Nicky Snow
21 Capítulo 19 – O casamento florido
Notas iniciais
Capítulo 19 – O casamento florido

— Princesa. – A aia a agitou pelos ombros. – Está na hora. Acorde.
Nicky bocejou e Leona logo pulou de seus braços para as tigelas com água e alimento.
— Fique na beira da cama e abra as pernas, por favor.
— O quê?
A aia avermelhou-se em vergonha.
— Ordens de sua mãe.
A menina obedeceu, seu rosto se transformando num grande tomate com olhos verdes. A moça habilidosamente correu a lâmina por sua pele sensível, e logo parecia haver terminado. Àquele momento, a noiva parecia prestes a morrer em constrangimento, embora ninguém parecesse se importar com aquilo.
Como um brinquedo de pano, ela foi levado para vários lados do quarto antes de ser posta na banheira e esfregada até sua pele ficar rosada e brilhante, e seu cabelo foi penteado e enfeitado graciosamente antes que um vestido fosse posto em seu corpo. Era surpreendente como as moças trabalhavam rápido, já que logo a princesa aguardava sentada.
O casamento havia sido marcado para o meio dia no septo de Baelor, mas ainda havia o café da manhã que romperia ao lado de Willas e ambas as famílias. Era um costume presentear a noiva e o noivo na manhã do casamento e no dia seguinte, e ela havia recebido vestidos novos especialmente para as ocasiões.
Foi Joffrey quem viera buscá-la com um olhar de desagrado no rosto. Embora ela esperasse, ele não disse uma única palavra enquanto os dois caminhavam pelos corredores até os jardins, onde as mesas estavam postas, ela com os Lannister e o marido com os Tyrell.
Todos pareciam tranquilos enquanto comiam, mas ela não teve coragem de tocar qualquer um dos pratos.
— Está assustada. – Sua mãe sussurrou ao seu lado.
Nicky olhou em volta com um olhar leve, e logo notou Willas encarando-a. Aquilo a fez engolir a saliva e desviar o olhar, tão rápido quanto uma gota de chuva.
— Apavorada. – Tomou um pouco do suco que haviam lhe disposto. – Tenho tempo de fugir?
Cersei riu um pouco com a reação da filha, lembrando-se da manhã do próprio casamento.
— Sabe que não. Também não estava feliz no dia do casamento com seu pai. – Ela olhou de canto para Tywin ao seu lado. Nicky sabia que ela ainda estava ressentida do quê ele a fizera.
Mesmo assim, aceitara o mesmo destino para a filha mais velha.
— Eu lhe ofereceria vinho, mas sei que irá recusar.
Talvez não desta vez.
Mesmo assim, não disse nada. Foram minutos até que os presentes começassem a vir, e Mace Tyrell foi o primeiro a se aproximar dela.
— Minha querida. – Ele sorriu em sua cara gorda, estendendo uma mão em sua direção. – Não imagina o quão feliz estou em tê-la em minha família.
Ela sorriu gentilmente, deixando-o beijar sua mão – que estava fria como gelo – antes de se afastar para chamar um servo enquanto ela se colocava de pé como mandava a etiqueta.
— Como prova, trouxe-lhe joias antigas de nossa família. Estão conosco desde antes de Aegon, o conquistador.
Vários rapazes apareceram carregando diversas joias brilhantes que ela observou de uma a uma com um olhar falsamente sonhador.
— São lindas. – Ela se aproximou do Lord Tyrell, segurando suas mãos. – Não imagina o quão feliz estou por me juntar à sua família. É uma grande honra e uma grande bênção dos deuses.
Mace sorriu e beijou as mãos da noiva do filho antes de sair, e logo Willas se pôs de pé e mancou em direção à esposa.
— Todos me disseram eu iria me casar com a mulher mais bela de Westeros quando nosso noivado foi anunciado. – Ele contou. – Mas sua fama não foi o bastante para me preparar para sua beleza e sua doçura.
Ela sorriu corada e ele acariciou sua bochecha.
— Eu lhe trouxe alguns vestidos de Jardim de Cima. – Afastou a mão de sua face e chamou algumas aias que carregavam mais de 10 vestidos consigo, todos modelos frescos da campina e de cores diversificadas. – Eu não sabia qual era sua cor favorita, então trouxe todas. Minha mãe e Margaery ajudaram-me a escolher e sua mãe forneceu-me seus tamanhos.
Nicky arregalou os olhos e olhou o avô em busca de uma orientação. Ela estava perplexa com o tamanho da atenção.
Tywin Lannister lhe fez um sinal para que se virasse novamente em direção ao marido.
— Obrigada, senhor. É um homem muito gentil. – Ela ergueu a cabeça para olhá-lo nos olhos. – Os usarei com prazer.
Ele sorriu e ela respirou fundo.
— Creio que seja hora de eu dar-lhe meu presente. – Juntou as mãos à frente do corpo e logo um dos servos se aproximou com o pesado livro. Claro que o presente não era exatamente dela, mas sim o quê seu avô julgara digno do noivo. Ainda assim, ela contou uma mentira inocente. – Julguei que um livro seria mais apropriado que a espada que me sugeriram. Este é “A Mentira dos Antigos”.
Willas sorriu e logo seu escudeiro tomou o exemplar.
— Terei prazer em lê-lo.
Ela sorriu e logo Margaery, Loras, Sansa e vários outros lhe ofereceram presentes menores enquanto o futuro marido também recebia presentes em sua mesa. Ela sairia do café da manhã com vestidos, espartilhos, sapatos e acessórios aos montes. Cersei lhe dera uma casa rolante e Tywin a liteira com a qual iria ao septo, mas nada fora surpreendente até que Joffrey se pusesse de pé.
— Irmã, querida. – Ele lhe segurou as mãos. – Nunca imaginei que esse dia me seria tão feliz e tão pesaroso ao mesmo tempo. Pensei em dar-lhe vestidos, mas já possui vários. Pensei em joias, mas também as tem e em cada vez mais número. Precisei pensar em nossa amizade quando busquei por seu presente, mas tive o prazer dos deuses terem me sugerido algo perfeito para sua personalidade forte.
Ela hesitou, temendo o quê viria a seguir.
— Quando nos conhecemos contou-me que havia aprendido a brandir espadas e usar arcos como um escudeiro, mas que suas mãos eram mais amigas de um punhal que de agulhas de costura.
Todos ficaram em silêncio quando ele mandou o rapaz trazer o objeto em questão. Nenhum deles gostava de se lembrar do passado de Nicky, mas o rei não pareceu se importar. Era uma lâmina quase feminina, com um punho de prata decorado com pedras preciosas e de aço valiriano.
— Mandei que fosse forjado novamente especialmente para você. Faça bom uso.
Ela estava nervosa quando tocou a arma, mas sorriu para o irmão.
— Muito obrigada.
O presente mais significativo fora de Tommen, que estava muito feliz e a presenteou com uma rede de cabelos dourada que ele mesmo havia escolhido. O último presente do dia fora novamente de Joffrey e Cersei.
— Este foi o manto de esposa que usei quando seu pai, o Rei Robert, me tomou como esposa. – Ela contou. – E agora é sua vez de usá-lo.
Era um manto bonito, negro e dourado com o veado coroado dos Baratheon e dourado e vermelho com o leão dos Lannister lado a lado. Estava um pouco velho, mas Nicky não ousou dizer nenhuma palavra sobre aquilo.
Na outra mesa, Mace Tyrrel presenteou o filho com o manto de esposa com o qual tomara a esposa no dia de seu casamento.
Quando a manhã terminou, ela foi preparada para o casamento.
Faltando pouco para o meio dia, todos saíram em direção ao septo de Baelor e ela seguiu um pouco mais atrás com sua liteira de cortinas azuis. Seu coração já não parecia mais aguentar as batidas aceleradas e sua mente se enchia de dúvidas.
Como se sairia como esposa? Seria Willas realmente gentil ou aquela era apenas uma máscara? Iria arranjar desculpas para puni-la como Joffrey fazia a Sansa?
Iria Robb aparecer e resgatá-la no meio do casamento como numa canção?
Iria Willas Tyrell um dia amá-la?
Ali, parada em frente às portas fechadas do septo, ela respirou fundo para se acalmar. Se não estivesse prestes a fazer o quê estava prestes a fazer, se estapearia por estar tão assustada.
Lobos e leões não se assustam diante de flores.
Com um toque seu, os guardas de dentro abriram as portas e Joffrey já a aguardava.
— É uma noiva linda, irmã. – Ele sorriu e ela notou quão falsa era a expressão, enlaçando seu braço no dela. – Pronta?
“Não.” A voz em sua mente berrou.”Não estou pronta. Quero voltar para casa, quero ver meus irmãos de novo. Quero voltar a ser Nicky Snow, uma bastarda qualquer do norte, e viver longe de toda essa bagunça de cobras e lagartos”.
Por fora, ela sorriu.
— Sim.
Os dois deram o primeiro passo e logo todos se viraram em sua direção para vê-la entrar guiada pelo rei. Enquanto subia as escadas entre o altar da Mãe e do Pai, Nicky não pôde deixar de olhar – pelo canto de olho – o altar da donzela. Não estaria mais debaixo de sua proteção a partir daquele dia.
Se é que já estivera em algum momento.
Ela foi entregue ao noivo e o Septão iniciou a cerimônia, olhando para Willas. Nicky notou, com curiosidade, que ele usava uma coroa de cristal honorária desde que a sua havia sido roubada na confusão da partida de Myrcella. Joffrey lhe pôs o manto de donzela, mas este não durou muito tempo.
Os sete votos foram feitos, as sete bênção invocadas, as sete promessas cantadas e a canção nupcial cantada.
— Você deve agora pôr a noiva debaixo de sua proteção.
Delicadamente e com uma expressão extremamente falsa, Joffrey se aproximou e retirou a capa dos Baratheon de Porto Real de suas costas e Willas a substituiu pela elaborada capa dos Tyrell de Jardim de Cima, que parecia ainda mais pesada que a anterior.
Talvez fosse só a ansiedade.
Eles deram as mãos e o Septão enrolou uma fita nas duas, prendendo-as juntas e, assim, prendendo-os um ao outro.
Ela ainda esperava que Robb rompesse os portões do Septo e a sequestrasse, então poderiam se casar num bosque sagrado em frente a uma árvore-coração como deveria ser.
Infelizmente, nada aconteceu. Era um casamento cruelmente perfeito para uma princesa que tinha uma vida cruelmente perfeita.
— Diante dos olhos dos Sete, eu selo estas duas almas em uma para a eternidade. – O septão declarou. – Virem-se um para o outro e digam as palavras.
Quando Nicky encarou Willas, ele parecia tão nervoso quanto ela. Ainda assim, aquele pequeno fato fez os dois sorrirem ao perceber que não estavam sozinhos, e nunca mais estariam.
— Pai, Ferreiro, Guerreiro, Mãe, Donzela, Velha, Estranho. – Pronunciaram juntos em alto e bom som. – Eu sou dele/dela e ele/ela é meu/minha deste dia até o fim dos meus dias.
Delicado e discretamente, seu marido beijou-lhe a testa, fazendo-a sorrir.
— Que sejamos felizes. – Ele declarou.
— Que sejamos felizes.
(...)
Nicky não sabia bem quem havia bancado a festa de casamento, mas ela não parecia nada barata. Os vinhos circulavam na sala do trono, sendo servidos aos convidados com sucos, licores e petiscos, além da comida já servida nas mesas. Havia nobres de todos os cantos e músicos perto da mesa dos noivos e seus parentes – que ficava ao lado do Trono de Ferro –, prontos a satisfazer qualquer pedido dos recém-casados ou de suas famílias, que estavam pouquíssimos centímetros abaixo de distância.
Nicky estava sentada ao lado de Willas, torcendo os dedos no vestido dourado até não aguentar mais e se virou para olhá-lo.
— Pode me dar licença?
— Fique à vontade.
Tentando parecer casual, ela se pôs de pé e se afastou para um lado qualquer, encontrando Margaery, que logo enlaçou seu braço no dela e segurou sua mão.
— Está gelada. – Notou. – Está com medo?
A noiva respirou fundo antes de confirmar. Mal sentia os dedos dos pés, que já estavam absurdamente dormentes de tão gelados. Ainda assim, sorria por fora como uma princesa bem educada.
— Em pânico. – Disse por fim.
Margaery riu, embora acariciasse sua mão.
— Não precisa se preocupar. Meu irmão é um homem carinhoso, não vai machucá-la.
Ela confirmou com a cabeça, embora não acreditasse completamente em suas palavras.
Embora a recém-casada quisesse que os momentos antes da última cerimônia da noite se arrastassem, eles correram rápidos como os ventos da primavera e a atenção e Nicky caminhou de volta ao estrado e ao marido quando todos gritaram sobre a torta de casamento.
Cada festa de casamento tinha uma enorme torta, e Cersei havia escolhido os pássaros que julgava serem favoritos da filha, então Nicky sabia que a ela estaria cheia de rouxinóis. Ela não sabia a quem pertencia a espada que Willas lhe estendeu para que cortassem a massa alaranjada, mas todos pararam para assisti-los parti-la.
Um dos pássaros quase foi morto pela lâmina, mas todos voaram pelo salão quando foram libertos, piando alto e fazendo todos aplaudirem. Felizmente, o recheio era de seu peixe favorito, salmão. Talvez Willas fosse gostar, mas a espécie era rara e ao menos aquilo havia sido feito para agradá-la naquele casamento.
— Gosta de peixe? – O marido chamou sua atenção e ela confirmou levemente com a cabeça, sentindo as bochechas coradas.
Ele a olhou um pouco e pegou um pouco da torta com o garfo de prata, direcionando-o para sua boca. Ela tentou não engasgar em nervosismo, e felizmente seus reflexos colaboraram para que o alimento fluísse até seu estômago. Era a primeira coisa que comia desde que se preparava para a cerimônia, e a primeira graça que o marido lhe fizera naquela noite. Não foi surpresa para os outros que algumas outras (poucas, porém) a acompanhassem em sinal de que ambos não estavam tão nervosos.
Mais tarde Nicky se permitiu dançar com Loras e Garlan, e até mesmo dava alguns passos com Tommen enquanto Joffrey dava um espetáculo com sua bela noiva Margaery. O irmão gêmeo estava se aproximando dela para chamá-la a dançar quando a música diminuiu de volume.
— Sua graça. – Alguém chamou. – Precisamos pôr os noivos na cama.
Logo todo o salão estava gritando “para a cama” e batendo as mãos na mesa.
Joffrey gargalhou, aproximando-se da irmã e tocando-a com um olhar indescritível.
— Para a cama! – O rei confirmou.
Nicky agarrou o braço do irmão gêmeo com força, quase em pânico enquanto os nobres se aproximaram dela.
— Sua graça, eu não acredito que haja exatamente a necessidade... – Willas tentou intervir, notando a pele de sua noiva ficar cada vez mais pálida.
Interrompendo-o e aos convidados, Joffrey levantou uma das mãos.
— Moças, levem meu cunhado para o cômodo. – Ordenou. – Sor Loras, tio e Tommen... Nós cuidaremos da noiva.
O aperto de Nicky diminuiu e Willas teve apenas o tempo de sorrir antes que as mulheres o cercassem.
Loras, com um sorriso quase misericordioso, pegou a cunhada no colo enquanto Tyrion e Tommen apenas apoiavam suas pernas e cabeça e o rei andava à sua frente. Quando saíram do salão, eles a puseram no chão, mas continuaram com o caminho.
Tentando fazer seu melhor, o irmão mais novo de Nicky apenas tentava imitar os outros três, que seguravam sorrisos enquanto abriam a placa de metal que cobria parte do corpo da noiva e faziam piadas galantes sobre o quê viria a seguir.
Oras, existem piadas galantes sobre sexo?
— Devemos deixá-los no caminho? – Indagou para o tio.
— Exatamente.
— Por quê?
Tyrion sorriu.
— A cerimônia da cama é importante para comprovar que o casal cumpriu seu dever na noite de núpcias e, com sorte, gerem um herdeiro.
Aos poucos, as peças sobressalentes da noiva foram retiradas até que apenas o vestido restasse. Antes de entrarem nos cômodos dos noivos, Joffrey afastou os outros três com um gesto e entrou com a moça.
Calmamente, ele abriu o vestido e o tirou, virando-a de costas, deixando Nicky quase completamente despida com apenas um pano fino cobrindo-lhe o corpo. O rei hesitou, e eles logo ouviram as mulheres deixarem Willas na outra entrada dos cômodos.
Ela engoliu a seco e seu irmão logo tirou a última peça que lhe faltava.
As pupilas de Joffrey se dilataram enquanto ele a olhava, e Nicky se escondeu discretamente com os braços, envergonhada com a exposição do próprio corpo diante do irmão.
— Você é linda, irmã. – Elogiou num sussurro baixo.
Ainda mais bonita que sua mãe.
Ele estendeu a mão e, estática, ela imaginou que ele tocaria seu seio. O próprio Joffrey intentava fazê-lo, e não conteve uma leve pontada dentre as pernas ao tocar a pele leitosa e macia, enchendo a mão e acariciando o mamilo por pouquíssimos segundos antes de se aproximar para beijá-la os lábios ardorosamente.
Quando se afastaram, ela o olhou como se esperasse que ele dissesse que iriam fugir, procurando uma última esperança. Em seu coração, seria possível que Joffrey (Joffrey) acabasse por fazer um favor a Robb ao livrá-la de Willas.
Como todas as outras de sua vida, esta se revelou apenas uma ilusão.
Joffrey retirou a mão de seu seio e acariciou seus lábios com o polegar antes de estender a mão, apontando para a porta que dava para o quarto com o leito, como se nada houvesse acontecido.
— Seu marido está esperando.
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