No Canto da Página

2 Capítulo I: (Sem) dor para o amor.


Notas iniciais
Awn, obrigada por todas as reviews no prefácio!!Eu dei uma mudada no projeto e com isso, mudei o nome também. Esse capítulo é como se fosse uma introdução e é pra ficar confuso MESMO, tá? hahaha Surpresas são o meu forte. qE sim, é uma fic colegial, pelo menos no começo, mas podem ter certeza que não vai ser aquele clichê de sempre. (eu espero DD:)

Acordou com o maior sorriso que poderia acordar numa segunda-feira. E não bastava ser uma segunda-feira qualquer, o que já é ruim, tinha que ser uma volta às aulas depois de um mês de férias – do qual não fizera nada além de correr atrás “dele”, e, mesmo assim, tudo o que conseguira era um número de telefone. Um maldito número de telefone. Sabia que aquilo não adiantaria muita coisa, mas era o que tinha e daria um jeito de usar isso.

Só não sabia como.

Ainda. Mas isso era um detalhe. Não importava muito.

O importante mesmo, era que havia ouvido a voz “dele”, isso bastava para que acordasse com o maior sorriso que já dera em uma segunda-feira e tão animado que conseguiu se arrumar em quinze minutos, o que era um milagre.

Desceu as escadas pulando os degraus e pegou qualquer coisa na cozinha. Não tinha ninguém para reclamar mesmo. Mas aquilo não importava; não naquele momento, pelo menos. Precisava correr pra escola para contar a novidade que tinha para o seu querido – único – amigo.

Calçou os pés com os sapatos surrados e colocou os fones de ouvido na orelha. Aquele era, com certeza, o melhor momento do seu dia. O momento em que podia se sentir completo, enquanto olhava os restos de inverno que haviam sobrado espalhados pela paisagem verde misturada com uma cinza de cidade. Sabia que aquilo não passava de uma ilusão, que quando tirasse aqueles fones, tudo voltaria para a mesma merda que era a sua vida. Não que estivesse pensando naquilo naquele momento.

Só voltou pra realidade quando deu de cara com alguma coisa e caiu no chão, fazendo os fones voarem para um lado e o celular para o outro.

Ficou algum tempo no chão, constatando que o seu pulso estava doendo. Murmurou um “desculpe” e ainda de cabeça baixa, passou a juntar os livros que haviam caído de sua bolsa no impacto.

— Tudo bem, não se preocupe. — disse a pessoa e Kouyou não pôde reconhecer aquela voz. — Quer ajuda?

— N-não precisa... — respondeu, apressando-se ainda mais para juntar os seus materiais.

— Takashima-san, certo? — perguntou a voz. Levantou a cabeça então, encontrando um menino loiro, com uma faixa no nariz. O rosto lhe era conhecido. E teve certeza que fez uma cara muito engraçada quando se deu conta de que aquele loiro – estranho – era, na verdade, o único amigo de que “ele” não desgrudava por nada.

— É. — respondeu, terminando de juntar as coisas. — Obrigado... Suzuki-san.

O outro apenas murmurou um “até logo” e saiu. Ficou ali parado, com dor no pulso. Poderia ter puxado conversa, falado sobre qualquer coisa, seria um jeito de se aproximar daquele que tanto almejara. Mas apenas ficara ali, parado, sem nada fazer. E queria se matar por isso.

Mas, uma coisa que aprendera no momento que botara os olhos naquele rapaz, era que não podia ficar se remoendo pelas chances perdidas. De qualquer forma, sabia que aquela paixão maluca só lhe traria sofrimento, mas o problema, o grande problema, era que simplesmente não podia esquecê-lo. Não é como se nunca tivesse tentado, até tentara, mas era mais difícil quando o via todos os dias. E quanto mais tentava esquecê-lo, mais perto dele ficava. Perto no sentido figurado, é claro, porque de perto, não havia nada. Kouyou sabia de todos os horários, manias, jeitos, gostos, tudo e qualquer coisa que fosse relacionada ao outro. Menos sobre sua família – o que era difícil de saber. Porém, o outro não sabia nem sobre sua existência e isso era frustrante.

Afinal, do que adiantaria ficar ali, mesmo?

Andou até a escola, pensando seriamente em tomar a sugestão de Takanori como válida, apesar dela ser um tanto tosca. O menor tinha achado uma boa idéia Kouyou se jogar na frente do amado, pedindo desculpas e comentando sobre alguma coisa para iniciar o assunto, quando, na verdade, Kouyou havia falado aquilo com uma grande ironia quando tivera um daqueles periódicos ataques de “ele não sabe que eu existo, nunca saberá, eu vou morrer sem nunca ter beijado, virgem e sozinho” – e sentia vergonha de ter dezesseis anos e não saber o que é beijar, mesmo.

Chegou, finalmente, a escola e a sua sala de aula. Não tinha ninguém. Sentou-se no fundo, lá na última cadeira, encostada na parede. E ali, uma dúvida surgiu. Por que diabos Suzuki estava ali, naquele horário? Mas aquilo não era de seu interesse.

Depois de algum tempo Takanori chegou, junto com uma massa enorme de alunos.

— Kouyou, como você consegue acordar tão cedo para vir para a escola? Sério, é impossível! Mesmo. — Disse-lhe o pequeno, sentando-se na cadeira da frente.

— Eu já te disse que eu realmente odeio essa sua mania de precisar confirmar tudo o que você fala depois da frase? Sério, é irritante. — Takanori virou os olhos e Kouyou riu.

— E, conta pra mim, vai, o que você falou para o Azulzinho ontem?

— Azulzinho vai ficar o seu rostinho depois de um tapinha do Kouyouzinho. — Riu, claramente falso. — Eu não falei, simples assim. Liguei, ouvi ele falando “alô” e desliguei. Pronto, satisfeito?

— Mas que idiota! Pra que eu me matei com o Sem-nariz pra você fazer isso?

— Ah, vê se me erra, Takanori. Senta aí e cala a boca.

O fato é, que não estava irritado de verdade com Takanori... Tava mesmo irritado, é consigo mesmo. Takanori tinha razão, tinha sido um ato idiota. Mas o que faria então? Ligaria pra ele e diria: “ah, oi, então... Sabe, eu corri atrás do seu telefone, porque eu trabalho na cantina da escola no período da noite, no que você estuda, porque você trabalha de manhã, embora odeie acordar cedo. Ah, como eu sei isso? Pois é, o problema é que eu te vejo todo santo dia, toda porra de santo dia e eu me apaixonei, simples assim. Então, eu to bem afim de sair com você, mas eu não vou transar contigo. Topa?”. Não parecia uma boa idéia.

E assim as aulas passaram – não que prestasse a atenção. Somente escrevia coisas, em papéis aleatórios, nos cantos das páginas. Algumas palavras desconexas, poesias, tudo o que passava por aquela cabeça. Ou até coisas que queria que acontecesse. Até que o sinal do fim das aulas bateu, recolheu o material com pressa. Não viu quando um papelzinho fugitivo escapou de si, caindo exatamente no espaço entre a parede e o roda-pé. Tem gente que fala é sorte, mas eu prefiro, particularmente, acreditar que é o destino mesmo...

XXX

Estava atrasado. Perderia a primeira aula. Saiu do trabalho correndo, tropeçando nos pés, bateu a porta de casa e deixou um pouco de dinheiro na mesa; pegou a mochila no sofá, beijou a testa de uma menininha de uns quatro anos, acenou para a moça que a segurava e tropeçou até a escola. É, tropeçou mesmo, porque aquilo que fazia não podia ser chamado de “correr”, era mais como “desafiar os limites do ser humano para poder estudar”.

Correu pelos corredores, atropelou uma ou duas pessoas e quase arrancou a porta da sala, de tanta a força que abriu.

— Perdão, professor. — Pediu.

— Apenas sente-se. — Respondeu o professor, que bem sabia da situação de Yuu.

Agradeceu e sentou-se. Mas não conseguiu se concentrar, pensando na menininha que estava em sua casa com preocupação. Ela parecia muito bem, nos últimos dias. E se culpava por não ter tempo pra ela, justamente por ter que mantê-la viva.

Mas aí, um papelzinho que parecia meio escondido entre o roda-pé e a parede lhe chamou atenção. Entendam, não é como se ele fosse fuxiqueiro – mas convenhamos que todos amam uma fofoca – ele só pensou que era mais um bilhete de alguma menina, colocado estrategicamente ali, para si. Não tinha assinatura, não por fora. Talvez ela fosse tímida.

Mas quando os seus olhos bateram nas letras de mão redondinhas, escritas com uma caneta preta e o seu cérebro começou a juntar as letras e formar palavras, e começou a entendê-las, o seu coração pulou. Era a coisa mais sincera que já tinha lido. Mas na assinatura, apenas um “K.”.

E, sentiu-se na obrigação de responder a tanta melancolia de alguma forma. Pegou a sua caneta e passou a escrever, no canto de uma página, o que lhe parecia bom – mesmo que não fosse tão bom quanto aquilo.

Pensou, consigo mesmo, que achado não era roubado e não se conteve em guardar o papel no meio de seu caderno, onde sabia que iria encontrá-lo e lê-lo, várias vezes.

“Incrível são os olhos humanos;

Que enxergam sem nem ver.

Sei, tão bem, que os seus estão ali,

Quietos, parados, negros e cheio de segredos.

Tantos esses que eu gostaria de saber ou conhecer.

Incrível sou eu;

Que consigo tal falsidade.

Sorrir-te e calar-me, guardando aqui tanto amor.

E você – ora essa, sempre você – mal percebe tanta dor.

E se percebe, não liga. Dói.

Mas o que não tem nada de incrível é essa junção;

Junção de cegueira e amor, coração e sem-olhar.

E se, ao menos uma vez você poder me enxergar,

Prevejo que tudo o que achará, é um boneco, sem nada pra falar.

Ou sentir.

K.”

Notas finais
Então, meus amores, obrigada pelas reviews e esse capítulo ficou curtinho. Desculpem pela demora. Beijooos! :*