No Matter What
2 Capítulo I
Notas iniciais

1 ano atrás
— Cécile?
Eloise olhava para mim com um sorriso travesso nos lábios. Olhei para o relógio preso no meu pulso na esperança de ter mais alguns poucos minutos antes da aula começar. Eloise riu do meu gesto e eu pude sentir um pouco de maldade em suas palavras.
— Não adianta, Ceci, a professora já está na porta.
Murmurei alguns xingamentos enquanto ouvia mais algumas risadas. Me arrumei na mesa que dividia com Eloise, e depois que arrumei a minha bagunça (que consistia em blusas de frio) ela se sentou a minha frente. Coloquei a minha touca preta na cabeça, fazendo com que os cachos pretos amassassem conforme eu ajustava o tecido. Mesmo com os aquecedores, eu ainda sentia frio, e para piorar, a porta estava aberta, fazendo com que a brisa gelada batesse em meu rosto como um tapa.
— Por que ela ainda está lá fora? — perguntei enquanto encarava a senhorita Carpentier, que parecia conversar com alguém.
Eloise olhou para fora antes de olhar para mim. Não importava a pergunta, Eloise sabia de tudo o que acontecia na escola. Eu não fazia ideia de como ela conseguia tantas informações, mas como aquilo muitas vezes me beneficiava, passei utilizar esse talento de Eloise muito mais vezes.
— Parece que estamos recebendo um aluno novo. Fiquei sabendo que ele é muito rico— ela contou, fazendo algumas caretas que demostravam a sua animação com a mais nova notícia.
— Espero que não seja esnobe igual aos milhares que existem aqui. Acho que eu não suportaria mais outro.
Ela soltou uma risada e eu a encarei com dúvida.
— Não, os seus pais que não suportariam. Quantas vezes você já foi para a diretoria neste mês?
— O que isso tem a ver? — Eloise arqueou as sobrancelhas— Tá, umas três vezes, mas a culpa não foi minha. Amélie estava implicando com algumas meninas e eu apenas as defendi.
Odiava qualquer tipo de bullying e simplesmente não conseguia me segurar quando via acontecendo. Se eu me arrependia quando era mandada para a diretoria? Nem um pouco.
— Você tem que parar de querer resolver as coisas sozinhas, caso contrário, seus pais nunca irão tira-la do castigo. Tem que deixar Amélie pra lá.
— Falando no diabo...
Amélie Benoit entrava na sala de aula graciosamente. Seus cabelos ruivos balançavam de um lado para outro ao mesmo tempo que ela andava. Mantinha uma postura ereta, exalando superioridade. Revirei os olhos enquanto observava todo o seu show. Imitei a sua pose de maneira exagerada, fazendo com que Eloise risse de minha brincadeira, mas logo se calasse, olhando para trás de mim.
— Cécile, bom dia! — me virei assim que ouvi o meu nome sendo pronunciado de maneira debochada pela ruiva. Ela sorria falsamente enquanto eu apenas a encarava com tédio no olhar. Eu sabia que daquela boca não sairia nada bom— Como foi a detenção ontem?
— Foi ótima! Todos nós comentamos o quanto você era chata e desinteressante. Não paramos de falar um segundo sequer. Você deve imaginar o quanto de assunto isso rende.
Quando Amélie estava pronta para retrucar, a senhorita Carpentier entrou na sala, fazendo com que ela se silenciasse antes mesmo de dizer algo.
— Cécile, olhe os modos!
Soltei um suspiro de frustração enquanto Amélie sorria vitoriosa. Abaixei a cabeça e disse:
— Desculpe, senhorita Carpentier— me desculpei antes que a mais velha me castigasse com mais uma detenção.
Ergui a cabeça para ver se o meu pedido de desculpa funcionara, e foi só aí que eu percebi o menino que estava do lado da professora. Ele era loiro e os seus olhos eram mais verdes do que duas esmeraldas. Percebi que ele estava rindo do que acontecera, e eu me perguntei se havia falado tão alto. Desviei o olhar, mas ainda conseguia sentir os seus olhos sobre mim.
— Bom dia, classe.
Toda a classe ficou em silêncio ao perceber que a professora já havia chegado, porém antes que ela pudesse prosseguir, batidas na porta fizeram com que todos desviassem a sua atenção para aquela direção. Me levantei para abrir ver quem era quando a senhorita Breton fez um sinal para que assim eu o fizesse. Desci os dois primeiros degraus me direcionando para a porta, que ficava do lado esquerdo da sala. Ao abri-la, a figura de Breno me fez rir. Ele me olhou com raiva e isso só fez com que eu gargalhasse ainda mais.
— Não comece— murmurou enquanto se desviava de mim para se sentar no seu lugar.
— Cécile, feche a porta por favor.
Fechei a porta e sentei em meu lugar. Breno se sentou ao lado de Eloise. As carteiras eram arrumadas em grupos de quatro, e desde que nós três nos tornamos amigos, passamos a nos sentar juntos. Arqueei as sobrancelhas, enquanto encarava Breno.
— Parece que não fui eu que me atrasei hoje — comentei, segurando uma risada.
— Você se atrasa todos os dias, não se sinta vitoriosa — rebateu, revirando os seus olhos castanhos.
— Estou com o Breno — disse Eloise, apertando os ombros do garoto ao seu lado.
— Vocês me odeiam por acaso?
— Cécile, posso começar com a aula?
Percebi os olhares de todos em mim e pude ouvir algumas risadinhas de Amélie e de sua fiel companheira Camille. Me controlei para não dizer nenhuma besteira e respondi:
— Claro, professora, à vontade.
Senti Eloise me cutucando como se me repreendesse e eu sabia que mais um desses e o meu braço ficaria roxo para sempre.
— Bom, classe, este é Andrew Chevalier, o novo colega de vocês. Espero que o tratem bem...
— Ah Meu Deus — Eloise sussurrou
— O que? — perguntei.
— Esse é o Andrew Chevalier.
— Sim, foi o que a professora acabou de dizer — sussurrei de volta.
— Você não tem ideia, não é? — neguei com a cabeça— Ele é um ator, fez várias series de sucesso nos últimos anos. Às vezes eu até duvido se você mora ou não em uma caverna.
— Sinto muito se eu não assisto as mesmas coisas que você e...
— Olá, posso me sentar aqui?
Eloise limpou a garganta, e eu sabia que esta era a sua melhor maneira para disfarçar algo. Mantive os meus olhos abaixados enquanto Breno conversava com Andrew. Não queria correr o risco de passar por aquele momento constrangedor novamente. Quando me dei conta, lá estava ele, sentado bem ao meu lado.
— Qual o nome de vocês?
— O meu nome é Breno e ela é a Eloise — Eloise acenou com a cabeça e falou um "oi'' completamente animada — E por ultimo mas não menos importante, a explosiva Cécile! Já avisando, cuidado com ela.
— Ei! Eu te dei permissão para falar de mim deste jeito? — perguntei, fingindo estar ofendida. Não adiantava ficar brava com Breno, eu sabia que era verdade.
— Eu não falei nada que não fosse verdade — se defendeu, erguendo os braços em sinal de rendição.
— E como você ganhou este titulo? — Andrew perguntou se virando para mim.
Desta vez, não consegui desviar o meu olhar. Sorri para ele timidamente para ele. Aquela não era uma das minhas histórias preferidas.
— Bom... gostaria de deixar claro antes de te contar que a culpa não foi minha.
— Mentira — Eloise falou, disfarçando a palavra em meio a tosses.
Breno e Andrew gargalharam e eu fuzilei a loira com o olhar.
— Continuando... Foi na primeira série. Eu não era uma criança muito paciente, então quando um menino tropeçou e mim, eu acabei batendo nele, contudo, porém, no entanto, eu sofria um certo bullying na época e achei que aquilo era uma brincadeira de mal gosto.
— E ele realmente havia tropeçado em você?
— Exatamente, mas como eu era muito nova para levar uma suspensão eu só levei um bilhete no meu caderno dizendo que a minha mãe deveria me levar a um psiquiatra ou coisa assim, não me lembro bem.
Enquanto eu falava, Breno e Eloise riam da história, enquanto Andrew não parava de me encara com um sorriso no rosto. Parecia que eu estava contando algo extraordinário pelo jeito que ele me olhava.
Depois de eu terminar de contar a minha cómica experiência, Eloise começou o seu interrogatório com Andrew. Descobri em cinco minutos que Andrew morava com o seu pai em uma enorme mansão na parte nobre da cidade, que a sua mãe havia o abandonado e que ele até então estudava em casa. O interrogatório foi interrompido brutalmente pela professora antes que pudesse acabar e nós quatro começamos a copiar o dever desanimadamente. A aula continuou sem muitas interrupções, e quando percebi, o sinal do intervalo tocou, fazendo com que todos levantassem de suas carteiras apressadamente.
— Então, Andrew, quer vir com a gente? — perguntei, enquanto o esperava encostada na porta.
Aquela simples pergunta fez com que o garoto sorrisse abertamente, mostrando as duas covinhas presentes em sua bochecha. Naquele momento eu senti o meu coração se aquecendo com aquele simples sorriso, e me perguntei o porquê daquilo. Me sentia estranha, mas ao mesmo tempo, absurdamente feliz.
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