Nightmare
4 I've trusted lies
Notas iniciais
O Natal costumava ser a melhor época do ano para mim, desde que eu me lembro. Até esse ano. Meus pais tinham a tradição de trazer biscoitos na minha cama com o café da manhã, com um copo de chocolate de quente para acompanhar, eu sempre ia dormir com um pijama que combinava com o deles, vermelho e cheio de renas desenhadas.
Entretanto, isso era antes, quando meus pais pareciam ser meus pais. Desde o jantar na casa do Scorpius, eles foram ficando cada vez mais estranhos até se tornarem pessoas que eu não conseguia reconhecer.
No começo, eu saía do quarto, conseguia ir até os outros cômodos da casa, mas, agora, tudo o que eu via eram as quatro paredes que me cercavam, as paredes rosadas e que, atualmente, estavam marcadas de cola dos meus antigos posters de banda que ficavam ali. Deveria fazer dois dias que eu não via o rosto dos meus pais, ou seja, fazia dois dias que eu não comia.
Olhei para fora mais uma vez e notei que a neve se acumulou no portão, ninguém havia mexido nele durante um tempo, o que é estranho já que meu pai sai todo dia para trabalhar. Pulei da cama e encostei minha orelha na porta, um hábito que desenvolvi nos últimos dias, estava quieto até demais, nem mesmo o ruído da televisão poderia ser ouvido.
Tentei pensar se eu havia escutado alguma coisa nos últimos dois dias, mas realmente a casa estava silenciosa. Será que eles saíram e se esqueceram de mim?
Mexi na maçaneta do quarto, forcei o máximo que podia, mas ainda estava trancada. Eu me sentia fraca, não teria possibilidade de eu tentar arrombar minha própria porta. Olhei pela fechadura e não havia muito o que ver, apenas um pequeno corredor que levava para a sala, porém, ainda assim, estava tudo vazio.
Meu pai não estava jogado no sofá, coisa que ele fazia com frequência, daqui eu não conseguiria ver a poltrona de minha mãe, mas não era difícil imaginar que estava vazia também.
Certo, se eu estava sozinha eu poderia sair pela janela como eu fazia quando queria comer de madrugada. Troquei de roupa rapidamente, sempre verificando pela janela se alguém mexia no portão. Puxei a janela para cima, contudo ela não se mexeu, tentei mais duas vezes e nada dela mexer. Isso não fazia sentido, meus pais nunca se importaram com as janelas, era literalmente a única razão de eu conseguir fazer as minhas aventuras noturnas, mesmo quando eles me colocavam de castigo.
Pensei em qual foi a última vez que eu havia tentado abrir a minha janela e realmente não havia tentado nenhuma vez em dias. Tudo bem, estou realmente presa no meu quarto, mas eu posso tentar sair pela janela do banheiro. Era mais alto, no entanto não custava tentar.
Mas é claro que a janela do banheiro é pequena demais para eu passar, ótimo. Observo meu quarto mais uma vez. Se eu estou sozinha deve ter um jeito de eu sair do quarto para matar minha fome. Encostei na porta do quarto e deixei meu corpo cair, como eu vim parar aqui?
Claro que eu sabia a resposta. Eu só queria avisar para Scorpius que eu estava em casa, que eu estava bem. Sabendo que o computador não estava mais por ali, e que não havia chance de meus pais me darem um celular depois do incidente do carro, precisava dar um jeito de entrar em contato com Scorpius.
O pensamento de enviar uma carta passou pela minha mente, porém eu não lembrava do endereço dele, até pensei em mandar para o meu apartamento, Nora estaria preocupada por eu não voltar para casa. Contudo, como eu enviaria a carta sem sair de casa? Eu não tinha coragem de perguntar, mas estava bem claro para mim que eu não podia colocar o pé para fora de casa. Por conta disso, exclui as cartas como opção de comunicação.
A ideia mais estúpida passou pela minha cabeça e, por alguma razão, decidi que ia seguir com o plano de pegar o celular da minha mãe e mandar mensagem para Scorpius. O problema não foi pegar o celular, apenas peguei de cima da mesa da cozinha enquanto minha mãe cozinhava, e sim lembrar o número do meu namorado. Por que me tornei tão independente daquela porcaria de celular?
Assim que meu pai me pegou com o celular na mão escondida dentro do armário do quarto, bom, eu nunca mais vou esquecer da cena de ser puxada para fora e levar um tapa. Foi simplesmente a pior sensação do mundo, além da dor absurda que veio junto com a cara inchada.
Desde aquele dia, não sou autorizada a sair do meu quarto. A porta sempre trancada, e as refeições são deixadas no quarto nos horários em que eu estou dormindo. E desde aquele dia eu venho tendo cada vez mais lembranças estranhas.
Eu não tinha nenhuma lembrança ruim da minha infância, porém eu sempre notei que tinha sonhos horríveis com o meu pai. Dele me machucando, atacando-me. Agora esses sonhos pareciam mais reais, se eu escutasse as vozes abafadas vindo da sala, lembrava de um quarto escuro; se meu pai avançasse na minha direção, eu lembrava de me encolher no porão.
Um porão que eu nunca vi, ou pelo menos acho que nunca vi. Não existiam portas que levavam para um porão na casa. E a casa era de um único andar. Eu lembro de brincar no porão, e não tem nenhuma porta lá que levaria a um porão. Então de onde vinham essas lembranças?
Era como se nos últimos dias eu tivesse destrancado um baú de memórias, ou seria tudo parte de sonhos que eu tive quando criança e estou lembrando agora?
Minha barriga começou a fazer barulhos novamente, eu não consigo pensar quando estou com fome. Eu precisava comer. Levantei e olhei pela janela, nenhum movimento, a neve continuava alta. Tentei, mais uma vez, mexer na janela e ela continuou imóvel. E se eu quebrasse? A lembrança do meu pai avançando em cima de mim invadiu minha mente.
Deveria ter um jeito de eu sair desse quarto.
Comecei a remexer nas gavetas da minha mesa de cabeceira, papéis e mais papéis, caixas de lembranças, tranqueiras, entretanto, nada que pudesse me ajudar a destrancar a porta. Se eu fosse uma espiã quem sabe eu não conseguiria abrir a porta com um simples lápis.
Então me veio a ideia, absurda e de criança, mas que poderia dar certo. Nas gavetas do banheiro havia aquela caixinha cheia de grampos de cabelo, aqueles grampos que já foram usados em filmes e séries para arrombar portas. Eles poderiam ser a minha salvação nesse momento.
Por um milagre, ou por puro desespero, consegui destrancar a porta. Eu podia sentir os meus olhos se encherem de água nesse momento. Era como respirar um novo ar sair do quarto, era como se tudo estivesse fresco. Eu não sabia se corria para a cozinha ou aproveitava esse momento por algum tempo.
Corri novamente para a janela e, mais uma vez, notei que a neve estava intacta, essa era a minha oportunidade. Não podia ser algo que eles sentiriam falta, porém não poderia ser algo que eu tivesse que usar panelas porque não fazia ideia de quanto tempo teria.
A primeira coisa que eu notei é que quase não havia comida na casa, como fazíamos quando ficaríamos fora por algum tempo. Abri a geladeira e notei que apenas havia uma garrafa d’agua e dois ovos, o congelador era a mesma coisa, tinha apenas a forma de gelo e um pacote de comida congelada. Será que eles foram viajar? Será que eles me abandonaram?
Chacoalhei a cabeça e foquei na comida, corri para a dispensa à procura de qualquer coisa que pudesse me ajudar, busquei por bolachas e qualquer tipo de salgadinho que pudesse pelo menos matar um pouco da minha fome. E é claro que a dispensa estava cheia de besteira porque meu pai não sabe viver sem.
Peguei o que estava mais na frente, puxando os novos, não tive tempo de pensar sobre ir para o quarto depois disso, quando vi já estava sentada no chão comendo tudo o que estava nos pacotes, migalha por migalha.
Eu não sabia que eles demorariam mais dois dias para aparecer novamente, isso significa que eu saí do quarto algumas vezes para conseguir comer algo, no entanto, sempre voltava e ficava em posição fetal na cama, absorvendo cada som, dentro e fora da casa.
Eu nunca ouvi o barulho do portão, muito menos das portas, acordei com a pancada de ser jogada no chão. Fui puxada pelo braço até a sala e não tive de me recuperar antes de sentir as pancadas na minha barriga. Olhei para cima e vi o rosto de meu pai vermelho, ele estava furioso, tentei pedir desculpa pela comida, mas ele não parecia estar se importando com isso.
Quando ele parecia estar satisfeito com o tanto que eu sangrava no chão, puxou-me pelo cabelo, olhando bem no fundo dos meus olhos antes de começar a falar:
— Por que tem um homenzinho fazendo perguntas sobre você na cidade?
— O quê?
— POR QUE TEM UM HOMEM PERGUNTANDO SOBRE VOCÊ NA CIDADE? ESTÁ SURDA, GAROTA?
— Eu não sei.
— Como você abriu a porta do quarto?
— Com um grampo.
— Ridícula – ouvi a voz de minha mãe pela primeira vez e tentei olhar para ela, segurava um papel com desgosto no rosto. – Eu sabia que não deveríamos deixar você ir para uma faculdade fora, mas achamos que seria estranho mantermos você aqui até adulta, levantaria suspeitas. Não esperávamos que você fosse achar um namorado tão intrometido.
Eu estava confusa, o que eles queriam dizer com me manter aqui até adulta? Do que eles estavam falando? Quais são os pais que não querem que sua filha tenha uma vida profissional? Mais importante do que isso, que tipo de pais batem na filha e a tratem desse jeito?
— Leva ela lá para o porão e tampa a boca dela, não queremos que aquele cara a encontre. – Minha mãe se pronunciou de novo enquanto ia em direção ao meu quarto, eu conseguia escutar ela resmungando, mas não fazia ideia do que ela dizia.
Senti um puxão na minha cabeça e comecei a me mexer para tentar levantar, a mão de meu pai segurou meu pescoço ao mesmo tempo em que chutava o tapete principal da sala, um que eu nunca tinha visto sair do lugar, até que o tapete se mexeu e revelou um alçapão. Ele teve muita dificuldade, porém conseguiu abrir a madeira.
Tudo veio em um flash muito grande para mim, um garoto chorando num parque, eu correndo, uma moça me abraçando, a estrada, o teto do carro, a batida na cabeça e a primeira vez que eu vi aquele alçapão ser aberto.
O lugar era exatamente como nos meus sonhos, mas agora eu tenho certeza que não era um sonho. Meu pai, ou aquele homem, puxou-me, juntamente com uma corda para um dos pilares do porão, ele me amarrou com força e eu não tive tempo de processar o que estava acontecendo. Eu não tive forças para lutar, gritar e nem tentar me soltar, tudo se passava como um filme na minha cabeça.
O tempo que eu passei naquele porão, as vezes que eu comi sem as mãos, apenas me abaixando em cima do prato, em outras a mulher vinha me dar comida. Até eles começarem a me dar brinquedos, e começarem a me soltar para brincar no sótão. Não sei dizer quando eu passei a morar no andar principal, também não sei dizer quando eu passei a interpretar o papel da filha deles. Mas eu nunca saberei dizer o porquê disso ter acontecido.
Alguém bateu na porta e o homem apenas me deixou ali, correu escada acima me deixando no escuro com os meus próprios pensamentos.
Tentei pensar se em algum momento eles abusaram de mim, mas não lembrei de momento algum assim, tudo o que eu lembrava eram as tarefas, limpezas na casa, ajudando com a propriedade e a cuidar de bichos. Em momento algum eu fui tão maltratada como nos últimos dias, bom, além dos momentos iniciais.
Por quê? Por que mentiram para mim minha vida inteira? Quem eu era? Se eles não eram meus pais, quem eram? Se eles realmente me levaram de algum lugar, por que não fizeram nada mais grave comigo?
Todas essas perguntas invadiram minha mente enquanto eu escutava vozes no andar superior, eu não conseguia enxergar nada, mas eu podia escutar os passos e as vozes cortadas e abafadas.
Minhas mãos estavam totalmente amarradas, no entanto, eu notei que nada tampava minha boca. Eles não queriam que o tal homem me encontrasse, será que era a voz dele que eu escutava? Eu só queria saber o que eles diziam.
Escutei o barulho de sirenes ao fundo, não demorou muito para eu escutar outros passos e outras vozes. E cada momento que passava as vozes ficavam mais altas, exaltadas. E foi aí que eu gritei. Gritei como eu queria ter gritado nos últimos dias.
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