No Fluxo
2 Capítulo 1 - QG dos Boys
Notas iniciais
[Narrado por: Jamille]
Lá estava eu, olhando para o muro daquela enorme mansão. Ah, se elas soubessem o quanto odeio muros não me mandariam para cá, mas a líder havia me convencido com o seus poderes e eu nada pude fazer. Aquela quenga.
Além disso, fazia parte da missão.
Tudo estava bem silencioso no momento e eu tentava manter minha respiração controlada. Só havia um pássaro negro observando ao longe, o que era estranho, pois não existem corvos em Non Sense. Fitei-o de volta e ele crocitou, como se quisesse que eu fosse embora. Mas foda-se, não sou ornitóloga e não ligo para o que uma ave qualquer tem a dizer.
E corvos não falam, Jamille.
Incomodada com o pássaro, fechei os olhos e concentrei-me. Esperei três segundos e estava feito, agora ninguém poderia me ver. Ai, ai... as vantagens de ser invisível. Ba dum tss.
Será que a Broca já tinha feito a parte dela? Afinal, ela disse que daria um jeito de tirar o chefe de dentro da casa para que eu pudesse seguir com o plano. Aquele Homem Corneta era um tanto problemático, devo dizer.
Tirei meu celular do bolso de trás da calça e lá estava o SMS dela: “A mansão tá limpa”. Ótimo, era hora de entrar.
Comecei a subir numa árvore ao lado do muro para depois pular no topo dele. Olhei para dentro da mansão e constatei o quanto ela era imensa, já prevendo o trabalho que teria até achar aquele livro. Ainda bem que tínhamos alguém como a Inex do nosso lado. Ela havia desenhado um mapa de todos os cômodos, graças ao seu poder de transcendência corporal: Ana caminhou pela mansão como um espírito, mas infelizmente espíritos não podem pegar objetos, por isso estou aqui.
Sem mais esperar, saltei o muro e adentrei o local. Segui o mapa até uma escada íngreme escondida mais atrás, na área do quintal. Aquele lugar estava com um cheiro horrível, justamente a prova de que eu estava no local certo, afinal, o QG de uma gangue de garotos não iria cheirar à flores.
Andei mais um pouco, observando tudo ao meu redor com atenção e... meu Deus. Aquela era a gangue mais nerd que já vi na vida! A parede estava cheia de pôsteres de jogos e bandas; havia almofadas espalhadas pelo chão, juntamente às latas de Coca-Cola e caixas de pizza. Em um canto havia uma TV de plasma imensa com um vídeo game ligado à ela, e uma estante estava cheia dos mais variados jogos e... filmes pornô? Mas que bando de punheteiros!
Depois de um tempo apenas explorando e tirando fotos, enfim achei o que tanto procurava: um livro escondido, onde na capa estava escrito “Los Galácticos”, o atual nome da gangue. Eu realmente queria pegá-lo e sair correndo, mas assim eles saberiam que alguém esteve bisbilhotando por lá, e a chefe deixou bem claro que queria sigilo total, então apenas bati foto de todas as páginas com planos, senhas, projetos, identidades de cada integrante etc.
— Miau — tomei um susto e virei-me em direção ao barulho. Tratava-se de um gatinho malhado no canto da sala e eu não pude evitar achá-lo muito fofo. Desfiz-me da invisibilidade e peguei o bichano no colo.
— Oooi bebê, o que uma coisinha tão fofa faz nesse lugar imundo, hein? — sussurrei como se ele fosse capaz de me entender.
— Miaaaaau — o felino se contorceu em meus braços e pulou no chão.
— Qual o seu nome, gatinho? — sorri comigo mesma da situação.
Até parece que um gato me responderia.
Com certeza que seria algo bizarro. Mas aí, para a minha total falta de sorte, eis que o bichano começou a se esticar e mudar de forma, o que foi muito, muito mais que bizarro.
Quando finalmente percebi o que estava acontecendo, já era tarde.
Gelei. Como pude ter sido tão burra?!
— Meu nome é Filipe — disse ele, meu rival, com um sorriso debochado e irritante estampado na cara.
E só o que pude fazer foi olhá-lo com todo o meu ódio, antes de dizer:
— Ora, ora... se não é o Treme.
.
.
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[Narrado por: Ricardo]
A manhã já havia chegado e a situação permanecia a mesma.
Os adversários eram muito habilidosos, mas eu deveria acreditar em minhas habilidades. Corri com a maior velocidade possível, desviando de todos com leveza e rapidez e, enfim, pude ver meu objetivo se aproximando, tornando tudo mais prazeroso no final. A ansiedade queria tomar conta de mim, então olhei de relance para o relógio.
Oito e trinca e cinco. Tenho tempo.
Com calma, me aproximei cada vez mais, preparando-me para o lance final e-
— RICARDO, EU NÃO ACREDITO NISSO!! — mamãe ralhava ao escancarar a porta do meu quarto. — TU AMANHECEU NESSE VÍDEO GAME DE NOVO?!
— Mas mãe, é FIFA! E a senhora me fez perder o gol — retruquei, aborrecido.
— Não quero saber se é FIFA, FEFE ou PEEPA PIG! Eu te avisei que hoje eu ia te levar na casa daquela tua tia, e eu sei que tu adora a casa dela...
— Só se for o lado de fora, né.
— Não quero saber! Tu vai tomar um banho enquanto eu te faço um café forte. Não quero ver essa tua cara de aliciador de menores de novo, ein? — e depois disso ela finalmente saiu do quarto.
Suspirei. Hoje ela tava que tava. Mas ficar reclamando dessa vida de gente que depende dos pais não dava em nada, então deixei pra lá e me preparei para voltar ao jogo.
— Filho? — ah não... ela voltou antes.
— Que foi? Já vou tomar banho.
— É outra coisa... — ela me olhou com receio, como se estivesse prestes a falar algo realmente sério.
— Que foi, mãe? — insisti.
— Raspa esse bigode.
— É O QUÊ?! NÃO! NEM PENSAR! COMO PODE EL BIGODÓN SEM BIGODE?! É MEU CHARME, MÃE!
— Tá, tá... esquece.
Dessa vez ela saiu do quarto de vez e eu me virei de volta para o jogo. Merda. Gabriel estava prestes a fazer o vigésimo gol dele, já que partidas online não podem ser pausadas.
Resolvi mandar uma mensagem a ele:
“Aproveita q é a última vez que tu me ganha. Mamãe me deu sermão e eu tenho q sair. Vlw Flw.”
.
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Duas horas mais tarde e eu já estava na casa da minha tia, totalmente jogado no sofá, comendo uns biscoitos que ficavam em cima da mesinha de centro toda vez que eu ia lá. Até que não era tão ruim visitar a parentada quando tinha comida, mas ainda assim era um tédio.
Meu celular vibrou no bolso da bermuda. Era o Gabriel.
“Ei mano, qual é a única doença que engravida?”
“Q? Sei lá.”
“A FEBRE TIFOIDE HAUHSAUSHAUSHAUSHUASHAUSHUSHU TÃO BOSTA QUE É BOA!”
“Kkkkk”
“Enfim, é pra ti vir pro QG, o André convocou uma reunião, uma menina invadiu aqui.”
“PUTA MERDA, ela viu os nossos pornôs?”
“Porra, todos os dados e missões d’Os Galácticos e tu preocupado com os pornôs? Mas respondendo à pergunta: Não, ela não viu! Consegui esconder o Fim de semana de sacanagem, o Euro Glam Bang 12, Sexomnia e aquele que o André comprou semana passada: Encontros ardentes.”
“Ufa! Graças a Deus.”
“Vem logo pra cá, a reunião vai começar daqui a pouco.”
“Ok. Vou tentar.”
Guardei o celular de volta ao bolço, soltando um suspiro de preocupação.
Sabia que minha mãe não me deixaria sair tão facilmente depois de todo aquele sacrifício de manhã, mas do jeito que ela estava fofocando com minha tia, sequer ia perceber minha ausência. Muito felizmente, o André morava naquele mesmo condomínio, então não levaria nem meia hora para chegar lá.
Fui andando discretamente até a porta e... Legal. Estava trancada. Minha mãe provavelmente já sabia que eu tentaria fugir, ela é muito esperta. Mas de uma coisa ela não sabia: tenho o poder de atravessar paredes. Não só paredes, mas qualquer objeto sólido, na verdade. O que não vem muito ao caso agora, mas enfim.
Com a maior tranquilidade, atravessei a porta de madeira e saí correndo pelas ruas arborizadas do condomínio.
Cheguei ofegante à mansão de muros altos e encontrei alguém me esperando em frente ao portão, distraído com um cubo mágico. Era o Davi.
— Eae, David!
— Oi. Bora que a reunião já começou.
E não foi preciso dizer mais coisa depois disso. Adentramos a mansão.
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