No Limite

21 A Vida como a de Coco


Notas iniciais
Boa leitura!

— Vem, vamos para a biblioteca. – Ino chamou e a puxou pela mão.

Hinata se deixou levar. Ela e Naruto tinham acabado de voltar às aulas depois da suspensão, mas parecia que nada nunca voltaria ao normal. Por algum motivo, Hinata sabia que a presença daquela garota em suas vidas novamente não faria bem algum. Nem a ela, nem a Naruto e nem à Ino.

E ficou assustada. Era um tipo de medo que ela nunca havia sentido antes, como se alguma coisa de ruim fosse acontecer logo.

— Ino... Essa tal de Emily... Não é perigosa, ou é? – Hinata perguntou ainda se deixando levar pela amiga até a biblioteca. Tentou não transparecer seu receio na voz, mas não obteve muito sucesso.

Ino parou para observá-la e as duas se encararam no corredor.

— Bom... Não que eu me lembre. Ela era meio possessiva com o Naruto, não parecia querer larga-lo nunca... Mas fora isso ela é inofensiva. – Ino falou pensativa. – Eu acho. – completou baixinho e Hinata não pareceu escutar.

Hinata suspirou um pouco mais aliviada. Mas seu coração ainda estava pesado. Alguma coisa não parecia certa.

As duas rumaram de vez até a biblioteca. Hinata não sabia bem o que iriam fazer lá. Ino sempre parecia muito enigmática com os assuntos que a envolviam agora e, às vezes, Hinata se irritava com isso. Mas não hoje. Hoje ela estava preocupada demais.

— O que viemos fazer aqui mesmo? – Hinata perguntou cansada. Decidiu que era melhor fazer o que a amiga queria que ela fizesse, para que pudesse ser deixada em paz de uma vez.

— Viemos pegar alguns livros sobre moda. Vai ser rapidinho eu juro. – Ino disse abrindo as portas do lugar e foram diretamente para umas prateleiras no fundo da sala. Ino já devia saber onde ficavam os tais livros, pois foi exatamente até os livros que queria.

— E para quê? – Hinata perguntou de novo.

— Para você, sua lesada. – a loiro respondeu, enquanto puxava um livro da prateleira e entregava à Hinata. Na capa lia-se “COCO CHANEL” em caixa alta. – Você precisa saber um pouco sobre moda antes de ser a minha estilista. Não quero ter que descrever as roupas, quero que saia tudo da sua cabeça. Quero que se interesse por isso. E tenho certeza que vai.

— Ino... Você sabe bem que o meu negócio é arte. – Hinata contra argumentou. – E sabe o que eu penso sobre moda.

— Sei. E não vou mais discutir. Vou deixar que você aprenda sozinha com esses livros. – a Uzumaki disse e pegou mais um livro, dando-o à Hinata. – Pronto. Quero que leia esses primeiro, está bem? Depois nós passamos para a costura.

— Costura?! – Hinata perguntou abismada. – Eu tenho que aprender a costurar? – perguntou ela, quase chorando. – Ino, eu estou achando que você já está querendo demais. – Hinata lamentou e viu Ino sorrir.

— Bom, eu quero que você seja a melhor nisso. E você ama desenhar! Qual a diferença? – a loira perguntou e Hinata fez uma careta como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Eu gosto de desenhar! Gosto de Picasso e Michelangelo! Eles sim, fizeram alguma diferença nesse mundo. O que a... – ela parou de falar e olhou o nome do livro que Ino tinha lhe entregado primeiro. – Cocô Chanel – leu – fez nessa vida, além de desenhar roupas? – Hinata completou, quase indignada.

— É Coco (lê-se Côco). E eu nem vou discutir isso com você. – Ino disse olhando para a amiga como se aquela discussão não valesse a pena. – Dá para parar de ser cabeça-dura e ler os livros que eu estou mandando? – Ino perguntou sem paciência.

— Tudo bem, ok? – a morena afirmou sem saída; no segundo seguinte, o sinal de início das aulas começou. Ino olhou para cima. Pareceu um pouco preocupada. – O que houve?

— Estava pensando no meu irmão. – Ino respondeu sem hesitar. – Ele saiu feito maluco do treino e não sei se vai voltar para a aula. – falou. O treino de basquete era às seis horas da manhã, aquela semana. O treinador Gai queria punir os capitães – Naruto e Sasuke – que haviam sido suspensos – e voltaram hoje – e acabou punindo o time inteiro. Só Deus sabia o quanto Ino teve que aturar as reclamações do irmão sobre ter que acordar às cinco da manhã para ir para o colégio.

Hinata não falou nada. Também estava preocupada com Naruto estar matando aula logo no primeiro dia em que voltavam às aulas. Mas o que poderia fazer?

— É... Entendo. – disse a morena simplesmente e baixou um pouco a cabeça. – Mas eu também não posso chegar muito atrasada, lembra? Também fui suspensa. – Hinata disse. – Nós temos que ir. – completou.

— Sim, sei. – a loira falou, ainda preocupada. – Vamos.

[...]

Ele não apareceu. Pelo menos, não nas duas primeiras aulas. Mas na terceira ele estava lá. De banho tomado, cabelos ainda úmidos e de uniforme impecável. Ele parecia como um bad boy e Hinata o admirou por algum tempo.

Quando ele caminhou em sua direção, para sentar na cadeira ao lado – que lhe pertencia – Hinata odiou a si mesma, por sentir-se arrepiar ao sentir o perfume que ele emanava. E decidiu que não poderia prestar atenção nele. Não deveria sentir-se assim só por causa do seu perfume.

Pegou um dos livros que Ino a tinha obrigado a ler e abriu a primeira página tentando se distrair. A famosa Coco Chanel a encarou pela foto e Hinata se sentiu tão admirada por um momento que esqueceu-se da presença de Naruto.

“Gabrielle Bonheur Chanel ou Coco Chanel nasceu pobre em uma numerosa família de quatro irmãos, filha do caixeiro-viajante Albert Chanel e da doméstica Jeanne Devolle. Após a morte precoce de sua mãe, Chanel foi e sua irmã mais nova foram deixadas em um orfanato católico somente para meninas. Aos 18 anos, Gabrielle sai do orfanato e vai tentar a vida artística, tendo seu primeiro sucesso com a canção: “Qui qu´a vu Coco” (Quem viu Coco). Gabrielle não seguiu a vida artística, mas com esta canção ganhou o apelido de Coco”.

Hinata leu os primeiros parágrafos. O texto parecia monótono, mas alguma coisa na foto da estilista a fez continuar. Decidiu pular alguns capítulos, até um que chamou a sua atenção.

“Sa Entourage (Seu Redor)

Chanel viveu em um período de ouro para as artes em geral, tendo se relacionado com a vanguarda intelectual e artística de sua época: no teatro, Sarah Bernhardt e Jean Cocteau; na literatura, Marcel Proust; nas artes plásticas, Pablo Picasso e Salvador Dalí; no balé, Serguei Diaghilev; na dança, Josephine Baker; na fotografia, Man Ray e Horst P. Horst; na música, Ígor Stravinski e, no cinema, Luchino Visconti e Jean Renoir.”

Hinata pulou mais algumas linhas.

“Suas contribuições como estilista são de grande importância. Ela foi quem livrou as mulheres do desconforto dos vestidos da época, dos pesados chapéus cheios de adornos e, inclusive, foi pioneira na invenção das calças femininas e encurtou vestidos.

O conforto e a praticidade finalmente entraram no guarda-roupa das mulheres, graças à ousadia de Coco. Sua casa de costura, em Paris, começou comercializando apenas chapéus, se expandindo depois para roupas para andar a cavalo e, por fim, peças para o dia a dia (que contavam com muitos elementos considerados masculinos, inclusive as cores escuras). Sua marca também lançou o perfume Chanel nº 5, que foi um estouro de vendas e até hoje é um clássico.

Em 60 anos, Coco criou milhares de modelos que definiram o estilo da mulher moderna, adotados pela maioria das celebridades da época. Foi a primeira mulher a se impor num mundo de homens, fundando um império que ainda leva seu nome. Ela jamais se casou. Trabalhou até a morte, numa noite de janeiro de 1971.Era um domingo, dia de descanso. Um dia que ela não gostava.”

— Hinata! – Hinata olhou para o lado assustada e viu que era Naruto quem a chamava. Ele a olhava de forma estranha e apontou com a cabeça para frente. Hinata olhou para o mesmo lado que ele e viu que o professor a encarava irritado e que a maioria da classe a encarava como se esperasse alguma coisa.

— Pode me dizer o que lia tão avidamente, senhorita Hyuuga, que não escuta quando a chamo por três vezes seguidas? – o mestre perguntou irritado a olhando como se fosse superior.

— Eu estava tentando decorar a tabela periódica. – Hinata respondeu na maior cara de pau.

— Ah, é? E quais são os elementos da tabela, senhorita? – o professor quis saber a olhando de cima.

— Eu sei que o hidrogênio é o primeiro. – Hinata respondeu e o professor fez menção de que ela continuasse. – Desculpe, eu só decorei o hidrogênio até agora. – a Hyuuga respondeu, fazendo toda a sala rir. O professor a encarou mais sério.

— Você passou a aula inteira e só conseguiu decorar o primeiro elemento?

— Eu sou burra assim. – a morena respondeu. Mais risos. O professor encarou Hinata por mais alguns momentos, irritado. Mas quando ia respondê-la o sinal tocou. Hinata sorriu aliviada. Sabia que mais alguns minutos e iria parar na diretoria.

Viu Ino aproximar-se da sua cadeira, ainda rindo um pouco.

— Essa foi a desculpa mais lamentável que eu já ouvi. – Ino comentou e Hinata deu de ombros rindo também. – O que estava fazendo de verdade?

— Estava lendo um desses livros que você mandou. – Hinata disse dando de ombros de novo. – Eu até que gostei dessa tal de Coco Chanel. Sabia que ela inventou a calça para mulheres? E que conheceu o Pablo Picasso? – Hinata falou abismada. Ino riu.

— Sabia. – falou a Uzumaki como se fosse obvio que ela soubesse. – Também sei que ela está na lista das pessoas mais influentes do mundo mesmo depois de morta. E que é a única fashionista nessa lista. – Ino respondeu, deixando Hinata admirada.

— Jura?! – a morena perguntou surpresa.

— Juro. – Ino disse simplesmente, como se fosse muito mais sabida do que Hinata. – A moda é importante Hinata. E se você tivesse a mente um pouco mais aberta, saberia desde o início que a moda é arte.

[...]

Moda é arte.

Hinata ficou com essa frase na cabeça até chegar em casa. Aia tinha ido buscá-la ao fim das aulas. Parecia mais calada e séria do que antes, mas Hinata não estranhou muito. Aia a tratava friamente desde que havia sido suspensa.

— Está tudo bem, Aia? – Hinata perguntou para não parecer grosseira.

— Sim, claro. – Aia respondeu simplesmente. A voz soou triste e embargada para Hinata, como se algo estivesse errado. Mas Aia não falou mais nada e nem demonstrou qualquer sentimento, apenas continuou dirigindo.

Hinata tentou não pensar naquilo. Aia estava estranha há dias com ela, não havia nada de errado. Era melhor pensar em outra coisa.

Pensou nas palavras de Ino, antes.

Será que ela estava certa? Será que Hinata tinha assim a mente tão fechada que não conseguia enxergar que moda é arte? Hinata sempre vira a arte como forma de se expressar, como forma de mostrar a cultura... Mas talvez fosse isso a moda também. Todos os países tinham sua forma de se vestir. Os japoneses com certeza se vestiam diferente dos mulçumanos.

Ela nunca pensara assim. Mas Coco Chanel era artista e conhecera artistas; conhecera Pablo Picasso. E sua contribuição para o mundo da moda era tão importante que mesmo depois de morta ainda estava na lista das pessoas mais influentes do mundo.

E o mesmo acontecia com músicos, artistas plásticos, escritores. Todos eles eram artistas. Todos eles contribuíam na vida das pessoas, mesmo que um pouco. Os estilistas também.

Hinata viu o carro parar na frente de casa. Havia um carro enorme e preto estacionado um pouco mais à frente. Aia limpou o canto do olho, com a esperança de que Hinata não visse.

Contudo, Hinata viu.

— O que está havendo aqui? – mas a mulher não respondeu. Hinata olhou para ela pelo retrovisor interno do carro e logo após saiu apressada carregando os livros sobre moda. Tinha algo muito errado.

Entrou diretamente na casa, olhando de um lado para o outro e prestando atenção nos moveis. Não parecia haver nada de diferente. Mas foi quando passou pela sala de estar que viu alguém que fazia muito tempo que não via.

— Pai? – ela perguntou, estranhando a presença do homem. Neji estava sentado do lado do homem, de cabeça baixa. Parecia estar sendo consolado por ele, que dava tapinhas na suas costas, sem jeito. – O que está havendo?! – Hinata perguntou. Estava começando a ficar irritada. Por que ninguém respondia nada?

Observou o pai se levantar devagar. Parecia cauteloso demais ao se aproximar dela, coisa que Hinata estranhou.

— Hinata... É melhor você sentar, filha... – o pai aconselhou, mas Hinata já estava muito irritada a essa altura.

— Não vou sentar porcaria nenhuma! Será que dá para dizer o que houve de uma vez? É... É a vovó? – Hinata perguntou cautelosa. Adora a avó.

— Não. – foi Neji quem respondeu agora. – É a mamãe, Hinata. Ela sofreu um acidente de carro.

— Acidente? Ela está no hospital? – Hinata perguntou com o coração acelerado de medo.

— Não, Hinata. Ela não está no hospital. Ela... Ela está... – Neji ia falando, mas parecia não poder completar a frase.

— Morta... – Hinata completou baixinho, por ele. Entendendo o que ele queria dizer em seguida, mas que parecia não poder.

Os livros que tinha nas mãos escorregaram de seus dedos e caíram no chão com um baque surdo.

Sua mãe estava morta.

“Em 1895, quando Coco tinha 12 anos, sua mãe morreu de bronquite, aos 31 anos de idade.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.