Night Shadow
13 Justiça
Notas iniciais
Imagine o espaço, um local infinito repleto de escuridão e de minúsculos pontos de luz, onde o desconhecido habita e acusa a curiosidade dos homens desde o início dos tempos. Imagine que de alguma forma você pudesse sobreviver neste local tão inóspito, imagine-se à deriva, perdido no meio do infinito, para abaixo, para cima, para o lado, tudo que à ao seu redor é somente o nada. Agora imagine que ao invés da escuridão houvesse uma luz cálida e reconfortante que preenchesse tudo e ilumina-se o infinito, se houvesse algo parecido com o céu com certeza seria aquele lugar.
Pontos de luz das mais diversas cores dançavam ao longe, talvez a centenas de metros ou a centenas de milhares de quilômetros, era impossível dizer. Nuvens de poeira rosa, vermelha, verde e de muitas outras cores serpenteavam ao redor dos pontos de luz, tudo parecia lindo e impossível, a beleza sobrepujava todo o resto, inclusive o medo do desconhecido. Percy tivera a chance de sentir tudo isto, quando abriu seus olhos após a travessia para a fenda dimensional.
Assim, como o dito por Tártaro aquele era um local conhecido somente pelos imortais mais puros e honrados, aquele era o refúgio de Primordiais, Titãs, e deuses que haviam se cansado dos mundos do universo criado por Caos. Ali havia uma espécie de intersecção entre todos os mundos, uma conexão entre o multiverso. O local era habitado principalmente por deuses desaparecidos, Primordiais adormecidos, e outras divindades pertencentes a inúmeros mundos diferentes.
De início Percy se sentira perdido em meio a toda aquela imensidão, ele tentara imaginar como seria aquele local diversas vezes, mas nunca chegou nem perto da realidade. Depois de passada a surpresa inicial, ele começou a pensar com mais clareza sobre como seriam seus próximos passos, e isto trouxe uma pergunta à tona. Como diabos ele encontraria ela ou qualquer pessoa naquele lugar? Mesmo sabendo que não era verdade, ele não podia conter o sentimento de que estava sozinho e sem ingresso de partida, perdido num local impossível de acessado, e sem qualquer ajuda exterior.
Como se respondesse as suas dúvidas, um pequeno feixe de luz brilhou fortemente ao longe, como se o chamasse e o guiasse em direção ao seu destino. Sem outras alternativas, ele começou a se encaminhar em direção a luz que o guiava, era curioso pensar na palavra “caminhar”, não era bem isso, era mais como flutuar ou deslizar, simplesmente imaginar-se indo naquela direção e então começar a se mover. Depois de alguns instantes de ansiedade, ele finalmente chegou tão perto da luz que inevitavelmente teve que cobrir os seus olhos para proteger-se da luz intensa, que subitamente enfraqueceu-se e revelou a tão esperada figura.
Assim que abriu seus olhos, a primeira visão que ele teve foi de um belíssimo jardim jamais visto por ele, sua beleza de longe superava todos os outros do mundo mortal. Arvores frondosas se erguiam até o alto com folhas dos mais diversos formatos e tons de verde, um gramado cobria o chão como um tapete perfeito, lindas flores coloriam todo o local em tons impossíveis que faziam os olhos de quem visse entrarem em êxtase, vermelho carmesim, amarelo vivido, azul celeste, violeta, as pétalas pareciam emitir um brilho especial como se tentassem superar umas às outras. Pedras translucidas espalhadas pelo chão refletiam o brilho das flores complementando ainda mais todo o cenário, sentada sobre uma dessas pedras uma linda mulher polia uma espada graciosamente, sua face permanecia tranquila como se nenhum mal pudesse toca-la. Ela vestia uma túnica grega branca e turquesa, sandálias de couro calçavam seus pés, enquanto fios de ouro sustentavam seu penteado tipicamente grego, seu cabelo cacheado era longo e castanho assim como os seus olhos que se voltaram para o recém-chegado que se ajoelhou perante ela.
— Lady Themis. – Cumprimentou respeitosamente. –
— Perseu Aquiles Jackson. – Falou ela com uma voz aveludada e cheia de poder, ela exalava um ar de autoridade de forma que suas palavras pareciam algo impossível de serem contestadas. –
— É uma honra conhece-la, peço perdão pelo meu estado, mas como a senhora deve saber tive de passar por alguns obstáculos antes de chegar até aqui. – Disse ele desculpando-se. –
— Levante-se, eu dispenso estes tratamentos formais, também não precisa desculpar-se, enfrentar alguém como Tártaro e sair vivo é algo bem memorável, por isso não se contenha. – Amenizou ela com a espada em seu colo e uma costura digna de uma deusa. – Venho esperando sua visita a muito tempo. –
— Bom, isto é uma surpresa, eu não imaginava. – Exclamou ele ficando de pé. –
— Eu vejo tudo Percy, eu vejo através de você e sei de todas as injustiças praticadas no mundo, eu enxergo o sentimento de vingança que arde dentro de você, e também sei sobre o pedido que você veio me fazer. – Falou ela com uma voz um pouco melancólica. –
— Eu peço perdão pela minha ousadia de vir até aqui e pedir-lhe algo desse tipo, mas a senhora é única detentora de um instrumento capaz de trazer de volta a ordem ao mundo mortal sem tirar as vidas de seres inocentes. Punir os culpados por todo o sofrimento infringido a inúmeras vidas sem trazer a mazela da punição aos inocentes, eu acredito que isso é a justiça. – Disse ele com um ar determinado. –
— Vingança não é justiça Percy, você deve entender isto se pretende ser um governante justo. – Murmurou ela de olhos fechados. –
— Eu enten.... –
— Mas isto não quer dizer que eu não concorde com você, as ações irresponsáveis dos Olimpianos merecem sim uma punição. – Disse ela abrindo seus olhos e encarando-o profundamente. – Você poderia muito bem ir à guerra através dos meios convencionais, mas prefere buscar um modo muito mais difícil, porém, mais correto de fazer as coisas, eu o admiro por isso, mas ainda não sei é razão suficiente para dar-lhe algo tão poderoso como isso. –
Themis esticou sua mão com a palma virada para baixo, e ao seu lado um brilho dourado surgiu revelando o instrumento capaz de pôr um fim à guerra.
— A balança da justiça. – Percy admirou-se. – O item capaz de ceifar o destino de todos, passando até mesmo pelas irmãs do destino, apenas Ananke tem poder suficiente para impedi-la. –
— Exatamente, vejo que Nix contou-lhe tudo sobre ela antes de vir até aqui, imagino que fora ela que lhe contou sobre a localização deste local também. – Supôs ela. –
— Sim, ela contou-me sobre tudo isto tempos atrás, sempre pensei sobre a possibilidade de vir até aqui, mas faltava algo, um incentivo digamos assim, e ele surgiu recentemente. – Respondeu ele em tom baixo. –
— A dor é algo curioso, não é? Ela nos faz sofrer, mas ao mesmo tempo nos torna mais fortes e resistentes para enfrentarmos o futuro incerto. – Falou ela enquanto observava sua espada. –
— Você está certa, mas a dor sentida por aqueles que amamos muitas vezes nos fere mais do que nossas próprias dores. – Respondeu ele. –
— Você é uma pessoa muito curiosa Percy, o egoísmo que domina os homens foi uma das muitas causas que me fizeram abandonar o mundo mortal, mesmo assim você parece ser o completo oposto disso, e também parece ser alguém realmente capaz de mudar toda esta realidade. – Disse ela olhando-o novamente nos olhos. – Eu vou lhe conceder a chance de usar a Justiça para os seus fins, mas preste atenção, você só poderá usa-la uma única vez, depois disso ela voltará para sua dona por direito, portanto use-a com sabedoria. –
— Muito obrigado Lady Themis, a senhora não vai se arrepender de sua decisão, eu farei a ordem ser reestabelecida, e com isso os seus domínios voltaram a ter significado. – Agradeceu ele. –
— E talvez um dia eu retorne para a terra se você realmente conseguir concluir seus planos, no entanto, a mais coisas que devemos tratar antes de manda-lo de volta. – Falou ela em um tom distante. – Nico di Angelo corre perigo. –
— Nico? Que tipo de perigo? – Questionou ele. –
— Ele foi capturado durante a reunião que discutiu os ataques acontecidos no seu Palácio, ele está sendo torturado em troca de informações sobre vocês neste exato momento. – Revelou ela. –
— Não pode ser, eu tenho que voltar agora para resgata-lo. – Disse ele com urgência. –
— Vejo que ainda é muito impaciente Percy. – Uma voz recém-chegada se fez ser ouvida. –
— Lady Hestia? – Percy se surpreendeu. –
— Há quanto tempo meu jovem herói. – Saudou ela. –
— A senhora também se retirou do mundo mortal? – Perguntou ele. -
— Eu creio que sim, o mundo já não era um local caloroso como era antigamente, a lareira e a família não têm mais espaço neste mundo tão corrompido. – Respondeu ela em tom de lamentação. –
— Eu sinto muito, mas eu devo dizer que também estou aliviado pelo fato da senhora não estar mais entre os Olimpianos. – Confessou ele. –
— Eu entendo, desde o início da guerra contra Gaia eu já não concordava com as decisões tomadas por eles, e como minha palavra não tinha força suficiente dentro do conselho, eu decidi me refugiar neste local. Acredito que eles pensem que eu entrei em um sono profundo, e como eu era uma deusa pacifica eles não devem sentir minha falta neste momento. – Explicou ela. –
— Mas logo sentirão, pois não terão mais um lar para qual voltar. – Disse ele sorrindo junto com ela. – Mas voltando ao assunto anterior, eu realmente preciso fazer algo a respeito disso. –
— Não se preocupe, neste caso eu vou apoia-lo, e por isso eu vou lhe conceder os meios necessários para salva-lo. – Themis deliberou. –
— Perdoe minha dúvida Lady Themis, mas por que a senhora resolveu interferir neste caso? Creio eu que conceder-me tal poder já seja uma interferência bem grande para alguém que decidiu deixar os assuntos mortais. – Questionou ele. -
— Eu vejo todas as injustiças Percy, já havia lhe dito antes, você está certo ao dizer que eu deixei os assuntos mortais, mas isso não quer dizer que não me importe, e já que você está aqui, não vejo porque não ajuda-lo. – Disse ela. –
— Tudo bem, então como devo prosseguir? – Perguntou ele. –
Nos próximos minutos, Themis, Hestia, e Percy discutiram possibilidades e informações para chegar em um plano com a maior chance de sucesso. A deusa da lareira forneceu informações a respeito do Olimpo e sobre os prováveis locais de cativeiro do filho de Hades. A deusa da justiça elaborou as estratégias sobre como as negociações deveriam ser feitas levando em conta a personalidade de Zeus de dos outros deuses. E o Night Shadow sugeriu as melhores formas de utilizar as habilidades dos seus companheiros em prol da missão.
— Então isso é tudo, este plano realmente tem grandes chances de ser bem-sucedido. – Themis finalizou as discussões. —
— Realmente, agradeço profundamente a ajuda das duas, acho que a única forma de retribuir tanta ajuda é somente tendo sucesso. – Agradeceu ele. –
— Falou bem Percy, temos muitas expectativas sobre você, de outra forma nós não o ajudaríamos, espero que fique bem e talvez um dia nos reencontremos. – Disse Themis despedindo-se. –
— Eu também espero, adeus Milady. – Respondeu ele. –
— Desejo-lhe sorte em sua busca jovem herói, e lembre-se, você sempre terá um lar para o qual voltar. – Hestia disse com olhar carinhoso. –
— E eu sempre voltarei para casa, Adeus Lady Hestia. – Ele retribuiu o olhar. –
— Antes de ir, eu tenho uma pequena surpresa para você, tive de pedir alguns favores a algumas pessoas, então espero que goste. – Hestia disse por fim tocando-o no ombro enviando-o para um local em especial. –
Percy se viu novamente no mesmo local que havia ficado anteriormente, no meio da fenda dimensional, onde a luz reinava soberana. Por um momento a confusão tomou conta dos seus pensamentos, a última fala da deusa da lareira havia deixado ele no escuro sobre o que viria a seguir, que espécie de presente ela poderia lhe dar? A pergunta foi respondida da forma mais bela e cruel o possível.
— Percy? – A voz vinda de algum ponto atrás de suas costas despertou inúmeros sentimentos dentro dele, surpresa, incredulidade, dor e felicidade. Ele virou-se lentamente em direção a doce voz, e encontrou exatamente aquilo o que mais temia e desejava. –
— M-Mãe? – Sua voz vacilou enquanto seus olhos já começavam a marejar. –
— Querido.... Eu esperei por muito tempo até esse dia. – Disse ela abrindo seus braços que foram prontamente preenchidos pelo seu filho. –
— Mãe, me desculpe por favor.... Eu fiquei longe porque não queria envolve-la, eu não sabia da Helena.... Desculpe por abandona-la e.... – Ele despejou tudo enquanto a abraçava fortemente. –
— Shh.... Não precisa se desculpar querido, eu sei que você fez o seu melhor para nos proteger, o mais importante é que você e sua irmã estão bem. – Sally falou enquanto o afagava em meio ao abraço apertado. -
— Mesmo assim, eu deixei que isso acontecesse com a senhora, eu não tenho nem o direito de pedir perdão, eu também falhei com a minha irmã, ela passou por sofrimentos desnecessários, mesmo agora eu a abandonei para vir até aqui, mas eu prometo que a partir de hoje eu vou protege-la com a minha vida, é a única coisa que eu posso fazer agora. – Disse ele saindo do abraço. -
— Eu sei que você se culpa por tudo isso Percy, é da sua natureza colocar os outros acima de si próprio, mas muitas vezes você acaba não enxergando que os outros também se preocupam com você, Helena é bem mais forte do que você imagina, e quanto a mim a única coisa que me ligava ao mundo eram vocês dois, e agora que estão juntos, eu não tenho mais que me afligir, porque eu sei que vocês dois podem superar qualquer obstáculo que a vida possa colocar diante de vocês. – Ela falou enquanto acariciava seu rosto entre lagrimas. –
— Obrigado, eu não vou desaponta-la. – Afirmou ele secando seu rosto e olhando-a mais atentamente como se quisesse gravar seu rosto para todo o sempre. –
— Eu sei que não querido, mas nosso tempo já está se esgotando, Lady Hestia foi muito bondosa ao usar sua influência para nos dar esse tempo. – Respondeu ela. – Mas antes de ir eu quero que você me prometa algo.... –
— Qualquer coisa. –
— Prometa que nunca mais vai chorar, você precisa ser forte para o que o aguarda, por isso eu quero que me prometa. –
— Eu prometo mãe, eu vou ser forte por todos. –
— Obrigado meu filho. -
— Mãe? –
— Sim, querido. –
— Você está feliz? -
— Eu finalmente posso descansar ao lado de Paul, e cumpri minha missão ao criar vocês dois, então sim querido, eu estou muito feliz. –
Com um último abraço eles se despediram, a dor e a alegria de se reencontrarem mais uma vez disputavam espaço em seus corações, ambos começaram a brilhar enquanto cada um era enviado para o seu respectivo lugar de direito.
—--Flashback End---
— Então foi isso o que aconteceu. – Percy disse, terminando de contar sua história. Seus companheiros o olhavam com um misto de alegria e admiração. –
— E pensar que você enfrentou tudo isso sozinho, você realmente é um maluco. – Megan disse sorrindo. –
— Bem que você podia ter me levado, iria ser muito divertido, mas tudo bem dessa vez eu vou deixar passar. – Thalia brincou. -
— Mas o importante é que tudo deu certo no final. – Akame disse, apertando a mão dele por baixo da mesa. – Agora nós podemos.... –
— Por favor, desculpem a interrupção.... – Danny e Sidney entraram na sala subitamente com expressões alarmadas. – Algo terrível está acontecendo.... -
— O que houve? – Christian perguntou enquanto todos se levantavam. –
— Um exército de semideuses está marchando em direção aos nossos portões.... -
—--x---
Em um grande quarto luxuoso, um homem robusto repousava sobre uma confortável cama, enquanto divagava em meio aos seus pensamentos. Os aposentos eram no mínimo espaçosos para ser bem modesto, as paredes eram pintadas em um tom de azul claro vivido, o teto abobadado exibia imagens de um céu tempestuoso, os moveis conservadores eram feitos de madeiras nobres e requintadas, a cama era tão grande que parecia desproporcional assim como todo o resto, lençóis de seda e travesseiros de penas de aves repousavam sobre o colchão. O homem encarava um ponto qualquer do quarto com uma expressão que denotava inquietude, expressão essa que foi quebrada por uma voz cheia de perversidade e horror.
— Você deseja derrotar seus inimigos? -
— Mas o que? Quem é? –
— O quão grande é o seu desejo de vingança? –
— Apareça logo maldito. –
— Até onde você iria para matar “ele”? –
— O que você quer? Quem diabos é você? Responda antes que eu o destrua. –
— Eu sou aquele que concedeu poderes aos seus inimigos tão odiados, eles se banharam em meu sangue e obtiveram um poder maior ainda que os seus. –
— Então está do lado deles.... O mais forte é aquele que sai com a vitória, e eu garanto que serei eu, diga a todos que.... – A risada demoníaca interrompeu sua fala. –
— Entendo, você é perfeito. Venha até mim pequeno deus e eu lhe darei poder para esmagar todos eles sozinho, ninguém poderá se opor a você, e então o mundo estará sob suas mãos. –
— E por que eu acreditaria em você? –
— Porque você pode sentir a minha sede de sangue, e ver que ela é ainda maior que a sua.— Ronronou a voz em um tom de sedução. – Venha até mim, e beba do meu sangue, ele está sendo mantido num local secreto dentro do ninho deles, mas a questão é, será que você é capaz?.... —
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