Notas iniciais
Espero que esteja ficando bom o suficiente para continuarem lendo! :)

O olhar era firme e minucioso. Castanhos claros debaixo de cílios ensopados de rímel, querendo fazer com que eu me sentisse responsável por mais que eu soubesse que o único sentimento que eu tinha o direito de sentir fosse o de satisfação. Sei o que se passaria na cabeça de cada um ali. Até tentei me sentir arrependida – pois a parte fraca do meu ser me convenceu disso sob a pressão de ser o centro das atenções al i–, mas assim que a palavra foi pronunciada na minha mente um pequeno riso escapou dos meus lábios. Eu não podia me trair. Não ali.

Ora, arrependimento. Tive até que me controlar para não bufar.

Mas aparentemente meu deboche não passou despercebido. Olhares incrédulos se voltaram ainda mais em minha direção, principalmente os únicos que poderiam me afetar. Abaixei a cabeça como forma de proteção. Muitos poderiam achar que era uma reação de vergonha. Uma reação meramente decente poderia acalmar um pouco seus nervosos alheios. Eu tinha por assim dizer, respeito por pelo menos 90% das pessoas ali presentes. Sério. Eu tinha... Mesmo que elas não entendessem e nunca fossem capazes disso. Aquilo não tinha nada haver com elas.

— June? – Chamou alguém a minha frente, e eu sabia que era da mulher de olhar firme.

Levantei apenas um pouco os olhos direcionando-os àqueles pequenos 10% do outro lado da sala. A expressão de raiva e desgosto desenhada em cada face.

Mais uma vez tive que controlar qualquer sinal de prazer, principalmente porque perto deles estavam às únicas pessoas que poderiam fazer eu me sentir mal. Voltei a mirar meus tênis.

— June? – Chamou com mais rigor dessa vez, me obrigando a fita-la.

— Você escutou a pergunta? – Questionou com paciência usando uma voz branda.

— Não. Desculpe.

O canto de um de seus lábios deu uma leve levantada, como se fosse um leve sinal de compaixão. Um contraste bem grande pra quem tem voz autoritária e olhar de predador.

— Perguntei se tem algo que você queira falar.

Fiquei calada. Não, não tinha nada que eu quisesse falar, quis responder, então não sei por que minhas mãos suavam tanto, ou porque minha garganta parecia estar se comprimindo cada vez mais à medida que minha respiração se alterava.

— Tem algo que eu deveria saber. June? – Insistiu.

Queria que ela parasse de falar meu nome.

“June... June... June...” “Garota Ruim...”.

— Não. – O som que soltei poderia quase ser considerado um murmuro. Seja como for, foi o suficiente para que seus ouvidos biônicos escutarem.

Ela ainda persistiu me fitando por mais alguns segundos, como se estivesse indecisa – ou me dando mais tempo para mudar de ideia –, ate finalmente concluir:

— Muito bem, então. – Sua atenção se desviou de mim, se dividindo entre as outras pessoas do recinto e depois para os papeis a sua frente. — Você vai ter que prestar alguns trabalhos voluntários durante um mês, se quiser se redimir. Acredito que nada que vai exigir tanto esforço quanto sair no meio da noite para praticar habilidades de arte.

— E se eu não fizer? – Perguntei indiferente.

— Você vai ser presa.

— Que?

Ela riu.

— Estou brincando, mas se você se recusar, pode se dizer que arrumaremos algo mais pesado para a sua situação. Então sugiro que apenas faça. Não é algo tão complicado.

Inacreditável. A mulher está me zoando.

— Ok, então o que eu vou precisar fazer? – Perguntei tentando inutilmente diminuir o atrevimento na minha voz. – Senhora. Realeza. Não sei como chamar.

A “Meritíssima” nem se preocupou em levantar seu olhar da papelada que tentava organizar e parecia não ligar de como fosse chamada afinal. Em seus lábios pintados de vermelho um sorriso satisfeito se abriu.

*****

No ambiente tudo o que se podia ouvir era o barulho do motor do carro. O silencio pouco me incomodava, podia ate se dizer que foi bem conveniente para o momento. Pela janela a paisagem corria e eu olhava sem ver realmente alguma coisa, perdida nos meus próprios devaneios. Podia ser pior – Pensei comigo mesma. Mas o deboche que a “Meritíssima” fez não podia ter sido atoa. A única coisa que eu precisaria fazer seria basicamente o que? Entreter e limpar privada de gente insana? Puxei fundo o ar e soltei pela boca.

Encaminhei novamente minha mente para dentro do carro. Espiei pelo canto do olho. A mão dela se encontrava, quase como se descansasse, na coxa dele enquanto ele se mantinha atento na direção. Nenhum dos dois se encontrava tenso ou com aparência irritada. Se fosse minha filha provavelmente eu a teria mandado voltar andando para casa.

Em algum lugar dentro de mim comecei a ter pena de ambos, não eram pessoas más e sabiam que estavam se esforçando mais do que qualquer outro, assim como qualquer um diria que sou uma pessoa de sorte. Eles não mereciam isso. Como eles poderiam entender? Será que tinha tempo para alguma devolução? Porque se eu fosse eles com certeza estaria cogitando.

Vinte minutos naquele silencio foi o suficiente para chegarmos. Sai do carro sem esperar por ninguém. Bati a porta com mais força do que o necessário – e do que eu pretendia, mas isso foi apenas uma coincidência infeliz – e só pensei que queria me enroscar na minha cama e me manter assim até o começo do novo inferno.

— June. – Chamou Martha atrás de mim.

Fingi não ouvir. Meus pés já se dirigiam a escada para o andar acima, contudo, antes que eu pudesse chegar à metade do caminho a voz de Billy soou mais grave.

— June, pare!

Obedeci sem me virar.

— Precisamos conversar... – Disse.

— Não. – O cortei antes que pudesse complementar com algo a mais. – Não precisamos. Já disseram o que vou ter que fazer, não é? Então já está tudo resolvido, não tem mais nada para ser comentado. Eu já vou ser punida, já escutei que foi algo muito “errado” o que fiz, então acabou.

— Quem decide isso não é você. – Martha falou com autoridade. – Desça.

Desci de má vontade batendo os pés, parando na frente dos dois, não levantei a cabeça.

— Olhe para nós, pelo amor de Deus, June. – Mandou Billy claramente irritado.

Hesitei. Acho que foi a primeira vez que o ouvi falar daquele jeito. Levantei e fuzilei aqueles olhos não cheios de ira, mas de magoa.

— O que deu em você? – Martha cruzou os braços em cima do peito, o canto de seus lábios direcionados para baixo. – Você está tão insatisfeita com o que tem? Estamos fazendo algo de errado? Qual o problema?

As típicas perguntar. Queria tanto poder dizer o típico clichê: “O problema não é vocês... Sou eu”.

— Não estou obrigando vocês a ficarem comigo. A nota de devolução ainda esta na validade, a escolha é de vocês. – Ficar na defensiva não foi justo. Sabia que dissera as coisas erradas e eu não sabia por que o dissera. Já estava sendo estupida, não adiantaria nada parar agora.

— Pare de falar besteiras! – Continuou visivelmente magoada. – Qual o seu problema? De verdade.

Revezava apoiar meu corpo em um pé por vez. Se eu parasse de me mexer talvez eu não conseguisse impedir que lágrimas viessem, as minhas primeiras lágrimas de vergonha. Continuo sem arrependimentos, mas não acho que foi justo fazer passarem pelo o que estavam passando. Qual o meu problema? Eu também queria saber.

— Sabe quando você vai à feira e vê uma maçã bonita, vermelha demais, lisa, sem defeito? Pois eh. Às vezes você não espera que ela esteja podre por dentro, isso se chama má sorte. Sinto muito, de verdade, fazer vocês passarem por isso, mas eu não posso mudar certas coisas.

— Se ao menos você tentasse conversar com conosco... – Tentou dizer Martha.

— Certo. – Interrompeu seu marido e tomou uma postura enfurecida. – Segunda-feira começa a fazer seu trabalho voluntário, e quando for o ultimo dia você vai até aquelas pessoas pedir perdão.

Assim que ele falou a ultima frase, o fuzilei com olhos esquecendo de qualquer hierarquia familiar que pudesse ter existido enquanto estive ali. Qualquer sinal de respeito que eu tivesse tentado ter. – Porque sei que não tive nenhum, mas não quer dizer que eu não tenha tentado.

— Nunca.

Com isso, lhes dei as costas não me importando quantas vezes tivessem me chamado, subi as escadas o mais rápido possível. Entrei no quarto e bati a porta com tanta força que imaginei se não houvesse caído algum dos quadros que ficasse pendurado no segundo andar – dessa vez foi proposital. Me joguei na cama e me enrosquei em um travesseiro. Aquela cama nem tinha meu cheiro, era uma cama para uma forasteira.

No criado mudo ouço meu celular vibrar e vejo que estou com dez mensagens, nove de Kevin e uma de Elliot. Abro a mais fácil.

Elliot: Hey Ju, você foi presa?

Nov. 04:00

Idiota.

Kevin: Você está bem?? Por favor, me manda uma mensagem!

Nov. 03:30

Kevin: ????

Nov. 03:31

Kevin: Me perdoa, por favor.

Nov. 03:32

Kevin: Eu tentei ir atrás de você, juro que tentei.

Nov. 03:33

Kevin: Juno, por favor, se estiver ai preciso saber se você está bem. Estou ficando louco!

Nov. 03:36

Kevin: Eu preciso de você.

Nov.04:00

— Eu também precisava de você. – Respondi num sussurro.

Resolvi que não queria ler mensagens dele assim que joguei o telefone do outro lado da cama, Só percebi que lágrimas tinham me escapado quando vi o lençol molhado. Bem... Era de se esperar que alguma hora iam sair. Não posso ser forte sempre.

Notas finais
Obrigada a qualquer um que tenha lido, e sempre que puder, deixem um comentario para saber o que acharam!