Nightmares
20 Capítulo 20 - Epilogue
Notas iniciais

Ela corre na areia.
Os cabelos loiros voam com o vento junto com os inúmeros balões que ela segura com uma das mãozinhas. Ela se aproxima do mar e quando a água ameaça tocar seus pés, ela dá vários passos para trás.
Um balão vermelho escapa da mão dela e rio baixinho ao ver ela olhando para o balão que tomou seu rumo no céu.
Ela corre até mim e se atira entre minhas pernas. Aponta para o balão que agora é apenas um minúsculo ponto vermelho no vasto azul.
— Olha, papai. Ele fugiu. — ela reclama voltando os olhos cinzentos para mim.
— Eu avisei que isto iria acontecer. — respondo puxando os balões da mão dela e amarrando em seu pulso – Olha! Agora nenhum deles irá fugir de você.
Ela ri e senta entra minhas pernas, puxando meu pulso e passando os pequenos dedos na tatuagem que tenho ali. Ainda lembro de quando Katniss me perguntou, há tanto tempo, que tatuagem eu faria, caso fizesse uma. Eu havia respondido que seria o nome de uma pessoa. Mas não de uma pessoa qualquer. Uma pessoa que mudasse minha vida. Uma pessoa que eu amasse compulsivamente. Uma pessoa como a garotinha que está sentada entre minhas pernas.
— É o meu nome. — ela afirma desenhando as letras com seus dedos.
— É sim, Aghata. — sussurro.
Aghata… “O nome perfeito para uma menina perfeita, que, por acaso, significa perfeita” Lembro da voz de Katniss falando isto sobre a escolha do nome de nossa filha.
Katniss ficou em choque quando caiu a ficha que teria uma criança se desenvolvendo dentro dela, mas não foi nada tão grave que eu não conseguisse resolver com mimos.
Aghata agora passa os dedinhos no meu outro pulso, contornando o nome que está escrito ali.
— Mano. — ela sussurra.
O nome Peter não foi uma escolha nossa. Aghata escolheu o nome do nosso segundo filho. Estávamos no hospital após o nascimento dele, olhando para uma enfermeira que segurava uma prancheta e esperava que nós falássemos o nome do nosso menino. Bem, não havíamos conversado sobre os nomes. Aghata que estava no meu colo, pulou para a cama junto com Katniss e nosso filho, apontou e riu para ele enquanto dizia: “Peter Pan”.
Peter Pan era o mais novo vício de Aghata. E assim que ela começou a falar isto, Katniss falou para a enfermeira que o nome dele seria Peter. Aghata ficou bastante decepcionada por termos tirado o “Pan” do nome de seu irmão.
Admito que achei estranho no início, mas logo me acostumei.
— Está na hora de irmos para casa. — falo para minha filha.
Ela se vira de frente para mim e faz aquela carinha de pidona.
— Ah, papai! Vamos ficar. — ela implora.
— Sua mãe está nos esperando. — me levanto e a puxo para o meu colo – Vamos.
Ouvi algumas reclamações, mas logo Aghata já estava feliz novamente. A soltei no chão e observei ela correr na minha frente sendo acompanhada pelos balões. Katniss estaria brigando comigo e dizendo para eu segurar a mão dela, com medo que ela atravesse a rua sozinha. Mas Aghata sabe que não pode atravessar sozinha. Ela me espera ansiosa no meio fio da calçada e me estende a mão para atravessarmos juntos.
Chegamos ao chalé que pertencia a minha família. Acabei agradecendo tio Phil por não ter me deixado vender o chalé. Depois de Katniss concordar em namorar comigo, ficamos mais um ano em Nova York. Poderíamos ter nos mudado para Atlantic Beach no outro mês, mas eu precisei de certo tempo para me adaptar a ideia de voltar para cá. Katniss foi bastante compreensiva e deu o tempo que eu precisei.
Consegui alcançar a meta de abrir meu próprio escritório em Atlantic Beach mesmo. Um ano depois Katniss eu nos casamos e dois anos depois, surgiu Aghata. Mais quatro anos e apareceu nosso pequeno acidente: Peter.
Natalie, a mãe de Katniss, foi convidada para morar conosco. Mas ela negou-se. Diz que Nova York é sua cidade e não saíra de lá.
Vovô Frank morreu recentemente e Katniss estava entrando em parafuso, então estou tirando um mês de férias do escritório e ajudando ela com as crianças.
Abro a porta e ouço o choro alto de Peter do andar de baixo. Suspiro. Conto até dez. Suspiro novamente. Finalmente fecho a porta e crio coragem para subir até o quarto do bebê.
Paro na porta e vejo Katniss de costas, segurando Peter e tentando alcama-lo a todo custo.
— Por favor! Por favor! Por favor! Para de chorar. Por favor! Por favor! Por favor! — ela murmura..
Ela parece bastante calma, mas sei que está explodindo por dentro e sei também que ela vai explodir comigo.
— Katniss… — a chamo já preparado para o que vai acontecer.
Ela se vira e mostra seu pior olhar de fúria.
— Onde estava? — ela pergunta alto enquanto continua a sacudir Peter nos braços.
— Estava na praia com Aghata.
— E seu celular estava aonde?
— Desculpa, eu esqueci ele em casa.
Ela nega com a cabeça enquanto me passa Peter.
— Qual vai ser a utilidade do maldito celular se ele estiver em casa? Peter está chorando faz uma hora. Uma hora! Estou desesperada tentando alcama-lo a uma hora e você estava na praia com Aghata! — ela fala passando por mim pela porta.
— Você que falou para eu levar Aghata à praia. — falo alto o suficiente para que ela ouça.
— Claro! A culpa agora é minha! — ela ri histérica.
— Amor, eu não estou culpando você de nada.
— PORQUE EU NÃO TENHO CULPA DE NADA! PENSEI QUE VOCÊ HOUVESSE TIRADO O MÊS PARA ME AJUDAR E NÃO IR À PRAIA.
Peter chora mais alto quando vê a mãe gritar.
— Por favor, para de gritar. Está assustando ele. — peço com calma enquanto encosto a cabeça de Peter contra meu peito.
— ELE ESTÁ CHORANDO FAZ UMA HORA! ESTÁ HÁ UMA HORA BERRANDO “PAPA” NOS MEUS OUVIDOS, MAS O PAPA DELE ESTAVA SUPER TRANQUILO NA BENDITA PRAIA! ESTOU EXAUSTA. MEU OUVIDOS ESTÃO DOENDO, MEUS BRAÇOS ESTÃO ENTRANDO EM ESTADO DE PUTREFAÇÃO DE TANTO SEGURAR PETER E MEU PÉS ESTÃO FORMIGANDO DE TANTO ANDAR PRA LÁ E PRA CÁ COM ELE! ENTÃO NÃO ME VENHA DIZER PARA PARAR DE GRITAR!
Apenas olho para Katniss sem saber o que fazer. Se eu responder ela continua a gritar, seu eu ficar em silêncio ela gritará da mesma forma.
— Eu sinto muito. Vou lembrar de levar o celular na próxima vez. — falo com cuidado.
— NÃO PRECISA SE LEMBRAR DE NADA! EU FAÇO TUDO POR AQUI, SEMPRE FIZ! VOCÊ SÓ TRABALHA, CHEGA EM CASA E DORME. APENAS FAÇA ESTE GAROTO PARAR DE CHORAR! — ela grita enfurecida e vai ao quarto de Aghata. Ouço a porta bater e desço até a cozinha com Peter que ainda chora.
— Por favor, meu bebê. Para de chorar. — eu sento ele no balcão da pia e o sacudo de leve – O que você quer, hein? Quer molhar os pés na pia? — perguntei sabendo que ele adora fazer isto.
O virei, colocando os pezinhos dele dentro da pia e liguei a torneira. Ele se distraiu com a água e começou a tentar pegá-la. O choro foi substituído por gargalhadas.
— Você está tentando matar a mamãe, Peter? Uma hora chorando… — sussurro para Peter, que vira seus olhinhos azuis para mim – A mamãe está cansada, precisa deixar ela descansar um pouquinho.
— Ma… — ele murmura para mim e eu sorrio.
O telefone toca, desligo a torneira e tiro Peter da pia. Atendo o telefone.
— Alô.
— Peeta! Você não pode voltar amanhã para o escritório? — ouço a voz do meu segundo encarregado no escritório. Ele costuma conseguir deixar tudo em ordem quando não estou lá
— Algum problema aí? — pergunto alarmado.
— Problema não. Mas é muito trabalho para um cara só. Estou começando a pirar. Não pode vir aqui?
— Eu estou em uma situação delicada aqui em casa. Katniss precisa de mim aqui. Se eu for para o escritório, ela vai me estrangular. Chame o Will para ajudar você.
— O William está de férias.
Eu olho para o teto, tentando pensar. Peter acabou dormindo e eu deitei ele nos meus braços.
— Chame o Will da mesma forma, diga a ele que eu pago um salário extra para ele por ter trabalhado nas férias. Will nunca nega dinheiro.
— E se ele não aceitar?
— Então me liga novamente.
— Certo. Obrigado. Boa sorte aí na sua casa.
— Obrigado, estou precisando.
Coloco o telefone no gancho e subo ao quarto de Peter, o deixando no berço. Ouço o barulho da televisão ligada e desço novamente, vendo Aghata de banho tomado atirada no sofá.
— Olha, papai! — ela aponta para a televisão – É o Bob Esponja! Assiste comigo.
— Mais tarde o papai assiste com você. — respondo – Onde está a mamãe?
— A mamãe me deu banho, escovou meu cabelo e depois disse para eu ir ver televisão. Aí ela foi para o quarto dela e fechou a porta.
Aghata sempre conta uma história toda antes de finalmente responder a pergunta que lhe foi feita.
Subo as escadas novamente e rumo para meu quarto. Abro a porta e vejo Katniss sentada na cama. Ela está com o rosto mergulhado nas mãos e ouço seu choro baixinho.
Fecho a porta e me escoro nela. Eu preferiria que ela gritasse comigo o dia inteiro do que vê-la deste jeito. Ver Katniss triste, me faz triste também.
Aproximo-me da cama e me abaixo, puxando suas mãos para descobrir seu rosto que está encoberto pelas lágrimas.
— Amor, não faz isto… Não fica assim. — falo me sentindo angustiado.
— Desculpa… — ela sussurra – Eu falei que não podia fazer isto, Peeta.
— Isto o quê?
— Fazer você feliz. Ser a pessoa que você merece.
— Eu sou feliz com você, Katniss.
— Como pode ser feliz com uma pessoa que grita com você o tempo todo? — ela pergunta.
— Lembra o que eu disse para você? Dos pesadelos e dos sonhos?
— A comparação? — ela pergunta e eu confirmo com a cabeça – Você disse que a vida é como o nosso sono. Pode vir pesadelos, assim como pode vir sonhos.
— Isso mesmo! Hoje é apenas um dia ruim. Um dia-pesadelo. Mas nos já tivemos e ainda teremos muitos dias-sonhos para lembrar. E, com o tempo, esqueceremos dos pesadelos que passamos. — eu suspiro e sento ao lado dela – É por causa do Frank, não é?
Ela suspira e deita a cabeça no meu ombro, eu a envolvo em meus braços.
— Eu me assusto toda vez que lembro que não vou poder mais ligar para ele, nem vê-lo mais. Por que isto dói tanto? Já não basta a dor que senti quando Prim morreu?
— Todas as pessoas são visitas temporárias em nossas vidas. Vovô Frank foi uma delas. Meus pais também foram, assim como Prim. Nós também somos visitas temporárias da Aghata e do Peter.
Katniss suspira mais uma vez antes de falar.
— É, acho que você está certo. — ela desencosta a cabeça do meu ombro e me olha – O que fez com Peter?
— Ele dormiu. — sorri.
Ela sorri junto comigo.
— O que significa todos aqueles balões que estavam amarrados no pulso da Aghata? — ela ri, me deixando mais contente.
— Você sabe que não consigo negar nada a ela, não é?
Ela solta uma gargalhada tão gostosa que acabo rindo junto.
— Quero ver se você continuará a não negar nada a Aghata quando ela for adolescente.
— Argh! Não fala esta palavra. Adolescente… Me dá arrepios. — falo e Katniss ri mais – Que tal um abraço para acabar a conversa? Aghata está nos esperando na sala para assistirmos Bob Esponja com ela.
— Eu aceito. — ela fala se colocando em pé.
Ficamos um longo tempo abraçados e logo após fomos assistir televisão com nossa filha.
A vida sempre nos surpreende. Ela nos coloca para baixo, depois nos ergue novamente, então nos lança desafios e testa nossas capacidades até o limite.
Não devemos nos rebaixar e nos entristecermos pelos dias ruins que vemos. Afinal, é apenas um dia. São só vinte e quatro horas que passam rapidamente. Logo, surge mais um dia, repleto de várias surpresas e chances. Se nós desistirmos nos pesadelos, não poderemos viver os sonhos.
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