No Abismo da Aporia
1 Escuro
Escuro…
“Você não vai conseguir!”... O sr.Bruno que me disse isso.
Estou caído no chão, tomado por uma escuridão densa, não consigo enxergar nada a um palmo de distância, sinto como se uma cortina tivesse sido costurada nos meus olhos.
O que eu não vou conseguir? E quem é sr.Bruno?
Tento me levantar… Sinto uma pontada na cabeça que me faz cair novamente de cócoras, um zumbido ecoa na minha cabeça, uma dor excruciante passa pelo meu corpo, tento me controlar em meio ao desespero. O que diabos está acontecendo aqui?
Procuro controlar a minha respiração para acalmar a dor, percebo que estou ofegante, como se estivesse tendo um princípio de infarto, sinto meu coração acelerando, o zumbido está ensurdecedor… é um ataque de pânico! Me concentro e controlo a minha respiração, aos poucos sinto meu coração desacelerar, meu corpo relaxa e a dor ameniza.
Preciso tomar uma atitude rápido. A privação sensorial e a dor podem acabar me levando a loucura, ter os meus sentidos é importante para captar estímulos e levar para o meu sistema nervoso central decodificando eles e transformando-os em sensações, sem isso a minha única sensação vai ser de desespero… como eu sei disso?
Já que não posso contar com a minha visão, preciso usar meus outros sentidos para tentar entender onde estou antes que fique louco, a visão e o olfato são os sentidos mais aguçados do ser humano, mas também não sinto cheiro de nada e não ouço nada além do som do vento e da minha respiração arfante.
Imediatamente começo a tentar apalpar ao meu redor… nada. É impressionante como não ter as respostas que precisa pode te levar a loucura rápido e eu estou em um completo vácuo de respostas.
Rapidamente me abaixo e começo a apalpar o chão para entender que tipo ambiente é esse… terra e mato, isso não ajuda muito mas eu consigo ver claramente em minha mente como é o chão e a grama, lembro-me das cores e dos detalhes então não posso ser cégo… pelo menos não de nascença. Também consigo sentir o sol ardendo no meu rosto, não estou em um ambiente escuro.
Minha primeira reação é levar minhas mãos em meu rosto, uma grossa camada de barro seco está cobrindo meus olhos. Começo a arrancar a terra desesperadamente, enfim consigo ver a luz, mas está muito forte e não consigo abrir os meus olhos… Outra pontada na cabeça, essa não veio com tanta força mas me fez soltar um urro de dor, levo minhas mãos a cabeça e sinto uma umidade misturada com a terra. Aos poucos consigo abrir meus olhos, minha mão está ensanguentada, logo percebo que o sangue é da minha cabeça que já escorre pelo meu rosto, não consigo me preocupar com isso, estou enxergando de novo e por algum motivo isso já é o suficiente pra me fazer sentir algum alívio, como se eu pudesse me dar ao luxo de sentir isso… a única coisa que sei sobre mim é que aparente “eu não vou conseguir”.
Meu corpo está coberto de lama seca, olho para o meu redor, não vejo nada além de um planalto até onde a vista alcança, nada além de arbustos, mato e terra seca, o sol está logo acima da minha cabeça, está zombando de mim com todo esse calor.
Continuo olhando em busca de algo que me dê alguma esperança de sair desse lugar. Ao norte bem distante consigo ver um pequeno ponto se movendo… é um caminhão passando em uma rodovia há cerca de 2km de onde estou.
Instintivamente começo a correr em direção a estrada e logo me dou conta que foi uma péssima ideia… caio com o rosto em terra na segunda passada…
Dor…
Sinto uma dor lancinante na minha perna direita, o zumbido volta a minha mente, mal consigo ouvir minha respiração ofegante, o zumbido aumenta, minhas vistas começam a anuviar. logo agora que eu havia acabado de recuperá-la. Grito em desespero pedindo socorro, é apenas uma reação frívola de sobrevivência.
…
Não sei a quanto tempo estou no chão, tenho medo de me levantar de novo e cair de dor no próximo movimento, minhas vistas e o zumbido estão melhores agora, minha vontade é de ficar aqui no chão até que a morte venha me buscar, mas esse maldito instinto de sobrevivência me faz levantar novamente. Tento entender o que causou tanta dor na minha perna, mas não há nada aparente, apenas a dor me diz que é melhor deixar essa perna quieta. Parece que estou nessa há horas e não consigo nem calcular se minha situação melhorou ou piorou. Começo a mancar em direção a estrada, passos lentos dessa vez e com cuidado, pela primeira vez me dou conta da secura na minha garganta.
Preciso de água…
Porque me lembro do que o sr.Bruno disse? Será que isso é tão importante? Saber que eu não vou conseguir… Não questionaria as habilidades de observação desse estranho, mas essa é uma conclusão óbvia pelo visto. A minha única lembrança é uma obviedade… que sorte a minha.
Com muita relutância chego na estrada… vazia… parece o tipo de lugar que só passam carros a cada 2 horas. O asfalto, mais bege do que cinza da poeira, mais parece um chão rachado do sertão nordestino do que uma estrada de verdade, típico de um lugar esquecido por Deus. Não tenho escolha a não ser esperar aqui. Me sento à beira da estrada com muito cuidado para não descobrir mais nenhuma fratura indesejada no meu corpo.
Será que esse “sinhor” Bruno não poderia pelo menos explicar porque diabos estou cheio de barro em um lugar que tem tudo menos barro? Esse terreno árido dos infernos… Alguém me jogou aqui desse jeito, só pode ter sido esse Bruno desgraçado… Sinto mais uma pontada na cabeça, agora um tanto mais leve. Preciso me acalmar, eu nem sei se esse idio… se esse tal sr.Bruno é amigo ou não.
Ao longe vejo uma esperança, uma caminhonete prata vindo ao norte da rodovia… preciso me levantar… começo a acenar para o motorista que chega cada vez mais perto, ele passa para a faixa da direita onde estou, parece que ele me viu! Graças a Deus! É meu anjo vindo me salvar, finalmente me dou ao luxo de ter esperança! Preciso urgentemente ir até a cidade mais próxima, preciso de um banho, de um médico, de um policial… preciso de água! Ele continua vindo em minha direção, mas há algo errado… ele não está diminuindo a velocidade… não, ele está acelerando em minha direção. Você já viu como é um carro acelerar em sua direção? Ao mesmo tempo que ele parece distante, em um piscar de olhos ele está em cima de você. Eu pulo para o lado em um reflexo, juro que não sei de onde veio tamanha destreza, há 10min eu não conseguia andar direito e agora eu acabei de desviar de um carro assassino que parece ter saído de uma das histórias do Stephen King.
Estou caído no chão, por algum motivo não estou sentindo dor… é você Deus?! Acho que deve ser só a adrenalina, olho para o lado, a caminhonete prata está parada há cerca de 100 metros de onde estou. Qual o problema desse maluco psicopata? As luzes de ré da caminhonete ascendem, ele está vindo na minha direção novamente… e está vindo com tudo.
Meu corpo inteiro estremesse e minha espinha parece congelar ante o pensamento que me vem a mente… Ele quer me matar!
De repente me lembro com aflição que estou em uma planície… qual a minha chance de fugir de um carro assassino aqui? O carro me alcança, mais uma vez consigo desviar e começo a correr para longe do carro, voltando para meu derradeiro local de origem, voltar para a estaca zero, mas agora enxergando e com um carro assassino atrás de mim. Por que ele está fazendo isso?
Recuperei meus sentidos, mas me sinto em um véu de escuridão ainda maior do que antes. Definitivamente as coisas não melhoraram pra mim, maldição! “Você não vai conseguir!”.
Não escuto mais o som do carro.
Olho para trás…
Um homem negro e esguio de cerca de dois metros usando um gorro e um vestido nevado está correndo em minha direção, tão rápido como um guepardo atrás de sua presa indefesa, mal dá pra reconhecer que aquilo é humano, tudo nele parece ter saído de um filme de terror. Dá pra sentir o ódio em seu olhar, consigo ouvir ele bufando enquanto corre… estou olhando inerte para o sicário, não consigo nem sentir minhas pernas agora, imagina fazer elas se moverem… meus instintos dizem para correr, mas para quê? Para onde? Eu não tenho chance de escapar dessa coisa… seus olhos compenetrados em mim… porque? Eu fiz algo contra ele? O que está acontecendo nesse lugar maldito?
O homem me alcança e tudo fica…
Escuro.
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