Nickyy.

1 Primeira Parte


Notas iniciais
Oie!! Que bom que você veio! Aproveite a leitura e não deixe de comentar!! Espero que goste ♥

Era um ensolarado início de tarde de domingo na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O sol estava cintilante e havia uma brisa movimentando de leve as folhas das árvores.

Nervoso, Nicky se arrumava apressadamente em seu quarto, pois já estava atrasado para o encontro com seu namorado, que apareceria a qualquer momento para buscá-lo. Se enfiou em sua melhor roupa o mais rápido que pôde, e correu para frente do espelho a fim de ajeitar as mechas de seu undercut, com um secador e prancha modeladora, o que, certamente, demoraria um pouco.

Era aniversário de um ano de namoro, e mesmo não querendo que nada desse errado, Nicky não pôde evitar de se atrasar, já que passara a noite em claro assistindo à última temporada de sua série favorita.

Enquanto isso, sua mãe cozinhava animada na cozinha. Ela era uma dessas mães que não conseguem se aquietar, fazendo uma tarefa ou outra da casa, indo à rua e se preocupando com o marido e o único filho. Sempre falante, Regina adorava prolongar os assuntos com as vizinhas, amigas, ou quem quer que fosse. Agitada, andava de um lado para o outro na cozinha quando soou a campainha.

— Já tô indo! — Nicky gritou com sua voz aguda do quarto.

— Pode deixar! — a mãe gritou da cozinha, saindo apressada para atender. Como a casa era pequena, ficava fácil se comunicar de um cômodo a outro.

— Custava abrir, Enofre? — ela resmungou baixinho para o marido, que lia o jornal do dia tranquilamente, descansado no sofá.

Enofre tentava conservar o ar sério, de pai de família. Entre os seus, porém, não podia evitar soltar uma piada ou outra para descontrair de vez em quando. Já quando se tratava de visitas, ele se mantinha calado sempre que podia, sobretudo diante do namorado de seu filho. Não é que ele não gostasse do menino em particular, apenas não fazia questão de conhecê-lo melhor. Mesmo aceitando o fato de Nicky ser gay, Enofre tinha certa dificuldade em lidar com isso, portanto, evitava ao máximo o contato com os namorados do filho — que, na verdade, foram poucos.

Regina abriu a porta e avistou Jaden parado no portão, apreensivo, segurando umas flores. Com seus 19 anos, o namorado de Nicky era um rapaz alto e negro, e, apesar de forte, estava sempre com seu ar tímido e retraído. Sorriu ao ver Regina caminhar pelo quintal acimentado, enxugando as mãos em seu avental florido e pegando a chave pendurada na porta.

— Jaden! — cumprimentou alegre. — Entra, o Nicky tá no quarto se arrumando — disse, abrindo o portão. — Hmm… Flores? — perguntou sorridente.

O rapaz sorriu sem jeito, adentrando o quintal. Mesmo já tendo cruzado aquele portão tantas vezes, não conseguia evitar a timidez, principalmente quando encontrava o pai de Nicky, sempre calado e aparentemente mal-humorado. Aos domingos, quando visitava o namorado ou ia buscá-lo em casa, procurava ir na parte da tarde, para evitar o encontro com Enofre, que todo fim de semana ia jogar bola com os amigos. Naquele dia, porém, por se tratar de uma data especial, teve de marcar mais cedo com Nicky, para passarem mais tempo juntos.

Só de imaginar a cara do pai de Nicky ao ver o buquê de flores em sua mão, Jaden estava quase desistindo e partindo dali. Mas o amor o faria vencer o medo, ou, pelo menos, escondê-lo de si mesmo.

— É… — Jaden escondeu o buquê atrás de si. — É surpresa.

— Ah, entendi. Tá bonitão, hein! Ele tá lá todo nervoso escolhendo uma roupa.

— Ele sempre demora — disse ainda um pouco tenso.

Na sala de estar, Regina o convidou para sentar e voltou apressada para a cozinha. Entretanto o rapaz preferiu ficar de pé ao lado da porta, visto que o único lugar disponível seria ao lado do pai de Nicky.

— Enofre! — exclamou Regina da porta da cozinha, percebendo o silêncio que se fazia presente na casa. — Não vai falar com o menino?

— Oi. — Estendeu a mão, praticamente sem sair da posição, e, após cumprimentá-lo, voltou os olhos ao jornal.

Instantes depois, Nicky apareceu na sala, com um sorriso bobo no rosto ao ver o namorado. Mal podia acreditar: flores! Algo que ele achava romântico e lindo, e que só havia ganhado uma vez de Jaden.

— Não acredito! — exclamou contente, abraçando o namorado, enquanto este sorria envergonhado. — Brigado, seu lindo! — Logo em seguida soltou Jaden repentinamente, lembrando-se da presença de seu pai. — Amei — falou baixinho.

Após guardar o buquê em seu quarto, Nicky se despediu dos pais e saiu de mãos dadas com Jaden, extremamente animado com o passeio.

Mesmo tendo ido ao mesmo shopping que frequentavam sempre, o casal andou para lá e para cá olhando as vitrines das lojas como se tudo fosse novidade. Cansados, enfim, sentaram-se em um banco de madeira em um dos corredores.

Nicky olhava admirado para o namorado, fitando os olhos negros penetrantes e o sorriso, que o cativara logo à primeira vista. Era engraçado pensar que, mesmo morando no mesmo bairro, os dois precisaram ir até um evento de dança de rua, a dois ônibus dali, para se conhecerem. Nicky fora junto com sua melhor amiga, movido pelo seu grande interesse pela dança, já que sonhava em ser um dançarino profissional; Jaden fora apenas por ter sido arrastado por seus amigos, e também por não ter nada melhor para fazer naquele dia.

E assim fora: Nicky o viu e se apaixonou; não hesitou em inventar qualquer assunto para falar com Jaden, e, após vários minutos de conversa, os dois acabaram ficando logo no mesmo dia. Nada como um amor à primeira vista.

Ainda um ano depois, Nicky sentia seu coração pular com o sorriso de Jaden. Parecia tão sincero e completo. Cada vez que o via tinha a certeza do quanto o amava. Sua generosidade e timidez, o modo com que se preocupava com ele, ligando todas as noites para saber se estava bem, ou apenas para ouvir sua voz. Era certo que depois de uma semana corrida de estudos nada fazia Nicky mais feliz do que o namorado no portão de sua casa, com aquele mesmo sorriso de sempre. O mesmo que o fizera se sentir melhor quando estava no hospital por conta de uma dengue. Jaden estava sempre lá, em todos os momentos, e tê-lo ao seu lado não poderia ser mais reconfortante. Nicky tinha a certeza de estar completo em sua companhia e em seus beijos. Impossível negar que o amava e que queria tê-lo para sempre.

— O que foi? — Jaden perguntou com um sorriso tímido, ao notar o olhar penetrante de Nicky.

— Nada… Só tô admirando meu namorado lindo. — Sorriu alegremente.

Apesar de diferentes, ou talvez por isso mesmo, os dois se completavam. Enquanto o mais novo amava o jeito dedicado e tímido do namorado, Jaden se sentia inteiro com a alegria e espontaneidade de Nicky, que procurava sempre colocá-lo pra cima nos momentos mais tristes, como quando sua cadela morreu, por exemplo. Um ano não parecia tanto tempo para tudo pelo que eles haviam passado. Sempre juntos.

— Nem pude comprar nada pra você, né… — disse Nicky, desapontado, abraçando seu mais novo ursinho de pelúcia, que acabara de ganhar. Já fazia um tempo que ele não dava nada para Jaden, e, por mais que ele dissesse não se importar, Nicky adoraria demonstrar todo seu amor comprando-lhe algo especial.

— Ah, amor! — Jaden sorriu como se dissesse que estava tudo bem. — Você sabe que eu não ligo pra isso, além do mais, ter você aqui é o melhor presente de todos. E também meu presente foi bobo e clichê, vai…

Nicky o empurrou de leve para o lado.

— Bobo nada! Eu amei. Achei superfofo, amor. E quem não resiste a um clichê, hein? — Nicky abraçou-lhe demoradamente, dando-lhe um beijo em seguida. — Eu te amo — disse com um sorriso carinhoso.

— Eu também — sorriu um pouco tímido —, mas melhor a gente sair daqui, porque já tá todo mundo olhando.

— Ah, Jaden — falou, quebrando o clima romântico com o tom um pouco irritado. —Toda vez é isso… A gente não pode ficar se escondendo, deixa o povo olhar.

— Por favor, vamos sair. — Jaden já ia se levantando, quando um homem passou chamando os dois de “viadinhos, bichinhas”, entre outros apelidos mais agressivos. Como se não bastasse, algumas pessoas em volta o apoiavam, reforçando as agressões.

— Sou viado mesmo! — Nicky gritou, já alterado.

Na mesma hora, nervoso, Jaden o puxou pela mão, conduzindo-o para fora do shopping.

Não era a primeira vez aquilo acontecia, e, certamente, se repetiria muito mais vezes se Jaden não evitasse locais cheios. Apesar de sua idade, Nicky fora seu primeiro namorado e o processo de aceitação estava sendo um pouco mais difícil, e claro que os olhares maldosos que recebiam na rua não ajudavam muito. Por esse motivo, Jaden evitava qualquer contato íntimo quando em público, até mesmo dar as mãos. Os dois raramente brigavam, mas quando acontecia, sempre era pelo mesmo motivo.

— Tá bom, Jaden. — Nicky se soltou de sua mão e continuou andando. — Ótimo, vou embora, então.

— Amor, espera, se acalma — Jaden pediu, indo atrás dele.

Nicky fez sinal para o primeiro ônibus que apareceu e entrou, sendo seguido por Jaden.

— Esse ônibus não serve pra gente — ele disse, preocupado. Mesmo assim, pagou a passagem e entrou atrás de Nicky, que se sentou no último banco.

— Cansei disso, Jaden. Sério, é sempre assim… — disse angustiado. — A gente se escondendo de todo mundo, como se fossemos bandidos, sei lá.

— Eu também não gosto disso, Nicky, mas… O que a gente pode fazer, hein?

— Não sei… Podemos começar não abaixando a cabeça pra esse imbecis, como você faz sempre.

Jaden passou a mão pelos cabelos.

— Desculpa, Nicky…

— Não, eu… — Nicky suspirou e tentou se acalmar pela expressão triste de Jaden. — Você não tem culpa. Mas é que… Não importa, vai. — Simulou um sorriso. — Não queria estragar nosso dia.

— Nenhum de nós tem culpa. Eu te amo. — Deu-lhe um beijo sincero. — Eu tô tentando, sabe… É difícil.

— Eu sei bem! E sei também que você só tá me beijando porque o ônibus tá quase vazio. — Sorriu, fingindo estar revoltado, ao que Jaden lhe sorriu, admitindo. — Mas não importa — Nicky continuou. — Não quero brigar com você mais uma vez por isso. — Encostou a cabeça no ombro de Jaden, que o abraçou apertado. Por um segundo nada importava mais além de estarem juntos. — Vamo curtir a viagem.

— Esse ônibus não serve pra gente — Jaden falou baixinho, de olhos fechados.

— Eu sei.

Mas, como um segundo dura pouco, fitando a paisagem através da janela, Nicky sentiu uma pequena palpitação somente ao lembrar-se do dia em que finalmente revelara a seus pais sobre sua sexualidade. Contava então com seus 13 anos e, já tendo adiado aquele momento por tanto tempo, não viu outra solução se não principiar de uma só vez o assunto. Respirou fundo naquela noite sentado à mesa de jantar com seus pais. Sentia a garganta seca e uma sensação estranha na barriga — que ia e vinha como as ondas do mar —, enquanto tentava conter qualquer lágrima que pudesse surgir. Os dedos não paravam quietos, e ele já estava quase suando frio quando disse, de repente, surpreendendo até a si mesmo:

— E se eu fosse gay?

Apesar de ser uma pergunta, o tom era praticamente de afirmação. Seu pai sentiu como se tomasse uma facada repentina no peito. Não é que ele não desconfiasse de que seu filho pudesse ser gay, mas, definitivamente, não estava esperando por aquilo enquanto comia tranquilamente. Aliás, apesar de desconfiar, Enofre não esperava por aquilo em momento algum.

A mãe também tomou um susto, porém com menos intensidade. Ela, ao contrário do marido, ansiava pelo momento em que o filho, enfim, dissesse a verdade, que já se fazia óbvia há tanto tempo. Com toda sua compaixão, Regina olhou para o filho, querendo demonstrar que estava tudo bem. Em seguida, desviou o olhar para o marido, esperando que ele dissesse qualquer coisa.

Nicky não sabia o que esperar de seus pais e permanecia imóvel na cadeira, com o mesmo nervosismo persistente. Os segundos de silêncio pareciam tão longos para Nicky, que ele já estava duvidando de que tivesse dito algo.

Por fim, Enofre disse, em um tom sério, ainda mastigando a comida:

— Se você fosse gay… a gente ia te expulsar de casa.

O coração de Nicky disparou no mesmo instante, e, provavelmente, ele começaria a chorar ali mesmo se não percebesse, com alívio, a intervenção de sua mãe ao dizer ao marido que aquela não era uma boa hora para piadas. Era certo que Enofre tinha o incrível dom de fazer brincadeiras, permanecendo totalmente sério, sem esboçar qualquer sorriso, porém, ainda é mistério saber até que ponto aquela fora apenas mais uma de suas piadas.

Regina se apressou em pegar a mão do filho, lhe dizendo o quanto o amava, e que o fato de ele ser gay não fazia a menor diferença. Após ser repreendido com o olhar pela esposa, Enofre aderiu a seu discurso:

— Bom, você não vai deixar de ser nosso filho por isso. Eu tinha medo de que fosse verdade, mas…

— Medo, filho — Regina interrompeu repentinamente. — Medo das pessoas lá fora, sabe.

— Tem gente muito agressiva na rua — o pai continuou, um pouco contrariado. — E também… Bom, a gente já tem tanto problema com contas pra pagar, aluguel, essa antena de TV que vive dando defeito… Isso não precisa ser um problema.

— E não é — complementou a mãe.

Nicky se sentia imensamente aliviado. Um peso horrível saíra de suas costas.

— Na verdade tem um problema — ele disse, olhando para os dois alternadamente. — A comida vai esfriar. — Sorriu timidamente com medo de levar alguma bronca do pai. Mas este apenas concordou e, quando ia voltar a comer, foi interrompido por Regina.

— Antes, um brinde — disse já se animando, querendo deixar o clima mais leve, e também por estar satisfeita com a revelação do filho. — À família. À nossa nova fase. — Sorriu ternamente para Nicky, levantando seu copo.

— Regina… — Enofre resmungou. — Mas, ó… Eu não faço questão de conhecer seus namorados, não. Se quiser conversar sobre isso, procura sua mãe.

— Tudo bem, pai — disse, agora sorridente e envergonhado ao ouvir o pai dizer sobre seus futuros namorados.

— Eu não entendo nada de homens — complementou.

— A gente sabe, querido. — Regina sorriu, levantando ainda mais seu copo de suco para o brinde. — Agora brinda logo — ela disse incisiva, porém rindo.

Ainda a fitar a janela do ônibus, Nicky sorria ao pensar na emoção e no sorriso de sua mãe com aquele brinde, que tanto significou para ele, e viajaria ainda mais em seus pensamentos se não fosse despertado por Jaden, que o empurrou levemente ao desfazer-se do abraço.

— Amor, a gente tá chegando… O que foi? É tão raro você ficar calado. — Tentou brincar.

— Bobo. — Nicky sorriu para Jaden. — Pensando só… — falou ainda disperso.

— Entendi. Vamos soltar no próximo pra pegar outro ônibus.

Nicky assentiu.

— Ainda tá chateado, né? — Jaden ainda se sentia culpado por toda a situação.

— Não… Claro que não. — Se levantou já voltando ao seu estado normal. — Não vou me abater por isso não, tá pensando o quê, meu filho? — Riu. — Vamo embora.

***

Na manhã seguinte, Nicky caminhou até a escola quase sem ânimo, depois de praticamente não ter dormido, pensando sobre o dia anterior e se abrindo com Shay pela internet; ela era a primeira pessoa a quem ele recorria para conversar, os dois eram confidentes um do outro, coisa que os anos de amizade lhes proporcionaram.

— E aí, bitch. — Nicky puxou de leve o cabelo da amiga, que estava distraída no portão da escola com mais duas alunas, Fabi e Cah, a quem ele cumprimentou sem muito ânimo.

Shay era uns dez centímetros mais baixa do que ele, tinha o cabelo comprido e um piercing no umbigo que exibia como troféu, amarrando a blusa do uniforme. Daquele grupo, era difícil saber quem vencia na exibição.

— Sai, viado. — Ela deu um empurrão nele, de brincadeira, o abraçando em seguida. — E aí? Tá de ressaca, é? — perguntou devido ao semblante cansado de Nicky. — Olha, essa animação tá me fazendo querer dançar axé aqui na frente de geral, melhor parar. — Shay falou, dando uns passinhos de dança, arrancando risadas dos amigos e de quem estava por perto.

— Só se for ressaca de WhatsApp, né. Conversando contigo, ainda por cima — respondeu ele. — Não sei pra que tanta empolgação numa manhã de segunda — disse com a voz ainda um pouco embargada de sono.

— É muita vontade de estudar mesmo — ironizou Fabi. — Mas e aí, Nicky? — perguntou, esperando que ele contasse o que acontecera, visto que, mesmo com sono, Nicky não costumava estar tão pra baixo daquele jeito.

— E aí, Fa…

Percebendo que contaria de um jeito ou de outro sobre o dia anterior, Nicky suspirou e explicou resumidamente o motivo de ter dormido mal à noite; disse que não havia sido por mais uma maratona de séries, mas sim por estar ocupado demais relembrando a vergonha que passara no shopping para conseguir pegar no sono.

— Depois ele ficou se sentindo culpado e tal — concluiu Nicky. — Mas é chato isso, sabe? Ele não precisa virar um ativista nem andar com a bandeira LGBT amarrada nas costas, mas também não precisa abaixar a cabeça, né. Ele nem anda comigo direito na rua. E isso já tem um ano! — As amigas ouviam atentas, prestando atenção até mesmo nas suas pausas. — Mas… eu amo ele de qualquer jeito, então… — Ele sorriu.

— Seu fofo apaixonado — disse Shay, com uma dose de ironia para descontrair.

— Ainda tem aquilo dele ser bi, não é? — acrescentou Cah, rompendo com o clima.

— Ah, mas… — murmurou Nicky, parando para pensar por uns segundos. — Você acha que isso tem a ver?

— Não sei. Só tô dizendo mesmo.

— Nada a ver, gente — respondeu Shay, repreendendo a amiga. — O Jaden te ama, Nicky.

— Não, só dizendo que pode ser insegurança, sei lá. — replicou Cah.

— Tá viajando, cara. — ela disse com firmeza, enquanto era Nicky que estava viajando em seus pensamentos.

Pouco depois o sinal soou, levando os alunos para suas respectivas salas. Apesar do desânimo, Nicky se sentou na fileira da frente junto com suas amigas. Era raro que os quatro se sentassem na frente, visto que faziam parte do “bonde do paredão”, como os próprios professores costumavam chamar o grupo que sentava no fundo da sala, conversando sem parar. Porém, os debates calorosos que o professor de filosofia propiciava eram irresistíveis, levando os quatro a se sentarem nas primeiras fileiras em todas as aulas.

Nicky encostou a cabeça na parede, torcendo para que desta vez não ocorresse nenhuma discussão calorosa. Talvez seu pensamento tenha de fato influenciado: o professor apenas passou uma atividade sobre uma projeção do futuro, levando os alunos a pensarem como se veriam dali a alguns anos.

— Eu espero ficar rico — resmungou Nicky, ao que todos riram, concordando.

— Vai ficar rico sendo dançarino, viado? — Danilo, que cismava em implicar com Nicky, gritou do fundo da sala.

Não era segredo para ninguém da escola a paixão de Nicky por dança. Ele não perdia uma oportunidade de mostrar seu talento, e sempre que ocorria algum evento na escola lá estavam ele e Shay dançando músicas agitadas, com coreografias criadas por eles próprios ou tiradas de vídeos de dança. Os dois também postavam seus vídeos online, esperando o momento em que viralizassem, tornando-os famosos, como tantos que passaram pela internet.

Aquele era o último momento em que Nicky poderia estar interessado em discutir com Danilo, que não perdia uma chance de “brincar” com ele, como se ser gay fosse uma grande piada. Nicky sempre caía na pilha, dando-lhe respostas engraçadas, e, assim, os dois permaneciam nessa relação nada saudável há mais de 3 anos, onde um ria do outro sempre que possível. A verdade era que eles se detestavam e usavam piadinhas para dizer o que pensavam. Nicky fingia não ligar, mas Shay sabia que algumas piadas magoavam-lhe bastante. Ouvir determinados insultos tantas vezes ao longo da vida pode ter um efeito neutralizante ou se tornar pior do que realmente são.

Mesmo estando cansado, Nicky não poderia deixar de respondê-lo.

— Vou sim, viado, e vou sambar muito na sua cara. Eu, hein! — gritou em resposta, aproveitando para descontar o que restou de sua indignação do dia anterior, deixando Danilo sem palavras; pelo menos por algum tempo.

Todos gargalharam e levou alguns minutos até que o professor conseguisse controlar novamente a turma.

— Calma, gente — disse o professor, com seu tom de voz tranquilo habitual. — Não era exatamente sobre isso que eu estava falando, mas… Nicky, então você quer ser dançarino mesmo? Eu vi alguns vídeos seus e da Shay na internet.

— Sério?! — os dois exclamaram animados. Era raro que algum professor se interessasse pelos alunos, e vindo logo de seu professor favorito, não poderia animar mais.

— Quero sim, professor — Nicky respondeu razoavelmente mais animado. — Apesar dos recalcados, eu vou seguir o que eu gosto. — Algumas risadinhas soaram. Nicky sempre falava de um jeito que acabava sendo engraçado, principalmente por se tratar de uma indireta quase que direta a Danilo. — Eu e essa menina aqui. — Apontou para a amiga, que jogou os cabelos para o lado.

— É, professor, depois te dou um autógrafo — disse Shay, em um tom convencido.

— Tá bom, Shay. — O professor riu. — É legal ter um planejamento pro futuro, almejar algo é importante. Como diz uma frase do autor Paulo Coelho, no livro O Alquimista, “é a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante”. Desejo sucesso pra vocês dois. Agora peguem os cadernos e façam uma projeção de como vocês se veem daqui a cinco, dez e quinze anos. Depois vamos discutir sobre isso.

— Daqui a dez anos eu quero estar casado com meu “boy magia” e ganhando dinheiro com meu estúdio de dança — disse Nicky orgulhoso, se animando mais ao pensar em seu futuro ao lado de quem ela acreditava ser sua alma gêmea.

— Casar com homem? Cruz credo — implicou Danilo. — Pode isso, professor?

— Claro que pode, Danilo. Na verdade, a união estável é permitida desde 2011. E você devia respeitar mais seus colegas de turma e fazer a atividade.

— É inveja dele, porque ele não tem coragem de se assumir — replicou Shay. Mais uma vez risadas e burburinhos se instauraram na sala de aula.

No intervalo, Nicky e suas amigas se acomodaram em um dos bancos da escola para lanchar. As meninas conversavam alegres, todas tentando animar ainda mais o amigo, trocando histórias sobre o fim de semana, entre risadas e brincadeiras. Nicky aproveitou para detalhar as partes boas do seu aniversário de namoro — como voltar abraçado no ônibus com Jaden e ganhar um ursinho fofo de pelúcia —, procurando exaltar as qualidades de Jaden, talvez para se sentir melhor com seu relacionamento, tentando ignorar as adversidades, ou com o objetivo de deixar claro para as amigas que ele era ótimo, ou ainda, e mais provavelmente, as duas coisas.

— Ou seja, meu namorado é o melhor de todos — concluiu. As meninas riram.

— Ah, o meu namorado também é ótimo, tá, Nicky! — exclamou Cah.

— É, deixa de ser metido, Nicholas — disse Shay, mesmo sabendo que o amigo detestava ser chamado pelo nome, sobretudo por seus amigos.

— Quer que eu te chame pelo nome todo aqui, Shayanara dos Santos? — implicou. — Só falar.

— Idiota! — ela disse, dando um pontapé de leve nele. — Muito idiota, Nicholas. — Shay morria de vergonha de seu nome e só não culpava os pais por essa invencionice porque o nome lhe rendera um ótimo apelido.

— É Nickyy! — ele exclamou. — Nicky com dois ípsilon ainda, querida.

— Que exagerado…

— É nome de artista, sua invejosa — disse ele, se defendendo.

Enquanto eles conversavam sobre nomes artísticos, uma de suas colegas de turma se aproximou e os convidou para uma festa. Lívia era uma das pessoas mais populares da escola, estava sempre por dentro de todos os eventos que aconteciam por perto, sobretudo os ligados ao movimento LGBT. Seus amigos ficavam impressionados com a quantidade de organizadores que ela conhecia, sempre arrumando um jeito de dar descontos, ou até mesmo conseguir ingressos de graça para os mais próximos. Fora ela, inclusive, que comunicou a Shay e Nicky sobre o evento de dança onde ele conheceu o amor de sua vida.

A festa em questão aconteceria em uma boate relativamente famosa da região, e a grande atração seria a apresentação de duas Drag Queens que sempre faziam shows por ali. Nicky, que amava esse tipo de expressão artística, logo se animou, junto com Shay, que não perdia uma oportunidade de beber e dançar.

Mesmo com o desconto, o preço da entrada assustou um pouco Nicky.

— Onde vou conseguir 45 reais?

— Nicky, tá baratinho, vai — incentivou Lívia. — Eu posso até tentar arranjar por um pouco menos. Open bar até uma hora da manhã ainda, não dá pra perder essa.

— Pede pro Jaden, Nicky — disse Shay, empolgada. — Eu vou de qualquer jeito. Qualquer coisa eu vejo se consigo pagar pra tu também.

— Tá rica, perua? — Nicky brincou, porém um pouco desanimado.

— Bom, gente — Lívia interrompeu —, falem comigo até sexta… não, até quinta, pelo menos. Quero vocês lá, hein — disse se afastando. — mais!

— Vou falar com o Jaden agora. — Nicky pegou o celular e começou a digitar sem parar. — Não posso perder mesmo!

Notas finais
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