No Escuro com Você.
1 INTRODUÇÃO
Notas iniciais
Espero que gostem. * - *
O celular vibra com a chegada de uma mensagem e não preciso ler o conteúdo para saber exatamente do que se trata, serviu apenas como um sinal. Pego a liga de cabelo do pulso e com ela armo um coque um tanto alto demais, o que faz com que alguns fios de cabelo se soltem e pareçam arrepiados. Agarro meu moletom preto da cadeira e o visto ainda sem me preocupar se isso me desarrumou mais ainda, com isso e mais a combinação de leggin e tênis preto faz com que eu me sentisse como uma agente secreta e confirmo assim que passo na frente do espelho de corpo todo ao lado do armário. Totalmente caracterizada para a noite de crime.
Pulo a janela me orientando pela única luz que recinto me favorece. Com o poste quebrado, a luz da lua faz seu serviço de modo muito eficiente. Puxo o capuz e ando quase sem pressa alguma. Tenho certeza que vou ser a primeira a chegar. A casa em questão fica somente a três quarteirões da minha. Olha só que sortuda eu sou.A caminhada não me trouxe nenhuma reflexão. O que eu tinha para pensar e repensar eu já tinha feito e quando meus olhos avistam, por assim dizer, a “humilde” residência nenhuma parte da minha mente se sentiu contraída. Eu queria fazer aquilo tanto quanto um leão quer pegar sua presa. Eu me devia isso. Segundos depois foi que me dei conta de que ria sozinha na frente da casa há algum tempo sem qualquer cuidado. Quem poderia me culpar pelas inúmeras fantasias que me invadiam? Fui para trás de um arbusto e me pus apenas a ficar observando toda a rua. Olhei o relógio no pulso. Quinze minutos de atraso. Estalei a língua dentro da boca; mania do meu pré-nervosismo.Inclinei a cabeça para a estrada com esperança de ver algum rastro de que poderiam estar se aproximando.Nada. Passaram-se mais dez minutos e já sentia a irritação me invadir apesar de não estar com pressa. Sabia que ia ter todo o tempo que eu quisesse e ia degustar de cada segundo. O barulho me tirou dos meus pensamentos num pulo. Apesar de se considerar sutil para o mostro brilhante que vinha na minha direção, numa cor laranja escuro pouco atraente, o furgão parecia que a qualquer momento ia soltar fumaça e pifar, mas como eu não tinha nem uma bicicleta, ou um pedalinho não ia ser eu a reclamar em voz alta.— Finalmente! – Falei para ninguém em particular, embora não escondesse minha impaciência. Levantei limpando apressada a parte de trás da leggin com a ansiedade quase me fazendo tropeçar nos meus próprios pés. A lata velha parou a pouca distancia e três cabeças apareceram antes mesmo daquela geringonça parar.— Meu Deus! Por que demoraram tanto?! – Foi mais pergunta de hábito do que real interesse, mas responderam mesmo assim.— Eu havia esquecido de comprar as latas, foi mal. – Disse Cash dando de ombros, mesmo que sua tonalidade e jeito dissessem totalmente o oposto. A tensão só saiu do meu corpo quando segundos depois senti o braço de Kevin contornando minha cintura. O beijo no topo da minha cabeça foi terno o bastante para me acalmar e agradeci em silencio apenas mostrando a ele um dos meus leves sorrisos exclusivos. Elliot pulou do furgão por último, carregando duas sacolas. Eles a levantou a cima do ombro e fez uma careta de animação.— Tudo pronto? – Perguntou.— Se as princesas já estiverem eu estou. – Brinquei tirando um saco de uma de suas mãos.— Já são quase meia noite. Pensei que você tinha dito que elas eram bem rigorosas. – Disse Kevin espirando por cima do arbusto. As luzes da parte de baixo estavam acesas e as de cima também. Voltei a me concentrar nos sprays e respondi sem levantar os olhos.— Fica calmo. Elas só têm o péssimo costume de ficar assistindo aqueles reality shows de fofoca até tarde e as meninas aproveitam para se entreter. Mas assim que acabar pode ter certeza que de lá não sai nem o som da respiração. Peguei duas latas, uma roxa e outra laranja, este último tão feio quanto à cor do furgão. Peguei mais uma verde e meti no bolso grande do moletom. Tinha sobrado bastante para todo mundo, mas enquanto eles começavam escolher suas próprias armas, comecei a pensar que aquele era assunto mais meu do que deles, então o mínimo que eu poderia fazer era elaborar uma boa obra de arte, nem reparei que Cash me olhava desconfiado.— E como você sabe? – Quis saber.— Porque fui obrigada a viver nessa casa durante 13 anos da minha vida.Ele bufou.— Eu deveria tá ganhando alguma coisa a mais pra tá fazendo favores pra sua namorada Kevin. Já pensaram se formos pegos? Eu sou ser o mais fudido daqui. Ele tinha razão. Por ser o único de maior ali, ele estaria duplamente mais encrencado que o resto de nós. Sabia que não se importa e nem se importaria se soubesse a história toda que nos levou ali, só foi porque Kevin havia prometido emprestar seu x-box por um mês se fizesse certos favores – como emprestar seu carro. Sem duvida acabara de notar que o estava em jogo ali valia muito mais do que um x-box emprestado.— Tipo o que? – Perguntei. Mais uma vez deu de ombros, tirando um graveto de seja lá onde e meteu na boca. Foi nojento. O olhei dos pés a cabeça e percebi só naquele instante o quanto ele tinha cara de maconheiro. “por favor, que ele não me peça maconha porque eu não tenho nem noção da onde fica o beco” – Pensei.
— Não parei para pensar, mas dinheiro é algo sempre bem vindo, não é mesmo gata? Tentei não me irritar pelo “gata”.— Olha, eu não vim exatamente preparada para barganhar, então que tal resolvermos isso depois do serviço, sim? Eu realmente não estava no clima para aquela situação e me sentia perdendo tempo, mas antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, Elliot fala exasperado:— As luzes estão apagando. Cash me encara de forma pouco amigável e noto pelo canto do olho Kevin enrijecer enquanto encarava o primo ao meu lado.— Beleza. – Diz por fim. – Vamos fazer, mas com certeza resolvemos essa historia direito quando acabar, bonitinha.Seus dedos dão um leve aberto na minha bochecha. Balanço a cabeça automaticamente para afastar sua mão enquanto pegava distancia fingindo não notar. Queria cuspir alguns palavrões e mandar ele mapear o caminho para o próprio anus, contudo respirei fundo. As chaves do carro estavam em seus bolsos e a ultima coisa que eu preciso é desse projeto de feto me expulsasse do carro ou tentasse qualquer outra coisa para me prejudicar só porque falei umas verdades duras, se bem que, com Kevin ali, dificilmente ele tentaria algo pior, só se ele colocasse altura como vantagem. Eu não sou uma pessoa alta. Kevin devia ser uns cinco dedos mais alto que eu. Cash, por outro lado, poderia se chamar de típico armário ambulante sem problemas. Elliot podia ate ser meu amigo, mas entre eu e ele, bem... Digamos que eu tinha escolhas. Ou aceitava ele como o covarde egoísta que era, ou... Foda-se, não aceitava. E ele sem sombra de duvidas não apanharia por mim. É. Começar uma briga agora é uma péssima ideia. Naquele momento, só precisava que eles me ajudassem a fazer aquilo e o resto seria apenas o resto. Ajeitei o capuz para que cobrisse mais meu rosto e chequei os garotos. Kevin e Elliot seguiam meu exemplo, deixando seus rostos cobertos pela escuridão do capuz, contudo Cash veio em seu próprio estilo. Enfiou uma meia preta na cabeça e começou a se dirigir para a casa sem ao menos esperar qualquer um de nós. Vendo como um sinal – ou só ficou nervoso mesmo. – Elliot o seguiu.— Ele nem se importa de não parecer um bandido, não é? Kevin deu de ombros. O que já me incomodou apenas pela mesma mania do primo.— Acho que já esta no espirito dele.— Sim, faria muito sentido. Só não quero que...— Ei. – Disse segurando minha mão e a apertando de leve – Nunca deixaria que ele fizesse algo contra você. Ele é meio idiota, mas não é um cara mal. Tentei fuzilar seus olhos, mas com aquele capuz isso realmente se tornou difícil – pelo lado bom, ele tava cumprindo com a expectativa.— Você não ta dizendo isso só porque vocês compartilham, tipo, menos de 60% da genética, certo?— Obvio que não. Só não quero estar tipo... Entre os yankees e os confederados, por assim dizer. Bufei e soltei minha mão da sua virando o rosto e focando no que realmente vim fazer ali.— Não se preocupe. Você não tá. – Falei com aspereza e comecei a andar sem me preocupar se ele vinha atrás de mim ou não. Sacudi a lata de tinta roxa ate parar em frente à porta branca impecável e bem talhada. Suspirei sentindo o sorriso cínico se abrir no meu rosto e caprichei em minha melhor coreografia.
Notas finais
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