Nightmares

13 Capítulo 13 - Revelations


Notas iniciais
Voltei como o prometido. Sei que muitos (senão todos) estavam ansiosos por este capítulo. Boa leitura.

Katniss e eu esperamos na frente da escola pelo avô dela. A escola já estava esvaziando e nada de Frank chegar.

— Eu vou virar um boneco de neve daqui a pouco. – Katniss murmurou tirando a neve da roupa.

— Ele já deve estar chegando. – a consolei, sentindo que a roupa que eu usava não era tão eficaz contra o frio rigoroso.

Depois de mais alguns minutos, uma picape cinza para a nossa frente.

— Finalmente! – exclama Katniss pegando sua mochila que estava jogada no chão. – Vamos antes que eu congele.

Pego minha mochila e entramos nos bancos de trás do automóvel.

Falei com meu tio no mesmo dia em que Katniss falou com seu avô. Tio Phil não viu problema algum e até ficou feliz em saber que eu não passaria o Natal sozinho. Ele se desculpou várias vezes pelo telefone, mas eu disse que estava tudo bem e agradeci pelo celular novo e pelo dinheiro.

Frank vira-se para nós e sorri.

— Desculpa, crianças. Perdi a hora. – se explica ele.

— Nós quase congelamos, vô. – Katniss reclama.

— Eu sei, mas não congelou. Ainda bem. Já imaginou um picolé sabor Katniss? Eca! – revida o velho.

Eu e Katniss rimos.

— Bela picape. – elogiei o carro, não por educação, mas porque realmente era bonita.

— Obrigado garoto. Ford F Series. Linda, não é? Sabia que é somente nos Estados Unidos que uma linha de picapes figura entre os automóveis mais vendidos do país? – ele se aproxima mais e sussurra baixo como se estivesse compartilhando um segredo – E a absoluta maioria, 87%, para ser mais exato, são homens.

— Legal! – afirmo e vejo Katniss revirar os olhos.

— Podemos ir? – pergunta ela.

— Claro. – concorda Frank – Mas coloquem os cintos pois não vou pagar nenhuma multa.

Coloco o cinto enquanto partimos.

— Se prepare para uma hora de viagem. – Katniss sussurra para mim, com um sorriso.

— Então, Peeta. – Frank começa a falar – Não pôde ir para casa neste Natal?

— Não. Eu moro com meu tio. Ele precisou cuidar de algumas coisas fora da cidade.

— Entendo. Vai ser bom ter você para passar o Natal conosco. – ele afirma com um entusiasmo diferente.

— Obrigado. Vai ser bom para mim também.

Conversamos durante todo o caminho. Com conversar, quero dizer que Frank fazia as perguntas e eu respondia. E vez ou outra Katniss comentava algo. Como estava entretido na conversa não notei que o tempo praticamente voou e logo o carro estacionou na frente de uma casa grande de dois andares.

— Chegamos, crianças. – fala Frank, desligando o motor do carro. Pegamos nossas mochilas e entramos. Frank foi na frente, Katniss atrás e eu por último. Ele abriu a porta e entramos – Bem-vindo a casa dos Everdeen.

A casa era bastante aconchegante e quente.

— Obrigado. – agradeci.

— Natalie, filha! Chegamos! – anuncia Frank.

— O nome da sua mãe é Natalie? – pergunto a Katniss curioso.

— Sim. – ela responde indiferente. – Por quê?

— Porque Natalie é o nome da namorada do meu tio. – falei lembrando da mulher extremamente irritante.

Katniss riu.

— Coincidência.

Poucos segundos se passaram e a mãe de Katniss apareceu. Uma mulher de meia idade, talvez. Não sei, não parecia tão velha. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo. Ela se aproxima de nós séria. Mas quando me vê, apresenta um pequeno sorriso, que parece ser forçado.

— Oi. – diz ela, olhando cada um de nós. Logo após para seus olhos em mim. – Você deve ser Peeta!

— Sou. É um prazer conhecê-la. – afirmo estendendo minha mão em cumprimento. Ela aceita e aperta.

— O prazer é meu. – afirma ela com um sorriso um pouco maior e mais verdadeiro – Tão bonito... O que faz perto de uma garota como Katniss? – ela afirma divertida, mas fala de Katniss como se não fosse sua filha.

Katniss bufa ao meu lado.

— Natalie, por favor. Não comece. – afirma Frank.

— Só estou brincando! – se defende Natalie – Aliás, precisam buscar o peru que encomendei.

Achei curioso alguém comprar um peru pronto. Na minha casa, nós sempre recheávamos o nosso peru no Natal.

— Eu busco mais tarde. – afirma Frank.

— Bem Peeta... Sinta-se a vontade. – Natalie afirma novamente com os olhos em mim e se vira indo embora.

— Vamos. Vou te mostrar o quarto. – afirma Katniss.

Subimos uma escada longa e chegamos a um corredor cheio de portas. Parecia uma casa de filme de terror. Fiquei tentado a abrir cada uma das portas só para saber o que tinha dentro. Katniss me guiou até a terceira porta a esquerda. Entramos no quarto.

— Seu quarto? – pergunto enquanto ela fecha a porta.

— Sim. – responde ela jogando a mochila na cama.

Eu esperava uma parede rosa, porém é verde claro. É um quarto bastante simples até. Olho em volta do quarto tentando memorizar cada detalhe.

— Vou dormir aqui? – pergunto.

— Bem, temos vários quartos. Isto você já deve ter notado. Mas eles estão cheios de coisas e pó. Você vai dormir no meu quarto. Você só precisa escolher. – ela se abaixa e puxa o que parece ser uma cama mais baixa de baixo de sua cama – Cama de cima ou de baixo?

— Hã... Sei lá... De baixo. – respondo.

— Tudo bem. – diz ela tirando o casaco.

Coloco minha mochila em um canto e tiro meu casaco também, o atirando encima da mochila. Me sento na cama de baixo, vendo que era bem confortável. Olhando parece tão dura quanto o chão.

— É macia. – deixo escapar o que deveria ser apenas um pensamento.

Katniss sorri levemente. Notei que seu humor mudou desde que colocou o pé aqui dentro.

— Eu vou no banheiro. Fica à vontade. Aquela porta ali – ela aponta para uma porta branca com arranhões, não havia notado os arranhões na porta – é um closet. Tem uma estante vazia, se você quiser colocar as suas roupas lá...

Ela sai me deixando sozinho. Levanto da cama e passo os dedos pelos arranhões, não parecem ter sidos feitos com as unhas. Talvez com uma faca ou tesoura. Ou qualquer coisa afiada. Por que alguém encheria uma porta de arranhões, afinal?

Ignorei as marcas na porta e a abri, achei o interruptor de luz e me vi dentro de uma peça com estantes, contendo roupas, sapatos e outras coisas. Peguei minha mochila e a esvaziei na cama, dobrando tudo e colocando na estante vaga. Já estava saindo quando tropecei em uma caixa de plástico pequena, ela virou espalhando várias fotos no chão.

— Droga... – balbuciei me abaixando e recolhendo as fotos. Acabei, mesmo que sem intenção, olhando algumas fotos.

Havia uma, com Katniss e sua mãe, Natalie, as duas sorriam para a foto, formando um coração com as mãos. Cada uma fazia metade do coração. Peguei outra em que Katniss está abraçada a Frank. Todas as fotos mostram que Katniss era bem mais nova. Tanto pela altura, quanto pelo rosto infantil que, hoje, foi substituído pelo rosto juvenil. Peguei uma que ela estava abraçando uma garotinha por trás. Loira, olhos azuis. Olhei curioso para aquela menina, pois parecia que eu já havia visto em algum lugar. Peguei uma de Katniss sozinha, com uma mão na cintura e outra mandando um beijo. Aquela foto eu parecia já ter visto. Estranhei, pois nunca tinha vindo a casa de Katniss e nos conhecemos há apenas alguns meses. Mas, de repente, é como se eu já tivesse visto Katniss antes. Talvez nunca tenha falado com ela, mas já tinha visto ela antes. Pego novamente a foto da menina loira de olhos azuis.

Onde eu vi você, garotinha?

— O que você está fazendo? – pergunta Katniss parada de pé a minha frente.

Tomei um susto e tratei de colocar a foto de volta na caixa. Assim como as outras fotos.

— Eu tropecei na caixa e as fotos se espalharam. – respondo sem encará-la. Katniss se abaixa e começa a juntar as fotos também e colocá-las na caixa. Antes que eu pudesse pensar se é uma boa ideia ou não, a pergunta escorreu da minha boca – Quem é a garotinha loira?

Katniss olha para mim com os olhos arregalados. Péssima ideia. Ela volta a guardar as fotos mais rapidamente e coloca a caixa com arrogância no lugar de onde estava.

— Não é ninguém. – ela responde com uma voz fria que eu não conhecia, enquanto voltava para o quarto.

Vi uma câmera fotográfica profissional em uma das estantes e a peguei, para tentar mudar o humor dela.

— Legal! – exclamei para chamar a sua atenção enquanto saía do quarto.

Katniss se vira e sorri olhando para a câmera.

— Meu avô me deu no Natal do ano passado. – ela explica.

— Posso ligar? – pergunto.

— Claro! – ela caminha até mim, e aperta um botão da câmera.

A tela rapidamente acende, desfocada, mas logo o foco fica estável. Miro na Katniss.

— Sorria! – digo a ela. Katniss vira de lado, mas mantém a cabeça virada para mim e esboça um sorriso.

Ela pega a câmera da minha mão e vira de costas pra mim. Levanta a câmera para o alto e repete o mesmo que eu disse:

— Sorria!

Ela vira a câmera novamente e vejo nos dois. Pego a câmera e miro em nós enquanto puxo Katniss pela cintura e a beijo. Tiro a foto e depois olhamos.

— Nada mal! – afirmo.

— Somos tão fofos! – exclama Katniss suspirando.

Eu rio.

— Tão adoráveis... – complemento a fazendo rir.

— Um verdadeiro casal anormal de novela mexicana. – ela afirma divertida.

Eu rio e devolvo a câmera para ela. Ela a guarda. Frank entra no quarto, quando Katniss sai do closet.

— Preciso de um voluntário para me acompanhar. – diz ele.

— Aonde você vai? – pergunta Katniss.

— Buscar o peru que sua mãe encomendou.

— Eu não vou. – responde Katniss se atirando de costas na cama.

— Tudo bem. Garoto, você irá comigo. Vista o casaco. – Frank avisa e sai sem me dar nenhuma opção.

— Vou ser obrigado? – pergunto a Katniss erguendo a sobrancelha.

— Se você não descer em cinco minutos, ele vai voltar aqui e arrastar você até o carro. – adverte ela.

— Ok. – afirmo já vestindo o casaco.

Ponho luvas e uma touca na cabeça, já que olhando para a janela, o frio parece ter ficado mais furioso que antes.

Por Deus! Nunca vou me acostumar com este frio!

Desço as escadas e caminho até a porta, já ia abrir, mas ouço a voz de Frank atrás de mim:

— Calma, garoto! Espere por mim.

Saímos e corremos até a picape. Entramos em várias ruas, viramos muitas esquinas. Se o avô de Katniss resolvesse me largar agora na rua, ficaria perdido para sempre. Finalmente chegamos ao que parecia um supermercado.

— Isto é quase como um shopping. – afirma Frank.

— Quase?

— Se fosse maior, talvez... Enfim, tenho que buscar mais algumas coisas além do peru. As filas devem estar enormes, então não vou torturá-lo a ficar comigo. Você pode zanzar pelas lojas, mas esteja aqui em trinta minutos ou ficará para trás. – diz Frank olhando o relógio de pulso.

— Ok.

Descemos da picape e cada um toma seu rumo. Passo em algumas lojas, olhando as vitrines. A maioria das lojas estava cheia, por ser véspera de Natal. Passo na frente de uma livraria e olho para os livros na vitrine. Um me chamou a atenção. Capa dura e vermelha. Li o título: O morro dos ventos uivantes. Lembrei de Katniss e a paixão que ela possui por este livro. Bem, é Natal! Por que não dar algo para ela?

Entro na livraria que não estava tão cheia. Afinal, não são muitas pessoas que dão livros como presente de Natal. Achei o livro rapidamente, já que a capa vermelha escura chamava a atenção. Passei os dedos na capa, sentindo que era uma textura diferente. O título do livro e o nome da autora estavam escritos com uma caligrafia cuidadosa em uma cor dourada. Em volta do título havia um contorno, como um quadro antigo. Talvez Katniss goste. Ela não possui o livro mesmo.

Passei no caixa e paguei, pedi para embrulhar para presente. Logo, o livro estava embrulhado em um papel verde cheio de árvores de Natal.

— Tenha um feliz Natal. – me deseja o atendente.

— Obrigado e igualmente.

Olho as horas no meu celular e vejo que meu tempo já vai expirar. Me apresso a voltar para o carro. Atropelo algumas pessoas pelo caminho e recebo olhares reprovadores. Chego na picape e Frank já está lá.

— Você é bem pontual. – ele elogia e olha para a sacola em minha mão – Um presente! Não precisava. – diz ele com um ar irônico.

Eu rio.

— É para Katniss. – explico.

— Claro que é. – ele pisca um dos olhos para mim.

Voltamos para a casa de Katniss. Escondo o embrulho dentro do meu casaco. Graças a Deus, ele possui um bolso enorme dentro. Ajudo Frank a levar as sacolas até a cozinha e subo. Katniss não estava lá, mas não dei muita importância. Ao menos poderia guardar o presente. O escondo dentro da minha mochila. Um lugar bastante óbvio, eu sei. Mas aonde eu acharia um lugar confiável para esconder um presente da Katniss dentro do quarto da própria Katniss?

Ela chega um tempo depois e parece surpresa ao me ver.

— Já voltaram? – ela pergunta.

— Acho que sim. – rio – Onde estava?

— Lá por baixo. Não ouvi você chegando. – ela dá de ombros.

Não fizemos muita coisa no resto da tarde. Conversamos sobre qualquer bobagem que esqueceríamos no dia seguinte.

Até Frank avisar que em breve a ceia estaria pronta. Ele entra no quarto com uma sacola nas mãos e coloca na cama de Katniss.

— Feliz Natal! – diz ele.

Katniss caminha pra cama mas não tira os olhos e o sorriso do avô. Ela puxa um vestido verde esmeralda do tipo tomara que caia de dentro da sacola e olha admirada para a roupa.

— Não precisava, vô. – ela diz correndo até o velho e o abraçando.

— Claro que precisava. Você vai usar hoje. Pode ir vesti-lo agora. – exige Frank. Katniss ri e sai do quarto. – Você também precisa se vestir. Vem comigo. – o acompanho até um quarto – Acho que você possui o mesmo tamanho de Ben. Aqui nos vestimos bem para o Natal, então... – ele abre um armário, mostrando vários ternos – Escolha um.

Escolho um de camisa azul-claro, gravata azul-escuro e o resto preto.

— Acho que será este. – afirmo pegando o cabide com a roupa.

— Ótimo. Vejo você lá embaixo. – ele diz e sai me deixando sozinho.

Volto ao quarto da Katniss para me vestir. Termino de ajeitar os cabelos e Katniss entra.

— Como estou? – pergunta ela dando um volta.

O vestido caiu perfeitamente no corpo dela. Justo até a cintura e solto no resto do corpo. E há o detalhe do cinto na cintura. Seu cabelo comprido está solto e cai pelo seu corpo, formando alguns cachos nas pontas.

— Linda. – sussurro a olhando de cima a baixo.

— Obrigada. – diz ela – Agora pode parar de me olhar de cima a baixo, por favor?

Eu rio.

— Desculpa. E eu? Como estou? – pergunto dando uma volta.

Ela ri.

— Não precisava vestir o terno todo.

— Puxa! Que decepcionante!

Ela se aproxima e tira o paletó e logo após a gravata, me deixando apenas com a camisa social azul clara. Ela dobra as mangas até a metade do meu braço, abaixo dos cotovelos.

— O que acha agora? – ela pergunta me virando de frente para o espelho – A camisa azul destaca os seus olhos por ser da mesma cor.

— Você até que é boa com esta coisa de roupa. – admito olhando meu reflexo no espelho.

— Eu daria uma bela estilista. – Katniss entra na brincadeira.

— Sem dúvida. – concordo.

Frank dá duas batidas na porta e entra.

— Descendo... – ele afirma e fecha a porta novamente.

Nós descemos e Frank está conversando com um casal na sala. Mas eles dão atenção a Katniss quando ela entra em seu campo de visão.

— Katniss! Como vai? Está tão linda! – a mulher se aproxima a abraçando.

— Oi. – Katniss diz sorrindo.

— Olá, Katniss. – afirma o homem apertando a mão de Katniss.

— Oi. Este é Peeta. – ela me apresenta e apertamos nossas mãos.

— Prazer, Peeta. Eu sou Michael Stenberg e está é minha esposa, Julie.

— O prazer é meu. – afirmo.

— Katniss! Katniss! Katniss! – ouço um grito infantil chamar por Katniss.

Quando olho em direção aos gritos, vejo uma garotinha de cabelos cacheados e grandes olhos pretos correndo em direção a Katniss. Ela pula em Katniss, envolvendo suas pernas em volta do quadril dela, a desequilibrando.

— É bom ver você também, Rue. – ri Katniss.

— Rue! Onde estão seus modos? – O Sr. Stenberg xinga a garota.

A garota fecha o sorriso e desce do colo de Katniss com a cabeça baixa.

— Desculpa, pai. – diz ela baixo. Mas seus pais já haviam saído da sala.

— Peeta, esta é Rue. Rue, este é Peeta. – afirma Katniss.

Eu me aproximo da garota com um sorriso.

— Oi, Rue. – digo.

— Olá. Você é o namorado da Katniss? – ela pergunta sorrindo para mim.

— É por aí. – respondo. – Quantos anos você tem?

— Doze. – ela responde prontamente.

Rue era mais baixa do que outras crianças de doze anos. E isto a tornava mais doce ainda. Qualquer um que a olhava diria que Rue saiu de um conto de fadas. Seu sorriso era contagiante e sua alegria passava para nosso corpo mais rápido do que gripe no inverno.

— Eu tenho dezessete. – afirmei.

— Legal. – ela fala com seus olhos brilhantes virados para mim.

Natalie aparece na sala por um instante.

— Vocês dois! – ela aponta para nós – Me ajudem a pôr a mesa.

Seguimos para a cozinha e saímos de lá com pratos, talheres, taças…. Organizamos tudo na sala de jantar com a ajuda da pequena Rue.

— Eles sempre passam o Natal aqui? – pergunto enquanto endireito alguns garfos e facas.

— A família Stenberg? – pergunta Katniss e eu confirmo com a cabeça – Sim, os conhecemos a bastante tempo.

Depois de colocarmos a mesa e da comida já estar exposta, nos sentamos. Me sentei de frente para Katniss, Rue sentou ao seu lado. Ao meu lado estava o senhor Stenberg e na ponta da mesa se encontrava Frank. Na outra ponta Natalie.

— Vamos dar as mãos e agradecer a Deus por mais um Natal que pudemos passar juntos. – afirma Frank pegando minha mão e a de Katniss. Nos damos as mãos e fechamos os olhos e Frank começa uma oração – Deus, obrigado por mais um ano que nos destes. Obrigado por mais este Natal que nos permitiu passar juntos. Obrigado por guardar nossas vidas durante este ano e peço que continue a nos guardar, para que no próximo Natal possamos estar aqui novamente. Amém.

Dizemos um amém uníssono. Minha família nunca fez uma oração antes da ceia de Natal, mas eu havia gostado. Me senti pertencente aquela família. Me senti incluído na vida daquelas pessoas. Não era apenas um passageiro que passaria o Natal. Eu era alguém no meio deles.

Jantamos com várias risadas. Conversas animadas. E muitas coisas como: “Pode me passar a salada de batatas?” Me senti em casa novamente. Realmente, só falta tio Phil.

Estava tudo ótimo, inclusive bom demais para ser verdade. Mas assim como o dia ensolarado pode virar um temporal poderoso em segundos, da mesma forma o humor mudou à mesa.

— Calma, gente! – afirma Natalie – Não vão morrer com a comida. Afinal, — ela olha para Katniss – Quero toda a família aqui no próximo Natal.

Katniss que estava mastigando distraída, para e olha para Natalie séria.

— Natalie, por favor. – pede Frank – É Natal. Não estrague o clima.

Parei de comer, vendo que alguma coisa ruim estava por vir.

— Você sabe que a culpa não foi minha. – sussurra Katniss alto o suficiente para Natalie ouvir do outro lado da mesa. – Eu tentei ajudar.

— Eu acho que não. – diz Natalie com certo nível de raiva, mas controlava-se – Se você tivesse ajudado, ela estaria aqui ainda... E Ben também.

— Se Ben estivesse aqui, quem não estaria aqui seria eu. – Katniss aumenta um pouco o tom de voz. – Como pode ser tão estupidamente cega? Tudo aconteceu por culpa dele.

— Gente, a comida está esfriando. – fala a Sra. Stenberg tentando mudar de assunto.

— E você ficou sentada apenas assistindo. E, para o seu interesse, eu preferia que o Ben estivesse aqui do que você.

— E quem disse que eu gosto de vir para casa no Natal? Prefiro morar na escola do que vir para cá. Só estou aqui pelo vovô! – grita Katniss.

— Não tem sobremesa? – até Rue tenta mudar de assunto.

— Você deixou ele fazer aquilo. Você deixou ele a matar! – grita Natalie.

Matar?! Ela disse matar?! Ben matou alguém?!

— Eu fiz de tudo para proteger ela! Por que você não consegue ver isto? – Katniss berra.

Natalie bate com força na mesa, fazendo tudo que havia encima tremer e se levanta apontando para Katniss.

— Você deveria ter morrido no lugar dela. Ela deveria estar sentada aí, e não você. Você não fez nada.

— E você fez alguma coisa? – rebate Katniss ainda sentada – Você saía de casa antes de Ben chegar. Você não sabe de nada que ela e eu passamos com ele.

— Você... – Natalie aponta novamente para Katniss e o olhar dela me assusta, me fazendo encolher na cadeira – Você... Foi... A pior coisa que me aconteceu!

— Natalie! Chega! – Frank bate na mesa, me assustando.

— E a sobremesa? – pergunta Rue tentando amenizar as coisas.

— Eu vou buscar. – avisa Natalie saindo da sala de jantar.

Katniss estava olhando para ela boquiaberta, mas quando ela sai, ela olha para a mesa enquanto uma lágrima escorre pela bochecha dela.

— Katniss, querida... – fala a Sra. Stenberg, mas Katniss a interrompe.

— Estou sem fome. – ela afirma com a voz embargada e se levanta.

Frank segura o braço dela, mas ela o puxa e sai da sala enquanto Natalie volta com uma vasilha.

Eu fico parado, sem saber o que fazer. Não sei se devo ficar aqui ou ir até Katniss.

— Talvez você queira subir... Pode ir, se quiser. – Frank fala para mim, como se lesse meus pensamentos.

Eu olho para ele por um instante e levanto da cadeira, pedindo licença e me retirando.

Caminho devagar demais, atormentado pelo que aconteceu há poucos minutos. Sem saber como lidar com esta situação. E sem saber em que estado Katniss estará quando eu entrar no quarto.

A escada parece maior do que realmente é. Parece forçar minhas pernas a subir degrau por degrau devagar. Mas consigo chegar ao segundo andar. Atravesso o pequeno corredor e finalmente chego ao quarto dela. Dou duas batidas e entro.

Ela está sentada na cama, o cabelo cobre seu rosto e ela olha várias fotos. As que eu juntei mais cedo. Eu sento na cama e não digo nada. Não sei o que fazer, não sei o que dizer. Não sei se devo ficar ou deixá-la sozinha. Ele pega uma foto e vira para mim, colocando na minha frente.

É a foto que vi mais cedo, dela abraçando a garotinha loira.

— A garotinha loira era minha irmã. – ela começa com a voz embargada sem olhar para mim – O nome dela era Prim. Ela não era totalmente minha irmã, na verdade. Minha mãe engravidou de mim quando tinha dezessete anos. Ela se casou com Ben alguns anos depois. Eu tinha uns três anos, eu acho. Ben não era um pai ruim, ou padrasto ruim. Eu o chamava de pai, já que nunca conheci meu pai de verdade. Alguns anos depois venho Prim. Ela era a bonequinha da casa. Inclusive para mim! Era a coisa mais linda que existia. Eu sempre a amei muito. E nós éramos uma família perfeita e feliz.

Lembrei de uma pergunta que fiz a Katniss quando estávamos na cabana da escola. Se ela tinha irmãos. Ela me deu uma resposta tão evasiva que desisti do assunto. Dezessete anos? Isto explica o fato da mãe de Katniss não parecer ser tão velha.

— Mas nem tudo na vida são mares de rosas. – Katniss prosseguiu – E nossa vida perfeita estava com os dias contados, nós apenas não sabíamos disto ainda. Ben virou um viciado em álcool de uma hora para outra. Ele chegava podre de bêbado quase todas as noites. Minha mãe lidava com isto no início, mas depois de um tempo, ela desistiu. Ela saía de casa antes que ele chegasse e deixava Ben em nossas mãos. Ele chegava falando palavras desconexas e fedendo igual um porco. Nós o colocávamos embaixo do chuveiro e depois deixávamos ele dormir. E na outra noite, acontecia tudo de novo.

Isto explica a agilidade com a qual Katniss lidou no primeiro dia de aula. Quando havíamos fugido da escola e Gale bebeu demais. Ela fez tudo tão rápido como se fosse rotina…. E de fato, já havia sido.

— Mas um dia ele voltou diferente. – ela continuou – Estava agressivo e gritando com a gente. Não conseguimos chegar perto dele e deixamos ele dormir atirado no sofá da sala, com medo. Prim e eu dormimos juntas naquela noite e trancamos a porta do quarto com medo que ele entrasse. Na outra noite, ele voltou novamente agressivo e deu um tapa em Prim, quando ela se aproximou dele. Ele pegou um vaso e estava pronto para acertá-la, mas eu me coloquei na frente dele e gritei para que parasse. Ele gritou meias palavras, mas entendemos que ele queria bater em uma de nós. Ele me empurrou para o lado e pegou Prim pelo braço e iria arrastar ela para as escadas. Eu segurei seu braço e disse que ele poderia fazer o que quiser comigo e em troca deixaria Prim ilesa. Ele concordou e trocou o braço de Prim pelo meu. Prim começou a chorar e eu disse para ela dormir porque ficaria tudo bem. Ele me arrastou até o quarto dele e da minha mãe e me jogou na cama. Eu não entendi no início, mas... então... ele começou a baixar as calças e... – ela começou a soluçar e não conseguiu terminar.

— Deus! – foi a única coisa que consegui sussurrar.

Isto explica muita coisa. Muita coisa mesmo. Isto explica porque ela grita para não tocarem nela quando tem as crises. Isto explica porque da resposta: “Eu queria ser.”, quando eu perguntei se ela era virgem. Isto explica porque ela nunca deixa nada entre nós se aprofundar muito. Isto pode explicar até o fato de ela não se relacionar seriamente com ninguém. As peças finalmente se encaixam e este é o pior quebra-cabeça que eu montei em toda minha vida. Não pensei que isto seria a verdade.

— Ele me fazia prometer que eu não contaria a ninguém. Senão machucaria Prim. – lembrei da brincadeira que fiz com ela em Atlantic Beach, das mordidas que dei até ela me prometer não me acordar com travesseiros. Lembro dos gritos que ela deu ao prometer e só notei agora que ela nunca mais havia me dado com o travesseiro na cabeça – Mas ele quebrou o acordo. Certa noite ele voltou, mas eu não havia notado porque acabei dormindo no sofá da sala. Acordei com os gritos da Prim e me levantei rápido correndo em direção aos gritos. Encontrei os dois na cozinha. A roupa de Prim estava ensopada de sangue e ela não estava acordada. Ben estava com uma faca na mão. Eu soltei um grito e ele se virou para mim, caminhando em minha direção com a faca. O olhar que ele me deu é algo que eu não consigo esquecer, por mais que eu tente. Saí correndo de casa, sendo seguida por ele, enquanto gritava por socorro. Corri até o fim da esquina sendo socorrida pela família Stenberg e pelos vizinhos deles que seguraram Ben e chamaram a polícia. Ele foi preso. Eu acabei contando tudo para a polícia. Das bebedeiras, dos abusos... Tudo! Fiz exames para saber se não fiquei com sequelas e felizmente não fiquei. Me mandaram para uma psiquiatra pois disseram que o que eu passei não levaria sequelas físicas, mas mentais. O que é verdade. Eu sempre soube que minha mãe amava mais Prim do que a mim. Por isso ela me culpa pela morte dela, ela não aceita o fato de Ben ter poupado a minha vida. Mas ela não entende que tive que fugir para salvar a minha vida.

— Ela não se conformou com a morte de Prim. – simplifico.

— Sim. Agora você sabe de tudo, que fui abusada pelo meu padrasto, que minha irmã foi morta pelo pai. Vou entender se você quiser sair por aquela porta e nunca mais me ver.

Tive uma lembrança mais antiga. Agora sei de onde havia visto as fotos. Isto apareceu na televisão. Eu tinha uns doze anos. Estava na sala lendo uma revista em quadrinhos. Meu pai estava olhando para o noticiário da televisão quando exclama: “Mas o mundo está virado de cabeça para baixo.”, eu paro e olho para a televisão lendo embaixo: “Padrasto abusa de enteada e mata filha mais nova”, a foto de Katniss na tela ao lado da foto dela abraçada a Prim. Eu sabia que já havia visto aquelas fotos.

Afastei a lembrança e me aproximei dela e passei os braços ao redor dela. Ela apoiou a cabeça no meu ombro, fungando no meu pescoço.

— Eu não vou a lugar algum. – sussurrei.

— Obrigada. – ela fala.

Outra lembrança de Katniss em Atlantic Beach me atinge. A noite que ela acordou perguntando se Deus castigaria alguém que tentou ajudar mas não conseguiu. Ela fez tudo aquilo por ela. Ela suportou tudo para manter Prim segura. Mas mesmo assim falhou. A culpa não é dela. E ela sabe disso.

— Eu sinto muito. – sussurro.

— Sabe, Peeta. Eu aceito tudo que minha mãe fale. Eu sei que ela nunca vai se conformar com a morte de Prim... Por Deus! Nem eu me conformei ainda. Mas não aceito acreditar que sou a pior coisa que aconteceu na vida dela. Aceito toda a culpa que ela me joga, aceito os gritos e tudo mais. Mas não sou a pior coisa que aconteceu na vida nela.

— Eu tenho certeza que não é. – argumentei – Ela ainda está de luto. Ela não falou isto porque realmente seja verdade. Talvez, ela tenha falado isto para você sofrer mais que ela.

— Talvez. – Katniss concorda.

Todas as perguntas que eu fazia a mim mesmo sobre Katniss foram respondidas. Mas não sinto prazer algum com isto. Muito pelo contrário. A verdade é muito pior que os questionamentos.

Nunca imaginaria que por trás de toda a alegria e sorrisos de Katniss, por trás de todas suas brincadeiras e risadas, ela guardava um passado tão horrível. Um pesadelo vivido. Que ainda a atormenta.

Porém, ainda tenho mais uma dúvida….

— E... Depois de tudo isto... Você já... Quer dizer... Se relacionou com...

— Nunca fiz sexo com ninguém por medo. – ela responde a pergunta que eu embolei.

Me aproximei de seu ouvido e sussurrei:

— E você me daria a chance de mostrar que nem todo cara é idiota?

— Eu ainda tenho medo. – ela sussurra de volta.

— Me dê uma chance. Eu posso tirar seu medo. Eu apenas preciso da sua permissão.

Ela olha para mim com os olhos vermelhos das lágrimas. Ela aproxima seu rosto do meu com os olhos fechados.

— Você promete, Peeta? Promete fazer este medo passar? – ela pergunta com sua boca próxima a minha.

— Anjo, por você, eu prometo a Lua e dou as estrelas de brinde. – sussurro como resposta.

Ela me beija com cautela e eu sei que vou poder cumprir esta promessa. Ser o porto seguro dela ao menos esta vez e amenizar uma de suas dores.

Notas finais
"Você é terrível, Tia Rafú!" "Como pode escrever algo assim?" Não me matem, gente. Escrevi o que os personagens me pediram para escrever. Acho que estou ficando esquizofrénica. :p Também queria ressaltar que histórias como a de Katniss acontecem todos os dias, pode ter alguma menina sendo abusada neste exato instante, enquanto você lê as notas finais deste capítulo. Muitas delas escondem o fato por medo e, portanto, ninguém sabe de nada que ela sofre. Não podemos simplesmente fechar os olhos para a realidade, gente. Se alguém aqui já tiver sofrido algo assim, conte para alguma autoridade. Não mantenha isto em segredo. E lembre: Nem todos os homens são como o Ben. Há vários Peeta's espalhados por aí. Bem, não prometo voltar domingo, mas se eu voltar: Até domingo! Beijocas da Tia Rafú pra vocês.;)