Nicest Thing

20 Chapter Twenty


Notas iniciais
Sim, finalmente eu reapareci. Com o último capítulo. Genttt, tô chorosa :'( Apenas gostaria de agradecer a todos vocês que, apesar de todos os percalços, acompanharam esta fanfic! Muito obrigada por todos os reviews, eles com certeza me fizeram muito feliz e muito agradecida por, a cada dia, saber que essa história agrada a tanta gente! Aproveitem o chapter twenty! Beijos!

Não está tudo bem. Ela pode me afirmar isso muitas e muitas vezes, mas em meu íntimo não sinto que esteja tudo bem. Na verdade, sinto como se nada estivesse encaixado. Tudo está meio que desmoronando, e eu nem fiz nada para evitar que isso acontecesse. Que vergonha dessa pessoa ridícula que me transformei. Se eu não fizer nada, tudo continuará igual. Nada mudará. Quero que tudo mude.

Cada segundo é tempo para mudar tudo, para sempre. Não é isso que dizem? Ou será que eu li isso em algum lugar?

Não importa.

O que importa é que eu tenho de ajeitar isso. Todos esses destroços que permanecem em mim, como se um tsunami tivesse atingido meu coração. Eles têm de ir embora.

Estou retraída defronte a Quinn, olhando-a. Acho que ela está me enxergando, enquanto eu apenas a vejo. Ela enxerga tudo o que trago atrás dos meus olhos. Isso é reconfortante. Quero abraça-la de novo, cair dentro de seus braços, sentir que, finalmente, estamos libertas.

Sei que isso demorará a acontecer, caso eu não mudar tudo agora. Um segundo. Só preciso de um segundo. Tão simples... Por que não digo nada? Preciso dizer algo, mesmo que ela tenha me dito para não fazê-lo. Por que quer continuar a enganar a si mesma, quando sabe perfeitamente que nada está bem? Não suporto mais essa situação que se arrasta, que me consome de dentro para fora.

Minhas mãos, timidamente, procuram as dela. Meus movimentos estão lentos, hesitantes. Não sei muito bem o que pode posso receber em troca, tenho medo disso. Não gosto de não ter uma previsão do futuro. Gosto de estar segura das consequências dos meus gestos. Mas agora? Bem, talvez essa certeza possa ficar um pouco de lado. Não me importo se não a tenho. Nossos dedos se roçam levemente, e eles envolvem os dela até que estejam juntos, os meus e os dela. Há um olhar especulativo em seus olhos, um pouco temeroso também. Ela está esperando. Mas ok, porque agora tudo vai mesmo ficar bem. Vou poder garantir a ela daqui a pouco.

Só mais alguns segundos. Eles são cruciais.

Quinn é poucos centímetros mais alta que eu, de modo que fico nas pontas dos pés e encaixo meu rosto junto ao dela. Nossas bochechas se tocam, quentes e delicadas. Gosto disso, dessa proximidade que não é forçada e que é aceita. Ela não me repele, e sei que minha certeza está presente de novo. Por poucos instantes isso me conforta. Quinn não está me rejeitando. Eu a rejeitei uma vez, mas ela não aplica uma mesma moeda comigo. Mas antes ela era a Lucy. Gostava da Lucy, mas acho que gosto bem mais da Quinn. Porque ela é verdadeira, inteira e quase que inteiramente conhecida por mim. Não me importo se existe algo que ainda me é desconhecida, quero desvendar isso, quero ter o prazer de ficar em choque ou surpresa. Tenho ciência de que muitos episódios de sua vida não são de meu saber. Eu também não contei a minha inteira a ela.

Nossos corpos se ajustam um ao outro com facilidade e mesmo nós sendo duas meninas isso parece certo. Sou menor que ela, e ela me abraça de um modo que me faz sentir em casa. Nosso contato físico é reconfortante. Estou em casa, mas essa casa não era a mesma sem Quinn aqui. Com ela aqui estou indubitavelmente em casa. Ela é meu lar. Não conheço nada tão meu, nada tão tranquilizador.

– Quero que volte para mim porque estou apaixonada por você – sussurro em sua orelha. Minha voz está um pouco rouca, mas não quebrada ou incerta. Tenho certeza do que digo. E do que sinto, sobretudo. Não tenho mais medo, porque sei que a partir de agora tudo está bem. Se ainda não está, vai ficar. Sei disso.

Quinn não se descola de mim, e isso me faz sorrir pequenino. Estou sendo aceita. Não há, de modo algum, rejeição. Sua voz é também baixa quando pergunta:

– Está?

– Estou – não espero mais nenhum segundo para isentá-la da dúvida. Não quero que ela duvide de mais nada de agora em diante – Você me libertou de tudo que eu era. Agora eu acredito de novo.

– Em quê? – ela quer saber, um pouco confusa.

– Que posso me entregar a alguém de coração – faço uma pausa; não nos movemos, ela está tão estática quanto eu – Está vendo? Você ainda não se afastou. Isso significa alguma coisa também.

– Eu tinha dito que não sabia se me apaixonaria mais uma vez. Na verdade, eu estava com medo de que isso voltasse a acontecer.

– Eu também estava com medo. Antes de você se tornar minha amiga, eu era quebrada. Você me juntou de novo.

Os dedos de Quinn apertam os meus com leveza.

– C-como você sabe? – sua voz está titubeante. Quero confortá-la do mesmo modo que fez comigo, por isso pergunto no mesmo segundo, incapaz de conter minha curiosidade:

– Sei o quê?

– Que está apaixonada por mim.

– Acho que desde o primeiro contato contigo eu me senti assim, engolfada num tipo de sentimento meio represado, mas não tinha ciência da importância disso. Não sabia, também, como nomeá-lo. Agora eu sei.

Franzo a testa rapidamente. Acho que ela está hiperventilando na minha orelha. Distancio vagarosamente meu queixo de seu ombro para averiguá-la. Não estou mais com medo, mas não perguntei se ela está.

– Não tenha medo – é o que digo quando nossos olhos se encontram – Está tudo bem – é maravilhoso poder atestar isso a ela, sinto-me verdadeiramente livre e inteira mais uma vez, recomposta de uma forma incrível – Sei que se sente do mesmo modo que eu, que me ama. Não tenha medo disso – repito. É importante que ela não tenha medo. Não que eu não esteja liberta do medo por nós duas, mas se ela está, talvez possa me repelir. Não quero que isso ocorra. Porque não vou repeli-la. Nunca mais.

Quinn aperta os lábios. Depois morde o inferior.

Droga, estou pensando em coisas insanas. Quero morder a boca dela também. Ao invés de fazê-lo, toco meu nariz no dela. Estamos muito, muito próximas. A respiração dela bate no meu rosto como um sopro de verão. Seus olhos estão mais relaxados e seus músculos também; não aperta mais minhas mãos. Quinn desloca-as para minha cintura como se fôssemos dançar, então me abraça. Esse gesto me faz sorrir outra vez, mas com mais vontade e faço o mesmo com ela: abraço seu tronco. Estamos entrelaçadas. Gosto disso, muito mesmo.

– Está tudo bem – reafirmo.

Ela balança a cabeça, devagar. Assente. Ela sabe que está tudo bem. Não consigo encontrar nem uma pontinha de medo em seu olhar, ele apenas está doce e sincero, remetendo-me um pouco à Lucy. Mas quem disse que a Lucy não era a Quinn? Era, sim. Sei disso agora. Permito-me fechar os olhos com a respiração dela suave em mim. É uma sensação boa. Quero que esse momento se prolongue por mais tempo, quero ficar assim, nessa posição, até o final da tarde. Seria maravilhoso. Reencontro enfim o sentimento que achei que perdera, aquele que tinha se esvaído de mim quando toda a confusão com Finn e Puck começou e que tinha dado retornado com uma força quase minúscula assim que saí da Party City há poucos dias. Mas agora, ah, agora! A chama está tão, tão acesa! Meu peito está fervilhando de tantos sentimentos velhos e novos. Sinto-me tão viva, finalmente viva.

Quinn inspira e diz:

– Sei disso.

Aperto-a em mim e removo meu nariz do dela. Puxo ar, também, porque agora estou um pouco incerta. Uma quantidade extra de ar me fará ter um pouquinho mais de coragem.

– Quinn? – pergunto.

– Hm?

– Eu quero fazer uma coisa, mas não sei se você vai concordar.

– Você vai me beijar? – há ansiedade contida em suas palavras proferidas. Ela não parece estar surtando.

Isso é novo, é um tipo de reação que não esperava dela. Quer dizer, claro que eu sempre fui a parte louca da nossa amizade, a parte que surtava por qualquer coisinha; mas é bom constatar que nem eu nem ela estamos nessa situação. Há certeza no que queremos e sentimos, isso é mágico. Eu acho que nunca me senti assim antes. Claro que eu tinha certeza do que nutria pelo Finn e que queria estar somente com ele, mas eu era jovem demais e, consequentemente, insegura demais. Mas agora é libertador saber que não há insegurança alguma em mim. Não preciso ficar no aguardo para dizer o que pretendo, o que meus olhos delatam com facilidade.

– Eu quero beijá-la – agora abro os olhos, estudando os dela e sua expressão serena –, mas não sei se vou fazê-lo. Você quer que eu a beije?

O ar que ela inspirou fica represado nas suas vias respiratórias. Ela para, meio aturdida. Acho que não imaginava que eu seria tão direta, não esperava a minha pergunta. Válido, porém essa demora está me matando. Quero morder a boca dela, ainda. Certo, preciso me desvencilhar deste pensamento, ele não ajuda em nada.

Começa a acontecer algo que não previ, e isso me faz vacilar. Quinn retira os braços das minhas costas. A princípio, acho que ela está me rejeitando, que vai se afastar e dizer que me ama, mas como amiga. Que eu confundi tudo, que é claro que não quer que eu a beije. Mas então seu movimento seguinte me surpreende e me faz ter vontade de chorar. Quinn entrelaça um de seus mindinhos no meu. Lembro-me da pinky promise que ela quebrou enquanto estávamos em Lima, no meu quarto. Atingida também pela surpresa, olho-a agradecida. Isso é muito significativo. Ela não precisa responder minha pergunta verbalmente, pois já a respondeu com seu mindinho. É isso que fez.

– Feche os olhos – sua voz suave me diz.

Ai, meu Deus.

O gesto que ansiei tantos dias para que se concretizasse está a alguns segundos de se realizar. Tudo que tenho de fazer é fechar os olhos.

É engraçado, eu não sabia muito sobre beijos quando comecei a namorar o Finn, mas é de se presumir que eu tenha aprendido muito sobre eles no decorrer do nosso relacionamento. Aprendi, sim. Mas o que aprendi funcionava com ele, pois ele era a única pessoa que eu beijava. Como posso saber se o que aprendi dará certo com Quinn? Além do mais, eu nunca beijei uma garota antes. E se não for o que imagino?

Seus olhos miraram meus lábios com desejo – mas não com o tipo de desejo ao qual estou acostumada; aquele tipo que os meninos olham as meninas. O desejo de Quinn é sutil e suave. Seu desejo é apenas a sua ânsia de aceitação – de ter a confirmação de que está, com todas as palavras, sendo amada. Eles voltam a mirar os meus; não os desvio para que saiba que podia confiar em mim. Cedendo aos batimentos enlouquecidos do meu coração chocado, cerro os meus. Aguardo dois ou três segundos e enfim acontece. Não me sento nervosa ou com vontade de dizer que não consigo fazer isso.

E é com certo despreparo que minha boca se encosta na dela; eu não a espero com a precisão que sempre esperava a boca de Finn. Além do mais, seus lábios são muito diferentes dos de Finn. Não está incutido neles aquele desejo masculino – há, na verdade, a vontade de exploração. Seus lábios são delicados como o resto de seu corpo.

Sua boca está conectada com a minha com uma delicadeza que eu nunca pude imaginar. Já tinha refletido inúmeras vezes como seria a sensação de beijá-la, mas agora todas as certezas que eu tinha desvaneceram com rapidez estonteante. É como se não houvesse mais ninguém no mundo além de mim e ela. Todos os barulhos alheios são abafados loucamente assim que seus lábios se conectam com os meus. Nunca ninguém me beijou desse modo tão íntimo e cuidadoso, desse modo como se soubesse exatamente o que quero, de que gosto e de como gosto. Com muita gentileza, eles se movimentam junto aos meus de uma forma que me faz enlouquecer. Quero mais, cada vez mais. Não sei se consigo refrear isso.

Não consigo respirar e não sei como Quinn está respirando. Quando ela diminui a pressão de seus lábios por sobre os meus, penso que não quero que isso termine, mas já não tenho muito fôlego, então aprecio os selinhos que ela me dá até enfim nosso beijo não mais existir. Eu estou extasiada, enlevada e maravilhada.

Quando nos afastamos alguns centímetros, meus olhos se abrem automaticamente. Não por conta do pânico, mas por conta da necessidade de observar sua reação. E, mesmo que eu não consiga ler mentes, posso dizer que Quinn está completamente extasiada tal qual eu mesma. Há um sorriso crescente enfeitando seu rosto, que recupera tudo o que ela é, agora; seus olhos ainda se mantêm fechados, como se estivesse guardando a sensação do beijo em sua mente por mais alguns segundos.

Toco meus lábios com as pontas dos dedos, encarando Quinn com olhos de uma menininha despreparada demais. Não estou sustentando insegurança alguma, mas sei que isso é novo demais para mim e quero averiguar se ela se sente um pouquinho tímida tal como eu.

– Não foi como imaginou? – seus olhos estão ansiosos enfim se abrem me analisando, e seu rosto também.

Então, abro um sorriso um pouco acanhado e miro o chão. Como é que eu nunca tinha beijado uma garota antes?! Isso é simplesmente a minha coisa favorita, agora. Quer dizer, se a garota que estou beijando é a Quinn.

– Foi incrível. Foi melhor do que imaginei – me apresso a revelar. Porque foi, não há por que esconder a minha felicidade dela. Quinn sorri, demonstrando um pouco de timidez também, mas vejo que está tão feliz quanto eu. Pergunto: – Você já beijou outras garotas antes?

– Não – confessa, sem nenhum tipo de arrependimento. Também não estou arrependida, tê-la como a primeira garota que beijei é uma boa lembrança. Um tipo de lembrança que dificilmente irei esquecer e terei vergonha. Porque, no final das contas, a gente tem o direito de amar quem quiser e beijar quem quiser, também. Os Estados Unidos é um país livre, e NY é um dos estados que aprova o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo – Eu nunca amei outras garotas.

É engraçado, sempre ansiei esse tipo de momento. Finn me dizia, de vez em quando, que me amava. Mas ele nunca transmitiu tanta genuinidade quanto Quinn agora o fez. Quando ela diz isso, eu sinto meu coração derreter. É clichê, mas me esqueço de respirar. Não sei mais como se respira. E aquela vontade de extravasar as lágrimas contidas pedem passagem mais uma vez, necessárias e apressadas. Lembro-me da pinky promise de antes, agora rompida, e a recupero. Meu dedo está ansiosa, preciso do contato imediatamente.

– Você não está respirando – Quinn observa, avaliando minha face que tenta conter as lágrimas. Automaticamente, solto o ar. Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Parece que vai dar certo. Que não vou parar de respirar de novo. A menos que ela me morda nos lábios, então sim. Porque quando uma pessoa, especialmente a pessoa pela qual você está apaixonada, faz uma coisa dessas não tem como não se esquecer de respirar – Está tudo bem?

Ela não está cética quanto a nós, tenho certeza disso. Ela quer saber se me sinto melhor. Estou melhor, sim. Melhor do que jamais estive em muito tempo.

Aceno com a cabeça. Nossos dedos estão unidos. Não quero quebrar o contato.

– Acho que é um momento propício para assistirmos Amor, Sublime Amor, não acha? – Quinn me inquire, com um sorriso meio debochado. Ela está brincando comigo. Senti falta disso. Desses sorrisos que apenas eu entendo, inclusive. Não sei o que ela vê no meu rosto que faz com que sua expressão se desmorone e seus dedos encaixem uma mecha dos meus cabelos atrás de uma orelha – O que foi?

Franzo a testa e comprimo os lábios. Suspiro, meio incrédula.

– Foi tão difícil que isso acontecesse. E tudo porque...

Deixo minha frase no ar. Parece cruel dizê-la.

– Por quê...? – ela tenta me incitar a continuar.

Dou de ombros e tombo minha cabeça em seu corpo. Pareço pesada demais agora.

– Bem, porque somos duas meninas.

– Seria mais fácil se eu fosse um menino, você acha? – ela quer saber.

– É sempre mais fácil desse jeito – digo, ouvindo seu coração agora compassado bater em meu ouvido – A maioria das histórias como a nossa ou não tem um desfecho feliz, ou há muito sofrimento. Não quero que você sofra mais.

– Você também sofreu.

– Parece bobagem, mas... Se eu tivesse aceitado você logo na primeira semana...

– Ainda estaríamos neste ponto. Tenho certeza. Não podemos mudar o que já está escrito. E se mudarmos, tudo pode ter uma consequência tão desastrosa que nos arrependeríamos de ter mudado o curso dos acontecimentos. Não se sinta culpada. Eu já disse que eu também não conseguia aceitá-la, de início.

– Você foi rejeitada vezes demais.

– Por você? Não muitas – ela sorri fraco.

– Não apenas por mim. Santana me contou.

Quinn revira os olhos.

– Ela é uma dramática, você sabe.

Quinn pisca para mim, de frente à mim; nossas respirações se misturam. Estudo seus olhos com minuciosidade.

– O quê? – ela franze as sobrancelhas.

– As pessoas não sabem quão especial você é – digo, balançando a cabeça – Elas não te conhecem o suficiente para saber que você tem um bom coração.

– Nunca me considerei assim. Especialmente depois de Puck. Por um lado estava com muita raiva, mas por outro, aos poucos, me convencia de que eu merecia o que estava me acontecendo, porque não era uma boa pessoa.

– Você é uma ótima pessoa. A mais especial que conheci, não estou mentindo. Você tem uma energia muito boa.

– Então agora eu posso fazer parte do seu antigo clube de música? – ela pergunta, gracejando.

– Não sei se vão querer alguém tão desafinada no chuveiro – revido, sorrindo.

– Você me ouvia cantando no chuveiro? – ela desata a rir.

– A sua última performance de You Drive Me Wild foi horrível. Mas tudo bem – sorrio e logo em seguida planto um beijo em sua boca, devagar. Quero aproveitar o momento. Carpe Diem – Sei que preciso aceitar os seus defeitos – dou uma piscadela a ela, após voltar a olhá-la.

– E a sua mania de tomar uns cinquenta copos de café por dia? É um defeito tenebroso, Rach – ela sorri, e eu também. Rimos – Falando na minha ‘performance horrível’, você me deve uma música, não pense que esqueci.

– Mais tarde. Tudo bem? Não agora. Agora eu preciso me ocupar em beijar você até cansar.

– Acho que vai ser uma tarefa extensa.

– Muito extensa.

~*~

Está ficando escuro, a luz solar penetra meio tímida pelas frescas das janelas.

Eu e Quinn estamos deitadas no sofá, em frente à TV. Cedo, meio contrariada, aos pedidos dela para assistirmos a Amor, Sublime Amor. Apenas concordo, porque ao menos podemos ficar juntas, sem muita conversa, só o som das nossas respirações e as canções do musical. É um tipo de passatempo tranquilo. Ao menos, isso afasta o meu desejo de morder a boca dela. Preciso parar com isso. É tão bobo. Mas desde que ela chegou aqui, penso nisso. Sinto-me meio envergonhada, porque tenho certeza de que Quinn não está pensando em nada além de coraçõezinhos e coisa e tal. Ela é tão pura com essa pele fresca e esses cabelos cortados de um modo que a fazem parecer sexy. E daí que ela teve de superar tantas coisas na vida? Isso não faz dela menos especial. Ela é sexy ainda assim. Quinn é uma princesinha. Diferente de mim. Sou comum, irritante e meio insegura.

Minha mão desliza pela sua cintura. Não estamos numa posição esquisita, é apenas mais confortável que o normal. Certo, estou em cima dela, nossas barrigas estão meio que coladas, e nossas coxas entrelaçadas. Mas não há nada de sexual nisso, porque estamos quase chorando escutando One Hand, One Heart. Não dá pra pensar em nada muito ousado quando você está segurando as lágrimas, mesmo que já tenha assistido umas 364 vezes a esse musical. Ao menos, eu não consigo, vai além da minha capacidade. Mas ok. Porque quando olho para Quinn e, especialmente para a boca dela, quero mordê-la. A boca dela, quer dizer. Morder a Quinn seria esquisito. Além do mais, a pele dela é tão clara que eu a marcaria para sempre, ficaria uma cicatriz horrível.

Mesmo quando o musical termina continuamos sem nos mover. A minha cabeça acompanha o peito dela, subindo e descendo. É uma coisa que acalma, gosto disso. Poderia dormir com facilidade aqui. Respiro fundo muitas vezes, como os cães fazem quando estão satisfeitos. Não consigo resistir. É muito bom. Porque, pela primeira vez em algumas semanas, não tenho nem um tipo de preocupação. Não preciso ficar chorando pelos cantos, sentindo a falta dela, folheando o scrapbook. Posso ser eu mesma, sem estar sozinha, porque não quero mais essa vida solitária. Como poderia escolhê-la, se tenho a opção de dividi-la novamente com Quinn?

A espécie de buraco que antes se fazia presente no meu interior, finalmente, está preenchido completamente. Não me sinto desorientada assim que acordo, porque não a encontro no loft. Não tenho um tipo de recaída emocional tão ridícula quanto às que enfrentei quando Finn me chutou de sua vida.

Minha vida normalizou. Finalmente, depois de muito tempo. Mesmo quando era nutria sentimentos de amizade para com Quinn não me sinto tão bem quanto agora. Agora parece que estou renovada.

– Já percebeu que estamos há quase uma hora sem nos beijar?

Pronto, lá vai meus pensamentos incoerentes acabar com a bolha de tranquilidade. Bem que eu poderia me controlar quando estou perto dela... Mas como, se ela é meio irresistível? Além do mais, estou apaixonada! Pessoas apaixonadas não medem suas palavras e seus desejos! É claro que quero beijá-la um pouco mais. Beijá-la se tornou meu novo vício. Não posso fazer nada mais do que beijá-la, por enquanto, então por que não aproveitar? Quero tanto aproveitá-la... Estar em cima dela, nossos corpos juntos demais, é muito bom. Tento não pensar em coisas como beijá-la em outros lugares além de sua boca, ou tocá-la além do permitido. Sinto-me inexperiente, como uma adolescente ainda envergonhada por qualquer pensamento que leva ao sexo. Não que eu esteja pensando em sexo, por Deus, isso não. Não me imagino fazendo isso, por enquanto. Mas como seria beijá-la, por exemplo, no pescoço? Deve ser bom. Não?

– O quê? – Quinn pergunta, está olhando para mim, meio curiosa.

– Hã? – respondo.

– Você está sorrindo – ela diz. Estou sorrindo? Não percebi isso.

– Não estou, não – paro de sorrir na mesma hora.

– Em que está pensando, uh?

– Em você, eu acho.

– Acha? – ela arqueia a sobrancelha. Nunca disse a ela, mas a invejo por saber fazer isso. Por que não sei fazer também?

Sorrio.

Estou pensando em você – abro o jogo, sem medir minha cautela – Mas você não vai querer saber.

Ela soergue de novo a sobrancelha.

– Não quero saber – Quinn ri, porque sabe o que estou pensando. Ela é ótima em fazer isso também: ler a minha mente. Nunca ninguém conseguiu isso antes com tanta precisão e rapidez.

Acabo rindo, é meio inevitável. Ela sorri, me encarando. Encaro-a, também. Estamos perto demais para não nos beijarmos.

– Você prometeu cantar – Quinn assinala, depois que quebra o beijo rapidamente. Ela está meio ansiosa, é engraçado, porque está meio que sussurrando – O que vai ser?

– Não! – digo – Não pode ser assim! Eu nem exerci minhas cordas vocais!

– Quer um chá de limão com mel? Posso fazer.

– Quinn!

– Você prometeu. Há algum tempo, lembra?

– Isso é sério?

– Você canta para sei lá quantas pessoas na NYADA, pode completamente cantar para mim.

– É diferente.

– Por que seria? Está nervosa?

– É diferente, porque você não é nenhuma daquelas pessoas. Lá, eu tenho se estar perfeita.

– Não precisa ser perfeita para mim.

Isso aquece meu coração. Sorrio de novo, meio envergonhada.

– E aceito qualquer música – ela complementa depois, tentando me encorajar – Só quero ouvi-la cantar. Ao contrário de você, não fico bisbilhotando o que as pessoas cantam no banho.

– Eu não bisbilhoto, você canta alto demais!

Ela ri, e eu a sigo na reação.

– Ok, vai – Quinn diz, fazendo menção de se levantar. Contra a vontade, levanto-me e tento desamarrotar a minha blusa. É meio bobo que eu queira estar mais apresentável para Quinn, uma vez que ela já me viu diversas vezes com roupas muito piores. Eu pigarro, meio sem jeito. Não estou pronta, eu acho. Sinto-me um pouco sufocada, agora – É sério, Rachel.

– Eu sei. Mas já faz algum tempo que não canto.

– Como assim? E as aulas?

Dou de ombros.

– Não sinto vontade de cantar. Quer dizer, não sentia vontade de cantar, porque tudo que cantava me recordava você, então evitava ao máximo.

Ela balança a cabeça, meio incrédula.

– Uau. Isso me parece fofo.

Faço que não com a cabeça. Digo:

– Não é tão fofo assim.

– Você é fofa – Quinn me diz, pegando-me desprevenida. Abro a boca, mas estou envergonhada. Não sei o que dizer, por isso acabo sorrindo. Ela estende os braços e me envolve num abraço. – É meio clichê dizer que quero te abraçar o tempo todo? – ela pergunta na minha orelha.

– Nem um pouco.

Ela me abraça um pouco mais, por vários segundos. Mergulho no gesto, fechando os olhos e aspirando ao seu cheiro. Acalme-me tanto quanto possível; agora parece que cantar pode ser uma prova bem mais fácil: não preciso ser nada além de mim para Quinn.

– Melhorou agora? Sente-se melhor?

Ainda quero estar em seu abraço, mas faço que sim. Estou melhor.

– Pode cantar agora? Só um pouco? – ela exibe um sorriso mínimo, um do tipo que está contido. Sei que está animada para o meu ‘showzinho’, porque seus olhos estão brilhando de um modo que me faz sentir feliz. Sei que sua felicidade é por conta de mim, gosto da sensação que isso me trás. – Por favor? – ela investe um pouco mais, seu tom suave. Gosto do modo como isso me faz sentir. Parece que estou derretendo com seu tom. É como um tintilar de um sino de Natal. Me faz tão bem. Tão eu.

– Acho que tenho a canção perfeita – eu digo. Não tem nada a ver com Quinn, não é nada do tipo que ela poderia realmente gostar, mas, para mim, a letra da música revela tudo o que eu gostaria de ter coragem para dizer a ela. Não dizem que gostamos de músicas cujas letras são palavras que gostaríamos de declarar a alguém? Pois bem. Tenho a declaração perfeita para Quinn, exatamente do tipo que ela merece – Eu só preciso do violão do Blaine. Não saia daqui.

Não sei por que digo isso. Sei que ela não vai a lugar algum. Quinn está ansiosa pela canção que tenho a oferecer, sei muito bem disso. Afasto-me dela, mas não antes de assisti-la cair de volta ao sofá. Seu sorriso é a última vez que vejo, antes de partir para o lado dos meninos e retirar o violão de Blaine da capa. Repasso a canção na cabeça mais uma vez. Estou meio nervosa de novo. Começo a pensar que a escolha é péssima. Quinn não vai gostar. Mas não encontro outra de última hora. Vai ser essa.

Quando paro de novo à sua frente, depois de posicionar um dos banquinhos da cozinha a um passo dela, dedilho algumas vezes nas cordas do instrumento. Quinn não diz nada, está atenta a mim, quase que prendendo a respiração. Quando a olho mais uma vez, ela me esboça um sorriso. Ela parece nervosa, isso é estranho. Será que sabe que pretendo cantar algo tão romântico e idiota?

Posicionei-me melhor no banquinho e respirei fundo. Era agora ou nunca.

Juntei os lábios e comecei. Era melhor começar logo, como retirar um esparadrapo de um machucado: All I know is that you're so nice, You're the nicest thing I've seen, I wish that we could give it a go, See if we could be something.

Não há muita melodia, mas o simples ato de dedilhar as cordas me faz, ao menos, ter um foco para me distrair de Quinn. Olhá-la parece me envergonhar um pouco. Eu deveria ter escolhido outra canção. Quem é que dedica uma canção de amor logo no primeiro dia? E se ela me machucar? E se eu nunca mais ser capaz de olhá-la de forma diferente a partir de hoje? E se eu for apaixonada para sempre por ela?

Espere aí, por que isso seria tão ruim assim? Não é isso que todos querem: um amor que dure por muito tempo? Pois agora eu tenho. Tenho, sim.

I wish I was your favourite girl

I wish you thought I was the reason you are in the world

I wish my smile was your favourite kind of smile

I wish the way that I dress was your favourite kind of style

Essa estrofe me remete aos nossos primeiros dias de convivência. Não sabia muito bem como decodificar essa garota, a Lucy. Mas agora sei que a Lucy é a Quinn, também. A Quinn que me ama. E isso, mais do que tudo, me acalenta de um modo que me faz pensar que não posso continuar a cantar essa música. Ela é tão especial, tão verdadeira. Não que Quinn não mereça essa sinceridade toda; é claro que merece. Quero que esteja ciente de meus sentimentos. Aquele scrapbook, encaro, é meu primeiro presente que ganhei dela. Assim como estou dedicando Nicest Thing para ela, agora. É um presente. É o modo que estou expressando meu amor. Gosto disso. Gosto da sensação que cantar essa música me faz sentir. Faz-me sentir liberta, completamente.

Sei que minha voz parece um pouco desabituada à tarefa, mas não sou capaz de interromper a apresentação. Estou mergulhada em sua letra. Apesar de tudo que poderia me fazer desistir disso, os olhos e o sorriso de Quinn me compelem a continuar. Ela parece encantada. Abaixo meus olhos, mesmo sabendo que não devo fazer isso: não tem por que eu me sentir encabulada. Por que me sentiria assim, quando o amor é uma das melhores coisas que experimentamos? E amar Quinn é tão bom! Não me sinto obrigada a isso, estou me doando tanto quanto ela. Quero me doar, dessa vez, para que ela saiba que merece toda a minha atenção, que estou aqui para ela.

I wish you'd hold my hand when I was upset

I wish you'd never forget the look on my face when we first me

Sem querer, eu sorrio. A lembrança me que vem à mente parece ridícula. Com certeza, o meu olhar da primeira vez que nos conhecemos, no restaurante da faculdade, não seria algo que alguém gostaria de nunca se esquecer. Meu Deus, eu parecia tão louca naquele dia! É de se espantar que ela não tivesse realmente desistido me ter como parceira de loft.

Basically, I wish that you loved me

I wish that you needed me

Agora, quem não consegue conter o sorriso é Quinn. Meu gesto de avoluma e reprimo o desejo de agarrar sua mão. Se o fizer, não poderei tocar o violão. Contenho-me para não estragar o momento.

I wish that without me your heart would break

Yeah, I wish that without me you'd be spending the rest of your nights awake

I wish that without me you couldn't eat

Yeah, I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep

Ainda estou sorrindo quando termino de cantar essa estrofe, assim como ela. Estou tão calma agora, sentindo-me tão leve e encantada.

Look, all I know is that you're the nicest thing I've ever seen

And I wish we could see if we could be something

Yeah, I wish we could see if we could be something

Quando a última nota se esvai por inteira e sobra apenas o silêncio entre nós é inevitável: escondo minha alegre e minha vergonha nos meus cabelos, abaixando minha cabeça. Depois disso, parece que não tenho energia suficiente para sustentar todo o furacão que Quinn exala.

– Então? – estou tão tímida, isso é tão ridículo.

– Você também é a pessoa mais adorável que conheço.

Não consigo evitar meu sorriso que se espalha pelo meu rosto como rastos de fogo num descampado. Estou amando definitivamente. Não tenho mais como retroceder.

~*~

“O coração não é uma estrada de passeio para muitos. O coração é um lugar onde só fica quem faz por merecer”.

Um dia, Santana me disse isso. Disse, também, que não se importa de quem eu goste, que o importante é que eu esteja feliz.

E é isso que acontece agora.

Eu estou feliz.

Mas feliz do que achei que fosse possível.

Em retrospecto, vejo como essa coisa toda de amor pode ser engraçada. Quer dizer, quem diria que eu me apaixonaria pela garota do sorriso psicótico, aquela que, a princípio, eu não ia muito com a cara. Mas é claro que existem duas palavras para consertar esse preconceito: convivência e intimidade. Quando você passa a conviver com uma pessoa, descobre que errou muito ao julgá-la. Que, afinal, ela é o tipo de pessoa que você quis ter na sua vida há muito tempo. E a intimidade apenas auxilia na nossa busca sobre o amor: às vezes, ela pode complicar um pouco as coisas, mas quando você permite sentir tudo o que sente... Como poderia rejeitar tudo isso? Parece-me completamente bobo afastar quem você mais quer. Dizer não, obrigada.

Porque, no fundo, tudo o que você quer dizer é: por favor, me ame de volta.

E acaba que acontece. Se você for perseverante. E se você permitir que isso aconteça.

~*~

Horas mais tarde – e já é noite – Kurt e Blaine aparecem.

Blaine não parece estar tão chocado quanto Kurt. Kurt me olha meio que me medindo, mas Rachel logo diz:

– Pode ir parando com isso.

É claro que Kurt sendo Kurt, não consegue parar.

– Não dá pra acreditar – ele atira contra nós.

Ele tem razão, praticamente não dá pra acreditar. Mas acontece que estamos aqui, juntas, para provar que isso está acontecendo.

Blaine, em contrapartida, vem até mim e me abraça. Awn, essa alegria dele me fez falta também! Retribuo o abraço com intensidade, meio que rindo. Ele ri junto comigo.

– Bem vinda de volta. E nem pense em sair daqui como fez! – ele me diz.

Nego com a cabeça.

– Não pretendo mais ir embora – garanto. Vejo Rachel sorrindo para mim, atrás dele – Preciso dos seus cupcakes, acha que não?

– Precisamos comemorar com cupcakes! – ele parece animado, falando meio alto.

Kurt rola os olhos de onde está.

– Se você machucar a Rachel, eu mesmo te expulso daqui, está ouvindo? – ele avança contra mim, mas para a centímetros de mim. Parece ter cedido a todos. Sua voz não carrega raiva, ou desmerecimento. É apenas um aviso.

Bato na cabeça dele de leve.

– Nem precisa repetir – pisco para ele.

Meio que contra a sua vontade, ele me abraça, também. Não há a empolgação que senti com Blaine, mas sei que Kurt está me aceitando de volta. Quando nos separamos, vou até Rachel e junto nossas mãos. Acabo rindo no ombro dela, porque não consigo evitar. Meus pedacinhos que estavam descolados parecem estar remendados agora. Quase não sinto mais as rachaduras deles.

Exatamente como Rachel, eu estou liberta também.

É uma sensação que nunca imaginei sentir com tamanha intensidade. É incrível.

~*~

Ainda mais tarde, o loft está na penumbra. Os cupcakes acabaram tão rápido quanto apareceram, e Kurt e Blaine já saíram de novo. Segundo eles, eu e Rachel precisávamos de um tempo a sós.

É claro que precisamos.

Gosto de estar sozinha com ela. É agradável e reconfortante.

Estou sentada na minha cama de Rachel, com a lâmpada ligada e observando imagens de um fotógrafo francês, Henri Cartier-Bresson. Rachel está ao meu lado, silenciosa. Sei que não está olhando as fotografias. Está olhando para mim; posso sentir seus olhos me penetrando. Não sei o que ela deseja, mas não sei se devo perguntar.

Fecho o livro e olho para ela, tentando arrancar alguma coisa dela. Ela sorri. Não diz nada. E daí, tomba a cabeça no meu ombro. Suspira e envolve a minha cintura com seus braços. É gostoso.

Acho que somente está cansada, afinal, foi um dia de muitas emoções e aceitações.

Abraço-a de volta, apertando-a contra mim. Ela solta uma risadinha na minha orelha.

– Preciso confessar uma coisa – ela diz, a voz baixa. Fico curiosa e aguardo – De um tempo pra cá, eu fiquei pensando sobre isso, sobre estar com você aqui, desse jeito. Tipo, sobre você estar perto o bastante de mim para que não possa fugir.

– Isso é realmente doce – respondo, sentindo meu coração acelerar. Esses tipos de confissões abalam meu coração, sempre abalaram. Acho que todo mundo gosta de se sentir especial de vez em quando. Viro minha cabeça e planto um beijo em sua têmpora. Ela acaba me apertando ainda mais junto a ela.

– Você já se sentiu como se pertencesse a um lugar?

– E se esse lugar for somente uma pessoa? Porque acho que você é a minha pessoa – digo, olhando para a parede a nossa frente.

– Eu sou a sua pessoa? – detecto um sorriso em sua fala. Não estou olhando-a para ter a certeza, mas definitivamente ela esta sorrindo.

– Com certeza – afirmo. Posso afirmar isso todos os dias, se ela quiser. Desvencilho-me dela com gentileza e digo – Vem cá – e estende a minha mão.

Ela fica olhando para mim, sem hesitação.

– Preciso te mostrar uma coisa.

Ela não responde nada, somente se levanta da cama e me segue; as nossas mãos juntas.

Eu tinha ido apanhar uma sacola de coisinhas da Party City que eu tinha deixado lá embaixo, antes que Blaine anunciasse que os cupcakes estavam prontos. Havia copos de princesa e garfos e pratinhos descartáveis decorados com glitter. Eu havia deixado a sacola na cozinha e precisava mostrar à Rachel.

Retiro de lá dois chapeuzinhos de aniversário, os dois em forma de coroa. Eu sei que é ridículo – afinal, quem é que trabalha numa loja de festas e diz gostar disso? –, mas acho que Rachel não vai se importar. Ofereço um dos chapéus a ela. Rachel não sabe ao certo o que fazer com ele. Demonstro: coloco o meu na minha cabeça. Ela ri.

– Agora o quê? A gente vai dançar salva? – ela pergunta, ajeitando o chapéu na própria cabeça.

– Agora a gente vem aqui – tomei a mão dela e a guiei para frente do espelho de corpo que há na passagem entre o quarto e a sala. Como ela é um pouco mais baixa que eu, coloco minhas mãos em seus ombros e fico atrás dela, observando-a ali.

– O que você vê? – sussurro.

Rachel dá de ombros, analisando as nossas projeções.

– Nós duas. Somos princesas. Não é? Somos... As princesas do Loft do Paraíso? – ela pergunta, meio incerta.

Nego com a cabeça.

– Vejo a pessoa que me fez enxergar que também posso ser especial.

Rachel pisca para mim, parece meio incrédula e sem fôlego. Suas sobrancelhas se franzem. E la maneia seu pescoço em minha direção e declara:

– Você é especial!

Solto uma risadinha.

– Está vendo? – inquiro subindo minha sobrancelha – Você é a única que tem certeza disso.

Ela se vira inteira para mim, apoiando seu corpo contra o espelho.

– Eu soube que você é especial quando me procurou no McKinley. Você disse que estava querendo fazer parte de algo especial. Aquele momento foi o momento, se é que você me entende. Eu fiquei tão balançada que poderia tê-la beijado lá mesmo, no meio do corredor.

– Você? – eu comecei a rir, surpresa. Ela me olhou meio ofendida, meio brava – Ah, qual é! – exclamei – Você me beijou como se nunca tivesse feito isso antes!

Depois de alguns segundos me olhando parecendo ainda mais ultrajada, ela percebe que eu apenas a estava provocando. Sorri. Ela também, colocando uma mecha do cabelo para detrás da orelha. Agora, assumiu uma expressão de timidez.

– Pare com isso – ela pede, a voz soando mínima.

– Ou o quê? – eu ainda estou fazendo isso, provocando-a e flertando com ela.

– Ou eu... – ela não acaba a frase.

– Vai perder o controle e me beijar de verdade?

– Eu te beijei de verdade! – ela exclama.

Faço aquilo com a sobrancelha de novo.

– Aquilo? – pergunto – Aquilo com certeza não foi um beijo de verdade – declaro.

Isso faz com que ela descruze os braços e fique nas pontas dos pés. Em seguida, ela enlaça minha cintura com suas mãos, me aproximando dela abruptamente. Eu meio que colido com ela, mas não dói. E daí, nossas bocas se grudam com uma necessidade alarmante. Sei que toda a necessidade está brotando dela, Rachel está tentando provar que tem um desejo diferente, agora. Seus lábios estão febris e tensos de encontro aos meus. Tento me afastar dela para dizer que vá com calma, mas não dá tempo – e ela não me dá espaço. Simplesmente me aperta contra ela, totalmente alheia às minhas intenções. Ela parece bem mais interessada no próprio objetivo. Não que não seja doce, mas é um doce feroz, agora. Respiro contra ela, retomando o fôlego por conta da surpresa. Aos poucos, me entrego ao momento, mesmo que ele esteja descompassado. Rachel adiciona mais pressão ao beijo e faz com que eu abra mais a boca; sem aviso, desliza sua língua por entre meus lábios. Paro de respirar por uns dois segundos, sentindo-me aparentemente brecada. Meus dedos se enroscam em seus cabelos, puxando-a para mim, porque a sensação que me atinge não é nada parecida com que imaginei: eu não posso refreá-la. Respiro pesadamente, tendo ciência que meus pulmões não conseguem suprimir a falta de ar que estou tendo neste exato momento. Ainda muito íntima, ela faz com que suas mãos, que estavam em minha cintura, subam para as minhas costas. Ela simplesmente as enfia por dentro da minha camiseta do pijama, e isso produz uma onda de arrepios em mim. Derramo um gemido baixo, mesmo que eu tenha me segurado todo esse tempo represando-o. Percebo, tarde demais, que agora estou pressionando-a contra o espelho de um modo meio avassalador. Não tenho tempo de sentir vergonha por isso, porque estou gostando por demais disso.

Ainda que eu esteja a esmagando contra o espelho, os lábios de Rachel desaceleram e plantam selinhos nos meus lábios até que, enfim, o beijo morre. A primeira coisa que sinto é Rachel sorrindo contra mim, suas mãos ainda dentro da minha camiseta. Mas, agora, ela tornou a ser doce.

– Isso não foi nada justo – sopro contra o rosto dela, meio que arquejando e mantenho meus olhos fechados.

– Eu sei, me desculpa – ela diz. E então, também sem aviso, ela morde meu lábio inferior com delicadeza. Abro os olhos e encaro os dela – Desculpe por isso também. É uma coisa que... Esteve na minha mente essa tarde toda.

– Você é completamente louca – eu digo, com uma risadinha escapando.

– A culpa é sua, e nem tente desmentir – ela me olha intensa e encosta a ponta do seu nariz na curva do meu pescoço. Faz cócegas, mas não quero repeli-la.

Sorrio comigo mesma.

Esse, sim, foi um beijo de verdade – digo.

É insano, mas quero descobrir o que mais ela sabe fazer de verdade. Por isso, desgrudo-a de meu pescoço, retiro nossas coroas e caminho até sua cama. Sento-me, e logo Rachel se junta a mim, de um modo que se encaixa perfeitamente entre meus vãos. Ela me beija de novo, mas sem toda aquela empolgação de antes. Agora, ela está calma e doce.

– Acho que vou gostar dessa coisa de amor – sussurro contra sua orelha. Ela me oferece uma risada baixa.

– É bom que goste, porque não tenho outra coisa para você – ela me responde – Amor é a certeza de que um vai segurar na mão do outro quando o outro está bravo e, ao mesmo tempo, a incerteza de que não sabe o que pode acontecer no dia seguinte – Rachel me diz, e posso sentir exatamente isso: a certeza e a incerteza fundidas numa coisa só. Como um pacotinho – Não se afaste de novo de mim, está bem?

– Não quero mais fazer isso – ainda sussurrando, digo-lhe – Você faz parte de mim. Da Lucy e da Quinn.

– Você também faz parte de mim – ela me olha séria e diz.

Penso, em seguida, que não há lugar nenhum no mundo onde eu gostaria de estar além da cama dela, abaixo dela desse jeito tão íntimo. Rachel encosta sua cabeça no meu coração, e eu fecho os olhos, sendo invadida por todo o amor do mundo.

Notas finais
Muito obrigada, mais uma vez, a todos vocês! E me desculpem os erros que me escaparam! xD Reviews? Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!