Next Door
3 Capítulo 1: Porta ao lado (3/3)
Dez segundos. Vinte segundos. Trinta segundos. A campainha tocou novamente. Apenas alguns segundos para mim pareceram horas. Como abrir a porta e ver o garoto que eu amei escondido por anos e que havia partido por tanto tempo? Eu precisava voltar para a Terra e esquecer o passado. Dessa vez o universo será bom comigo e ele com certeza terá envelhecido como leite exposto ao sol do meio-dia.
Fui lentamente até a porta. Abri. O universo não foi bom comigo.
— DAVI!
Felipe abriu o sorriso mais lindo que já tive o prazer de ver em minha vida, me gritou e pulou em meus braços num abraço que poderia ter durado pra sempre. Mas logo ele me soltou, me puxou pelo braço e entrou no apartamento enquanto olhava tudo em volta. Definitivamente ele não envelheceu como leite. Estava ligeiramente mais alto que eu. Levemente malhado, cabelos longos e aquele olhar oriental que sempre me deixava perdido.
— Caramba, dá pra acreditar que a gente não se via há, não sei, quatro anos? – Disse ele indo em direção ao sofá.
— Pois é cara. Aparentemente o senhor esqueceu que tinha um melhor amigo perdido no Brasil. – Respondi com um sorriso tímido. Eu precisava me recompor e não me deixar ficar perdido olhando para ele. Era apenas meu AMIGO.
— As coisas não foram muito fáceis na Alemanha. Mas são águas passadas! Agora eu to de volta! E ainda vamos ser vizinhos! – Disse ele me puxando para sentar a seu lado no sofá. – Sem mais histórias de amigo perdido, já que você vai me encontrar na porta ao lado todos os dias agora! – Ele completou com um enorme sorriso no rosto, que mais uma vez retribuí de forma tímida.
A tarde passou tão rápido quanto um mês de agosto, mas conversar com Felipe me fez relembrar os velhos tempos, onde éramos melhores amigos e podíamos contar um com o outro sempre. Até ele resolver que deveríamos assistir um filme à noite, antes de dormir.
— Mano, o que você acha de ‘Hora do pesadelo’? – Felipe me perguntou enquanto já colocava o filme na TV.
— Definitivamente NÃO! Você sabe que eu morro de medo dessas coisas. – Respondi pegando o controle da sua mão enquanto o via rindo novamente. Aquele sorriso que um dia com certeza iria me causar sérios problemas.
— Vamos mano! Se você ficar com medo eu te abraço. Sabe que seu amigão aqui vai te proteger sempre né? – Ele falou enquanto fazia cara de filhote de cachorro quando quer comida.
— Engraçadinho. Depois não adianta nada reclamar se eu tiver algum pesadelo à noite e não te deixar dormir!
— Por mim tudo bem! Vem, senta do meu lado!
Sério? É isso que você planejou pra mim, universo? Sentei ao lado de Felipe, respirei fundo e começamos a ver o filme. Obviamente logo no início o grande corajoso também conhecido como Davi levou um grande susto. E (in)felizmente, para minha surpresa, Felipe me puxou para mais perto e me abraçou rindo.
— Calma mano! Lembra que tô aqui pra te proteger!
E assim ficamos até o fim do filme. Enquanto ele não tirava os olhos da TV, eu viajava nos meus próprios pensamentos. Nós éramos muito próximos quando crianças, e ele, por ser alguns meses mais velho, sempre falou que me protegeria de tudo. Aparentemente alguns hábitos não mudaram. Mas o que éramos quando crianças é o que somos agora. Amigos. Praticamente irmãos. E eu não poderia deixar isso morrer por culpa de ilusões que nunca se tornariam reais. Mais uma vez, a coisa certa a se fazer talvez seja voltar a me esconder. E com todos esses pensamentos, adormeci nos braços do meu primeiro amor, o qual, a partir deste momento, deveria ser visto apenas como melhor amigo, e estará na porta ao lado todos os dias, por pelo menos quatro anos.
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