Nicky Snow
13 Capítulo 12 – O início da tormenta
Notas iniciais
Capítulo 12 – O início da tormenta

Os corredores estavam tensos. Próximo à sala do trono, os gritos do rei soavam raivosos.
Embora Cersei tentasse ocultar a irritabilidade, a sujeira e os palavrões de Robert, Nicky havia aprendido a personalidade do pai em pouquíssimo tempo. Exagerado, beberrão e teimoso. Segundo a própria rainha, a garota tinha a mesma teimosia do pai.
Desentendimentos externos ou não, ela era sempre tratada com mimos e agrados. Robert a visitava quase todos os dias, conversavam e comiam juntos ao menos uma vez na semana, acompanhados de Joffrey.
Provavelmente, queria corrigir os anos de ausência.
– O quê ele está gritando? – Indagou à mãe, virando a cabeça na direção do som.
– Não consigo entender. Seu pai esbraveja mais rosnados que gritos, se é possível. – Ela fez um sinal de desdém. – Não deve preocupar-se com isso.
A menina confirmou, mas a curiosidade continuou a borbulhar dentro de si.
– Mãe. – Pôs-se de pé. – Preciso procurar por Sansa. Dá-me licença?
– Claro.
Nicky afastou-se lentamente, fechando a porta e caminhando na direção dos aposentos da mão enquanto os guardas a observavam atenciosamente. Quando fez a primeira curva no corredor, segurou as saias do vestido com as mãos e correu em direção à sala do trono, enquanto o som se tornava mais e mais alto.
Robert berrava sobre uma “puta prenha” e “Targaryen”. Cersei estava certa: ele grunhia em metade dos gritos.
– Rua! – Robert berrou. – Rua, maldito. Estou farto de você.
Ela se afastou apenas a tempo de ver a mão do rei se retirar, escondendo-se atrás de uma grossa pilastra.
Depois daquilo, realmente fora atrás de Sansa. A ruiva estava animada com a corte e seu novo penteado, além dos cortejos de Joffrey.
– Eu acho que ele realmente gosta de mim. – Devaneou. – Ele é tão alto e tão lindo, Nicky. Não acha ele lindo?
A princesa quase riu. Realmente achava Joffrey lindo desde que o vira em Winterfell, mas não devaneava sobre ele (talvez por ser apenas uma bastarda na época e depois ter se descoberto sua irmã) como a ruiva fazia.
– Ele é meu irmão. – Lembrou.
– Todos na sua família são lindos. – Sonhou. – Bem... Quase todos.
Nicky sabia que ela estava se referindo a Tyrion.
Conversaram por um curto espaço de tempo antes que a princesa desse uma desculpa qualquer para voltar aos próprios aposentos. Não conseguia parar de pensar na carta que havia enviado a Robb, e ainda não havia recebido resposta alguma.
As aias estavam cochichando entre si com um entusiasmo mórbido, espiando Nicky com os cantos dos outros.
– O quê houve? – Indagou. – Porque estão todas fofocando?
As três se entreolharam hesitantes, como se não quisessem contar.
– Seu tio Tyrion. – Misha finalmente disse. – Foi capturado por Lady Stark com acusação de tentativa de assassinato do garoto Stark. Estão o levando para Winterfell.
(...)
Sozinha no cômodo, os pés da menina pareciam prestes a abrir buracos no chão de tanto caminhar de um lado para o outro.
Tyrion não faria isso. Ele não teria a capacidade de tentar matar Bran Stark.
Ou teria?
Mais tarde naquele mesmo, dia, Lira veio sussurrar-lhe que Lord Stark fora atacado na saída de um bordel. Os homens de seu tio Jaime, junto com o próprio cavaleiro, cercaram a ele a seus companheiros, resultando em diversas mortes.
– Dizem que houve muito sangue. – A aia avisou.
Nicky esfregou os olhos. Seu sangue contra sua família. Seu coração estava angustiado por Lord Stark, imaginando o quê Jaime havia lhe feito.
– Seu tio se foi para o rochedo.
– E Lord Stark?
A jovem hesitou e os o rosto avermelhado de Nicky se virou para ela furiosamente.
– Se quer é para me contar algo, não é para me contar pela metade. – Repreendeu, olhando-a de uma forma que a aia nunca havia visto antes. – Venha com a informação inteira ou não venha com nada.
Lira engoliu a seco. A princesa nunca fora tão bruta.
– Sofreu um acidente. Está debaixo dos cuidados do meister.
A princesa se pôs de pé, caminhando até a porta do cômodo sem explicar para onde iria. Haviam lhe dito para não andar sozinha pelo castelo, mas conhecia o caminho até a torre da mão e não queria companhia.
Assim que chegou, encontrou Sansa e Arya, a primeira estava em prantos e a mais nova carrancuda, de braços cruzados. Nicky sabia que cada uma lidava com suas emoções de formas diferentes.
Abraçou as duas irmãs de criação, juntando-se às lágrimas de Sansa. Enquanto a ruiva falava sem parar – fazendo pouco sentido devido às lágrimas e soluços – A outra havia decidido que não diria nada, e mantinha-se em silêncio.
Foram dias de dores para o Lord, lágrimas para Sansa e preocupação para Nicky. Com Tyrion em poder dos Stark e Ned atacado por Jaime, sabia que a mãe tentaria por sua família como vítima e justificar o ataque.
Não pôde ver a Mão quando acordou. Seu pai e sua mãe, por outro lado, foram os primeiros a entrar e sua mãe a primeira a sair. Tinha o rosto frio e uma das bochechas vermelha.
– Venha, minha filha. – Ela chamou. – Estou cansada e quero companhia.
Caminharam juntas, de braços dados, até o cômodo da rainha.
– Saiam. – Ela ordenou.
Não foi necessária mais nenhuma palavras pra que as aias e damas de companhia se retirassem.
Cersei se dispôs dos vestidos pesados, deixando apenas o tecido fino por debaixo e deitou-se na cama, com a cabeça no colo de Nicky, portando um olhar indecifrável.
– Cante para mim.
A menina obedeceu, mexendo nos cabelos loiros e encaracolados até que a mãe se rendesse ao sono, horas depois.
Encontrou o papel de carta delicadamente posto em sua mesa. Seu coração falhou uma batida quando ela rompeu a cera sem símbolo.
“Corça de Gelo” Seus olhos identificaram e seu coração se derreteu de saudades. O lobo de neve contou-lhe sobre como sua mãe ainda não havia voltado, sobre como Bran agora podia montar e como Rickon estava rebelde. Também disse como sua barba vermelha havia crescido e cercava-lhe o rosto inteiro, e como já parecia um homem feito.
“Sentimos sua falta tanto quanto sente a nossa. Gostaria que pudesse voltar.”
No fim do papel a tinta estava levemente borrada, como se uma lágrima houvesse caído e feito uma mancha.
“Com saudades, lobo de neve”.
Ela suspirou. Gostaria de poder voltar a Winterfell, mas sabia que era impossível.
Qual seria a reação de Robb ao saber dos acontecimentos mais recentes? Será que ele a culparia?
Com pressa, ela puxou um papel e uma pena. Disse que sentia muito pelo que acontecera a Ned Stark, pedindo desculpas pelo comportamento do tio e declarando que todas suas orações seriam para ele. Mandou saudações carinhosas a Bran e Rickon, mas não havia muito a dizer.
“Não tenho culpa dos erros do meu sangue, mas sinto falta de minha família.” – Sua mão tremeu ao escrever tais palavras e uma lágrima caiu exatamente no último ponto antes de sua assinatura. “Com saudades, Corça de gelo”.
Quando a selou, seus olhos pousaram no bilhete que também havia deixado ali.
“Meu passarinho recolherá sua carta.”
Não levou mais de um minuto para que um garotinho sujo e pequeno pusesse a cabeça para dentro de sua porta, aproximando-se dela com uma mão estendida.
– Obrigada. –A menina sussurrou, pondo o papel em sua mão.
Ele nada disse antes de sair.
(...)
Em seu cômodo as batidas em sua porta a acordaram primeiro que às aias. Estava profundamente escuro, e ela enxergava apenas o bastante para puxar um robe.
– O quê houve? – Olhou a aia da mãe. – Porque me acordou?
A moça estava suada e ofegante.
– O senhor vosso pai. – Respirou fundo. – Sua mãe mandou lhe chamar.
– Onde estão?
Ela correu até os cômodos do rei sem esperar pelos guardas, onde a mãe lhe esperava.
–O quê houve? – Olhou a rainha.
Cersei tinha um olhar estranho no rosto. Não parecia lamentar-se, seus olhos estavam um tanto brilhantes. Quase pareciam cheios de contentamento.
– Foi atacado por um javali. – Explicou-lhe com uma calma irreconhecível. – Rasgado da virilha ao peito.
Não havia salvação.
Conseguiu poucos minutos com o pai, que apenas a olhou por um longo tempo. Nenhum de seus irmãos estava lá, mas ela fora corajosa o bastante para encontrar o rei mesmo que este estivesse moribundo. O fedor da morte devia incomodá-la, mas havia muito mais em sua mente.
Renly a olhava com o canto dos olhos, desconfiado, mas não caridoso.
– Nicky. – O rei o olhou. – Corajosa para vir me encontrar no leito de morte. Mais corajosa que muitos homens.
– Vai melhorar. Sei que vai. – Afirmou, olhando o grande homem nos olhos.
Ele apenas sorriu para a fé infantil e incondicional.
– Vou rezar até que melhores, os deuses terão piedade.
Robert nada disse quando a garota beijou sua mão, retirando-se. Foi até o bosque sagrado.
Os deuses antigos não têm preconceito.
Mesmo no escuro, sabia que havia segurança em estar ali.
Rezou para todos os deuses que conhecia e chorou. Não sabia bem porque chorou, mas as lágrimas a atingiram com mais impacto que pôde conter. Por um período tão curto de tempo pôde ter alguém para chamar de pai, e os deuses pareciam prestes a arrancá-lo de si.
Foi buscada pelas aias na manhã. Vestida de carmesim na sala do trono, presenciara o irmão tomar o quê seria seu posto de direito e ser acusado de não ser filho de Robert.
Myrcella agarrou-se ao braço da irmã quando se virou para a mãe, indagando sobre o quê acontecia.
Lord Stark foi preso após uma curta batalha que a fizera se encolher.
– O quê ele quis dizer com Joffrey não ser o herdeiro do rei? – Indagou à mãe quando estavam sozinhas.
Ela ouvia os sussurros sobre a rainha e seu irmão, mas dizer em voz alta e para todo o reino era muito diferente de fofocar.
– Besteira. – Ela balançou uma mão. – Lord Stark é um traidor, quer matar-nos.
Ela negou com a cabeça, sem entender.
– Eu o conheço. Lord Stark... – Começou a defendê-lo.
– É um grande mentiroso. – A cortou. – Volte a seus cômodos e não saia até ser chamada.
Cersei nunca a havia olhado tão duramente.
Ficou nos cômodos por longos dias. De sua janela, podia ver a guerra que havia se formado na cidade. Durante todo o dia, planejou seus passos. Sabia que sua lealdade estava em jogo e que devia se posicionar ao lado da mãe e dos irmãos.
Ela logo soube que deveria esconder o presente de Jon e o quê ainda queria manter de Winterfell em algum lugar que não presumissem, e logo percebeu estar certa quando o baú que trouxera consigo foi levado embora. Sua mãe provavelmente tinha a intenção de afastá-la de tudo o quê lembrava o norte.
Lembrou-se da promessa de Joffrey de guardar-lhe um lugar no pequeno Conselho, e esperava que ele a cumprisse. Na primeira audiência, ouvira tantos condenados por traição que se perdera no quê o diziam. Seu avô fora nomeado como Mão do Rei, Cersei tomara o lugar de Stannis Baratheon no conselho. Nicky aguardou por seu nome. Nada foi dito sobre ela.
Mal ouviu o resto do quê ocorrera. Ao lado de Myrcella, assumira o modo automático.
Assistiu a Eddard Stark ser morto com os olhos frios como pedra, ao lado do irmão sorridente e da rainha com os cabelos tortos. Sansa chorou como nunca, o quê era raro para uma garota que tinha mais lágrimas que fios na cabeça. Cersei repreendera o filho, mas não havia nada mais a dizer ou fazer.
Joffrey havia lhe dito, antes mesmo de saírem, que queria a cabeça do traidor numa estaca. Não era surpresa. Encarara-o como o homem que traíra seu pai, e precisava acreditar que ele não era nada mais que aquilo. A cabeça , por sua vez, estava tão deformada que não se parecia em nada com o Lord que a criara.
– Minha querida irmã. – Ele a saudou naquela noite. Parecia muito satisfeito consigo mesmo enquanto sorria.
– Meu amado irmão. – Retribuiu o olhar, embora confusa.
– Ainda vestida de preto. – Lamentou-se. – Por quem chora?
– Por nosso pai. – O olhou. Tinha os olhos vermelhos, mas não apenas por Robert. – Morto por um animal. Traído por quem deveria ser seu melhor amigo... Pobre homem.
– Não foi seu pai por muito tempo. – Ele apontou. – Porque chorar por um período tão longo?
Ela suspirou, mexendo nas saias com os dedos nervosos. Joffrey não tinha coração. Ele não entendia.
– Ansiei por um pai por longos anos, meu rei. – Contou. – E os deuses o tiraram de mim quando comecei a me acostumar a tê-lo. Se estivesse no meu lugar, também choraria.
O rei não lhe respondeu.
Assistiu às audiências com o irmão e Cersei. Passou pelas cabeças nas estacas por tantas vezes que não tinha mais reação alguma ao vê-las.
Respirou fundo, vendo a mãe se aproximar.
O dia de seu nome estava chegando, mas ela não se importava.
Sabia que estavam vivendo o início das tormentas.
O inverno não era o único a ser temido.
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