas de palha redondos com colchão e
almofadas brancas.
Depois
chegávamos à sala, sofás confortáveis, estantes cheias de enfeites, o corpo da
minha madrasta foi encontrado aqui... Na esquerda a sala de jantar, mesa de
madeira, cadeiras modeladas, o jantar estava posto... Me aproximei mais e abri
as grandes portas de vidro que iam das estantes da sala de estar até o fim da
sala de jantar. A primeira coisa que você via ao sair era a churrasqueira mais
adiante à esquerda, com uma mesa de madeira em frente, à direita alguns sofás
diferentes, depois a piscina aquecida, acoplada à piscina gelada e se chegasse
mais perto você pode ver o cubo de vidro que na verdade é a sauna. Depois um
grande gramado.
-
É uma bela casa. – Vita falou, todos estavam quietos, essa casa costumava ser
muito feliz, mas as faixas de “crime scene” e as outras coisas da perícia
desanimavam bastante.
-
Costumava ser... Vou mostrar os quartos pra vocês, depois a gente prepara
comida na cozinha.
Notas finais
Bjinhos,
Vicky
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