Capítulo 1 — O Começo
A louca, o idiota dramático e as amigas fantasmas.

Aquela manhã de segunda-feira estava mais fria do que o normal. Deu-me uma preguiça tão grande de sair de debaixo das cobertas! Já faziam mais de três meses que morávamos em Montreal e eu ainda não tinha me acostumado com o clima. Nem as meninas. Mas apesar do frio, Maitê, Bruna, Tiffany e eu estávamos adorando. Vivíamos juntas em um apartamento simples, próximo ao centro da cidade. Bruna e eu estudávamos pela manhã enquanto Maitê e Tiffany trabalhavam em um restaurante. Já pela tarde, invertíamos a situação. Enquanto Bruna e eu trabalhávamos em uma boate, Tiffany e Maitê estudavam. A noite era nossa hora livre. Aproveitávamos para ir ao cinema, às compras ou simplesmente andar pela cidade. A noite é simplesmente maravilhosa!

Quando olhei pro relógio na cômoda ao lado da cama vi que estávamos muito atrasadas. Tínhamos que estar na escola há vinte minutos atrás e nem tínhamos levantado ainda. Com muito sacrifício levantei da cama e fui acordar as meninas.
– Bru! Acorda! Estamos atrasadas! – chamei, sacudindo-a na cama.
– Me deixa... Está frio... Eu estou com sono... Ainda está cedo...
– Bruna você não está me ouvindo? Estamos A-TRA-SA-DAS! Já são 8h20!! Já era pra estarmos na escola...
– Que?! E você vem me avisar isso agora?? – resmungou, levantando-se num pulo só.
– Reclama não, ta? Não fui só eu quem não ouviu o despertador hoje! Agora vamos logo, porque ta nevando. Nós vamos chegar ainda mais atrasadas... – falei indo ao banheiro – Ah! E aproveita e acorda as meninas! – pedi, fechando a porta.

Fui tomar meu banho. Uma água tão quentinha... Dava vontade de ficar embaixo do chuveiro até aquele frio passar. Enquanto isso Bruna acordava as meninas, com o mesmo sacrifício que eu, quando fui acordá-la. Quando sai do banho a mesa do café já estava pronta...
– Como essa guria é eficiente! – disse ao ver a mesa.
– Alguém tinha que ser né? O contrário de certas pessoas que esquecem das responsabilidades e acabam dormindo demais! – disse, olhando diretamente para mim.
– Bru... Foi sem querer! E olha quem fala! Você também não queria levantar, ta?
– Ta bom Nana! Vou tomar meu banho agora. Vê se não demora pra tomar café igual você demorou no banho, ok? – falou, deixando a cozinha.
– Nossa, a Bru tirou o dia pra me criticar hein... – resmunguei, sentando-me à mesa.
– Liga não Nana! Até parece que você não conhece a Bru... – disse Mai, sentando-se ao meu lado. – Foi o maior sacrifício pra ela vir pra cá... Ela não gosta de perder as aulas... Você sabe disso...
– É verdade... E nem me lembre do sacrifício que foi... – falei, pegando um pão e colocando suco em meu copo — Cadê a Tiffe??
– Ela já foi... Acordou mais cedo que todo mundo...
– Que?? Ela acordou mais cedo e nem chamou a gente??
– Parece que sim... Mas é porque ela acordou realmente cedo... Ela foi resolver uns negócios lá no restaurante... – explicou Mai.
– Ah ta!

Terminei de tomar meu café e fui pro quarto terminar de me arrumar. Quando cheguei ao quarto, Bruna já estava quase pronta. Peguei meu casaco no armário e saímos.
Estava realmente muito frio lá fora. Mas pelo menos já tinha parado de nevar. Lógico, as ruas ainda estavam cobertas pela neve e isso dificultava muito andar. Mas pra nós não havia tempo ruim. Aproveitávamos qualquer situação.
– Ai!! Você é louca?? – perguntou Bruna, levando a mão à cabeça. (Eu tinha acabado de jogar uma bela bola de neve nela...)
– Isso é por você ter brigado comigo hoje de manhã...
– Ah... É assim?? – falou, pegando neve do chão e formando uma bola.
– É... – ri.
– Então toma essa... – disse, jogando a bola de neve em mim.
– Ai! – resmunguei passando a mão na cabeça — Essa doeu...
– Era pra doer mesmo...
Mai riu.
– E você vai ficar rindo né?! – disse, encarando Maitê.
– Você acha engraçado?? – acrescentou Bru, juntando-se a mim.
– Toma!! – gritamos juntas.
– Ai!! – Mai cambaleou ao receber duas bolas de neve – Isso não é justo! Duas contra uma!

E assim foi o caminho todo. Até que...

Aquela manhã ele não tinha a mínima vontade de levantar. Estava muito frio. E ele também estava morto de sono. Aquela noite o show havia acabado a uma da manhã e depois, como sempre, os caras tinham que inventar alguma farra. E como ninguém é de ferro, ele foi junto. Quase ficou pela casa do Chuck assim como o Seb, mas preferiu ir pra sua própria casa onde poderia dormir até bem tarde. Como se conseguisse. Acordou às oito da manhã sem sono algum. O que era um milagre! Levantou e olhou pela janela. A rua estava coberta por neve. Apesar do frio, criou coragem e foi tomar um banho. Assim que saiu do banho, foi comer alguma coisa. Estava quase voltando pra debaixo das cobertas quando o telefone tocou.
– Eai David!! Já ta acordado??
É... Fazer o que né... – respondeu ainda sonolento — Um frio desses e eu não consigo dormir...
– Porque você não vem pra cá?? O Seb já ta aqui... E o Jeff já está vindo...
– Beleza! Vou só me arrumar e já vou. Mas e o Pierre e o Pat??
– Aqueles devem ter aproveitado a noite... — riu.
– Ah claro! Como sempre... Parece que não existe outra coisa no mundo pra eles...
– E por acaso existe??
– Que isso Chuck? Até você! Vou ter que comunicar a Sra. Comeau que o Pierre e o Pat tão levando o filho dela pro mau caminho... – riu.
– E que caminho hein...
– Tá bom... Vou desligar se não eu não saio daqui nunca. Até daqui a pouco!
– Até!
Assim que desligou o telefone, foi até o quarto, pegou seu casaco mais quente e saiu. Pensou em ir de carro, mas ia ser um pouco complicado tirá-lo da garagem. E como não morava muito longe de Chuck, resolveu ir a pé. Fazia tanto tempo que não fazia isso. Provavelmente seria bom.
Estava andando tranquilamente. Faltavam apenas mais dois quarteirões pra chegar à casa de Chuck. Quando de repente...

– Ai!! – gritou, passando a mão no cabelo pra tirar a neve.
– Ai meu Deus!! Me desculpa... Eu sinto muito, moço.
– Você é louca garota??
– Wow! Calma ai! Eu já pedi desculpas! Foi sem querer... – falei, tentando me explicar.
– É melhor você prestar mais atenção na rua sabia! Já imaginou se fosse um senhor de idade que estive passando na rua e levasse essa bolada? Que por sinal foi com muita força! Ta com raiva de alguém é??
– Deixa de ser dramático! – disse, quase rindo — E não, eu não to com raiva! Eu só tava brincando com as minhas amigas...
– Que amigas?? – ele perguntou preocupado.
– Elas tão aqui! – me virei e apontei pra trás. Mas para minha surpresa não havia ninguém na rua além de mim e aquele louco dramático.
– Você é literalmente louca... – afastou-se de mim. — Ta brincando sozinha é?
– Mas eu mato a Mai e a Bru! Elas vão me pagar! – disse baixinho, mas sem sucesso.
– Olha só! As amigas fantasmas da louca ainda tem nome. É melhor eu tomar cuidado com você hein... – riu.

– Deixa de ser idiota, garoto!
– Ixi... Melhor eu seguir meu rumo e não contrariar... – falou, rindo – Fui! – deu as costas e seguiu seu caminho.
– Vai tarde! – comecei a gritar — Seu louco! Dramático! Criança! Idiota!

Esperei até que ele sumisse de vista pra procurar as meninas.
– Bru!! Mai!! Cadê vocês?? – chamei-as gentilmente.
– Estamos aqui! – respondeu Mai, rindo.
– Fala sua louca! – disse Bru aparecendo logo em seguida, rindo.
– Vocês acharam engraçado, não?
– E não foi?? – perguntou Bru.
– Fala sério Nana! Que mico... – comentou Mai, ainda rindo.

– Super mico né! Mas fazer o que... Isso não vai ficar barato! – falei, indo em direção às meninas.
Na mesma hora pulei no pescoço das duas. Acabamos indo as três pro chão. Ainda bem que a rua estava deserta. Se alguém visse aquela cena, ia realmente nos chamar de loucas. E com razão. Não é todo dia que você vê três garotas rolando na neve...

– Nossa cara! Você demorou! O que aconteceu?? Encontrou algum gatinho no meio do caminho é?? – disse Chuck, gozando com a cara do amigo.
– Quem dera tivesse sido um gatinho. – riu, entrando na brincadeira – Mas falando sério! Encontrei uma louca, que além de ter amigas fantasmas, jogou uma bola de neve na minha cabeça!!
– Uau! Realmente eu ia preferir encontrar um gatinho... – disse Seb entrando na sala.
Ficaram os três rindo daquela situação até que Jeff chegou. Como eles estavam se divertindo muito com a historia de David, eles tiveram que contá-la pro Jeff. Que por sinal riu muito...
– Mas pelo menos a louca era bonita?? – perguntou Jeff, curioso.
– É... Isso eu não posso negar... Ela era muito linda... Pena que era louca... – riu.

– Bye-Bye Mai! Vai direitinho pro restaurante, hein! – disse, despedindo-me dela.
– Pode deixar! Eu sei o caminho direitinho. Não vou me perder. E nem vou atacar uma bola de neve na cabeça de alguém... – riu.
– Ainda essa história? – perguntei, sem acreditar.
– É isso ai, louca! – disse Bru rindo – Vai ter que agüentar isso por muito tempo ainda. Isso porque nós nem contamos pra Tiffe ainda...

– Ah não!! Vocês não vão fazer isso... – quase implorei.
– Você acha que não?? Isso vai ser a primeira coisa que eu vou fazer quando chegar ao restaurante...
– Maitê Maria! Eu te mato!!
– To morrendo de medo... – riu ainda mais.
– Vamos parar com essa discussão, crianças! – Bru nos interrompeu – Nana, a gente ta atrasada pra aula, esqueceu? E você ainda ficou batendo papo com o idiota dramático. – rindo – E você Mai, tem que ir pro restaurante senão também vai chegar atrasada! Assim que acabar as aulas a gente passa lá no restaurante...
– Ta bom! Eu espero vocês por lá! – disse Mai, caminhando na direção oposta – Bye!
­– Bye!! – dissemos, entrando pelo portão da escola.

Quando eu e a Bruna chegamos à escola já tínhamos perdido duas aulas. Nós fizemos tanta bagunça até chegar lá, que nem vimos a hora passar.

– Muito bonito, meninas! – disse a professora ao nos ver chegar – Chegando agora?
– Desculpa professora... Tivemos uns contratempos. – falei, me esforçando para segurar a risada.
Bruna que estava de costas para a professora não agüentou e começou a rir.
– Rindo do que Srta. Vidal? – perguntou a professora, percebendo os risos de Bru — Posso saber?? Também quero rir!
– Nada não, professora... – olhando pra mim que, também segurava a risada assim como ela.

Assim que Maitê chegou ao restaurante foi procurar Tiffe. Ela estava arrumando as mesas. Logo o restaurante iria abrir
– Até que enfim resolveu aparecer! O restaurante já vai abrir sabia?? – disse Tiffe, irritada.
– Que horas são??
– Já são dez horas!!
– Nossa!! – espantou-se – Eu nem vi a hora passar! Também, você nem sabe o que aconteceu... – rindo.
– O que?? – indagou curiosa.
Mai começou a ajudar Tiffe a arrumar as mesas enquanto contava toda a história. Desde as bolas de neve, até o idiota dramático, a louca e suas amigas fantasmas. Quando terminou de contar as duas caíram na risada. Tiffe achou tudo tão divertido que teve que puxar uma cadeira e se sentar.