Next Door
1 Capítulo 1: Porta ao lado (1/3)
Uma vez me falaram que quando você é alguém como eu, a sua vida não começa na escola. A sua adolescência não existe. Você só é você quando finalmente está sozinho, e isso não acontece de forma rápida. O meu caso não é muito diferente de muitos mundo à fora. Sempre fui um filho e um aluno exemplar, daqueles que os tios olham e falam para seus filhos coisas tipo “você poderia ser mais parecido com seu primo, olha as notas dele, olha como ele se comporta, olha como ele obedece a seus pais...”. Como se isso fosse o meu verdadeiro “eu”.
Eu não quero dizer que o meu verdadeiro “eu” é uma pessoa rebelde que não quer estudar, que quer fazer os pais sofrerem ou coisas do tipo. Mas quando você é uma pessoa como eu e cresce cercado por uma família conservadora, a única coisa que parece certa a se fazer, é se esconder. Acordar todos os dias e vestir a máscara de “filho dos sonhos”.
Bom, com tudo isso, a minha identidade secreta já deve estar mais do que clara. Meu nome é Davi, tenho 19 anos e sou gay.
Como isso pode ser uma dificuldade em pleno século XXI e num país tão importante como o Brasil? Bom, conhecendo a minha família você entenderia bem os meus problemas.
Meu pai é engenheiro eletricista. Nascido no início dos anos 60, enfrentou grandes dificuldades na vida, e como irmão mais velho, teve a responsabilidade de cuidar de todos os meus tios e trabalhar para que pudesse ajudar a minha avó, já viúva. Minha mãe é uma médica também nascida nos anos 60. Cresceu em uma família extremamente religiosa, característica que foi passada para meu pai após o casamento e que deveria rigorosamente ser passada para minha irmã mais velha e para mim: o caçula, o orgulho da família. Com essa descrição, fica claro que precisei me esconder por todos os meus 19 anos.
Mas nem sempre a minha vida foi completamente falsa e solitária. Aos três anos eu conheci Felipe. Sabe aquela pessoa que você conhece quando ainda nem saiu direito do berço e ela passa a ser sua melhor amiga da vida? Isso foi o que aconteceu com Felipe. Estudamos juntos por muitos anos. 12 anos pra ser mais exato. Éramos tão grudados que todos achavam que éramos realmente irmãos. Se a minha mente não tivesse estragado tudo...
Essa é uma longa história que tentarei resumir muito rapidamente. Ainda no início de nossa adolescência, algumas coisas começaram a mudar. Bom, óbvio, muita coisa muda com o início da adolescência. Mas algo além de mudanças físicas já rondavam minha mente, até que... bom, até que percebi que estava apaixonado pelo meu melhor amigo. E assim começava a tragédia grega da minha vida. Eu precisava entender o que estava acontecendo comigo. Precisava não estragar a única amizade que tive na história da humanidade. Precisava esconder meus sentimentos para que minha família não notasse que eu era uma decepção.
Por longos anos essa foi a minha história: me esconder, fingir ser o que não sou, negar a minha essência e mentir para a pessoa que mais amei, até o momento em que essa pessoa saiu de minha vida.
Há exatos quatro anos, meu melhor amigo foi morar na Alemanha junto com os pais, e desde então, nunca mais nos falamos. Não é como se eu tivesse esquecido ou deixado de amá-lo durante esse período. Foram anos difíceis, sempre me escondendo em casa, mas os sentimentos nunca deixaram de existir, pelo menos até agora.
Bom, falei muito de meu passado. Vamos falar de presente. Hoje é um grande dia. Hoje é meu primeiro dia sendo oficialmente um estudante universitário. Os últimos quatro anos foram decisivos para definir o que a minha vida seria no futuro. A minha vida precisava de um novo rumo. Uma nova história, onde eu não fosse mais um coadjuvante que segue os passos dos protagonistas tentando ser aquilo que não nasceu para ser. E não havia outra forma de fazer isso. Eu deveria ingressar no curso de letras! E depois de muitas discussões (sim, por incrível que pareça, para isso eu consegui reunir coragem), consegui convencer meus pais de que essa seria a minha vida.
Ah, e ainda mais importante do que o primeiro dia no curso de letras: hoje é meu primeiro dia morando sozinho!
Fale com o autor