No Caminho à Princesa

2 Capítulo 2 – A responsabilidade de um rei


— Não chora, Elara! Seja forte. Não somos mais meros camponeses, somos um reino. Você terá que ser forte.


— Preciso que você faça uma coisa para mim enquanto eu estiver fora – ele diz, olhando nos olhos da filha – cuida dos seus irmãos mais novos e da sua mãe. É a missão que eu tenho para você. Consegue fazer isso por mim?


Ela balança a cabeça em positivo.


— Nunca desista do seu castelo, princesa. Ele é seu e da nossa família. Cuide dele.


De cabeça baixa, ainda triste, ela acena concordando.


— Cuida deles, tá? Logo voltarei – diz o rei para sua esposa, depois de beijá-la.


Cecília, ainda de colo, mal tem noção do que está acontecendo. Portanto, se mantém calma nos braços da mãe. Já Gabriel se agarra no longo vestido da rainha, a fim de amenizar seu pavor com a saída do pai.


O momento da batalha havia chegado. Tropas foram movimentadas, arqueiros se apresentaram, cavaleiros montavam em seus cavalos, todos se armavam como podiam. Espadas, arcos, flechas e machados passavam de mão em mão para que se chegasse em homens desarmados.


Tudo estava pronto, mas faltava o líder, o homem que os liderava e que agora era o seu rei. Esse, montado em um cavalo branco, foi o último a chegar. Os combatentes o olharam e se ajoelharam diante dele. A vila não era tão grande; então, possivelmente, metade dos homens estavam ali.


Varlon desceu de sua sela. Todos se levantaram novamente, e o rei, com um olhar firme e destemido, pronunciou o último sermão antes do temido combate:


— Eu serei sincero... Essa batalha será diferente de todas que vocês já enfrentaram. Não teremos que matar centenas de inimigos. Não iremos lutar com nosso semelhante, mas sim com uma fera.


— E essa fera, estará disposta a nos matar a todo momento. Ela vai olhar nos seus olhos e dizer: “É este que vou matar.”


— Mas vocês não irão temer. Sabe por quê? Temos um ao outro. Já lutamos em várias batalhas, sempre guerreando com bravura e coragem, nunca desistimos de lutar pelo nosso povo.


— Hoje não será diferente. Quando estiverem lá, olhando para aquele tenebroso monstro, lembrem-se por quem estão lutando: dos amigos e familiares que perdemos, de tudo que conquistamos.


— Porém, esse monstro que tanto nos atormenta é astuto. Suas armaduras de nada servirão se ele os atingir. Por isso, companheiros de luta, precisamos ficar atentos e lutarmos com coragem.


— Lutaremos pela segurança de quem amamos: nossos filhos e esposas, amigos e irmãos. E se Deus permitir, sairemos vivos de lá.


— Mataremos essa fera nos próximos dias e iremos trazer sua cabeça para que fique na entrada da cidade. E todos irão saber que vencemos até a mais temida das criaturas.


— Vocês estão ao lado do seu rei?


A multidão de homens ergueu suas armas em gritos de coragem e bravura, se enchendo de esperança para a batalha que estava por vir. Assim como em combates anteriores, os homens, mulheres e crianças que ficaram, oravam pela vida dos cavaleiros, acreditando que, dessa forma, ajudariam nas dificuldades e trariam os guerreiros sãos e salvos.


Assim sendo, foram subindo o morro íngreme, trajados por suas armaduras enferrujadas, com marcas e amassados de confrontos passados. O rei, à frente de todos, capitaneava com seu cavalo branco, da cor de flores-dente-de-leão.


Passaram horas, dias e também noites — uma eternidade para quem esperava pelo pai. A princesa, não suportando tamanha angústia, se escondia na cozinha, em armários, entre panelas e colheres de pau, debaixo da cama real, enquanto seus irmãos dormiam, e até mesmo nos quartinhos de limpeza, onde criados se abasteciam de vassouras e baldes, sem notar sua presença.


Mas seu lugar preferido era nos quartos vazios, de camas solitárias e frias, de um esquecido edredom. Deitada, pensativa, presa em falas e sermões do pai. Porém, o que mais pensava, era nos momentos bons com o rei — os raros momentos em que não o via como um digníssimo nobre, mas sim como seu grande amigo e instrutor de uma longa vida. É assim que desejava, que voltasse para que pudessem passar o resto da vida juntos.


Pouco mais de três dias havia se passado e nenhuma notícia do rei. Logo pela manhã, daquele lindo dia que se iniciava, invadiu apressado o castelo um de seus informantes. Era o designado para caso alguma demora houvesse. Elara, escondida por detrás de uma pilastra na sala do rei, ouvira as notícias:

— Ainda não encontraram a criatura, nobre rainha.


Atordoada com a notícia, não sabia qual de seus sentimentos mais a dominava: a aflição, que crescia mais e mais a cada hora, ou a esperança de que aquele monstro, por uma magia, havia sumido — obra de um coração ingênuo, que carece de imaginações.


A aflição acabou por vencer. Desse modo, se escondeu em um canto do castelo — este descoberto há pouco tempo. Um quarto pequeno, que não encontraram utilidade. Vazio e escuro, era o lugar em que desejava estar. Deixou apenas a porta entreaberta, para que uma escassa luz alumiasse o espaço.


Estava por lá já há algumas horas, entretida em imaginações pessimistas. De tempos em tempos, ouvia algum criado chamar seu nome pelo corredor, mas não fazia questão de que a encontrassem.


Sonolenta de tanto pensar, vozes começaram a penetrar seu cérebro. Estava tão em falta de seus sentidos que chegou a pensar que fossem vozes de sua cabeça. Já acordada completamente, ouviu gritos pavorosos de pessoas correndo assustadas. Ela rapidamente abriu a porta da pequena sala e ingressou na completa desordem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.