No Angels
4 Contando Estrelas e Outras Coisas
É difícil processar qualquer raciocínio logico quando se tem os cinco sentidos do seu corpo agindo contra você.
A minha visão nunca esta muito longe dele, ele está genuinamente bem vestido, quase pensei que ele fosse gay, afinal só gays se vestem assim não é? Tento afastar os pensamentos dos comentários que o George faria agora – de como a bunda dele fica bem em uma calça jeans – balançando a cabeça para os lados. Meu amigo gay adora me deixar constrangida fazendo comentários assim e depois quando as pessoas olham ele aponta para mim.
Harry colocou uma musica ambiente e a acompanha, é da banda The 1975, de um CD que eu comprei semana passada mesmo que tenha sido lançado a um ano. Ele cantarola com a musica e não me contou onde iriamos. Reforçou que surpresa só é surpresa quando a pessoa a ser surpreendida não sabe de nada...
Eu realmente tento prestar atenção no caminho e descobrir onde vamos, mas acabo cantarolando com ele e esqueço o que eu devia observar. Ele tem a mesma segurança da pessoas que me pagou a torta mas é mais leve.
Perguntei sobre todos os lugares possíveis para irmos em Cheshire mas ele se mantem firme e forte mantendo segredo.
Depois de uns bons dez minutos de carro paramos em um lugar aberto — um parque — e é lindo mas não me lembro de ter visitado antes. É um pouco iluminado e alguns casais estão sentados se curtindo em uns bancos distribuídos ao redor do lugar.
– Pensei que poderíamos ficar aqui e depois ir a alguma sorveteria... — ele disse parando o carro fora da estrada, as mãos firmes no volante e respirando calmamente. Se eu o conhecesse melhor diria que ele esta nervoso? Bingo!
– Por mim tudo bem. – ele saiu do carro e eu fui logo depois. Caminhamos em direção a ponte pouco iluminada.
– Sabia que o meu primeiro beijo foi naquela arvore?- ele riu comigo falando da lembrança.- foi o maior tesão.
– São coisas assim que você costuma falar em um encontro?
– Pensei que não fosse admitir nunca que estamos em um encontro Brooke.
– Brooke? Ninguém me chama assim.
– Olha, já temos até um apelido carinhoso.
– Você não existe não é?
– Hum, quem sabe nos seus sonhos. – ele não falou brincando, sua voz assumiu o tom mais grave, quem sabe pela brisa fria que soprava em sua direção sou apenas pela afirmação dele. – e sabe essa ponte? A minha maior decepção.
– Conte mais. – eu instiguei.
– Eu gostava de uma garota, e chamei ela para um encontro, eu sempre vinha nesse parque e iluminei a ponte com velas mas ela não veio depois de eu ter ficado duas horas esperando. – a decepção dele contando a historia chegava a ser cômica. Eu apertei os lábios para evitar os risos mas massageei as costas dele com as mãos.
– Bem, eu não te deixei duas horas esperando. Então é bom você ir logo comprar as velas para iluminar isso aqui.
– Serio? – ele perguntou confuso.
– Não. – rimos disso e de coisas sem sentido. Contei sobre a escola e dos meus encontros fracassados, o seu histórico também não é um dos melhor. Ele teve uma ex-namorada. Mas não falou muito sobre ela – eu não quero saber sobre ela – ele trabalha na padaria do padrasto e contou que Mona, que trabalha com ele tem uma forte atração pelo seu bumbum.- mesmo tendo quase setenta anos.
Ele terminou os estudos ano passado e pretende estudar inglês ano que vem, fala francês e sabe fazer malabarismos. O meu maior feito é com duas laranjas, mas ele disse que consegue com quatro. Combinamos de marca um dia para decidir quem é melhor nessa coisa.
Ele me falou que seu filme preferido é ‘Poderoso Chefão’ , mas depois de um tempo ele admitiu que é 'Simplesmente Amor'. O outro ele fala para os amigos, meninos e seus orgulhos.
O meu olfato? É a prova que alguém lá em cima está rindo de mim. De todas as direções possíveis e imagináveis o vento vem na direção dele até mim, trazendo um cheiro de cheira como rosas e loções tropicais misturados com borboletas. As borboleta são do meu estomago.
Nós ficamos escorados na ponta da ponte e nos apoiamos no corrimão. Não prestei atenção na hora mas os casais já tinha ido embora deixando eu e o meu novo amigo sozinhos .
O caminho até a sorveteria foi mais comunicativo. O lugar era cheio de pessoas – na sua maioria crianças — paramos em frente a bancada de vidro e a ruiva imediatamente abriu o maior sorriso e mostrou todos os dentes para o Harry, ele se mantinha concentrado na escolha do seu sabor de sorvete o que deixou feliz.
A volta para casa foi silenciosa, mas não o mesmo silencio da ida. Era ao som de uma musica que tocava no radio: The Killers, “Heart Of A Girl”. Nós cantarolamos. E quando acabou ele apertou no play para que tocasse de novo.
Aconteceu que o carro parou, eu sai e ele me acompanhou. A minha casa estava pouco iluminada. A luz do meu quarto apagada só o da mamãe acesa, ela geralmente fica na sala mas com o papo de encontro sei que ela estrategicamente subiu essa noite.
Parei na porta e fui em direção do jarro onde deixamos as chaves. Destranquei a porta e o Harry continuava parado ali.
– Até mais. – acenei com o meu melhor sorriso e ele mantinha as mãos no bolço. Pelos meus cálculos são dois passos até ele. E dele até mim.
Mas como eu não sou boa em pesando rápido e tomando atitudes ele tomou.
Não demorou muito, suas mãos estavam ao redor do meu rosto e a sua boca na minha. O sabor dele é melhor do que eu poderia imagina. Nem a minha torta preferida venceria se fizéssemos uma disputa.
Segurei os seus braços porque não queria que acabasse, poderia durar a noite toda que eu ficaria ali de bom gosto. Mas como tudo o que é bom dura o seu tempo – que na minha opinião é pouco – acabou.
E ele sorriu e se foi.
Eu sempre ficava olhando as nuvens no fim de tarde no meu quintal, é uma experiência interessante. Você pode dar a elas a forma que quer, mesmo que ela não tenha forma alguma para os outros mas aos seus olhos ela pode ter. Porque é uma coisa sua. Mas aí a noite chegava e as nuvens sumiam.
Por isso eu não gostava da noite, ela só me levava às nuvens embora. Mas um dia a minha mãe me explicou como as coisas funcionavam
As nuvens que nós podemos usar e fazer delas animais e humanos que vem em nossa imaginação vão embora, mas em compensação as estrelas vem. Eu nunca prestei muita atenção nelas. Para mim eram apenas bonitos pontos de luz. Mas naquela noite ela me ensinou a contar as estrelas. Mas eu não conseguia. Me perdia nas primeiras cinco.
Era apenas isso, a beleza de conta-las é que como na vida eu posso me perder mas elas vãos estar lá no outro dia, e no outro para que eu possa retomar a minha conta. Elas não são marionetes. Não posso escolher que forma tem porque elas já tem a sua forma.
Elas me lembram pessoas. Pessoas que eu queria moldar as vezes, quem sabe o meu pouco – para não dizer nenhum – sucesso com a vida amorosa vem daí. Eu queria fazer com elas se moldassem a mim. Besteira eu sei, e as estrelas me mostraram isso.
Eu contei muitas estrelas essa noite, e só parava quando chegava na idade dele. Também conversei com o Teddy, Harry falou que gosta de gatos então espero que o Teddy não me mate de vergonha e arranhe ele quando se conhecerem.
A minha noite ainda estava vazia até uma mensagem dizendo “durma bem Brooke! :)” me fez dormir como um anjo. Se é que é possível sonhar com qualquer coisa que não seja ele as covinhas no sorriso dele.
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