No Limits To Darkness
4 Capítulo 4 - Are watching us
Era um cenário agradável, desconhecido da maioria dos mortais, os que habitavam por lá tinham anos de prática e experiência em caçadas. Um homem de sobrancelhas grossas cortava lenha como se estivesse cortando um pedaço de pão. Sendo descomplicado a ele. Alice, que havia se apoderado de um pequeno espaço no solo gélido, fixava seus olhos verdes no homem com receio. O homem por si só parou de cortar lenha e caminhou o olhar na direção de Alice que desviou nada discretamente.
– A moça gostaria de aprender a cortar? – Perguntou o homem passando a mão na testa para eliminar um pouco de seu suor. Alice tinha feito um acordo com Jack Mortenson em ajuda-lo a capturar lobisomens ou vampiros. Com toda certeza ela queria impressionar Jack de alguma forma, não poderia apenas esperar Mitch chegar de sua caçada para o almoço com outros homens para poder ensiná-la alguma coisa. Mitch era habilidoso em diversos meios para matar algum animal indefeso, isso Alice não poderia negar. Porém ela precisa de mais, ela mesma quer descobrir sua força física, contanto que seja o suficiente para se preservar.
– Gostaria... – Disse em palavras que soavam baixo. O homem sorri esperançoso e estende a mão para lhe entregar o machado que usara há poucos segundos. Alice emite um som de agonia ao ver o tamanho do instrumento. O homem solta o machado para Alice segurá-lo sozinha. No mesmo instante ela o deixa cair reclamando da dor que sentia na mão.
– Está segurando errado. – O homem se agacha para buscar o machado novamente e mostra a ela a maneira correta. – Não ouse encostar-se à ponta afiada dele. – Instruiu o homem menos transpirado. – E usar as duas mãos seria uma boa opção. – Ele solta uma gargalhada rápida fazendo Alice se sentir envergonhada por ter tanta pouca experiência nesses assuntos. Por fim ela prende seu cabelo ruivo com uma faixa preta, que sempre leva presa em seu pulso esquerdo, num rabo de cavalo em cima da cabeça e bem firme. O homem lhe entrega pela segunda vez, e desta vez com cuidado, o machado.
Com delicadeza, Alice manobra o instrumento perfeitamente em suas mãos. Ela dá um impulso para levantá-lo para cima e consegue o movimento sublime.
– Está indo bem. – Alega o homem se sentando. – Agora só buscar a sua força. – Alice e ele sabiam que manobrar um machado em mãos não é exatamente apenas para cortar lenhas.
Alice se sentiu valente e assim seguiu caminho a madeira da árvore. Com a respiração ofegante, ela contou até três e sacou o machado rapidamente na direção da madeira. Além do machado não cortar, Alice tombou para trás deixando o machado preso à madeira. O homem podia jurar que ela havia obtido sucesso. Ele ia ajuda-la a levantar, mas foi impedido por Jack Mortenson que parecia mais sombrio a cada aparição. Com um sorriso torto e debochado olhava para Alice tentando se levantar. Ele mesmo ergueu sua mão para subi-la com velocidade sem sequer espera-la segurar. Alice se recompôs desajeitada de pé, tropeçando neles mesmos.
A última pessoa que ela gostaria que estivesse a assistindo naquele instante estava bem ali. Com aquele sorriso debochado de sempre.
– Obrigada... – Agradeceu sem olhar na direção de seus olhos negros que neste instante estavam presos nela.
– Ensinando a cortar lenha Carl? – Perguntou Jack num tom de zombaria.
– A moça estava com interesse em aprender. – Disse Carl honesto.
– Tudo bem... – Jack rolou os olhos e cruzou os braços diante do peito. — Pode deixar que eu a ajudo daqui em diante. – Carl assentiu se retirando. Alice arregalou os olhos implorando a si mesma que Carl voltasse. Mas não foi o que aconteceu. Jack manobrou o machado com muito mais facilidade do que Carl e se exibiu com manobras de luta com direito a cambalhotas e palmas de algumas moças que passavam carregando baldes de água pelo poço que ali se encontrara.
– O que achou? – Ele perguntou com o machado numa das mãos. Alice se corroeu por dentro.
– Além de arrogante, é convencido. – Verbalizou. Jack, ao invés de se sentir ofendido com tais insultos, começou a gargalhar sozinho. Sua risada afetava Alice por ser de tão mau gosto. Há essas horas Alice só queria que Mitch voltasse.
– Não precisa me elogiar tanto. – Ironizou Jack. Ele se esquivou e tomou uma postura séria lhe concedendo o machado. Alice, desconfiada de sua expressão, custou a segurar como da primeira vez, mas não deixou que o sorriso de Jack se abrisse por vê-la incapaz de algo. Caminhou em direção à árvore que o machado havia ficado preso. O corte estava nítido. E com toda fúria levantou o objeto e o guiou com velocidade e força como jamais tinha se visto antes. Jack bateu palmas por um curto período, até Alice perder novamente o equilíbrio e quase cair novamente no chão. Jack a segurou a tempo.
Ele a abraçava apertando de súbito sua barriga. Seus rostos novamente frente a frente. Alice arrepia-se na nuca.
– Como quer um acordo se nem ao menos consegue se manter de pé? – Denota Jack severo com as palavras.
– Seu ego é enorme sabia? – Pergunta Alice ainda sentindo os braços de Jack envolta dela.
– Sabia. – Ele sussurra em seu ouvido e afrouxa seu possível ‘’resgate’’. Alice então se liberta dos braços dele e dá dois passos para trás intrigada. Como de costume ele sorri torto e vira as costas para ela caminhando devagar. As moças iam até ele com euforia. Todas comentavam em tom alto sobre suas manobras inteligentes. Jack rondou seus braços em volta de duas delas e saiu caminhando descontraidamente como se há poucos segundos nunca tivesse sido ríspido.
[...]
Mitch vestia um traje que lhe caía muito bem. Poderia ser uma mera vestimenta de caçador com uma calça de couro presa a vários cintos e diversas proteções, mas Alice nunca havia visto Mitch daquela forma. Estava em horário de almoço, todos estavam reunidos em volta de mesas grandes em comprimento com um banquete suculento em cima delas. Todos que ali estavam pareciam uma enorme família reunida. Nenhum se quer parecia estar sozinho. Com exceção de Alice. Ela se sentou perto de várias senhoras que ali estavam, ignorando completamente as moças que aparentavam ter sua idade. Mitch que chegava com um sorriso extenso se sentou ao seu lado.
– Está tudo bem? – Mitch se serve de uma coxa de frango logo a sua frente. Mas não ousa mordê-la esperando por alguma resposta de Alice.
– Como você consegue?
– Como eu consigo o que?
– Se sentir a vontade? Só faz um dia que estamos aqui... – Balbucia Alice desenhando círculos imagináveis com o dedo indicador na mesa.
– Não estou à vontade, só estou agradecido com tanta hostilidade. Você não está? – Ele mordisca seu primeiro pedaço esperando curioso por sua resposta.
– Claro que estou. Mas me senti sozinha hoje pela manhã... Você não estava perto de mim quando acordei.
– Eles foram claros quanto à caça. Todo dia eu tenho que aprender novos métodos, conhecer bons locais... E tudo isso, — Mitch fez uma pausa para apoiar sua coxa de frango numa tigela. – É para cumprirmos com nosso acordo e estarmos aptos a fazer o que queremos.
– Entendo... Mas por que não posso ir com você?
– Conforme eles, uma moça não pode caçar. Eu achei idiota, até porque você precisa aprender tanto quanto eu.
– Caçar é o que eu tenho que saber já que preciso capturar aquelas coisas... – Algumas senhoras da mesa prestavam atenção na reação raivosa de Alice, mas logo deram de ombro visto que foram notadas.
– Eu sei. Mas não podemos discutir com eles... O jeito é quando eu voltar te ensine o que aprendi.
– Ou poderíamos falar com Jack Mortenson. – Mitch parou de saborear o frango e alguns legumes se sentindo incomodado pela ideia.
– Acha que ele faria algum favor para nós? Por favor Alice, ele é o único aqui que parece nos odiar, e advinha? Também não fui com a cara dele. O fato dele ter aceitado esse acordo não foi por piedade, talvez esteja brincando com nós dois e não temos ideia.
Alice não retruca. Ela concorda com todas as palavras de Mitch e torna a comer.
[...]
Estava no final do almoço quando dois homens vestidos do mesmo traje que Mitch o chamam:
– Devemos sair para caçar novamente para o jantar. – Mitch e Alice se entreolham confusos e surpresos por toda aquela comida ter acabado. Alice dá uma olhada de soslaio pelas mesas e realmente nota que não sobravam nem migalhas pela mesa. Sem argumentar contra, Mitch se levanta.
– Desculpe. – Pede a beijando-a na testa com um selinho rápido. Ao mesmo tempo que Alice desejava mais de seus beijos e carinhos, também não se sentia a vontade com isso. Em nenhum momento tiveram tempo suficiente para clarear seus sentimentos. O que exatamente aquele beijo significou. Sua única saída seria agir com indiferença até a hora certa. Alice assisti Mitch caminhando determinado e junto aos caçadores. Ela queria muito ter encontrado forças para esbofetear cada um daqueles homens que acham que caçar não seja apropriado a uma mulher. Mas o pior era que Alice não tinha certeza se este possível machismo vinha diretamente dos homens que carregavam Mitch para todos os cantos, ou vinha de outra pessoa.
Em volta de si via algumas mulheres catando pratos. Alice se levantou para ajuda-las até que uma delas interveio:
– O que está fazendo querida? – Uma senhora de lábios caídos e de rosto enrugado que perguntava. Seu cabelo preto possuía alguns fios brancos grisalhos.
– Eu comi nesta tigela, então vou recolhê-la para lavá-la. – Não era uma postura de coitada. Alice afirmou com clareza o óbvio e que muitas moças da sua idade deram de ombros.
– Meu anjo, não é necessário. Nós cuidamos disso sempre. – A senhora que aparentava estar exausta tentava tirar a tigela das mãos de Alice com suavidade.
– Não me importo. – Alice sorri e recusa os braços esticados da senhora prontos para levar sua tigela. – A propósito, me chamo Alice. – Ela estende sua mão desocupada para cumprimentar a senhora.
– Jasmine. – Ela sorri com perseverança e seus olhos brilham ao ver Alice recolhendo mais tigelas e copos da mesa seguindo as outras senhoras.
[...]
A moça ruiva estava fascinada pelas boas lembranças de seus pais que ainda conseguia tirar da memória. Sorria sozinha prestando atenção ao mesmo tempo no movimento das nuvens. Se sentia mais tranquila. Contudo se via inútil ao mesmo tempo por não estar aprendendo algo novo ou por Mitch sumir novamente. Certo que ainda era o primeiro dia, mas queria o mesmo tratamento que Mitch recebera, e não poderia por... Por ser uma mulher? Esse tipo de machismo a encabulava cada vez mais.
– Já usufruiu de arco e flecha alguma vez? – Jack Mortenson detinha a claridade ao rosto de Alice e veio como sombra. – Que pergunta a minha, é claro que não. – Ele riu sozinho como se tivesse feito uma piada das boas, mas teoricamente para ele era sim. Alice era uma piada para Jack Mortenson.
– Vai ficar rindo o resto da tarde ou vai me ensinar como se usa? – Alice se levantou com as duas mãos na cintura impaciente com tal atitude. No fundo estava ansiosa para tocar no arco e flecha enorme que Jack levava preso às costas. Finalmente se sentiu habilitada a fazer alguma coisa. Porém a ideia de que Jack Mortenson em carne e osso iria orientá-la era deprimente.
– Claro. Vamos. – Jack a guiou para um bosque. Alice vislumbrou os arvoredos com precisão, parecia que a natureza fosse seu verdadeiro lar. Inalou o ar ainda encantada com tal ‘’paraíso’’. Jack por sua vez observava caótico. Como uma moça poderia apreciar uma natureza selvagem? Todas as moças que ali se encontravam não sentiam a mesma sensação que ele ao sentir a iluminação daquele ambiente, ao escutar o ruído de ventos quando se deitam pela flora ou ao ouvir o som de animais silvestres vivendo em seu habitat. Ele estava ali, longe de qualquer clã, longe de sofrimento e guerra.
– Destra? – Pergunta o caçador com preparo. Alice balança a cabeça em confirmação. — Segure o arco com sua mão esquerda e puxe a corda com a mão direita. – Jack cede o arco e flecha.
Alice inicia bem. Segura como o dito e se deleita novamente com o som da natureza. Esquece que Jack é desagradável. Todavia, sua postura é austera.
– A postura deve ser a mais confortável possível, — Confere Jack. Alice se reposiciona e estabelece a mesma posição dura de antes. – Jack apropinqua de Alice e leva seus braços aos dela. Ele se prende a ela fazendo a mesma posição.
– Se posicione ligeiramente de lado para o alvo, nunca de frente para ele. – Prossegue sussurrando ao seu ouvido. As mãos ainda pressas nas de Alice e o olhar fixado em seu rosto. – Encaixe a flecha por baixo deste anel na corda. – Jack indica a ela. – Use os três dedos do meio da mão, um por cima da flecha e dois por baixo. Use a ponta dos dedos entre a primeira e a segunda falange... – Alice afronta Jack não sabendo distinguir uma falange. Jack logo guia seus braços e mãos com toques leves.
– A flecha possui uma pena de cor diferente, chamada pena guia. Que deve ficar para fora para não bater na empunhadura quando disparar. A puxada deve ser até o queixo, isso ajuda a não ficar trêmulo no instante antes do disparo. Portanto você deve ser breve, o suficiente para visar o alvo. – O silencio da natureza era o único ruído entre os dois diante dos conselhos de Jack. Alice ouvia atentamente, mas ao mesmo tempo suas mãos eram como marionetes. Jack as manobrava.
– Nos primeiros disparos, puxe a corda com o arco levemente inclinado para ajudar no posicionamento da flecha. No instante do disparo o arco deverá ficar na posição vertical. – Jack se distancia de Alice para tentar sozinha. – O disparo deve ocorrer sem comando, então, relaxe os dedos que a corda se encarregará de puxá-los. – Antes mesmo de Jack encerrar, Alice dispara a primeira flecha dentro de um riacho. Jack, com aquela mesma expressão de zombaria, caminha até Alice a ajudando como antes. Suas costas eram domadas pela presença do caçador tão volumoso. Guiando ela, Alice consegue que a flecha se prenda a uma árvore um pouco distante dos dois. Ela sorri impressionada. Quando vira para buscar mais uma flecha e tentar, quase encontra seus lábios nos dele. Com aquela mesma atitude, Jack não faz questão de se afastar. Uma expressão maldosa toma conta de seu rosto e parece que se alimenta do medo de Alice.
– A flecha... – Pede ela. O caçador retarda um pouco ainda a observando de perto. Depois lhe dá outra flecha como o pedido.
– Espero que dessa vez seja menos ruim. – Ela se contorce de raiva pelo comentário provincianoe atira a segunda flecha sozinha. Ela se prende perto da mesma que Jack a guiou. Olhando aquela cena com euforia ela salta em pulos.
– Consegui! – Se vira para Jack. Ele estava sustentado na árvore distraído e bastante calado. – Honestamente, quando deixará de ser imprudente? Quando finalmente acerto alguma coisa, você nem se quer presta atenção. – Jack pede silêncio de Alice e alguns segundos depois, ambos despencam no chão. Jack a havia despejado com rapidez e precisão.
– O que pensa que está fazendo? – Mesmo não sabendo o motivo do pedido de silêncio, ela murmura.
– Estavam nos vigiando. – Alice arregala os olhos olhando para todos os cantos.
– E como sabe se ainda não estão?
– Não estão mais. Acho que foram embora. – Jack se levanta. Alice faz o mesmo.
– Quem? Você viu?
– Um deles. Em forma humana.
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