Night Shadow
12 Vingança e Escuridão
Notas iniciais
—--Flashback On---
Montanhas de terra cinza cobertas de fuligem proveniente de vulcões se estendiam pelo horizonte, um grande precipício descia a centenas de metros de altura e era dividido por uma cachoeira formada pelo curso de um rio de lava pura. O céu era simplesmente inexistente, quando se olhava para cima tudo o que se via era apenas um aglomerado de nuvens negras que escondiam estalactites gigantescas presas ao teto, o ar era irrespirável e pesado, o cheiro de enxofre era fortíssimo, e do alto da beira do precipício era possível observar que o terreno gigantesco era entrecortado por cinco rios diferentes que corriam em muitas direções. O conjunto de todos estes pontos não deixavam dúvidas, aquele era o Tártaro, o domínio de um dos seres mais fortes e tenebrosos do universo.
Parado de pé ao lado da cachoeira de lava, um homem coberto por uma capa negra adornada com inscrições feitas em fio de ouro, observava o horizonte com uma espada em punho. As vestes do indivíduo eram belas e luxuosas, e pareciam indicar uma posição semelhante à da nobreza, os detalhes em ouro sobre a parte superior da peça eram tão simétricos e bem feitos que pareciam terem sido feitos por mãos divinas, uma corrente dourada unia as duas partes do tecido no centro do peito dele, e na parte de trás, seus cabelos castanhos se destacavam acima da gola alta que cobria todo o seu pescoço, e também onde eram gravados os símbolos que ligavam o homem aos agora famosos Night Shadows.
A figura que outrora travava uma luta interna para manter-se com uma face inexpressiva, agora já não se importava com o exterior, ali sozinho num lugar como aquele, pouco importava se ele estava feliz ou triste, tudo o que importava era a sobrevivência. O homem tinha uma velha história com aquele lugar, já havia passado tempo demais ali para uma vida toda, mas mesmo assim ele não podia reclamar, “alguns momentos passados no inferno foram melhores do que alguns no mundo mortal”, pensar algo desse tipo fez o homem perceber o quão deprimente era sua vida, o destino fora cruel com ele e com muitos outros, mas somente ele tinha a chance de mudar isso, e ele não a desperdiçaria.
Inclinando seu corpo para frente ele começou a despencar do alto do precipício, o vento passava rapidamente pela entrada dos seus ouvidos provocando o ruído característico de uma queda, o chão se aproximava rapidamente, mas antes que ele pudesse encontra-lo, o homem desapareceu em uma luz verde esmeralda que coloriu por alguns instantes o mórbido cenário do Tártaro.
Monstros e mais monstros, centenas de milhares no mínimo, dos mais diversos tipos e tamanhos reunidos em um único lugar, essa foi a primeira impressão do homem quando ele reapareceu num lugar que se assemelhava a um imenso campo aberto aos pés de um grande paredão de rochas negras que se erguia a muitos metros de altura, a impressão que se tinha era de que a densidade de monstros aumentava conforme a proximidade da formação de rochas, quase como se eles formassem uma barreira viva. A figura de capa preta apareceu bem no meio do aglomerado de criaturas, o brilho bastante vivaz do tele porte chamou a atenção de todos ao redor dele, os monstros que o avistaram logo rugiram e prepararam-se para o atacar o intruso, chamando ainda mais atenção dos demais.
Alheio a tudo ao seu redor o homem mirava apenas um único lugar e uma única criatura. Uma entrada pequena quase imperceptível era claramente guardada por Campe, um monstro lendário com um corpo de um dragão negro e escamoso de dez metros de comprimento, e uma cauda pontiaguda, a parte de cima era de um tronco de uma mulher com cabelos de serpentes, e na interseção entre as duas partes, mulher e dragão, estava o mais estranho na criatura, cabeças de animais surgiam aleatoriamente no que deveria ser o abdômen, logo abaixo, suas patas também eram cobertas de serpentes. Ela empunhava duas grandes espadas cobertas por um veneno mortal, um inimigo peculiar e perigoso, apesar da força desproporcional entre eles.
Não havia o que pensar, nem o que hesitar, o objetivo era simples, chegar ao seu destino, e tudo o que houvesse em seu caminho deveria ser tratado como um obstáculo a ser destruído. Partindo desse princípio, ele apenas seguiu o seu instinto e fez um corte horizontal com uma força descomunal, quatro monstros que haviam avançado sobre ele foram imediatamente destruídos, a força do golpe enviou uma rajada de ar que desequilibrou e afastou todos ao seu redor. O sentimento de fúria que ardia como brasas em seu peito servia de combustível para ele, cada golpe, cada corte desferido pela lamina de Adamantium era como uma pequena faísca que saia do seu interior. Traçando uma linha reta em direção a passagem de pedra, ele avançava velozmente cortando tudo o que se colocava em seu caminho, alguns pobres monstros nem ao menos tinham tempo de ver ou saber o que vinha em sua direção e já eram destruídos pela impiedosa espada.
Não demorou muito para que ele chegasse a poucos metros do seu objetivo, sua oponente ciente de sua presença desde a sua chegada, já estava preparada para o combate. Campe guardava profundos ressentimentos daquele homem, seu último encontro não havia sido bom para nenhuma das partes, e por isso ela tinha motivações mais que suficientes para ataca-lo. Suas serpentes sibilavam freneticamente para ele em expectativa, enquanto ela mal podia esperar para estripa-lo, mas para sua surpresa, ele nem sequer parou por um segundo para observa-la, ou para demonstrar respeito pela sua figura que já havia levado terror a inúmeros seres vivos e até não vivos.
Assim que ele a alcançou, ele tentou desferir um golpe horizontal baixo na criatura para evitar o veneno das espadas, no entanto, a cabeça de um leão pronto para abocanha-lo o surpreendeu e o fez recuar para tentar atacar as patas, só para ser mais uma vez rechaçado dessa vez pelas serpentes, Campe sorriu diante do recuo e partiu para o ataque. O homem sem alternativas, saltou velozmente e chocou sua espada contra as armas do monstro, nenhum dos dois cedeu a força do oponente, mas num gesto incomum a figura de capa deu um giro em pleno no ar e golpeou mais uma vez as espadas cruzadas de Campe, o golpe foi ainda mais forte que o anterior e fez a criatura recuar um pouco, vislumbrando a chance de se aproveitar da oportunidade criada, ele mais uma vez girou e chutou com uma força devastadora as espadas de Campe fazendo o veneno presente nas laminas respingarem sobre seus olhos. O rugido do monstro estremeceu todo o local, os olhos dela queimavam como fogo, e uma fumaça verde saia de todo o seu rosto, tamanha a potência do liquido mortal. Assim que tocou o chão ele saltou com uma velocidade incrível, alcançando a altura da cabeça da criatura em um instante. Campe havia largado suas espadas e tentava retirar o veneno de seus olhos a todo custo, suas serpentes sibilavam e guinchavam desesperadamente, tanto que não perceberam o ataque de seu oponente. O homem segurou firmemente nas serpentes da cabeça de Campe para parar sua trajetória para cima, com a mão esquerda firmemente apoiada ele encontrou o equilíbrio para o golpe de sua espada com a mão direita, Campe ainda tentou se defender, mas era tarde demais, com um golpe limpo ele decepou a cabeça da criatura que explodiu em pó dourado.
A horda monstros que assistia a luta, encaravam aterrorizados o homem que segurava a cabeça de Campe em frente aos seus olhos, enquanto a cortina de pó dourado pairava ao seu redor. De costas, coberto de restos mortais de incontáveis semelhantes, observando-os com um olhar sombrio, e ainda segurando a cabeça de um dos mais fortes de sua espécie, as criaturas do Tártaro tiveram a certeza de que jamais conseguiriam toca-lo.
Quanto ao homem, a visão daquela criatura fez a imagem de um antigo amigo a muito perdido aparecer em sua mente, seu irmão ciclope, todos os semideuses que morreram defendendo seus amigos, pessoas amadas, e seu lar, todos tinham uma velha história com aquele ser infame, inclusive ele. Voltando seu olhar para a multidão de monstros atrás dele, ele pode observar cada um dos seres que um dia já foram seus carrascos. E então, sem nenhuma hesitação ele começou a caminhar em direção ao local que oferecia passagem ao interior da rocha, não antes de jogar a cabeça para o alto e golpear o ar acima de sua própria cabeça.
—--x---
A passagem na verdade era uma espécie de túnel minúsculo, tão estreito que apenas uma única pessoa poderia passar por ali, enquanto se esgueirava por entre as paredes quentes de rocha negra, o homem não podia conter a ansiedade em vista do que provavelmente o aguardava no fim daquele caminho. Conforme ele ia avançando mais e mais, uma sensação indescritível ia tomando conta dele, o túnel se tornará cada vez mais estreito, tanto que ele fora obrigado virar-se de lado e começar a tatear as paredes em busca de apoio, a escuridão era total, tão densa que parecia agarra-se a ele como se quisesse impedi-lo de seguir em frente, era como se centenas de serpentes tentassem se enrolar em seu corpo, mas mesmo assim ele não fraquejou nem pôr um único momento.
Finalmente depois do que pareceu uma eternidade, um pequeno vestígio de luz irrompeu ao que parecia ser o final do túnel. Em uma situação daquelas em que ele estava prestes a enfrentar o que ninguém jamais havia feito ou visto, era natural que ao encontrar o que se estava procurando e comprovar sua existência, um sentimento de alivio deveria aplacar toda a insegurança inicial, mas quando ele deixou o interior do túnel sujo e coberto de poeira, foi exatamente o oposto que ocorreu, ele sabia que não estava nem perto de conseguir seu objetivo mesmo que ele estivesse a apenas alguns metros dele, e que este já pudesse ser visto.
Depois da escuridão do túnel, havia uma gigantesca sala circular iluminada por tochas de chama azul. Ela era enorme em todos os sentidos em que se possa imaginar, sua forma era parecida com um cilindro baixo perfeito, o teto não era tão alto, estava a apenas quinze metros do chão, mas o que realmente chamava a atenção eram as estalactites presas ao teto da sala, elas eram diferentes das que haviam do lado de fora, estas eram tão afiadas que pareciam terem sido esculpidas com o objetivo de esmagar alguém para que não restasse nada além de ossos e sangue, além disso, a proximidade com o chão tornava a possibilidade da queda muito mais real do que ele gostaria. Na outra extremidade da sala depois de mais ou menos trezentos metros, estava o tão esperado objetivo dele, algo que se assemelhava a uma pequena capela entalhada na rocha além da sala, sobre uma espécie de altar de pedra estava o que parecia ser uma pequena rachadura no ar, dentro desta rachadura uma cálida luz branca saia em diversas direções afastando a escuridão que dominava todo o local, era lindo e surreal, algo que só se via em filmes de ficção, mas estava ali diante dele.
Caminhando vagarosamente em direção ao altar, ele mantinha seus sentidos e reflexos no máximo, o maior e verdadeiro desafio ainda o guardava, seus passos ecoavam profundamente, sua respiração era pesada, o lento crepitar das chamas só aumentavam a tensão. E finalmente quando ele percorrera a metade da distância que o separava do final de sua busca, uma voz carregada de malicia e poder se fez presente.
— Perseu Jackson. – Disse a voz atrás de si. — Já faz muito tempo desde a última vez em que nos vimos, se me lembro bem, naquela oportunidade você era tão fraco e digno de pena que eu permiti que você continuasse a viver.
— Tártaro. – Percy virou-se para ele. – Se eu também me lembro não foi exatamente assim que aconteceu, você apenas deixou para outros a tarefa de me matar, e esse foi o seu erro. –
— Realmente. – Ele riu estrondosamente. – Você continua insolente como sempre, mas eu não posso reclamar, isso torna as coisas muito mais interessantes.
— O que veio fazer aqui? Eu imagino que não tenha vindo apenas para dar as boas-vindas. – Indagou –
— Você está certo, mas eu não precisaria lhe dar as boas-vindas, eu permito que você rasteje em meu território a muito tempo, mas isso era apenas graças a Nix, eu imagino que se eu matasse seus animaizinhos de estimação ela ficaria pouco irritada e isso seria muito problemático. – Devolveu ele. –
— Então você tem medo dela? – O primordial fechou a cara. – Não se preocupe, eu entendo, mas eu vim aqui com um objetivo que você já deve saber qual. –
— Sim, eu sei, aquela vadia deve ter lhe contado o nosso segredo máximo, eu realmente não entendo como ela pode confiar em mortais, mas eu não tenho nada a ver com isso, há muito tempo eu fui incumbido da tarefa de proteger este local, conhecido por um grupo seleto de pessoas, somente os mais puros podem acessa-lo e você não está nesta lista. – Falou ele com desprezo. –
— Mesmo assim eu vou entrar, você não pode decidir nada, você tem poder, é um primordial, mas não pode decidir isso, e se Nix acha que eu sou digno então eu entrarei, e nem mesmo você pode me impedir de cumprir um pedido da minha senhora. – Percy disse sem conter a expressão de ódio em seu rosto. –
— Sim, este ódio em seu olhar... – Tártaro ria escandalosamente mais uma vez. – Eu soube o que aconteceu com a sua mãe, parece que você finalmente descobriu, não é mesmo? Pois deixe-me lhe dizer algo Percy Jackson, você é fraco, sempre foi e sempre será, não há diferenças de quando você era um simples semideus para agora. Como você acha que pode mudar o mundo, se nem ao menos consegue proteger as pessoas a sua volta? Você com o seu idealismo e suas falsas promessas vão apenas trazer mais sofrimento para o mundo. Você acha que uma guerra é a resposta para os problemas mortais? Pois preste atenção, você nunca irá mudar nada porque é um assassino, você matou pessoas inocentes, seus amigos, e até mesmo a sua mãe, e agora você quer apenas continuar matando e.... –
— Cale-se. – Gritou ele com fúria. – Eu já ouvi demais da sua merda, eu não me importo com você ou com a sua opinião, se vai me matar então venha, mas não pense que será fácil. –
Percy sacou sua espada Venatrix Tenebrarum em sua mão direita, a empunhadura em ouro e a lamina prateada de Adamantium eram circuladas com uma energia esverdeada. Em sua mão esquerda estava sua velha companheira que a tanto tempo não era empunhada, a lamina de bronze de Anaklusmus brilhava juntamente com o próprio Percy, em uma redoma de energia tão poderosa que provocava rachaduras no chão e estremecia o local.
— Que interessante, você realmente acha pode passar por mim? – Tártaro disse com os olhos semicerrados. — Então façamos assim, eu soube que você gosta bastante de fazer apostas, eis a minha então, lutaremos sem poderes, apenas espadas e força física, afinal se eu usasse meus poderes tanto o lugar como a luta não durariam um segundo, o vencedor terá sua vontade cumprida, então aceita? –
— Tanto faz, prepare-se. – Diz em um tom baixo e recolhendo sua aura de poder. -
Flexionando seus joelhos ao máximo e posicionando uma espada em frente ao corpo e outra em suas costas, Percy praticamente desapareceu de onde estava acabando com a distância entre ele e seu oponente em centésimos de segundos, seus passos eram tão rápidos que mal tocavam o chão, numa pequena exibição do que era uma luta entre imortais. Tártaro havia conjurado uma grande espada negra de aço estige e entrado em posição de combate com a mesma rapidez, deixando claro que aquela luta seria também uma disputa de velocidade. Quando estava a pouco menos de dois metros do seu alvo, o filho de Poseidon desferiu um golpe em arco com Anaklusmus que estava em suas costas, mas para a surpresa momentânea do Primordial, o golpe foi dado no chão de terra cinza, desse modo levantando uma grande quantidade de poeira e encobrindo sua visão totalmente. “Inteligente” ele pensou, mas longe de ser algo que funcionaria com ele, atento aos movimentos ao seu redor, a personificação do poço logo percebeu onde seu inimigo estava e fez um corte diagonal no espaço atrás de suas costas, porém pela segunda vez ele foi surpreendido ao cortar apenas a capa que o Night Shadow usava antes, imediatamente ele compreendeu a intensão do garoto, e virou-se com uma velocidade ainda maior encontrando a tempo as espadas de Percy.
Aquele ataque era essencial se o Imortal da Noite quisesse ter chances reais de vencer, e por isso ele teria de ser ousado, ir além, e tentar golpes incomuns e impossíveis, valendo-se desses pensamentos, Percy que ainda estava acima do chão enquanto media forças com o Primordial decidiu fazer algo parecido com o que havia feito antes com Campe, e usou suas próprias espadas como impulso para acertar um chute extremamente forte na face do seu oponente que foi jogado para trás com violência, chegando a bater no chão duas vezes até encontrar a parede da sala que não resistiu ao impacto, e sofreu rachaduras no local onde o Primordial havia batido. Não satisfeito e sem deixar que Tártaro tivesse tempo para pensar, Percy avançou contra ele, e tentou mais uma vez feri-lo com suas espadas enquanto ele estava encurralado contra a rocha, mas sem nenhuma surpresa o golpe foi prontamente aparado pela espada de aço estige, e mais uma vez eles haviam retornado ao ponto inicial, medindo forças através de suas espadas.
— Até que você não é tão ruim, mas acho que está na hora de acabar com o aquecimento, não é? – Disse Tártaro. –
Como se estivesse apenas brincando com uma criança, o Primordial forçou sua espada com uma força que superou completamente o seu oponente, empurrando-o apenas o suficiente para que ele acertasse uma joelhada no abdômen do filho de Poseidon levantando-o do chão e permitindo que Tártaro o chutasse como um boneco em direção ao teto repleto de rochas mortalmente afiadas. A luta parecia ter um desfecho rápido e trágico enquanto o Night Shadow voava em direção a morte certa, mas aparentemente a sorte estava ao lado dele, pois a pequena chance de não ser empalado pelas rochas e bater justamente no minúsculo espaço entre os objetos mortais havia acontecido, pedaços de rochas se desprenderam e caíram ruidosamente devido ao impacto sofrido.
Apesar da intensidade do golpe, Percy não havia tomado tantos danos quanto esperava, sua distração havia cobrado um preço alto, lutar contra um Primordial era algo extremamente difícil, mesmo durante seus treinos com Nix, ele nunca havia sentido a real sede de sangue que emanava do seu oponente, mas a possibilidade de derrota era simplesmente inaceitável, e fazia sua fúria interior crescer cada vez mais, ele teria de chegar até o final daquela sala e adentrar ao local dito por Nix, o local que guardava o instrumento necessário para o sucesso de sua cruzada e de sua vingança.
Vingança
Sim, ele não podia mais esconder, depois do que os Olimpianos fizeram a sua mãe e a sua família ele já não podia negar, os motivos para destrona-los eram muito maiores do que apenas ordem e paz, agora eram movidos por um forte sentimento de vingança, seu amago ardia desejoso por uma vingança que enfim faria a justiça ser feita a todos aqueles que sofreram com as crueldades cometidas pelos deuses.
Justiça
Algo que a muito era tido como algo abstrato, apenas um conceito criado para justificar as punições a aqueles que infringiam as leis e os mandamentos dos homens, mas ele sabia que muito dessa descrença que dominava o mundo atual era devido ao desaparecimento dela, aquela responsável pelo equilíbrio natural das coisas e pela manutenção da ordem, e era ela que ele buscava para pôr fim a tirania que assolava o mundo, e saciar seu sedento desejo de vingança.
Seria preciso levantar-se mais uma vez, mais forte, mais rápido, mais letal, seria preciso vencer. Suas espadas ainda estavam em mãos, uma totalmente cravada na rocha ao seu lado e a outra em punho, uma dava sustentação e a outra preparava-se para o próximo movimento. Percy posicionou seus pés no teto e puxou sua espada lateralmente comprometendo a estrutura da rocha afiada em que havia se mantido, e impulsou-se para baixo em direção a Tártaro que já o esperava impacientemente. As espadas cruzavam-se em uma velocidade assustadora, as fagulhas e o tintilar do metal eram únicas coisas vistas ou ouvidas na sala, vários minutos se passaram deste mesmo modo com uma troca de golpes que parecia não ter fim, diante da força e persistência dos adversários.
Apesar dos grandes esforços de Percy, as condições dos dois lutadores eram demasiadamente opostas, enquanto Tártaro tinha apenas um único corte em seu braço esquerdo, o filho de Poseidon tinha seu corpo coberto por cortes e hematomas, duas costelas estavam quebradas e outras três ainda se regeneravam cada vez mais lentamente devido à grande quantidade de energia gasta no combate, suas roupas estavam quase completamente destruídas e as poucas peças que restavam intactas estavam manchadas pelo seu icor.
— Tem certeza que ainda quer continuar? Está mais do que claro quem é o vencedor, desista e eu o matarei da forma mais rápida. – Tártaro propôs. –
— Não se preocupe, isto está prestes a mudar, você está exatamente onde eu quero. –
Todos os golpes, todos os movimentos, e toda a luta de Percy tinham sido feitas em torno de um único objetivo, uma aposta para vencer uma luta impossível, um tudo ou nada. Os dois oponentes estavam frente a frente, próximos a uma das extremidades da sala, à espera do próximo movimento inimigo, o filho de Poseidon tomou a iniciativa correndo em direção a parede de rocha. Ao primeiro olhar do Primordial, aquele ato indicava que o Imortal da Noite iria tomar um impulso lateral para ataca-lo pelo alto, algo que já havia sido feito antes por ele, no entanto, para uma nova surpresa de Tártaro, Percy golpeou a parede como se ela fosse seu real inimigo, o impacto destruiu uma parte da rocha e estremeceu fortemente toda a sala, o que o fez questionar a sanidade do seu adversário.
— Será que eu bati tão forte que está ficando louco? –
— Não se preocupe você vai entender logo. –
Apesar de todo o poder e velocidade do Primordial, quando ele finalmente percebeu a real intensão daquele golpe até então sem sentido, não havia mais tempo para qualquer reação. Uma grande estalactite caiu exatamente sobre sua cabeça com um grande estrondo, a rocha se partiu em pedaços levantando uma grande quantidade de poeira, seguida por um grande silencio que durou alguns segundos, em que o resultado final do duelo permaneceu indefinido. O que veio a seguir foi algo imprevisto, uma gigantesca explosão dizimou todos os pedaços de rocha que jaziam sobre o corpo de Tártaro, revelando uma forma até então desconhecida do Primordial. Seu corpo se tornara algo disforme, como se os olhos de quem o visse não fossem capazes de interpretar o que viam, era como se seu corpo tivesse se dissolvido em algo parecido com sombras, mas chamar aquilo de sombras parecia errado, não eram sombras reais, era algo diferente e desconhecido, algo que ainda não fora nomeado pelos homens, algo aterrorizante. A única parte de seu corpo em que era possível descrever algo era seu rosto, sua pele se tornara escura e seca, sua expressão era de fúria, e seus olhos transmitiam um brilho vermelho perturbador.
— Você vai se arrepender disso maldi.... –
Certo de que não haveria mais oportunidades de vencer, Percy se aproveitou da explosão de fúria da personificação do poço e avançou em direção a ele para desferir o golpe que lhe daria a vitória. Com as duas espadas em mãos ele desferiu dois golpes diagonais no que seria o tronco do Primordial, mas para o seu terrível lamento as espadas passaram por ele com se cortassem vapor. O filho de Poseidon se viu completamente indefeso em frente ao seu inimigo, e só pode assistir enquanto uma enorme onda de energia negra explodia bem em frente aos seus olhos. A explosão foi catastrófica, e destruiu tudo ao seu redor, rochas se desprendiam do teto, enquanto tudo parecia ruir, sala foi praticamente destruída e a escuridão tomou conta do local.
—--x---
Passos disformes ecoavam no local, muito provavelmente devido ao terreno irregular, Tártaro estalou os dedos e conjurou uma tocha de fogo azul para que o outro pudesse vê-lo. Sua forma anterior tinha regredido e sua aparência normal havia retornado, ele olhou sem expressão para o Imortal caído sobre os destroços de uma rocha, havia ferimentos por todo o seu corpo, alguns membros pareciam virados em ângulos impossíveis e vários ossos estavam quebrados, enquanto um fio de consciência o mantinha acordado.
— Poderia ter sido diferente garoto, mas você é muito ambicioso, a coisas que não devem ser tocadas por vocês mortais. Depois de hoje apesar de tudo, você tem o meu respeito, mas infelizmente isso tem que acabar agora. – Tártaro falou enquanto o olhava com certa admiração. –
— P-Pelo ao menos eu ganhei, né?.... – Percy murmurou com uma voz fraca. —
— O que? – Ele estranhou. –
— Sem poderes lembra.... – Disse enquanto sua consciência lentamente o abandonava. –
— Garoto, você é um desgraçado.... Mas também é digno, quando acordar prossiga em sua... –
Percy não pode ouvir o resto pois havia desmaiado, várias horas se passaram até que ele acordasse novamente. A maioria dos seus ferimentos ainda estavam drenando suas forças, mas os piores já haviam sidos curados, como seus ossos e cortes mais profundos, parecia que nova força o percorria, diferente de tudo que ele já experimentado, era selvagem e ardente, algo que o fazia ter vontade de levanta-se e seguir em frente, provavelmente essa era a sensação de enfim ter conseguido concluir o seu plano, agora tudo o que ele precisava fazer era atravessar a sala e adentrar a tão esperada passagem, mas nas suas condições atuais até isso era um desafio. Ele caminhou vagarosamente em meio a escuridão guiado apenas pela luz emitida de cima do altar, “seria terrível me olhar num espelho agora”, ele pensou, “ainda mais estando prestes a encontrar com ela”, mas isso teria de ficar em segundo plano, no momento ele não tinha forças nem para conjurar uma roupa nova.
Finalmente ele chegou ao altar, a luz branca tornara-se cada vez mais forte a medida que ele se aproximava e agora ele se encontrava em frente a ela, encarando-a e pensando se ela era mesmo real. Decidido a seguir em frente, ele esticou sua mão em direção a pequena rachadura no ar, de início nada aconteceu, mas ao se aproximar mais da fonte de luz, seu membro pareceu começar a se dissolver e ser sugado para o interior da passagem, assustado ele puxou sua mão rapidamente e procurou se acalmar para dar continuidade a travessia. Novamente ele esticou sua mão em direção a luz, dessa vez sem hesitação, sua pele, carne, e ossos começaram a dissolver em pequenos pontos de luz enquanto ele fechava seus olhos, logo foi a vez de seu braço, tronco, pernas, e face, a sensação era aterrorizante e ao mesmo tempo incrível, quando ele abriu seus olhos novamente, uma visão inacreditável inundou seus olhos com uma beleza ímpar.
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