Nightmare Dance Club
3 Depois da Meia Noite
Notas iniciais

Nyx de Saint Ignis
Era comum que as vezes um cliente ou outro passasse dos limites no famoso Nigthmare Dance Clube. O dificil era que um dos patrocinadores do local fizesse tal coisa. E bem... ele não teve um final muito feliz, no fim das contas.
Nyx chegou ao clube aquele dia completamente esgotada. As roupas estavam em frangalhos, os cabelos estavam mais curtos que o normal (se tinham sido cortados propositalmente ou não, ninguém podia saber) e um hematoma roxo maculava sua face esquerda. Um hematoma realmente grande. Dificil não reparar nele.
Mas Nyx era prática, e levava o seu negócio a sério até demais. Correndo o risco de se atrasar por causa de seu pequeno imprevisto, ela rumou imediatamente para seu local de trabalho. Poderia tomar um banho por lá e dar um jeito em sua aparência.
O primeiro a vê-la foi Liam, cujo qual era sempre um dos poucos que chegavam cedo, antes do clube abrir as portas. Frosty, Selene, as garçonetes e Sky também estavam presentes, um pouco mais afastados. O caolho parou seu único olho em Nyx e abriu a boca numa careta cómica de susto. — Caraca! Te atropelaram com um caminhão?
A resposta dela foi um olhar enviasado que sem dúvida fez os outros se arrepiarem. Liam, que já se preparava para fazer outra pergunta, desistiu e se adiantou para ajudá-la a abrir as portas. A mestiça se dirigiu ao vestiário superior, onde ninguém normalmente ia (era estranho que aquele pessoal tivesse tanto problema com escadas) e se olhou em um dos grandes espelhos. Não era a toa que os outros haviam ficado assustados. Ela estava com uma aparência muito pior do que imaginara a princípio.
Abriu uma das torneiras, molhou as mãos e passou-as no rosto. O hematoma em sua bochecha doia insistentemente. Passou a mão molhada pelos cabelos, e pelos braços, e também pelos joelhos e canelas. Só então pareceu disposta a usar o uniforme, um blazer feminino negro sobre uma camisa social vermelha. Também colocou a saia que chegava um pouco acima do joelho, mas ao tentar colocar os saltos se arrependeu. Os pés já estavam doloridos o suficiente. Ela se contentou em vestir a sapatilha com a qual viera, e voltou a olhar-se no espelho. Estava sem duvida mais apresentável. Ela não se incomodava com a aparência, mas detestava que as pessoas ficassem perguntando... preocupando-se desnecessariamente com ela.
Observou com cautela a pulseira metálica que circundava seu pulso. Ela ainda mostrava manchas de sangue, que definitivamente não era dela. Passou mais uma vez o metal debaixo de água, sem se incomodar se ele viria a enferrujar. Arranjar pulseiras de metal não era dificil... nem armas, a bem dizer.
E então ela fixou seu olhar no machucado em seu rosto e simplesmente desistiu. Não havia maquiagem milagrosa que escondesse aquilo. Suspirou, dando-se por vencida. As pessoas teriam de ve-la daquele jeito mesmo, e não havia nada a se fazer. Com o calor que fazia lá dentro, para aplacar o frio da estação que desencadeava tempestades de neve, usar qualquer coisa como um capuz estava fora de cogitação.
Deu de ombros, juntando suas coisas e saindo do vestiário. Ela não se importava, de qualquer forma... sempre fora o assunto nas grandes rodas... a mestiça que sobreviveu... a garota com o coração de pedra. Mais uma coisa para eles falarem, e isso não ia mudar em nada sua imagem. Voltou a descer as escadas, se preparando para entrar no primeiro ambiente. Com certo tédio, sentou-se no balcão enquanto via a fila de pessoas aumentar consideravelmente. Nesse exato instante, os membros da banda também chegavam a boate. Os quatro eram sempre os ultimos a comparecer, com exceção da Black Panter.
Ryan havia entrado direito, tão empolgado que nem notara a moça. Lidrin ia logo atrás. Ajeitando uma bandana nos cabelos longos e esverdeados, falando com alguém em um celular de ultima geração. — Não, mãe... eu estarei ai semana que vem... sim, tenho de trabalhar agora... — ele acenou para Nyx, e preocupado com o que quer que fosse que estava ocorrendo do outro lado da linha, acabou não tendo tempo de questioná-la sobre a ferida. Rumou para dentro.
Gravor foi o primeiro a parar e realmente olhar para ela. Seu cenho se franziu, numa careta de sincera preocupação. Talvez ele pensasse em se aproximar, mas foi barrado por Loke, seu vocalista. Este passou a mão pelos cabelos castanhos, colocados para trás a base de gel, e se debruçou no balcão. — Demon Lady... você me parece péssima.
– Eu estou como sempre, Loke... — foi a resposta seca da mesma, enquanto desviava os olhos verdes de Gravor e cravava-os nele. — O que quer?
– Eu? Nada... mas me pergunto, que cafajeste ousou fazer isso no seu belo rosto...
– Poupe-me da sua falsa preocupação. E não se incomode, já dei um jeito nele...
– Um jeito? Que tipo de jeito? — A pergunta foi claramente maliciosa, e Nyx retirou a mão do balcão, vendo que a intenção do outro era pegá-la.
– O jeito que separa a cabeça do corpo... conhece? — ela respondeu num tom de ameaça velada.
Loke não se intimidou. — Sabe, milady, se continuar a matar as pessoas assim, vai acabar sendo caçada.
– Não era uma pessoa pra começo de conversa. — ela debruçou-se na mesa por sua vez. — E isso não é da sua conta. Que tal voltar ao trabalho?
– Mas eu gosto tanto da sua companhia... — ele argumentou em um tom ofendido, fazendo biquinho. — Claro que prefiro ela em outras... circunstâncias.
– Que nunca haverão de acontecer, é óbvio. — Nyx revirou os olhos. Lidar com Loke deixava-a claramente cansada. — A menos que queira acordar com um membro faltando... — ela desviou por um instante o olhar do dele. Logo a clientela começaria a adentrar o local. Gravor havia desaparecido. Sean se dirigia a porta, olhando de esguelha para os dois, e fez um sinal em direção aos olhos. “Estou de olho em você”, possivelmente, ainda mais que ele olhara diretamente para o vocalista dos The Follows.
Loke fez questão de ignorar esse gesto e voltou logo a carga, abrindo um de seus claros sorrisos maliciosos. Era dificil definir uma personalidade para ele. Loke era imprevisível. Mas isso era porque era um mentiroso de marca maior. — Oh, minha cara e inocente Nyx... por que me negas tanto assim?
– Inocente, claro... — houve um segundo revirar de seus olhos, antes que ela completasse. — E ser apenas mais uma em sua cama? Não, eu dispenso.
Ele tomou com certo cuidado o queixo dela entre os dedos da mão direita, mantendo-a olhando para si. — Você nunca seria “apenas mais uma”, milady... afinal, você é Nyx de Saint Ignis.
– Qual a parte de “eu não estou interessada” você não consegue compreender, Loke?
– Nenhuma... afinal, minha querida, nós dois somos iguais... — ele chegou mais perto, e Nyx pôde sentir uma língua passar pelo hematoma em seu rosto. — Insensível, imprevisível... instável. Já que não pode sentir nada forte, por que não pode se render a mim?
O caso foi que Loke precisou subir ao palco naquela noite, e nas seguintes, com um óculos escuro para esconder o olho roxo que a dona do Nightmare Dance Clube lhe deixara. Enquanto Nyx esfregava com absoluto desgosto o lado machucado do rosto, numa tentativa de tirar qualquer resquício de saliva que o vocalista pudesse ter deixado ali, Sean balançava ligeiramente a cabeça.
– Por que você continua deixando ele fazer o que bem entende?
– Eu não deixo ele fazer o que bem entende. — outros suspiro. — Ele faz querendo eu ou não. Mas a banda é importante para nós, e não tenho direito de tirar isso dos fregueses... nem dos outros. — ela deu de ombros. — Posso lidar muito bem com um pervertido...
– Sim, eu pude reparar. — O rapaz abriu um sorriso pequeno, antes de se virar e tirar a corrente que mantinha as criaturas do lado de fora.
Enquanto todo tipo de ser passava por ele e, depois, por ela, Nyx pensava consigo mesma. Não podia se sentir incomodada com o que Loke dizia. Mesmo assim, ela sabia que era em parte verdade. Ela era tudo aquilo que ele citara e algo mais, e no entanto, não se sentia atraída a ideia de cortejar alguém como ele. Era familiar demais a ela. Como olhar-se em um espelho, a única diferença era que ele era quase completamente desvirtuado. E a mulher preferia acreditar que ainda tinha algumas coisas boas dentro de si, mesmo que não as mostrasse para quase ninguém.
Ajeitou uma mecha do cabelo recém-cortado atrás das orelhas e focou sua atenção em algo que não fosse o olhar de seus clientes. Eles estavam vendo a mancha em sua face. E sem duvida estariam pensando nas teorias mais mirabolantes sobre a mesma.
Quando a primeira leva de pessoas acabou, Nyx levantou-se do balcão e pôs-se a andar pelos ambientes. E pensar que o NDC quase havia sido reformulado. O patrocinador que lhe causara tanto trabalho era um kitsune, uma criatura metade humana metade raposa, vindo diretamente do Japão. Sua intenção inicial era comprar a boate, e passou essa ideia para Nyx. Ela negou. O NDC não estava a venda, replicara.
Aquilo era sua casa, sua vida... como poderia desfazer-se assim, sem mais nem menos? Os dias se passaram e ele foi ficando cada vez mais insistente. Chamando para almoçar, sair, na inutil tentativa de passar-lhe a perna ou deixá-la tão apaixonada por ele que lhe doaria a boate, sem nem pestanejar. Tolo pensamento. Nyx não pertencia a ninguém. Ela não se relacionava com ninguém. Ela não cedia a ninguém.
E então aconteceu... ela descobriu que ele pretendia começar uma mudança gigantesca no local assim que os papéis ficassem em seu nome. Se antes Nyx não queria nem saber de vender, agora ela tinha mais do que certeza para não fazê-lo. Ele tentou pegá-la a força. E ela, logicamente, revidou. Isso tudo culminou em uma briga violenta, que acabou com o dito empresário perdendo sua cabeça. O restante do dia tinha sido um verdadeiro inferno. Ela fora arrastada de um lado para o outro, questionada, acusada e questionada mais uma vez. As horas se passaram antes que ela conseguisse provar que tinha sido em legitima defesa.
Como as regras eram um pouco diferentes quando se tratava de seres mágicos, ela conseguiu se safar de meses trancafiada, o que aconteceria se ficasse a espera de um julgamento humano. E então se retirara, indo diretamente para o Nigthmare. Se sentia exausta. Por ter um trabalho noturno, tinha de se satisfazer em dormir nas horas diurnas. No entanto, com toda aquela confusão, Nyx não fechara os olhos desde o dia anterior. Precisava descansar... mas isso, ela lembrou, só aconteceria no final do espediente.
Ela entrou no terceiro salão, onde a banda se encontrava. Seus ouvidos capitaram a voz poderosa de Loke, cantando Final Masquerade. A letra entrou em sua cabeça, e ela precisou colocar um dedo em uma das orelhas para conseguir continuar a andar. Muito alto... sua dor de cabeça não deixava-a aproveitar aquele show. Lançou um ultimo olhar ao palco, parando em Gravor. Ele parecia olhar de volta para ela, e então voltou a se afastar. Estava tudo bem. Estava tudo sob controle.
Ela ouviu finalmente a voz de Liam na sua cabeça. Ele parecia estar queredo perguntar isso a algum tempo. — Foi aquele empresário, não é?
– Sim.
– Ele queria ainda comprar?
– E eu não queria vender.
– É claro que não... você nunca nos abandonaria assim, mestiça.
A voz tinha um tom leve de ironia, o que a pegou desprevenida. Agora ela andava em direção ao primeiro ambiente, e olhou por cima de alguns ombros, tendo que ficar na ponta dos pés, para observar se Sky estava em seu devido lugar. Ele estava, o que era um milagre. Sem achar qualquer outro motivo para mudar o assunto daquela conversa, ela encerrou a conecção. Não queria Liam lhe dizendo que ela havia ficado mole com o tempo. Sabia disso muito bem por si própria. Estava tão incomodada que acabou tropessando em alguém. A moça girou nos calcanhares, pronta para ter de se desculpar com algum frequentador assiduo, quando viu-se olhando para Frosty. Ele tentava manter o equilibrio da bandeja novamente, antes que a dezena de taças de champagne se espatifassem em alguém. Felizmente conseguiu a tempo.
– Oh... é você... por onde esteve, Sean começou a perguntar...
– Apenas observando o trabalho de vocês. — ela disfarçou, e abaixou a cabeça, de maneira que o cabelo tampasse quase totalmente o roxo em sua bochecha. — Tenho de fazer isso de vez em quando. Principalmente no ambiente de Sky...
– Acho que o Yan está viajando... — o elfo abaixou a bandeja para que uma pequena neko pegasse uma taça, sorriu para a mesma e voltou-se a Nyx.
– Tudo se explica... — ela voltou a erguer os olhos. Estava tão acostumada ao barman sumindo pelo menos uma vez a cada semana, que vê-lo em seu devido lugar era surpreendente. Ela pescou uma taça da bandeja e virou metade dela em um gole só, o que fez seu irmão de consideração erguer uma sobrancelha.
– Nyx...
– Não vou ficar bêbada... só preciso espairecer um pouco. — ela tomou o resto em um segundo gole e voltou a colocar a taça na bandeja. — Saúde...
– Ai, ai... francamente... — ele passou brevemente a mão sobre a cabeça dela. — Não aja como se tivesse que resolver as coisas sozinha, nós somos um time.
– Tudo bem... — ela pareceu um pouco sem graça com tal gesto, mas não desviou-se dele. Frosty era um dos poucos, se não o único que podia tratá-la daquele jeito. Afinal, eles haviam crescido juntos, praticamente...
Nyx ainda ficou um bom tempo indo de um lado para o outro, até finalmente se cansar. Ela voltou a sentar-se por trás do balcão do hall de entrada e viu criaturas chegando e saindo, todos passando pelo olhar inquisitor de Sean. Ninguém ousava levar uma arma ou qualquer coisa que estivesse contra as regras da boate. Da ultima vez que algo assim acontecera, Kenai batera tanto no infrator que arrancara a maior parte de seus dentes.
Ela não podia culpá-lo. O contratara exatamente por causa de sua força, mas esquecera de levar em conta o gênio explosivo. De vez em quando tinha de se meter quando ele e Lyla batiam de frente. A linda morena que fazia poledance tinha uma força absurda para o seu corpo sensual, mas de aparência fragilizada. Não era a toa que ela proibira especificamente do segurança sequer pensar em passar do terceiro ambiente. Até porque Lyla sabia se virar muito bem sozinha, se algum engraçadinho tentasse se aproveitar...
O vai e vem frenético acabou lhe dando ainda mais sono, e ela deitou a cabeça sobre os braços. Não demorou muito para que apagasse. Só foi acordar com o cutucão insistente de Selene. A NDC estava para fechar, já amanhecia. A mestiça não conseguiu conter um bocejo largo, antes de fato conseguir se recobrar. Decidiu que não ia se trocar. Se caísse no vestiário, possivelmente ia dormir lá mesmo. Seu cérebro ainda registrou uma pequena aposta que rolava entre seus empregados.
Ela sabia que estava envolvida. Quem ganhará o coração de Nyx, eles apostavam e tornavam a apostar. Pensou em dar uma incerta e pegá-los em flagra, mas o sono foi mais forte. Levantou a voz, avisando que estavam fechando, e fez a maioria deles correr para conseguir chegar do lado de fora a tempo.
Dispensou Frosty, ele queria acompanhá-la até em casa, estava preocupado. Nyx só queria descansar. Negou, sabendo que ele ainda estava na dura luta de tentar conquistar Selene. Ela não queria incomodá-lo mais do que o necessário. A mestiça tinha uma moto, no entanto não era inteligente utilizá-la. Tinha certo receio de bater em um caminhão. E então realmente o NDC perderia sua dona, para o alivio de uns e desespero de outros.
Foi quando reparou que ainda havia alguém esperando-a. A sombra estava encostada na porta de saída, de braços cruzados. Frosty já havia saído. Se fosse Loke, ela realmente não seria nada gentil. — O que foi dessa vez?
– Você não espera mesmo chegar em casa nesse estado, não é? — a voz conhecida se fez ouvir, enquanto o vulto se desencostava e vinha para a luz. Nyx observou Gravor e levou uma mão a testa.
– Estou perfeitamente bem.
– Ah, claro que está, tirando que em todo o tempo em que este estabelecimento funciona ninguém nunca viu você dormindo em cima do balcão.
Ela fez uma careta e resmungou qualquer coisa ininteligível. — Tanto faz. Isso não convém a você, estou ótima.
– Deixa de ser teimosa, garota... — ele estendeu a mão. — Me dê a chave, eu te levo...
Nyx lançou seu olhar dele para a moto, e vice-versa. Deu de ombros. Com um gesto seco, lhe atirou a chave da motocicleta, esperando ele sentar sobre ela. — Eu estou sem opções. Não fique se gabando por ai...
– Eu não vou... — ele acomodou-se, e logo sentiu-a sentar atrás de si e passar os braços por seu tronco. — Tente não dormir até chegarmos lá, sim?
– Não sou estúpida. — foi a resposta, no entanto ela apertou mais o abraço, por via das duvidas. O motor roncou, e logo ambos estavam pegando a estrada. No começo, houve um silêncio desconfortável, no entanto Nyx descobriu que precisaria falar se não quisesse cair outra vez no sono. — Você ficou esperando por muito tempo?
– Um pouco... os meninos tinham ido na frente, e eu não pude ver como você estava quando cheguei. — a resposta saiu em um tom diferente do que ele costumava usar. Estava obviamente incomodado com algo.
– Ahn... Loke...
– Ele abusa muito de sua paciência.
– Ele quer abusar de mais coisas... — ela deitou a cabeça nos ombros largos dele, e era bem confortável ficar naquela posição.
– Vocês não tem nada?
– Não
Silêncio. Ela ouviu a respiração dele falhar um pouco, antes de voltar ao normal.
– Ah... não que eu me interesse por isso, de toda forma...
– Bom, ele é seu parceiro, não é?
– De certa forma todos não somos parceiros?
– É... de certa forma...
– Mas... eu não sei. Só acho que você merece coisa melhor.
– Eu estou muito bem sozinha, obrigada. — foi a resposta, dita em um sussurro.
– Talvez, mas... as vezes é bom ter alguém por perto.
– Hum... você está me cortejando?
A moto oscilou por alguns instantes, junto com um “que?” meio exasperado, meio sem graça de Gravor. Nyx pensou que iam cair, mas ele reassumiu o controle a tempo. Houve um pequeno acesso de tosse, enquanto ele encostava, com certo receio de bater. Buzinas pipocaram a volta deles, em aviso.
– Claro que não, quem ia cortejar uma semi-anã como você?
– Semi-elfa. — ela corrigiu. Não era culpa dela ter puxado a genética da mãe e não ter crescido mais. — Vamos, falta pouco.
Ele praguejou mais algumas coisas consigo mesmo, o que fez ela rir. Isso era estranho. Não era seu feitio rir do nada.
– Isso foi um riso?
– Por incrível que pareça eu tenho músculos faciais para rir.
– Ah, disso não tenho a menor duvida. — ele finalmente parou, quando ela fez um gesto dizendo que haviam chegado. Nyx morava em uma casa pequena, mas bem organizada. Gravor fez questão de levar a moto até a pequena garagem, só então voltando a lhe entregar as chaves. — Pronto. Está entregue.
Ela olhou meio em duvida para o chão. — Er... obrigada.
– Você agradece também?
– Mais uma piadinha dessas e você vai tocar amanhã de olho roxo também. — Nyx ergueu uma sobrancelha.
– Moças como você deveriam ser mais agradáveis, sabia? — ele abaixou um pouco, segurando seu rosto pelo lado normal e virando-o delicadamente para ver o hematoma. — É por isso que essas coisas acontecem com você. Droga... ficou realmente feio.
– Não há muitas pessoas como eu por ai. E eu sei bem.
– Mesmo assim... — ele cortou, parecendo um pouco diferente dessa vez. — Me dói um pouco ver a tão forte e poderosa Nyx nesse estado.
– Eu não sou nada disso... — ela revirou os olhos pela enésima vez naquele dia. — Espera... você está realmente me cortejando...
– E se eu estiver? — ele agora estava sério. Plantou um beijo cuidadoso na bochecha ferida, antes de soltar o rosto dela e segurar uma mecha de seu cabelo escuro. — Vai me matar por isso?
– Não... eu... — ela mordeu o lábio inferior, clamando pela insensibilidade, mas esta não veio. — Eu não posso fazer isso.
– Bom, então eu vou ficar com um olho roxo, talvez?
– Pare com isso. — ela retrucou, se desvincilhando. — Mas que diabos vocês tem comigo?Ainda mais você. Você não tem nenhuma razão para gostar de mim, quanto menos tentar algo, e...
– Naturalmente poderia dizer que era apenas pelo seu corpo... — ele começou, e Nyx mirou um soco bem no peito, mas em seu estado debilitado não tinha lá muitas forças para usar. Ele parou o golpe com muita facilidade, até, antes de continuar. Seus braços envolveram o corpo miúdo dela, tão pequeno... parecia prestes a quebrar com qualquer contato. — Mas eu estaria mentindo. Então, bem... como dizer isso de uma forma que não pareça idiota...
– Gravor, pare com essa...
– Acho que ninguém me ignora como você... — ele sorriu timidamente, como se aquilo fosse uma declaração de amor eterno, e desceu os lábios, parando-os bem perto dos dela. Por um instante inédito, pode jurar que a viu corar.
– Você é realmente muito estranho. — ela suspirou, piscando os olhos. Então ficou na ponta dos pés para que as bocas se encontrassem.
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