Nights Of The Cursed
1 O Primeiro e o Ultimo
A história a seguir aconteceu já há muitos anos em um lugar afastado de Londres, cujo nome escolhi me esquecer. Minhas memórias me assustam, mas coloca-las no papel pode ser o ato final de minha desesperadora vida que logo chegara ao seu fim eminente. Todos iremos morrer um dia e meu amigo muito citado nessa história, Lorde Anthony, era o que, dentre todos nós, sabia melhor disso.
Enfim, quando eu tinha meus vinte e cinco anos, eu era um garoto ingênuo em um grupo de amigos mais velhos. Éramos em seis, todos nós bem felizes, entregue as bebedeiras da noite, em um bar bastante frequentado de onde morávamos. Lorde Anthony estava entre nós e, pode-se dizer, era o líder de nosso grupo e aquele que pagava nossos vícios. Não ligava de gastar dinheiro, contanto que fosse com o que amava e ele realmente amava beber. Não era homem violento, meu amigo e, até hoje, nunca conheci pessoa mais calma do que ele fora naqueles tempos longínquos.
Pois bem, aqui é que minha narrativa começa a ter sentido afinal. Acontece que meu amigo, um homem que jurara nunca se casar, acabou por conhecer uma mulher. Era uma moça muito bonita, porém de origens pobres, o que, naquela época, influenciava muito nos matrimônios em geral. Entretanto, por mais que sua família não quisesse que se casasse com ela, ele não ligou e disse que sua fortuna cobria as despesas dos dois e ainda daria para pagar a bebedeira da noite com os amigos no bar. Casou-se então e teve alguns bons meses de casados, sempre sorridentes e felizes.
Lady Alice Anthony caiu de cama apenas sete meses depois do casamento, quando já era lá para Julho. Sua doença, infelizmente, era grave, poderosa e difícil de ser controlada. Estávamos todos lá quando ela veio a morrer. Nunca havia visto homem mais devastado em minha vida, quanto meu amigo naquele momento. Pediu-nos para deixar a mansão e assim fizemos, em respeito a seu luto pela morte da esposa.
Alguns meses depois recebi uma carta dele, convidando-me a passar o natal e o ano novo em sua casa naquele ano. Contente como estava, respondi de pronto e fiquei aliviado de receber noticias dele depois de tanto tempo. Vejam bem, Lorde Anthony sumiu de vista depois da morte de Alice e todos estávamos preocupados com ele, para dizer o mínimo. Assim fui-me para a mansão dele, aguentando a viajem de três dias, tudo para rever o meu bom amigo e ver se estava bem, afinal. Quando lá cheguei, vi que não fui o único convidado e que meus outros quatro amigos também vieram. Estavam todos acabados, mas sorridentes. O fim do ano era importante em seus empregos e era a época em que tudo deveria ser posto em ordem. Quando Lorde Anthony veio nos receber, percebi logo a palidez de seu rosto. Estava mais magro também e seus cabelos, uma vez pretos e vastos, estavam grisalhos e ralos. Era a imagem do estresse em carne e osso. Entramos e logo fomos levados a sala de jantar, para jantarmos. Era véspera de natal e chegamos bastante tarde de viajem.
– Então diga, Anthony — um de meus amigos, Finn Jones, começou quando estávamos todos sentados — Como vai a sua vida aqui? Você está muito sumido para um homem que saia sempre durante a noite!
– Vai bem — essa foi a resposta. Olhamos para ele, todos os cinco, ao mesmo tempo, mas ele não nos encarou nem uma vez. Só olhava para os lados e para o prato, com a comida que mal tocara.
– E como vai o luto? — outro de nós lhe perguntou e, obviamente, não foi uma pergunta muito sutil, mas era o que todos nós queríamos saber. A resposta foi a mesma e foi seguida por um pedido dele à criada, para tirar seu prato e sua taça de vinho, intocada.
– Tem certeza que está bem? — perguntei a ele, largando meu garfo e parando de comer. Ele acenou positivamente com a cabeça, quando a menina que retirava as coisas, derramou o vinho sobre a mesa. Não achava que ele fosse fazer alguma coisa, mas quando meu amigo ergueu os olhos para ela, pude ver o ódio ali encravado. O que se seguiu foi obra de um segundo e quando vimos, ele estava sobre ela, atacando-a e berrando. Levantei-me da cadeira na hora e fui para-lo.
– Anthony, vamos, pare! — berrei, pegando seu braço — Ela não teve culpa, para! — meus amigos estavam demasiado atônitos para fazer algo a respeito e quando eu consegui tirar ele de cima dela, a pobre mulher já estava bastante machucada.
– Desculpa — pedi por ele e ela acenou com a cabeça — é melhor você ir, antes que aconteça mais alguma coisa — obedecendo, ela se levantou e foi-se de volta para a cozinha. Nunca mais a vi desde então. Fomos dormir, ainda pensando nos acontecimentos da sala de jantar e quando acordei, vi que um de meus amigos já havia voltado para a cidade, sem ficar para o ano novo. Nenhum de nós o culpou e seguimos cuidando para que Anthony nada fizesse de errado. Cada dia que passava, ele ficava mais e mais pálido, falando coisas sem sentido sobre Alice, sua mulher. A frase que mais falava era "Ela vem por mim, ela vem por mim, não tenho muito tempo", porém considerávamos ele louco e não lhe dávamos a devida atenção. Acontece que, ao final de nossa estadia prolongada, apenas eu ousei ficar. Não vi nenhum de meus amigos indo, mas soube que se foram, por não estarem mais lá. Era meu dever cuidar de Anthony como ele faria por mim e não iria renunciar a isto. Um dia desses, caminhando pelos corredores, fui a biblioteca onde o encontrei olhando os livros. Virou-se para mim e reparei que sua palidez tinha sumido um pouco. Nunca havia deixado de ser um homem muito bonito, mas tinha algo ali que me incomodava. Era uma expressão em seus olhos... Eram vazios e sem vida, quando um dia já foram convidativos e sentimentais.
– Anthony, tudo bem? — perguntei-lhe e ele me sorriu, um sorriso sinistro e macabro.
– Ela vem esta noite, Daniel, esta noite... — me respondeu — todas essas noites que passei sofrendo e ela retornará esta noite!
– Como assim, do que está falando?
– Você se lembra da empregada? — perguntou-me repentinamente e eu fiz que sim — Você tem visto ela, ultimamente? — fiz que não — E nossos amigos, hein? Viu algum deles saindo daqui para a cidade?
– Não vi nenhum — respondi, ainda não entendendo o ponto. Ele gargalhou loucamente e me encarou com os olhos arregalados. Comecei a me afastar lentamente.
– Estão mortos, Daniel! — berrou a plenos pulmões — mortos, mortos, pela minha esposa, Alice! Todos morreram em prol do bem maior, da vida pós morte de minha amada!
– Não entendo... Como podem est-
– ESTANDO! — seu temperamento alterou-se de repente — ELA OS MATOU, ELA MATOU A TODOS, A EMPREGADA, OS RAPAZES, SÓ NÃO MATOU VOCÊ, A PEDIDO MEU! ESTÃO MORTOS E ESSA NOITE, ELA RETORNARÁ, RETORNARÁ ENFIM, PARA MIM! — as portas atrás de mim se fecharam e eu corri para elas — NÃO TEM PARA ONDE CORRER, DANIEL!
– Alguém! — berrei batendo na porta — Ajudem-me!
– Ninguém vai te ajudar hoje, caro amigo — respondeu Anthony — ouça os passos, os barulhos, ela esta vindo! — as janelas se abriram com um vento forte o bastante para me lançar contra a outra parede e me deixar ligeiramente tonto. Não sei o que vi, mas o que me lembro é de um corpo, aparecendo. Era tão transparente e vivo, mas morto ao mesmo tempo. Era o espírito de Lady Alice para quem eu olhava. Vi meu amigo se ajoelhando diante dela e chorando de felicidade.
– Todos tem que morrer um dia — falou ele — mas você, Alice, minha amada, você não. Você é eterna e é minha! — berrou enquanto ela acariciava-lhe os cabelos. Depois disso, abaixou-se e o abraçou, enquanto sua transparência ia sumindo. Pouco a pouco eu vi a vida sendo sugada de meu nobre amigo, Anthony e passando para sua esposa, Alice, até que o corpo dele estivesse morto, estirado no chão. Depois disso, desmaiei de fato e acordei em uma carruagem, com as minhas coisas. Olhei para trás e ainda pude ver a mansão Anthony, com uma figura estranha na janela, uma figura feminina, olhando para mim com os olhos vivos e os cabelos loiros, a figura de Lady Alice!
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