Next Door
2 Capítulo 1: Porta ao lado (2/3)
Manhã do dia 24 de fevereiro de 2019. Finalmente é o dia. A tão sonhada liberdade está prestes a chegar. Depois de longos anos escondido, a partir de hoje tudo vai mudar, para sempre.
Acordei às 7 da manhã. Obviamente a ansiedade não me deixou dormir direito, o que eu já esperava. Outra coisa já esperada são os meus pais já sentados na cozinha com o maior e mais belo café da manhã que eu já vi. Ainda com os olhos quase fechados, cabelo bagunçado e usando pijama, só pude imaginar que estaria ferrado se alguma visita estivesse junto deles. Ou era isso, ou eles iriam tentar me vencer pela boca, em mais uma tentativa de me fazer ficar em casa. Passei direto por eles e fui para o banheiro. Aquele seria meu último banho na prisão. A hora de deixar todo o passado para trás. Uma renovação.
Uma hora depois...
— As suas coisas já estão no carro. Tem certeza que vai fazer isso? – Perguntou a minha mãe, concentrada em sua xícara de café.
— Sim mãe, as aulas já começam amanhã, não há mais o que fazer.
— Termine de comer, já estou indo pro carro – cortou meu pai, encerrando a conversa muito mais rápido do que eu imaginava.
Aquela foi uma manhã relativamente rápida. Meus pais claramente não estavam felizes com a minha partida e queriam que tudo terminasse logo para evitar longas despedidas, mas pude sentir uma pontada de tristeza cada vez que eles falavam algo. Bom, já não tinha mais volta.
A programação para o resto do dia seria empolgante: primeiro, arrumar todas as caixas e colocar as coisas no lugar. Depois, colocar uma roupa desleixada, deitar na cama e passar algumas horas procurando algum filme de terror para assistir. Em seguida, desistir do terror e colocar alguma comédia romântica que já vi 950 vezes e rir / chorar comendo brigadeiro até dormir. Amanhã seria mais um grande dia. O primeiro dia de aula.
Bom, tudo estava saindo como planejado até o meu celular tocar. Olhei quem era e... sério? Meus pais saíram há menos de três horas e já estão me ligando? E por videochamada? Ok, espero que seja algo muito importante, tipo, a rainha Elizabeth vai passar o próximo fim de semana no meu apartamento novo. Isso teria sido muito melhor.
— Oi mãe, aconteceu alguma coisa? Estou terminando de arrumar as coisas – falei apontando a câmera para as várias caixas que ainda estavam espalhadas pela sala.
— Oi filho, acabei de receber uma notícia muito boa!
— Notícia boa a essa hora em pleno domingo? Sério?
— Piadista! – disse minha mãe rindo enquanto meu pai passava ao fundo e gritava “essa você vai gostar!”.
Se meus pais estavam felizes com alguma coisa logo depois de eu sair de casa... esse era um sinal de que alguma coisa trágica estava prestes a acontecer. Provavelmente eles iriam voltar e passar o mês comigo. Pior, iriam passar o ano comigo. PIOR. Iriam me acompanhar na faculdade todos os dias. Meus pensamentos desesperados se transformaram rapidamente em expressões físicas de desespero.
— Não faça essa cara! Tenho certeza de que você vai amar esta notícia!
À medida que o sorriso dela aumentava, a minha feição de desespero aumentava exponencialmente.
— Eu acabei de receber uma ligação de uma pessoa muito importante. Adivinha quem voltou para o Brasil e irá te encontrar? – Se ela não falar que é a rainha Elizabeth vindo passar o fim de semana comigo, eu tenho certeza de que será alguém que irá acabar com minha vida.
— Quem vem me encontrar? Mãe, eu estou cheio de coisas pra arrumar. As aulas vão começar. Não tenho tempo pra ninguém!
— Você não vai ter tempo nem pra Felipe?
O QUE? FELIPE? Ela não pode estar falando sério. Não pode ser o mesmo Felipe. Não o Felipe que foi meu melhor amigo por 12 anos. Não o Felipe pelo qual sou apaixonado a quase tanto tempo quanto fomos amigos. Não o Felipe que saiu do Brasil e nunca mandou ao menos um “oi” por mensagem.
— Davi? Acho que sua câmera travou! Tá tudo bem?
— Hã? O que? Ah, sim mãe, estou bem, – não, eu não estou bem – só não esperava essa notícia assim do nada.
— Muito legal, não é? Ele vai estudar no mesmo campus que você e adivinha só?
Ele vai estudar comigo depois de tanto tempo e ainda tem mais coisas para adivinhar? Tenho certeza que com as próximas palavras de minha mãe o meu velório já vai começar a ser preparado!
— Os pais dele não puderam vir e ele não tinha onde ficar. Então eu indiquei o prédio onde você está e ele será seu vizinho!
— O QUE? – Perguntei num susto. Se eu tivesse bebendo água, com certeza teria cuspido tudo! – Como assim? Ele vai ser meu vizinho?
— Não é incrível? Como foi tudo muito rápido, ele só vai conseguir pegar a chave amanhã, então hoje ele vai ficar aí com você. Ele já deve estar no caminho! Lembro bem que vocês eram melhores amigos, com certeza hoje vai ser um dia maravilhoso pra você!
Sim. Com certeza. Hoje vai ser um dia maravilhoso. Eu diria que até memorável, afinal, é meu último dia de vida! Eu não tinha palavras pra responder a minha mãe e a palidez em meu rosto provavelmente iria indicar que eu estava morrendo. Precisava encerrar a chamada antes que ela percebesse, e então, o momento fatídico aconteceu. A campainha tocou.
— Olha só! Já deve ser ele! Trate ele bem. Falo com vocês amanhã! Beijos filho!
E então minha mãe desligou e me deixou ali, parado, sabendo que Felipe estava ali me esperando. E que eu não tinha pra onde fugir.
Fale com o autor