Night Time
1 Capítulo 1 - O bom filho a casa retorna
Notas iniciais
Isabel galopava com rapidez e destreza. As dolorosas fibras de seu corpo chocavam-se uma a outra e se roçavam grosseiramente com o pelo macio do esbelto e esguio cavalo. Os ofegos saídos de seus lábios sem cor e rachados pelo frio transformavam-se em úmidos golpes de vapor, misturando-se a neblina que debilitava sua visão como um manto indesejável. O frio era um pungente para toda sua dor interna. Um coração partido tem o gelo como um bálsamo sem solução, ela pensou com tristeza. Ou talvez o coração seja o próprio gelo, endurecendo através do tempo. Todas as lagrimas que já tinham fluidos de seu rosto, agora sem mais volta, sem mais solução.
Em nenhum momento a jovem mulher diminui a intensidade das galopadas de Bhrtor, seu valioso cavalo. A sua chegada era intimada pelo seu pai com pressa imediata, junto com seus pesares e um sorriso cordial. Mentirosos, todos eles eram, inclusive ao seu querido pai! Pareciam trata-la como seda, frágil e bela, entretanto quando eram de seus gostos usavam-na como o papel mais ardiloso e bruto que pudesse existir. Tiranos! Um grito foi sufocado pelo vento cortante que golpeava seu rosto com a brutalidade de mil tapas. E em meio de todas as turvas emoções e pensamentos torturantes, ela não pode perceber a criatura que lhe aproximava gradativamente por trás.
Isabel pressentiu a proximidade do arcaico castelo onde por muito tempo viverá antes que pudesse vê-lo. Ela lembrava-se das vezes que subira por essas colinas de ervas íngremes e flores silvestres, com arvores que se curvavam como velhas bruxas, com mãos decrépitas feitas de galhos finos e quebradiços. Tinha apenas 10 anos. Lembrava-se quando corria com os pés descalços pela terra, junto com crianças de sua idade, rindo e fazendo travessuras que adultos responsáveis tendiam a castigar a cada vez que lhe era reportado. Ela sempre fora alegre e risonha, e a floresta em volta do reino era seu refúgio, e apesar da aparência medonha, ela não tinha medo. E a memória inconcebível de seu amigo da infância encheu sua alma de calor e seu corpo de arrepios. Mesmo depois de anos, podia lembrar-se do bréu que era seu cabelo sedoso e a profundidade perigosa que era seus olhos.
A criatura soturna e mortal aproveitou-se da absorção de sua ‘’caça’’ para manter-se a frente, e pode olhar a suave face da mulher que a tanto tempo o faz uivar em noites frias e cinzentas, querendo-a. Atraindo-a. A mente irracional do lobo só percebeu sua beleza, e não o grande mártir em seu coração. Nada disso importava, a não ser a carne. Fora ensinado desse modo, e assim prevaleceria. Soltou um grunhido baixo enquanto acompanhava facilmente os passos do cavalo esguio. A verdade prevalecia.
Em meio de memórias saudosistas, a mulher percebeu tarde demais seu torpor. O pergaminho e seu lenço de cetim vermelho haviam escapados de suas mãos para junto da terra. Soltou um gritinho antes de apertar as rédeas do animal abruptamente, ordenando-os para que interrompesse a caminhada. De um salto ágil, ela desmontou de Bhrtor para o solo fofo, ajoelhando-se a procura de seus objetos perdidos desesperadamente. Nunca se perdoaria se os perdesse, nunca. Após alguns minutos a procura na escuridão, pode sentir a folha rude do pergaminho em seus curtos dedos.
Logo depois, a calidez do cetim também foi achada. Um suspiro de intenso alivio foi capturado pelo ar enquanto a lua resolveu iluminar o bosque depois de uma possível batalha com as nuvens escuras da noite. Levantou-se da terra e, antes que pudesse apreciar a paisagem já tão bem conhecida, ouviu um barulho seco, como um galho se torcendo ao meio.
Isabel virou-se, assustada, forçando sua visão pouco aguçada para as beiradas da trilha, onde as arvores eram tão grossas como portas. O prévio aviso de seu pai, com o adendo de que não fosse para Rusarvinsk desacompanhada ressoou em seus ouvidos como se o mesmo estivesse ali. Como tinha demasiada pressa, não pode pensar em guardas e muito menos carruagens para o caminho de volta a sua terra, portanto alcançou o seu cavalo e, enquanto o sol ainda se encontrava a pico, subiu as colinas para o reino. Apesar do medo, não se arrependia de sua decisão. A pequena mulher desembainhou um pequeno punhal, e depois de tensos minutos esperando, no qual nenhum barulho fora ouvido ou visto, subiu em seu cavalo, que agora parecia inquieto por alguma razão inesperada. Seus objetos estavam muito bem protegidos agora, e jurou a si mesma nunca mais perde-los de vista. As lembranças e as noticias guardadas em ambos os objetos eram suturadas de veneno e desesperança.
A criatura lançava um grunhido para o cavalo e sua dama, a ponto de saltar em suas patas e cravar o pescoço na jugular alva e macia, tão feminina como uma flor. Antes que pudesse fazer o brusco e inevitável, seus reflexos se enfocaram em algo brilhante na terra. Seu focinho mudou de foco, deixando que a mulher escapasse do inconcebível e da crueldade. Enquanto ela voltava a galopar rumo ao castelo, a criatura andou vagarosamente ao pequeno mistério que o solo sustentava, até chegar bem próximo e constatar o que era: mesmo na visão felina, ele pode perceber que era um colar de ouro simples, com um adorno em forma de gota líquida e rubra no meio. Lembranças se instalaram na cabeça da criatura, transformando a ira em saudade. Em um clique, uma mente irracional transformou-se em sensatez. Os olhos impetuosos e brancos da fera se elevaram para a lua, que lhe sorria com graça, e pegou a joia com seus dentes afiados, junto com um ganido. Correu em direção contrária.
Depois de um extenuante dia, a mulher solitária finalmente chegou a grande clareira descoberta onde o pequeno reino de Rusarvinsk se encontrava; um império tão velho e pobre como as cataratas naturais que eram banhadas pelo rio cristalino de Octor, que alimentava a população de seu lar. Por cima do grande muro que impedia a passagem do reino, se encontrava guardas que aguardavam a aproximação da viajante, que estava vestida com uma grossa túnica negra com um capuz colocado em sua cabeça, que guardavam sua identidade. Assim que foi reconhecida, os portões de madeira abriram-se de um rompante, exibindo a Isabel casas simples de tetos baixos sendo engolidas e digeridas pela grande escuridão da noite.
Ninguém na rua, nem ao menos um mendigo pedindo a rara clemencia e distribuição de uma mísera moeda.
- Bem-vinda a sua moradia – os guardas lhe disseram em sua língua nativa, algo que a jovem já não ouvia a algum tempo, mas retribuiu o cordial cumprimento. Eles a acompanhavam, mas nada diziam, oferecendo suas condolências com olhares suaves e penosos. Quando chegaram ao palácio, ajudaram-na a desmontar Bhtor e partiram junto com o mesmo, prometendo-lhe cuidar carinhosamente ao animal. Isabel, princesa de Rusarvinsk, seguiu pelas escadas de pedra polida do Palacio Real, que não passava de um castelo escuro e rude. No jardim ao lado, junto de esculturas decoradas e pálidas ao luar, girassóis, tulipas e frésias de diferentes cores, tamanhos e aromas murchavam gradativamente. Antes de entrar pelas portas duplas de carvalho do grande castelo,respirou três vezes antes de encarar a realidade que lhe cobrava a felicidade. Olhou uma ultima vez a luz, e por fim entrou.
O hall estava abarrotado de pessoas, todas elas com características familiares e com semblantes falsamente pintados de luto. Enquanto Isabel entrava pelo luxuoso salão, com paredes e tetos de mármore brilhante e objetos rústicos e caros, todos se calaram. Era como se a grande pata de um urso houvesse entrado em uma colmeia de abelhas, e todos se sentissem incomodas com sua mesquinha presença. Percebeu que seu vestido por baixo da túnica, purpuro e rendado, estava sujo de terra e lama, mas ignorou esse fato. Com o rosto erguido e corado, Isabel esperou que todos lhe lançassem reverencia, e assim foi feito. Com cautela, sua prima, Chrsty, se aproximou e lhe abraçou.
- Pensei que não virias mais, minha prima.
- Atrasei-me, porém estou aqui, querida Chrsty.
- Eu sinto tanto, Isabel... a Rainha fora uma grande mulher... Determinada e muito generosa...e
As palavras de sua prima foram atropeladas por um choro continuo. Chrsty sempre fora sua melhor amiga, quase uma irma, e muito próxima a sua mãe. Eram incontáveis as noites que seu tio, Ab, partia para batalhas e permitia que sua filha ficasse com Guinever, sua irmã e querida Rainha. A doença da mesma, que se revelou á poucos anos, fora um choque demasiado. Isabel tinha saído da cidade por estudos, e mesmo que lhe custasse a liberdade, desejava vir até aqui guardar seu leito se não fosse as continuas cartas de sua mãe dizendo que assim não o fizesse, envergonhada de sua enfermidade. A jovem princesa ainda guardava a imagem de sua querida mãe, sadia e corada e sempre com um sorriso generoso a oferecer a mais pobre das vítimas.
Isabel via silenciosa a descompostura de sua prima, esperando que ela se refizesse a qualquer momento. Não derramou nenhuma lagrima. Depois de alguns minutos, Chrsty indicou que todas aquelas pessoas estavam ali pelo Velório , que tinha acabado a algumas horas.
- O corpo de Guinever já foi colocado na Cripta Real – Chrsty disse, limpando as ultimas lagrimas em seu rosto vermelho, o cabelo loiro balançando-se com cada vibração e soluço de seu curvilíneo corpo – Ninguém sabes onde seu pai possa estar, desapareceu depois que o corpo da Rainha foras enterrado. Talvez esteja cuidando das feridas do coração...
- Sim, ele deve estar cuidando do coração... – Isabel disse, sabendo que isso era mentira. Conhecia seu pai o bastante para saber que ele deveria estar bebendo e se divertindo com qualquer prostituta da cidade.
- Você o entende, não é? Deve estar sofrendo muito pela morte da amada Guinever
- Não tanto como eu, Chrsty. É impossível que caiba tanto arrependimento e dor no coração de alguém...
Sua prima estendeu a ela um abraço, que aceitou desconfortavelmente. Não se sentia bem ali, em meio de tantos nobres que lhe ofereciam sorrisos banhados de veneno. Na verdade, nunca se sentiu. Desde pequena, preferiu estar em meio das crianças plebe ao filhos dos vassalos de seus pais. Depois de mais algumas palavras trocadas, Isabel se dirigiu a Cripta Real, ignorando todos os pedidos de acompanhamento. Enquanto andava por entre o jardim, sentiu um leve formigar, como se estivesse alguém estivesse nas sombras, olhando. Tinha sentido esse formigar durante quase toda a viagem até Rusarvinsk, e acreditava que aquilo devia ser alguma peça pregada de sua imaginação, então ignorou.
Chegou em um grande mausoléu, do tamanho de uma verdadeira casa, que era coberta de granito escuro com inscrições em ouro. Entrou pela porta semiaberta da grande cripta, sentindo a queda de temperatura brusca em sua pele frágil, sem realmente se importar. Parou no caixão mais recente, onde havia diversas rosas coloridas em voltas. Achou irônica a forma que todas essas rosas terminariam; se desabrochando e murchando até sobrar apenas pétalas sem cores, até por fim se fundirem com a cor do chão. Era assim que Guinever, sua mãe e Rainha, havia terminado; uma perfeita e vivente rosa amarela terminada com a sacudida do tempo e das enfermidades desse mundo, por fim perecendo, murcha.
Contrariando a sua ideia que não restava mais nenhum pesar e lagrimas dentro si, Isabel deixou que sua dor interior se abrisse para a total destruição. Se apoiou ao caixão e chorou, em prantos e berros, pedindo sua mãe de volta aos cruéis Deuses. Ficou ali por minutos, horas e anos, até que serviçais lhe buscaram e a colocaram na cama do palácio, desacordada. A garota estava, por fim, de luto pela Rainha.
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