Night Shadow

18 Ponto sem retorno


Notas iniciais
Olá leitores, bem eu tenho algumas coisas a dizer então eu recomendo que leiam isso. Primeiro eu quero pedir desculpas porque mais uma vez não consegui terminar o que prometi a tempo, este cap era para ser o penúltimo da fic contendo algumas explicações e diálogos importantes para a história, mais a batalha final restando apenas o epilogo. Mas devido ao início das aulas da faculdade meu tempo livre se reduziu a zero e por isso para não deixar a fic semanas sem postagem eu decidi postar o cap contendo apenas a parte inicial do projeto original ficando para o próximo a batalha. Vou tentar me desdobrar para não demorar muito, espero contar com a compreensão de vcs que leram até aqui. Boa Leitura!

Interior do Palácio da Noite, momentos antes do início do conflito.

Após a retirada do campo de batalha, os semideuses da noite se acumularam no jardim do Palácio, quatro meninos se juntaram para forçar os pesados portões de ouro que se fecharam com um poderoso estalo. Enquanto isso, outros tantos correram para as outras extremidades da muralha para realizar a mesma tarefa. Outra equipe dessa vez formada por aqueles versados na arte da magia começou a desenhar círculos mágicos no chão, o ato seria necessário para auxiliar Calipso no transporte dos semideuses que ficaram no exterior da muralha, logo, centenas de corpos apareceram dentro dos círculos que brilharam intensamente com a magia da filha de Atlas.

Os semideuses olimpianos em sua maioria estavam em perfeito estado de saúde, encontravam-se apenas imersos em um profundo sono, e por isso não necessitavam de nenhum tipo de atenção, tanto que foram deixados ali mesmo, jogados no chão pavimentado por pedras que pelo menos eram mais quentes do que o gelo.

Mas a maior preocupação dos Heróis naquele momento era para com os aliados feridos, dentre eles, um em especial necessitava de cuidados urgentes, tratava-se do estopim de toda a batalha, a garota até então desconhecida que intrigava a todos e era o maior ponto de interrogação em meio a todo o caos existente. Helena havia sofrido um grave ferimento na região do abdômen, um buraco com um diâmetro aproximado de uma mão fechada fora aberto pela lança atirada pela deusa da sabedoria, parte de seus órgãos estavam expostos, e a quantidade de sangue perdida fora tanta que a hemorragia quase já havia cessado naturalmente pela escassez de sangue, sua pele assim como seu rosto haviam perdido totalmente a coloração dando lugar a uma terrível palidez. Seus lábios estavam cinza e ressecados, entreabertos expelindo fracas lufadas de ar. E mesmo diante de tal quadro, milagrosamente ela continuava respirando fracamente, com seus batimentos descompassados e irregulares, mortalmente ferida, mas ainda viva.

Carregada em uma maca, os semideuses a levaram para ala hospitalar do Palácio, imediatamente eles iniciaram o tratamento para tentar salvar a vida da filha de Poseidon. O ferimento foi coberto com diversas camadas de gaze e atado a bandagens para evitar a continuidade da hemorragia, uma bolsa de sangue foi pendurada na cabeceira do leito, ao passo em que a agulha foi introduzida em seu braço dando início a transfusão emergencial. No lado oposto do quarto, uma substancia era rapidamente preparada em um pequeno tubo de ensaio. Ervas, raízes, néctar, e ambrosia tudo fora triturado, amassado, e misturado dando forma a um composto arroxeado, o liquido foi sorvido por uma grande seringa e então aplicado na jugular da semideusa que esboçou uma pequena reação de dor ao ato contraindo os músculos da face ainda pálidos.

No canto do leito, uma pequena tela marcava seus sinais vitais, cerca de seis discípulos de Calipso se mobilizavam em torno dos esforços para recuperação de Helena, no entanto, mesmo diante dos esforços incansáveis dos mesmos, os aparelhos começaram a sinalizar a queda dos batimentos, a respiração ficou rarefeita, vários bipes começaram a soar como uma melodia da morte, de súbito o peito que descia e subia lentamente estacou, o bipe frenético se extinguiu.

Ela não respirava mais

O coração parou

Estava morta

Simplesmente

morta.

Subterrâneo do Palácio, naquele mesmo momento.

Vários níveis abaixo do térreo da morada dos Night Shadows, havia um complexo emaranhado de tuneis subterrâneos que levavam a diversas câmaras e salas ocultas. Em uma destas passagens, um homem trajando uma armadura de batalha dourada com diversos detalhes em azul claro descia uma escadaria aparentemente sem fim, seus passos eram pesados e ecoavam ao longo de todas as imediações. Depois de vários minutos galgando os degraus sem descanso, ele finalmente alcançou um grande corredor escuro que seguia em linha reta por centenas de metros. Incomodado com a ausência de luz, o homem ergueu seu punho circundado por pequenos raios que soltavam faíscas e produziam um ruído elétrico característico, uma voz ainda desconhecida pelo individuo clamava pelo seu avanço, seduzindo-o com palavras adocicadas e o impelindo a seguir em frente.

Alguns passos adiante o homem parou, sentiu uma presença atrás de si e se voltou com cautela, atrás dele, a figura de uma mulher alta com um vestido inteiramente negro foi imediatamente reconhecida por ele. A mulher a exemplo de suas vestes tinha um longo cabelo preto que caia livre sobre suas costas, seu rosto tinha feições afiladas, e usava maquiagem pesada em tons escuros o que acrescentava ainda mais a sua aparência sombria. Tinha um corpo extremamente atraente, possuidor de curvas sinuosas que impressionariam qualquer homem, trazia um sorriso debochado e as mãos junto a cintura como quem pega uma criança em meio a uma travessura, o que irritou o invasor.

— Vejamos quem está aqui – A mulher cruzou os braços e alargou o sorriso. – O todo poderoso deus dos trovões, rei do Olimpo e da purpurina, Zeus em carne e osso, a que devemos a honra de tal visita em nossos humildes aposentos?

— Stix, tem sorte de eu não dispor do tempo necessário para adestrá-la devidamente, algo que eu já deveria ter feito a muito tempo, agora saia daqui antes que eu perca a paciência. – Zeus trovejou amargamente.

— Não pode ser — Ela arregalou os olhos e fez uma posse teatral. — Não me diga que pretende tomar meu corpo a força? – Ela espalmou as mãos no rosto. — Por favor não, esse corpinho pertence a uma outra pessoa, você não pode tê-lo.

— Tsc... Você me enoja. – Disse ele dando as costas a apresentação de Stix, e vendo uma rajada de fogo infernal explodir a sua frente estilhaçando o piso e quase o queimando com as chamas negras.

— Preste atenção enquanto eu estiver falando seu verme imundo. – Ela o encarou com olhos coléricos contrastando com as brincadeiras de poucos segundos atrás. – Acha mesmo que pode vir aqui e fazer o que quiser?

— Então você vai mesmo interferir neste conflito? Pior ainda vai ficar ao lado daquele moleque? Você é mesmo uma puta louca. –

— Você realmente não sabe com quem está mexendo seu deusinho de merda. – Seus punhos se incendiaram com fogo infernal, suas madeixas começaram a flutuar no ar como se a gravidade tivesse desaparecido, e seus olhos foram tomados pela escuridão transformando-os em dois perturbadores orbes vazios e obscuros.

— Agora deixe-me mostra-lo... – Ela ergueu a mão direita no ar e pequenas gavinhas feitas de pura escuridão começaram a serpentear o ar, Zeus cobriu-se de raios preparado para o combate, mas se surpreendeu ao ver seus raios recuarem para longe da semiprimordial como se as sombras devorassem toda a matéria ao seu redor. — O verdadeiro desespero... – Ela fechou seu punho com força e as sombras avançaram para devorar a essência do deus, mas antes que o alcançassem elas simplesmente se desfizeram no ar e um punho se chocou com a cabeça de Stix.

— Stix, você me desobedeceu de novo. – Nix surgiu quase imperceptivelmente e repreendeu sua filha. – Eu disse para não interferir nessa luta. –

— Mas Mãe ele me xingou. – Ela falou infantilmente fazendo a primordial massagear as têmporas. –

— Tudo bem deixe isso comigo, eu também tenho que trocar algumas palavras com ele, agora vá lá em cima você sabe o que fazer. – Stix concordou e se dissolveu em sombras, mas não antes de encarar o deus com um olhar mortífero.

— Você tem sorte Zeus, muita sorte, mas não apareça na minha frente novamente ou nem mesmo Caos vai livrá-lo do destino que eu lhe preparei. –

— Esta sua maldita cria é louca. – Ele encarou a primordial internamente aliviado pela suposta não participação dela no curso da guerra.

— Ela é um pouco bipolar apenas, mas isto não lhe dá o direito de difamá-la, ainda mais na minha frente, contenha sua língua ou eu posso mudar de ideia quanto a minha neutralidade. – Nix o ameaçou com olhos frios.

— Então, você disse que tinha algo a me dizer – O deus quis mudar logo de assunto. – O que é?

— Na verdade eu vim alertá-lo – A Primordial exclamou soturna. – Estes acontecimentos, esta conversa, esta guerra, tudo havia sido decidido há centenas de anos atrás, quando um único momento, uma única decisão, desenhou toda uma era deste universo, seu começo, meio e fim.

— O que está dizendo? Está querendo dizer que eu estou destinado a perder e morrer pelas mãos de uma pífia parte de meu sangue? -

— Todo ciclo tem um fim Zeus, tudo que começa inevitavelmente encontra seu fim, seja em um dia, um milênio, ou uma era, mesmo nós imortais em algum momento retornaremos para o que nos originou e mais uma vez faremos parte de algo maior, unos e infindáveis no universo.

— Eu nunca ouvi tamanha loucura, qual seria o significado de “imortalidade” então? Talvez o tempo esteja retirando sua sanidade Nix. –

— Todas as coisas são imortais, até mesmo a folha seca que cai da arvore no outono, neste mesmo momento quantas coisas desconhecidas estão vagando na escuridão inexorável do universo, quantas delas existem antes mesmo de mim ou de você? E quem se lembra delas? O esquecimento é o único e verdadeiro abismo intransponível existente. “Nada se desfaz, mas tudo se transforma” até os humanos dizem algo parecido com isso, no fundo eles tem razão. – Durante a conversa Nix se pôs a caminhar e Zeus passou a acompanha-la. – Mas assim como você deve imaginar, minha intensão não é a de compartilhar tais questões com você sem um proposito, lá no início eu disse que tudo já havia sido previsto inclusive esta conversa, entretanto, esta não é toda a verdade.

— O que seria então? – Zeus estava confuso com todos aqueles fatos.

— O ser que está o guiando, ele se chama Kraken. –

— O que? Mas isto é só uma lenda. – O deus se lembrou das antigas histórias contadas por sua mãe Reia há milhares de anos atrás.

— Não é. O Kraken foi um dos primeiros seres conscientes a surgir no universo, mas há uma peculiaridade que o torna diferente de tudo que existe e já existiu, diferente de toda matéria, ele criou a si mesmo a partir dele mesmo. – Contou vendo um portão gigantesco de mais de vinte metros surgir a algumas centenas de metros a frente. – Controverso não? Tudo foi criado por Caos quando uma pequena partícula foi soprada por ele, tudo, menos esta criatura. O que eu quero dizer com toda esta conversa Zeus, é que no momento que você se entregar a este ser, você não ganhará poder, você não ganhará nada, pelo contrário, você perderá a si mesmo, perderá sua essência que será totalmente consumida por ele, tudo o que restará será apenas uma casca irracional guiada apenas por seus extintos.

— E o que me resta agora? – Disse o deus sentindo as energias dos Olimpianos sumindo uma a uma. – Meus irmãos foram derrotados, meu reino está por um fio, nossos filhos provavelmente se virarão contra nós, o que eu tenho a perder?

— Sua honra, ou que resta dela, se a derrota é inevitável pelo menos seja derrotado com dignidade, como você mesmo. – A primordial cessou seus passos a dez metros do portão. – Este é meu último aviso, depois que adentrar a estes portões você nunca mais retornará.

— Eu agradeço, mesmo que você esteja aqui apenas pelo seu protegido, eu agradeço por sua disposição em tentar me orientar, mas eu não posso voltar atrás. – O deus afirmou em tom de pesar não muito condizente com sua personalidade.

— Esteja ciente dos seus atos, e adeus deus dos trovões. – Nix se dissolveu lentamente em sombras.

Zeus observou os portões a sua frente, eram feitos de rocha pura, cada um com símbolo estranho talhado no centro. Ele se aproximou e os pesados blocos de rocha começaram a deslizar abrindo passagem para o interior de uma câmara úmida e completamente tomada pelo breu, uma fumaça morna e um forte cheiro de enxofre entorpeceram seus sentidos assim que ele adentrou ao local. Não havia nada de especial ali e nem um detalhe que chamasse a atenção dentro da caverna, exceto por uma coisa, bem no centro do lugar três degraus acima do chão, um grande recipiente de ouro parecido com um caldeirão brilhava fracamente em meio a toda escuridão.

A voz que invadia seus pensamentos até alguns momentos atrás voltou com força total, e o que eram apenas fracos sussurros se tornaram uma voz grave e perturbadora, que o chamava para provar de seu sangue. O deus subiu ao pequeno altar e fitou o liquido negro e espesso contido no recipiente, Zeus relembrou os milhares de anos que se passaram desde quando ele lutou ao lado de seus irmãos e irmãs para libertar o mundo da tirania e crueldade dos seus pais, e mesmo que por um breve momento, ele questionou a validade dos seus atos, se as palavras de Nix realmente fossem verdadeiras e a rendição fosse a melhor opção para tentar resgatar um pouco da honra da olimpiana. No entanto, este simples pensamento pareceu ter despertado seu “eu” verdadeiro, e o ódio que ele sentia por seu maior inimigo mais uma vez se reacendeu.

Se render?

Nunca, ele jamais poderia deixar Percy Jackson tomar seu lugar, como o ser mais poderoso do mundo poderia ser superado por uma simples cria, ainda mais do seu irmão tolo? Como ele poderia ser acusado de ter errado, se ele mesmo é quem deveria dizer o que é certo ou errado? Ele colocaria todos em seus devidos lugares, lambendo o chão no qual ele cuspiu e limpou seus calçados, mostrando-os quem realmente era o rei dos deuses. Tomado por estes pensamentos ele mergulhou sua cabeça dentro do sangue do Kraken, e começou a beber furiosamente o liquido inescrupuloso, até que engasgou e caiu de joelhos apoiando-se no caldeirão.

Primeiro ele sentiu seu corpo inteiro arder como se as chamas de Stix estivessem o consumindo, logo depois veio a terrível pressão dentro de sua cabeça, ele gritou e urrou como se seu crânio fosse se partir de dentro para fora, seus raios se descontrolaram e começaram a destruir tudo ao seu redor, e a última coisa vista por ele enquanto consciente fora o teto da caverna caindo sobre si.

Zeus já não existia, o antigo deus do trovão teve sua essência destruída e dispersada pelo cosmo, o antigo corpo do deus se transformou para abrigar um novo ser, seus membros se alongaram assim como seu tronco, duas asas pontiagudas brotaram de suas costas. Seu rosto mudou completamente, em nada lembrando sua antiga aparência, suas orelhas cresceram e se estreitaram nas pontas, seus dentes se tornaram presas, e seus olhos assim como sua pele ganharam uma cor cinza dando ao antigo deus uma aparência demoníaca.

A criatura liberou seus poderes insanos fazendo raios escuros mesclados a escuridão destruírem tudo ao seu redor, a potência do ataque era a mesma de uma bomba atômica humana e se a detonação não ocorresse a centenas de metros abaixo do solo certamente vários quilômetros de terra seriam dizimados. Entretanto, o que possivelmente salvou as vidas de milhares de mortais também teve um alto preço, o Palácio da Noite ruiu restando apenas uma gigantesca cratera onde antes existia o centro de poder dos Night Shadows.

E a montanha que antes abrigou em um curto espaço de tempo tantos conflitos e historias, agora aparentava ser apenas um decrepito tumulo do que um dia já foi. O “casca” de Zeus alçou voo rumo aos céus de onde pode observar os seus inimigos reunidos no chão, a batalha que estava prestes a se desenrolar colocaria um ponto final na história, agora restava a dúvida de qual historia seria terminada, se seria a dos olimpianos, ou de todo o universo.

Notas finais
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