Nigth End
12 Energia Vital
Notas iniciais
Kiara se jogou na cama de casal espaçosa de seu quarto. As luzes estavam apagadas e uma brisa agradável entrava pela janela, balançando suavemente as cortinas e seus cabelos.
Havia tanta coisa que queria saber, Allan aparentemente não iria tirar sua vida, queria apenas usá-la. Pensar naquilo a fez se arrepiar. Não teria como ‘’doar’’ seu sangue sempre, acabaria anêmica e morreria. Mas teria que cooperar se quisesse sair dali. Ganhando a confiança dos Monray’s conseguiria arrumar um jeito de fugir ou de se comunicar com alguém para salvá-la.
Se Ryan era inimigo de Allan, e tinha também esses poderes estranhos, talvez ele fosse o único que pudesse ajudá-la naquele momento... Ele estava escondido em algum lugar provavelmente tramando alguma coisa contra os Vampiros. Ao pensar nisso, tentou imaginar como Allan sabia de Ryan e agora alguma coisa começou a fazer sentido na sua cabeça. Aquela adaga podia ser alguma arma poderosa que Ryan possuía, por isso era tão protegida por ele, talvez ele tivesse razão, ela poderia estar com Allan, só não conseguiu entender o tipo de ligação que uma águia teria com os Monray’s. Só se algum deles pudesse se transformar em animais, mas nesse caso... se fosse morcego faria mais sentido.
Kiara estava sem sono, martelando muitas coisas em sua cabeça, como os Vampiros conseguiram se esconder todo esse tempo? Será que existiam outro tipo de criatura além deles e dos Guardiões... Poderia haver milhares, os Vampiros eram criaturas conhecidas pela humanidade, mas não se lembrava de nada na mitologia com esse nome de Guardião, Ryan era normal, tinha uma aparência de ser humano e nunca saberia que ele não era da mesma espécie que ela.
Aquela menina que apareceu na varanda, também vestia o uniforme da High Five, ela com certeza pulou do segundo andar e Allan tentou impedi-la de ver, deve ser uma Vampira também. Ryan mandou ela e as meninas ficarem longe da High Five, então aquela escola talvez fosse uma escola de Vampiros. Agora faz todo sentido ela funcionar somente à noite.
De uma coisa Kiara sabia, precisava ser amigável e ganhar a confiança deles para sair dali. Estava com saudade de casa e das amigas, Malu e Talita deviam estar preocupadas com o seu desaparecimento, precisava avisá-las que estava bem.
Kiara adormeceu sem perceber, quando acordou, a luz do sol invadia seu quarto e batia em seu rosto, dormiu com a roupa do jantar e esqueceu de fechar a janela e as cortinas. Era estranho acordar e não ter o que fazer, sempre foi ativa em sua vida, estudando e trabalhando. Agora a única coisa que fazia o dia todo, era dormir, comer e usar o banheiro.
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Thalita foi várias vezes na casa de Kiara verificar a caixa de correios, sempre tinha a esperança de encontrá-la, porém nem sinal da amiga. A Sra. Rosália nunca tinha notícias do paradeiro de Kiara.
Ryan não escreveu de volta para Thalita, que logo pensou que sua carta nunca havia chegado. Pelo que lembrava, tinha certeza que estava com as informações certas.
A escola nunca mais tinha sido a mesma sem Kiara, Malu se afastou mais ainda depois do desaparecimento, tentou se ocupar o máximo com o jornal, para tentar esquecer um pouco o ocorrido. Das vezes que se encontrava com Thalita, apenas perguntava sobre as investigações e logo se afastava. Thalita respeitou o momento de Malu, entendia que devia estar sendo muito difícil, e ela só queria ficar sozinha.
No corredor as pessoas só comentavam sobre isso, o medo entre as pessoas só parecia aumentar cada vez mais.
Thalita foi para o refeitório se servir e sentou em uma mesa cheia de amigos nerds, ao lado da mesa das Pandoras.
— Primeiro aquele menino lá, como é o nome dele? – disse Karina de boca cheia
— Parece que era Ryan, eu acho – respondeu Saori.
— Primeiro esse tal de Ryan, aí depois Kiara... quem vai ser o próximo?! – completou o pensamento preocupada
— Ai caramba! Dá pra vocês calarem a boca?! Agora toda hora vocês só falam isso. Kiara pra cá, Kiara pra lá. Ela sumiu OK! Chega. – disse Laura irritada
— Nossa, como você é indelicada. Ela era do nosso grupo! – se ofendeu Saori
— Era, bem era mesmo, por que antes disso tudo ela já tinha saído, e dai se ela era das Pandoras. Entendam a gente não pode fazer nada, e ficar falando não vai fazê-la voltar dos mortos. – respondeu Laura
Os olhos de Saori encheu de lágrimas, Karina a abraçou como consolo.
Laura revirou os olhos – Quer saber, cansei de vocês e perdi o apetite – disse se levantando e se retirando do refeitório.
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Thalita estava imóvel, assim como os outros ao redor que estavam escutando a conversa, não conseguiu acreditar como alguém podia ser tão insensível e não ter empatia pelas pessoas. Depois daquilo Thalita também ficou sem apetite e se levantou pedindo licença e do refeitório.
Arthur entrou no quarto de Kiara como de costume, pela janela, que já estava aberta, sentou no peitoril e arriscou um oi para Kiara, que retribuiu da mesma forma.
— AH! Finalmente, temos você de volta – Arthur sorriu e desdeu da janela. – Então como você ta? Já ta comendo?
— Sim – disse Kiara retribuindo o sorriso
— Que bom ter você de volta, como foi o jantar com meu querido irmão?
— Arthur... sabe, tem umas coisas que eu gostaria de perguntar – disse Kiara mudando de assunto
Arthur fez expressão de interrogação – Ao seu dispor
— Todos esses incidentes... sabe, esses sequestros, foram todos vocês, não é? – perguntou Kiara tentando ser cautelosa
— Incidente? – Arthur se sentou perto do pé de Kiara
— Sabe, aquele carteiro lá na floresta, depois lá no evento da High Five... O dono da Candy Coffee, e diversos outros... o que vocês fazem com essas pessoas?
— Ah, entendi! – Arthur riu e coçou a cabeça sem jeito. – Bem, se você está se referindo a mim e ao Allan, na verdade só o cara da Candy Coffee. Esses outros foram outros vampiros.
— Existem muitos de vocês?
— Bastante... sim, mas não tanto quanto vocês. Eu diria que um terço da população de Night End... Mas estão espalhados pelo mundo, embora a maior parte esteja aqui.
— O que vocês fazem com essas pessoas que capturam? – arriscou
Arthur encarou Kiara por um instante antes de responder – Não é obvio?
— Não – respondeu Kiara rápido e firme.
— Eles morrem Kiara, ou viram prisioneiros e depois morrem... – respondeu Arthur inquieto – mas isso não pode ser feito de qualquer jeito, nós temos um conselho, que dita nossas regras, elas são diferentes das suas... vampiros não podem sair por aí atacando pessoas... isso é contra nossa política de sigilo, se isso fosse feito rapidamente seriamos descoberto e isso não seriam bom nem para nós nem para vocês.
— Então porque algumas pessoas são atacadas se isso é contra as regras? – perguntou Kiara
— Também existem os fora da lei em nosso meio, eles sofrem pena se forem pegos.
— Então do que se alimentam? Também comem comida como nós?
Arthur riu – Ah não, isso é nojento. Mas eu falo por mim, na nossa sociedade existe uma linhagem de pureza. Nosso ancestral Vartore é quem dita o grau de pureza de um vampiro através de sua mistura com as outras linhagens. A linhagem real é pura, não se mistura com os demais. Caso um sangue puro tenha um filho com um outro vampiro que não é sangue puro, esse filho desce de linhagem, ou seja, um sangue puro só pode ser filho de dois sangues puros também... o que eu quero dizer com isso é que os poderes, as habilidades, tudo e até o paladar mudam de acordo com o nível de pureza... existem vampiros que conseguem gostar dessas comidas humanas e alguns níveis muito inferiores até se nutrir delas.
— Então na verdade vocês não precisam dos humanos necessariamente para sobreviver?
Arthur desviou o olhar do de Kiara – Mas pra que esse assunto chato? Porque você quer saber tanto sobre nós?
— Existe algum vampiro que só se alimenta de humanos? – insistiu
— Sim – respondeu Arthur olhando pro teto
— São esses sangues puros né? Quem são eles?
Arthur suspirou – Existem apenas 5 sangues puros hoje em dia... que se sabe... e como eu sei que você vai perguntar, tem um velho morando ao sul em uma fazenda que eu esqueci o nome dele, tem o outro velho que é presidente do conselho – Arthur contava nos dedos – a princesa Valkyria, uma moça que mora no país vizinho, Alucard meu irmão mais velho e Allan.
Kiara arregalou os olhos e congelou.
— Antes que você pergunte, eu não sou sangue puro como eles porque minha mãe não é a mesma que a deles...
— Allan... é um... deles... – disse baixinho quase que só para si – então... ele...
— Devora humanos, isso mesmo! Você não insistiu para saber a verdade? – Arthur se levantou e virou de costas – Nós desenvolvemos várias maneiras de controlar as matanças. Temos pílulas de sangue feita com sangue animal, temos grande estoque de bolsas para doações que armazenamos, alguns só recorrem aos animais outros já conseguem comer as comidas de vocês... – Arthur virou para Kiara – Como eu sou quase um sangue puro, particularmente adoro sangue humano, mas consigo beber sangue de animais, também me descem.
Kiara encarou Arthur, ainda estava assustada.
Arthur sorriu de bom humor e subiu na janela – Ah, só mais uma coisa... Allan odeia bolsas de sangue, ou qualquer uma dessas coisas que eu falei. Ele prefere sangue fresco... – Arthur fez uma pausa – e da fonte.
Arthur ia dando impulso para sair.
— ESPERE! Mas ele não pode! E as regras?
— Você acha mesmo que alguém viria aqui tirar satisfação com ele? Você não sabe de nada Kiarinha. – Arthur sumiu no mesmo instante, impossibilitando Kiara de fazer mais perguntas.
Como Allan podia ser o pior de todos?! Kiara correu para desligar as luzes e fechar a janela e as cortinas. Segurou firme na cortina, pensativa com as novas informações. Apesar de as coisas não serem tão graves quanto tinha pensado, ainda sim, continuavam graves. Imagina se um monte de vampiro começarem a se revoltar e atacar as pessoas... e se essas regras mudassem? Como estão, parece que eles mal têm controle sobre as coisas, está sempre acontecendo um monte de atrocidades.
Kiara se virou para ir para cama e parou ao ouvir o barulho da janela se abrindo lentamente nas suas costas. Seu coração congelou, sabia de quem era a segunda visita. Virou a cabeça lentamente e seu coração acelerou ao vê-lo abaixado no peitoril da janela, segurando com uma mão a parte da janela que abrira. Allan estava com uma camisa branca social de manga comprida enrolada até o cotovelo, estava metade desabotoada, os cabelos estavam bagunçados e tinha aquele mesmo olhar quando o viu pela primeira vez na quadra. Kiara ficou estática, ele era muito atraente e alguma coisa a mais a envolvia que não sabia explicar, era como uma espécie de hipnose que desde a primeira vez lutava para se controlar.
Ele desceu lentamente e andou em direção a Kiara, com um sorriso sedutor nos lábios. A medida que se aproximava os batimentos cardíacos de Kiara ficavam mais fortes. Allan parou à um palmo de distância.
— Você prefere consciente ou inconsciente? – sua voz era sedutora e calma
— Consciente – respondeu Kiara com a voz trêmula, não adiantava fugir, tinha feito o trato consigo mesmo, seria obediente e colaborativa. Kiara afastou seus cabelos e expôs sua nuca.
Allan sorriu. Seus caninos cresceram e ficaram pontiagudos e afiados. Allan pegou Kiara pela cintura e comprimiu seu corpo contra o dele. Kiara estava tensa, não sabia se de medo, excitação ou os dois. Seus braços eram fortes e firmes. Sentiu Allan colocar a outra mão em sua nunca e aproximar os lábios de seu pescoço, eram quentes e macios. Kiara apertou os olhos e agarrou a camisa de Allan com força, isso com certeza ia doer, tentou se concentrar ao máximo, esperando a mordida.
Para a surpresa de Kiara, Allan soltou sua nuca e se afastou. No lugar daqueles olhos azuis acinzentados estavam olhos vermelhos, era um vermelho vivo, cor de sangue.
— Podemos deixar esse lugar para quando você estiver preparada. – Allan pegou o punho de Kiara e aproximou de seus lábios, antes que Kiara pudesse falar qualquer coisa, sentiu as presas afundando em seu punho.
Estremeceu com a dor e gemeu, mas aos poucos foi passando e não sentiu mais nada. Allan estava de olhos fechados e envolvia a boca em seu punho, dando apoio com uma mão enquanto a outra estava passada na cintura de Kiara.
Naquele momento, só podia observar, não sentia dor nem desconforto “Então é isso?” — pensou. Observa-lo lhe trazia algum tipo de satisfação que não conseguia explicar. Sabia que estava sendo sugada, mas a ausência de dor fez aquilo não parecer tão anormal assim. Talvez estivesse ficando doida de tanto conviver com vampiros e aceitar a ideia de sua existência.
Kiara começou a ficar tonta e sua vista embaçar. Allan parou e a segurou firme com um braço. Um filete de sangue escorreu do canto de sua boca. Ele ergueu-a e a deitou na cama, abriu a gaveta da cabeceira e tirou os materiais de curativo. Fez os curativos com cuidado colocando a pomada verde e guardou o material após terminar.
— Não dói... – disse Kiara com os olhos quase fechados
— Dói... mas eu posso te anestesiar... – Allan se levantou – Vou pedir para suas amas trazerem o remédio. Você vai se recuperar rápido da perda de sangue e essa pomada vai fazer cicatrizar muito mais rápido... agora... durma. – Ordenou.
Kiara adormeceu no mesmo instante.
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Sr. Lins estava discursando em uma reunião chata com os professores, na sala de reunião. Havia uma mesa grande e redonda com várias cadeiras. Ryan era obrigado a participar por ser filho dos ex líderes da organização, e certamente teria que assumir quando o Sr. Lins decidisse ou morresse. Todas aquelas conversas eram extremamente chatas para Ryan, toda semana eram repassados todos os gastos, recursos e do esconderijo e os resultados os treinamentos. A única parte legal era o final, onde eram notificadas todas as notícias de cima, o que ocorria de relevante para a organização. Naquela semana não havia tido nenhum progresso e nenhuma notícia relevante, exceto o desaparecimento de uma moça, que Ryan sabia bem quem era.
Tinha passado a semana toda mal-humorado mais do que o normal. A noticia de que Kiara pudesse estar correndo perigo o deixava inquieto. Tentou bolar uma ideia pra conseguir ir até a superfície se comunicar, mas a guarda dos Guardiões estava intensificada, não poderia sair sem permissão. Os portões de entrada eram guardados 24 horas por dia.
Só saia apenas uma vez por semana para o treinamento externo, porém também era impossível sair sem que os guardas que cercavam o local notassem. A única opção era planejar uma fuga, já que não poderia sair sem ser notado e não conseguiria permissão para subir do Sr. Lins. Sem muitas opções Ryan decidiu pedir ajuda para Natali, a amiga era muito inteligente e conseguia sempre bolar planos incríveis.
— Você está ficando maluco Ryan? Eu não vou permitir isso de jeito nenhum! – disse Natali chateada
— Vamos lá, você precisa me ajudar... Eu não aguento mais ficar aqui nesse buraco. – suplicou o amigo
— A gente sai uma vez por semana
— Isso não conta! Natali, você não sabe o que ta perdendo...
— Olha, eu não me importo com isso, eu nasci comprometida com essa causa e eu pretendo fazer valer a pena minha vida, ajudando nosso povo e a humanidade. – Natali se sentou na cadeira da escrivaninha de Ryan – o que você pretende fazer lá em cima?
— Tenho coisas pendentes, preciso resolvê-las...
— Que coisas? Se você não me contar, eu não tenho como te ajudar
— Natali, não me leve a mal, mas são coisas pessoais
— Pessoais. Coisas pessoais... Ryan, desde quando você tem coisas pessoais de que eu não saiba? – disse Natali aparentemente irritada
— Desde que eu escolhi viver para mim e não para essa organização. – disse se encostando no armário de madeira. – Eu sei que tem toda essa coisa de dever, não estou dizendo pra você não o cumprir, mas tente entender que isso não é a única coisa que existe.
— Para mim é a única coisa que importa, quando cumprirmos nossa obrigação aí podemos pensar em outra coisa.
— Então você não pode me ajudar... certo, então farei isso sozinho. – Ryan abriu a porta de seu guardo e ficou segurando a maçaneta enquanto encarava Natali.
— Eu sei que você vai fazer isso de qualquer jeito... – Natali se levantou – eu vou com você então.
— Não
— Sim — rebateu
— Não, de jeito nenhum, é muito perigoso
— O mesmo serve para você – insistiu — Em dois, temos mais chances se você ainda acha que temos alguma.
— Vou pensar nisso... enquanto isso pensa em alguma coisa.
— Tá bom, me da dois dias e eu dou um jeito nisso – Natali piscou para Ryan confiante e saiu do local.
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Kiara estava sentada na janela de seu quarto olhando as estrelas, nesse dia a lua estava escondida, durante a noite percebia alguns movimentos lá fora, se perguntava como nunca tinha notado isso antes, o jardineiro sempre passeava lá em baixo nesse horário, a Mansão Monray não tinha uma bela jardinagem mas haviam muitos arbustos espalhados e estátuas no jardim da frente, nunca tinha dado uma volta no terreno, ao pensar nisso, sentiu curiosidade de ver como era a parte de trás. “Será que eles tinham um cemitério igual o dos filmes? E dormiam em caixão? Ou de cabeça para baixo...” – Se perguntou Kiara, nunca tinha visto eles dormirem para saber.
Kiara verificou seu pulso e estava praticamente cicatrizado, aquela pomada era realmente eficaz. O remédio também pareceu funcionar muito bem, não sentia tontura nem se achou pálida ao olhar no espelho.
Naquele dia não recebeu visitas de nenhum dos irmãos, exceto de suas amas, trazendo-lhe comida. A comida era deliciosa, hoje tinha experimentado um pudim de leite com calda de chocolate, fazia muito tempo que Kiara não havia comido uma sobremesa, a última que comera, foi quando visitou a Candy Coffee com Malu no início do ano.
Na segunda noite Arthur apareceu cedo, ficaram horas conversando sobre vampiros e Kiara descobriu que eles não tinham um cemitério ao fundo da mansão e nem dormiam em caixões ou de cabeça para baixo. Arthur era divertido, bem-humorado, sempre fazia Kiara sorrir. Nesse dia não tinha ido para a High Five, tinha ficado com preguiça de ir. Arthur não era um aluno dedicado, na verdade estava na escola mais por diversão de estar com outras pessoas do que interessado em aprender alguma coisa. Apesar disso era muito popular na escola, principalmente entre as garotas. Afinal, também era um Monray, e tinha uma certa nobreza em seu sangue, e isso era muito respeitado na sociedade vampírica. Kiara se sentiu tímida para perguntar como Allan eram na faculdade, que também funcionava na High Five, afinal, não queria parecer interessada nela de forma alguma. Mas descobriu que ele fazia uma espécie de ciências médicas misturado com política, era uma coisa bem diferente, não havia um curso assim que conhecesse em nenhuma faculdade dos humanos.
— Ah, eu não sei o que pretendo fazer, na verdade eu nem sei se quero entrar pra faculdade, essa coisa de estudar sabe... é um saco... – Arthur estava deitado na cama bem a vontade, com as mãos apoiando a cabeça e as pernas cruzadas.
— Mas você tem que estudar, faculdade também deve ser uma coisa importante pra vocês, não é – disse Kiara se servindo de chá e colocando de volta em uma mesinha de centro perto das poltronas.
— Olha, é importante, mas não pra alguém como eu... pra falar a verdade eu queria fazer parte dos caçadores especiais...
— O que é isso? – tomou um gole de chá
— É como se fosse a polícia, só que muito mais legal, eu tenho pré-requisito pra entrar, é preciso ser de uma linhagem alta e formado na escola, foi por isso que eu voltei. São vampiros fortes e bem treinados, eles desenvolvem uma série de habilidades, e aprimoram as que já tem. Participam de buscas especiais e casos mais complicados. Eles andam todos de preto e usam uma máscara para esconder o rosto.
— Sabe... não é querendo de desencorajar, mas... não consigo tiver assim em uma função tão... ér...
— Difícil? – perguntou Arthur desapontado
— Não, é como se fosse sério demais pra você, não sei explicar
— AH! Você não me acha sério? – Arthur sentou na cama e encarou Kiara
— Não – Kiara riu
— Não esqueça que eu sou um vampiro, posso morder você se me fizer raiva – desafiou Arthur
Ainda rindo Kiara respondeu – Pode pegar, contando que deixe um pouco pra mim...
Arthur sorriu maleficamente – Eu vou adorar.
— Ei, eu tô brincando, é claro que não pode – Kiara fez cara de raiva
Arthur se teleportou rapidamente para frente de Kiara, ajoelhado como se fosse pedi-la em casamento. Puxou o braço que não estava enfaixado e virou-o, colocando seu punho para cima.
— Não, espere... não faça isso. Você não pode... – disse Kiara arrependida de ter brincado com Arthur
— Eu posso sim – Ao falar isso seus caninos cresceram e seus olhos se estreitaram. Arthur também era muito bonito, embora tivesse as características diferente de Allan, tinha o cabelo loiro e os olhos azuis, Arthur também era muito atraente.
Arthur aproximou sua boca do punho de Kiara e parou ao ouvir o grito de uma águia. Então soltou o braço da garota.
— Que egoísta... então meu irmão não gosta de dividir o brinquedinho... – Arthur se levantou e foi para a janela olhar lá fora.
— Do que você está falando? – Kiara estava confusa
— Ainda não conhece a Foice? – perguntou
— Foice? Não...
Uma águia enorme pousou na janela e ficou encarando Arthur.
— Tá bom, já entendi! – disse levantando as duas mãos – desculpe.
Arthur desapareceu e deixou a águia encarando Kiara, que estava com medo do animal. Não estava entendendo nada, mas uma coisa estava certa, essa águia com certeza era a águia que havia pegado a adaga de Ryan.
Allan apareceu do lado da águia colocando a mão sobre sua cabeça. O animal era metade de seu tamanho e isso era porque Allan tinha um metro e oitenta.
Allan olhou para Kiara e sorriu ao ver aquela cara de espanto. Aquele sorriso desmontava Kiara, os dentes estavam normais, não havia presas ou qualquer coisa assustadora nele.
Allan desceu da janela em um pequeno pulo e a águia desapareceu na noite.
— Gostou da Foice? – perguntou Allan sorridente
— Aquilo é seu? Ela é gigante pra uma águia! – respondeu Kiara ainda chocada
— Com o tempo você vai gostar dela, ela é amigável... – Allan olhou pela janela – Quando se é amigável comigo...
— Ela não pareceu amigável com o Arthur... – disse Kiara desconfortável
Allan soltou um sorriso suspiroso – Bem... Arthur é um menino abusado, ele costuma passar dos limites quando quer me provocar. – Allan se voltou para Kiara e foi em sua direção.
Kiara se mexeu na poltrona desconfortável, sempre ficava sem jeito perto de Allan, ainda não conseguia agir naturalmente como conseguir agir com Arthur, com Arthur conseguia se sentir à vontade e estava pegando bastante intimidade rápido através das conversas.
Allan parou na frente de Kiara e estendeu sua mão para ela. Kiara olhou por um instante e entendeu que era para ajudar a se levantar. Orgulhosa, se levantou sozinha ignorando a mão estendida.
Allan colocou as duas mãos na bochecha de Kiara perto dos olhos e puxou para baixo, verificando a mucosa de seus olhos, depois pegou as duas mãos da garota e virou-as de palma para cima e analisou, olhou para o rosto de Kiara e para a cicatriz em seu braço. – Boa menina, tomou o remédio conforme mandei, está em perfeito estado agora, todo o sangue foi recuperado.
Allan pegou no queixo de Kiara e levantou-o em sua direção, obrigando-a olhar para ele. – Escute – disse encarando-a – Não permita que ninguém beba seu sangue além de mim. Esse é um ato de invasão.
— O que quer dizer com isso? – perguntou Kiara que a esta altura já estava com as bochechas coradas estando a poucos centímetros de Allan, com os rostos quase colados de tão próximos.
— Beber sangue de alguém é algo íntimo, é parte de sua energia vital, é parte de você.
— Íntimo?! – Kiara ficou ainda mais vermelha – Kiara olhou para os lábios de Allan e depois desviou o olhar, estava muito tentada a beijá-lo, mas precisava se controlar.
Allan puxou o rosto de Kiara novamente – Não desvie seu olhar. – disse olhando nos fundos de seus olhos.
— Então porque você... – disse pegando seu próprio pulso.
— Porque você é minha. – respondeu Allan firme. A resposta de Allan veio como uma pontada, fazendo o coração de Kiara parar por uns segundos.
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