No Hope
4 Capítulo 04
Notas iniciais
Acordei ofegante, havia tido um sonho estranho, eu estava correndo pelo campo, estava toda suja e machucada, parece que tinha alguém atrás de mim, mas não conseguia ver ninguém, só sabia que tinha, não importa o quão rápido eu corri, essa pessoa conseguiu me pegar, eu apaguei por alguns segundos e quando voltei a abrir meus olhos eu estava com uma corrente amarrada na minha perna, na ponta da corrente tinha uma bola de ferro super pesada, quase não conseguia andar direito, fui arrastada até um estabulo onde me deram uma escova, olhei ao redor e pude ver aquele escravo, o Daniel, na porta do estabulo com os braços cruzados e com um sorriso sínico no rosto, ele não estava com aquelas roupas sujas, ele estava com roupas limpas e caras, como se ele fosse rico. Minha respiração estava a mil, olhei ao redor e pude ver que ainda estava noite, me levantei, coloquei meu hobby e sai do quarto, precisava tomar um ar, a casa estava escura, todos já tinham ido dormir até mesmo os servos, abri a porta da frente com cuidado pra não fazer barulho, me sentei na cadeira e fiquei olhando as estrelas, eu sabia o motivo do meu pesadelo, as palavras daquele escravo tinham me atingido, eu sempre fui rica e sempre tive tudo as minhas mãos, nunca pensei na hipótese de um dia perder tudo.
Suspirei pesado, pela primeira vez eu estava pensando na vida que meus servos tinham antes, será que o Rolando tinha uma vida boa ? Tinha família ? Amigos ? Será que ele tinha filhos e por alguma razão teve que virar escravo ? Meu pai sempre disse que escravos já tinham nascido como escravos, mas será que era verdade ? Se fosse, por que minha mãe era tão carinhosa com eles ? Minha cabeça estava a mil, acabei pegando no sono sentada na varanda, não vi o sol nascer, só acordei quando senti as mãos doces e delicadas de minha mãe me acordando.
– Querida, venha comigo. – Disse ela, me levantei ainda com os olhos fechados e a deixei me guiar de volta para o meu quarto. Assim que chegamos lá ela me sentou na cama e colocou minhas cobertas em volta de meus ombros. – Quer me contar o que aconteceu ? – Perguntou. Abri meus olhos.
– Eu tive um sonho ruim. – Falei olhando para baixo.
– Sobre o que ? – Perguntou de novo.
– Eu... Eu não lembro. – Menti. Minha mãe se ajoelhou na minha frente e colocou a mão no meu rosto.
– Minha filha, eu vou entender se você não quiser me contar, mas não minta pra mim. – Falou ela. – Venha, você precisa tomar um banho quente. – Ela se levantou e pegou na minha mão, a segui até o banheiro do meu quarto.
Quando chegamos lá, me sentei em uma cadeira e minha mãe foi falar com a serva, minutos depois minha mãe voltou com um balde cheio de água na mão e a serva com outro, elas jogaram a água na banheira, minha mãe olhou pra serva e agradeceu, a frase daquele maldito piscou mais uma vez na minha cabeça. Logo que a serva saiu, minha mãe me levantou e despiu minhas roupas, me ajudou a entrar na banheira, não era grande, só dava para ficar sentada, minha mãe começou a lavar meus cabelos, a água estava quentinha graças ao sol, mamãe estava acariciando meus cabelos, eu fechei os olhos e relaxei, fazia tempo que ela não fazia algo desse tipo.
Depois do banho, estava me sentindo mais relaxada, afinal eu tinha dormido na rua, isso nunca tinha acontecido antes, mas ainda bem que foi minha mãe que viu. Chamei minha serva para me ajudar a colocar meu vestido, escolhi um vermelho, amava essa cor, com minha pele branca e meus cabelos escuros a cor ficava maravilhosa em mim. Sai do quarto e fui tomar meu café, senti um certo receio, será que a mamãe tinha contado alguma coisa para o papai ? Entrei na cozinha hesitante, olhei para os dois e fiz a mesma reverencia. Sentei-me ao lado de minha mãe, olhei para ela esperando ver algum traço de preocupação, mas não vi nada, ela apenas sorriu para mim, isso significava que ela não tinha contado nada para o papai, sorri para ela agradecendo.
Levantei-me da mesa em silencio, eu precisava ficar sozinha, não, eu precisava do Trevor, ele jamais teria me deixado passar a noite na rua, ele saberia o que dizer. Suspirei pesado e fui dar uma volta, o dia estava lindo então não havia motivos de eu ficar em casa, nem tinha perguntado se minha mãe iria ao centro, não estava com a mínima vontade de ver aqueles bandos de invejosos, continuei caminhando, tinham escravos trabalhando por toda a parte, até que cheguei à parte de trás da casa, meus olhos bateram direto em um escravo, ele estava consertando alguns ferramentas para se trabalhar no campo, como ele sabia concertar aquilo ? Seus olhos claros bateram em mim, pude os ver ficarem tensos, mas sei lá, parecia que tinha algo mais naqueles olhos, como preocupação, por exemplo, eu estava ficando louca. Vi ele mexer as mãos, ele estava me chamando, olhei ao redor e hesitante e sem pensar fui até ele, mantive uma distancia considerável boa, fiquei em silencio olhando pra ele.
– Como foi dormir na rua ? – Perguntou, meus olhos se arregalaram.
– Você me viu ? – Perguntei incrédula.
– Claro que vi, eu costumo sentar na mesma cadeira todas as noites para olhar as estrelas. – Falou, não pude acreditar no que ele tinha falado, todos os escravos ficam trancados a noite. – Mas dai quando cheguei lá, vi você sentada, dormindo, tenho que admitir que não esperava por aquilo. – Terminou dizendo, voltou seus olhos para as ferramentas.
– É senhora pra você, escravo. – Cuspi as palavras, ele olhou para mim e sorriu, que merda, o odiava ver sorrindo.
– Claro, a senhora obriga todos a lhe chamarem assim ? Até suas amigas ? Afinal, você tem amigas ? – Perguntou, eu parei na hora, ele percebeu e sorriu mais uma vez. – Claro que não, você só tem um namorado, um namorado que você vê de vez em quando, mas se você tivesse amigas, você não estaria aqui falando comigo, você estaria conversando com elas, coisa que você não faz por ser essa garota chata e mimada. – Terminou de falar.
As palavras dele doeram, eu realmente não tinha amigas, eu estava sozinha, já tentei fazer amigas, mas todas que eu chamei para dentro de minha casa eram interesseiras, estavam interessadas apenas nas coisas que eu poderia dar a elas enquanto fossemos amigas, até que teve uma hora que eu desisti disso e decidi que todas as garotas da cidade eram interesseiras. Senti meus olhos encherem de lagrimas, eu não podia chorar na frente daquele escravo, eu não podia deixar um escravo me fazer chorar, mas era inevitável, ele sem duvida tocou uma ferida.
– Você não me conhece escravo. – Falei com a voz embargada de lagrimas presas.
– Não, mas eu conheço pessoas como você. Pessoas que acham que todos sentem inveja, quando na realidade sentem pena. – Disse, não consegui segurar minhas lagrimas, elas rolaram pelo meu rosto. Ele arregalou os olhos. – Você esta chorando. – Afirmou ele.
– Jura ? – Falei tentando secar minhas lagrimas.
– Me desculpe. – Ele se levantou e se aproximou de mim, não recuei.
– SAIA DE PERTO DELA, ESCRAVO! – Ouvimos a voz do homem que meu pai colocou para cuidar dos escravos, olhamos para o mesmo, ele estava vindo com o chicote na mão.
Não pude reagir, aquele homem me empurrou para o lado com cuidado e chicoteou Daniel nas pernas, eu arregalei os olhos de espanto, mas ele não gritou, apenas fez uma careta de dor quando caiu ajoelhado no chão, logo em seguida levou uma chicotada nas costas, eu estava apavorada, dava para ouvir a pele dele rasgando, não conseguia mais ficar ali, as lagrimas estavam rolando novamente, o homem deu mais uma chicotada nas costas do Daniel dessa vez deu para ver o sangue banhar sua camisa por causa das feridas de antes, foi à deixa para eu sair correndo, segurei meu vestido e fui em direção às árvores, dei uma olhada para trás, pude ver olhos claros me fitando, Daniel ainda estava levando chicotadas, mas estava olhando para mim como se estivesse se desculpando por me fazer chorar, comecei a correr de novo, até tropeçar em um galho de árvore, cai de frente no chão, senti minha pele sendo arranhada e a poeira grudar no meu rosto por causa das lagrimas, me ajoelhei e comecei a esfregas meus braços, me sentei de costas para a árvore e encostei-me à mesma. As imagens de Daniel, uma pessoa, sendo chicoteada daquela forma, quer dizer, eu sempre soube que isso acontecia, mas nunca vi acontecendo e sem duvida não queria ver de novo.
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