Notas iniciais
~Hello pessoas! Para felicidade de todos, porque sei que cês me amam ~lê se sentindo a ultima coca cola do deserto~ mais um capitulo para meus queridos leitores. Cara, eu amo vocês ~lê sendo sentimental~

SABE ESSES CLICHÊS SATURADOS de filmes no qual o protagonista enxerga o mundo em câmera lenta enquanto uma sequência louca de eventos transcorrem bem diante de seus olhos? Diria que estava assim e posso afirmar com toda convicção: não tem nada de épico ou agradável na sensação de inquietude pelo medo de que aquilo fosse uma espécie de “chamada final” e tudo terminasse em tragédia, como ultimamente tem sido. Nem sequer me recuperei plenamente da loucura toda que Ace, aquele cretino mentiroso, tinha me feito passar. Se houvesse mesmo vida passada além do conceito ficcional — o que em teoria até combina com esse mundo que o sobrenatural coexistia com a humanidade —, devo ter sido uma pessoa bem ruim para ter tanta má sorte nessa.

Dividindo as inúmeras possibilidades e catalogando para as que realmente poderia se desdobrar como uma garantia, aquilo de “você tem vários percursos e somente alguns darão bom resultado”, para meu desgosto, nenhuma seria favorável para mim e acabaria tendo uma noite bastante agitada. Considerando minha posição atual, as chances de partir dessa pra melhor ou virar novamente alvo de sequestro eram consistentemente altas, o que dobrava a aposta de me dar mal não importava o que tentasse fazer para impedir.

Isso de ser uma pessoa do “mundo real” que reside temporariamente em um fictício perdeu todo propósito e a ilusão ingenuamente deslumbrada de outrora. Desejava pôr um fim naquilo e retornar a segurança da normalidade — ou o que acredito ser. Duvidava um pouco do que seria ou não meu “normal” naquele momento, dada as circunstâncias bizarras.

— Você precisa ocultar sua aura — a voz de Alexander me alertou do absoluto nada. O susto me desequilibrou, meus pés escorregaram no formato ligeiramente irregular do telhado, e meu corpo resvalou para trás. Riscaria da lista uma das formas de me dar mal: despencar de uma altura nada confortável.

Alexander reagiu de imediato esticando a mão fantasmagórica para aparar minha queda, no entanto, quem conseguiu, de fato, me salvar antes do inevitável foi Nero ao agarrar firmemente meu braço a tempo — o que estranhamente enviou uma leve descarga elétrica pelo meu corpo todo. O choque e o pânico me imobilizaram, quase em um transe ocasionado pelo incidente, enquanto ele se interpôs entre mim e a criatura hostil que se avizinhava de nós preparada para atacar, sedenta pela luxúria doentia de um predador.

Versado no que tange batalhas contra demônios, Nero apontou sem pestanejar a sua pistola assinatura, Blue Rose, e atirou. Para um bom entendedor da mecânica de combate do rapaz, essa arma possuía alterações e melhorias de desempenho, desenvolvidas pelo dito cujo, que atribuíam maior vantagem para destruir camadas mais grossas antes do abate. Resfoleguei entre arfadas sôfregas, aturdida com a rapidez em que tudo terminou após o surto inicial e a maneira como o caçador conduziu, um tanto improvisado, expandiu minha perspectiva a respeito da persona dele e seu indubitável caráter.

Claro, os percalços não faltariam se for levar em conta que Nero desconfiava de mim devido ao que Ace, no auge de sua megalomania, me manipulou a executar e, ainda assim, não hesitou em me proteger. Abri a boca para agradecê-lo, mostrar a dimensão da minha gratidão, contudo, nenhum som saiu, minha voz morreu antes de articular uma frase coerente para prestar meus votos sinceros apreciando o caloroso gesto.

Alexander se aproximou cauteloso, parecendo sério e perturbado.

— Lamento pela minha falta de cordura. — murmurou. Lancei um olhar tranquilo a ele para transmitir que não estava chateada tampouco o culpava, sua intenção era unicamente me alertar e também reconhecia o objetivo dele. Alexander sempre atuava igual um guardião ao meu redor e palavras nunca seriam suficientes para verbalizar o quanto ele me auxiliou nesse ínterim.

O que esse universo tinha de mortal, onde você se vê em situações críticas a cada esquina, tinha de valorosas pessoas dispostas a se arriscarem para defender inocentes e quem carecia de intercessão.

— Uau, isso foi assustador. — anui, sentindo a adrenalina se dissolver pelo meu metabolismo e dar uma trégua para meu cérebro raciocinar. — Acho que depois dessa vou precisar dormir por um longo tempo.

Nero me fitou de relance, manifestando através de suas feições traços de surpresa sutil, afetação e incredulidade.

— Você está bem? — indagou.

Assenti.

— Obrigada, sabe... Pela ajuda. — mexi no cabelo para amenizar a ansiedade. — Essa foi a segunda vez, acho que estou em dívida com você.

— Não se preocupe.

Fiquei genuinamente surpreendida por Kyrie não ter despertado com a balbúrdia, ela dormia feito um anjinho e não contive o sorriso com a visão assim que a bolha de estranheza entre mim e Nero se foi e cada um foi pro seu quarto. Não viraria a noite em claro com preocupações por ora e, por algum motivo, sentia que não recordava de algo importante — algo que fugia da minha mente sempre que estava prestes a interceptá-la. Sem muito o que fazer, me acomodei e encarei o teto até o sono de fazer presente, guiando-me ao mundo dos sonhos.

A luz cutucava minha cara — me obrigando a sair do casulo seguro das cobertas. Rolei pelo colchão para encontrar uma posição que suprisse minha necessidade extra de mais horas para dormir sem que a luminosidade persistente me incomodasse. Apesar de não ser resistente a mera ideia de uma rotina matutina, a noite anterior me exauriu mais do que gostaria de admitir. Pisquei os olhos me deparando com a janela escancarada e um bilhetinho próximo a onde repousava. Operando no automático, peguei o papel e forcei meus olhos, um pouco desfocados, a leitura:

Bom dia, Diva!

Precisei sair mais cedo para cuidar das coisas do orfanato que sou voluntária. Conversei com o Nero e deixei o café da manhã preparado para os dois.

Se cuide e até mais tarde!


Meio grogue, arrumei o cômodo para poupar Kyrie da minha bagunça depois de tamanha hospitalidade. Não negaria que meu humor não estava em sua melhor forma e que esbanjar sorrisos para ganhar simpatia se encontrava fora de cogitação. Reunindo coragem, marchei em direção a cozinha com sugestões de assuntos pipocando que logo, ao cruzar a entrada da cozinha, desvaneceu. As duas safiras vigiavam minhas ações, não como uma clara indireta sobre não confiar e sim uma forma de estar precavido.

Não sabia exatamente o que faria.

Deveria usar a ocasião para conhecê-lo melhor?

Assim como Dante, Nero também era um “personagem” na minha terra original e, mais que tudo, teria que sair da figura de ficção e enxergá-lo como um ser de carne e ossos e estilo rebelde.

— Bom dia! — cumprimentei com o fôlego renovado.

— Bom dia. — respondeu.

Nero estava usufruindo de um generoso café da manhã e se ajustou na cadeira assim que cruzei a entrada, seu corpo rígido como de um soldado.

— Conseguiu descansar? — me virei para fitá-lo, minha cara deve estar a beira de euforia escancarada ainda mais pela cara de Nero.

— Sim. Obrigada pela preocupação! — exclamei animada.

Nero esfregou a nuca.

— Agradeço novamente pela ajuda ontem a noite. — me acomodei, mexendo a xícara com leite morno da garrafa térmica. — De um dia pro outro tudo ficou meio... Louco.

Respirei fundo com um frio da espinha súbito.

— Acha... Que Dante pode estar mal? — indaguei num murmúrio.

— Vaso ruim não quebra. — afirmou, dando de ombros. — Ele não é alguém que é derrotado fácil, independente de quem o desafia.

— É, você tem razão. — enrolo uma mecha com o indicador, reflexiva.

Nero franziu o cenho, intrigado.

— É estranho dizer isso do nada... — começou com um semblante cauteloso. — Mas... O que é esse vulto te seguindo?

Mecanicamente direcionei meu olhar para Alexander que se encontrava atrás de mim.

— Pode vê-lo?— se havia resquícios de dúvidas, com minha indagação, elas desapareceram.

— O vulto? — replicou. — Sim. Não com clareza.

— Oh.

— A aura dele entrou ressoou com a sua, suponho. — Alexander deduziu, sério.

— É um... — busquei um jogo de palavras para explicar a minha ligação com ele e não garantir uma viagem direto a um caminho de filme de terror. — Amigo. Ele me acompanha desde que estava com Ace.

— Isso me dá razão pra dizer que já vi de tudo.

— É uma situação louca. — dei uma sutil risada, comendo uma torrada. — Quando conciliar tudo prometo te contar.

— Quer conhecer a cidade?

Fiquei muito empolgada com a possibilidade que se estendia a minha frente, uma circunstância especial para explorar as redondezas para ver, de perto, o cenário integrado ao jogo.

— Isso seria ótimo! — concordei, alegre.

O asseio de Kyrie ao deixar tudo pronto aqueceu meu coração já alvoroçado.

Um dos maiores prazeres da vida é apreciar a linda vista, sentir o sol esquentando levemente sua pele, a brisa suave trazendo um peculiar cheiro de mar e poder respirar sem medo. A liberdade era algo incrível — mesmo que só percebemos sua real importância depois que quase perdê-la.

O piso de pedras polidas enormes se organizavam em uma sequência quase perfeita, grandes e pequenas peças se encaixando. As casas tinham aquele ar de época renascentista, mas não era de um material tão diferente quanto o chão. Havia muitas coisas diferentes do que eu tinha visto no jogo – considerando que no ataque do Salvador a cidade foi destruída e a diferença se devia a isso. Por outro lado, as pessoas mostraram ser bastante gentis e acolhedoras.

Agora, creio que ser de um lugar isolado do mundo torne as pessoas menos agressivas e susceptíveis a violência. Nero me apresentou áreas diversas do mapa, incluindo lojas simples e com recursos de importância.

Os moradores conversavam com o Nero e lhe presenteavam com produtos frescos.

— Você é bem popular.

Nero arqueou uma das sobrancelhas.

— Isso não é ser exatamente popular. — dei de ombros com sua resolução.

Nas horas que se seguiram, mais coisas foram dadas ao pobre rapaz que tentava oferecer atenção aos que se aproximavam.

— Por que esse tanto de... Doações? — inquiri, curiosa.

—A população agradece assim. — ele elevou a cabeça por alguns segundos. — Em vez de dinheiro.

Continuamos nosso passeio e pausamos no píer. Por alguma razão, senti como se não fosse a primeira vez que tivesse estado ali — um Déjà vu. Sentei no chão de madeira e fiquei observando o horizonte.

Nero imitou minhas ações.

— Esse lugar é lindo! — falei quebrando o gelo. — É tão diferente do lugar onde eu morava.

Não é como se morasse perto do porto, pensei bem humorada

— Você... Escutaria uma longa e louca história de como realmente aconteceram as coisas? — Nero franziu o cenho e assentiu.

Essa vai ser uma conversa bem... Intensa.

— Personagens de um jogo? — seu tom de voz se elevou surpreendido com a revelação. — E como isso é possível?

— Não faço ideia. Sei tanto quanto você sobre tudo isso — puxei o assunto com mais bom humor. Afinal melhor rir que chorar, certo?

Havia um lado meu que adorava toda essa aventura e ação desse mundo, entretanto, ainda tinha a parte que sentia falta do que deixei para trás.

— Isso é loucura, mas... — retesou por um instante, fixando o olhar no horizonte antes de voltar sua atenção a mim. — Por alguma razão, acredito em você.

— Obrigada — sorri. — A propósito, você e a Kyrie são o que exatamente? Casados? — estreitei os olhos provocativamente, dando uma risadinha quase maligna. Para ser honesta, gostaria de saciar a curiosidade. Os dois tem uma sinergia única e invejável, uma relação baseada no afeto e na confiança.

— Isso é importante? — o leve rubor coloriu suas bochechas.

— Vocês parecem casados — brinquei. — Esse shipp vingou!

Nero caiu na gargalhada.

— Ao menos consegui te fazer rir. — afirmei com presunção. — Viu? Não sou tão estranha.

— Você é bem estranha.

— Mas uma estranha legal. — pousei as mãos no quadril. — Ainda tem mais coisas para me mostrar da cidade, vamos lá!

— Ainda temos muito tempo. — saltei nas costas dele o que o fez soltar um “ei” pelo ato inesperado. — Nós poderíamos ter nos machucado.

— Um homem corpulento como você daria conta. — dei um afago gentil em seu ombro. — E se caíssemos você absorveria o impacto sem problema.

— Não sou uma cama elástica. — replicou, ajeitando em suas costas. Percebi que ele estava bastante constrangido, embora parecesse bastante tranquilo com a brincadeira. — Vou abrir uma exceção.

— Que gentil.

Houve uma segunda explosão de gargalhada.

Os dias passaram sem nenhum evento significativo.

Sem notícias.

Sem Dante.

Entretanto, a convivência com Nero e Kyrie preencheu o vazio que o trauma com Ace causou. Nesse interim, me dediquei a ajudar Kyrie no trabalho voluntário no orfanato, criando uma rotina sólida e divertida que serviu também para aplacar os pensamentos que sempre me levavam para o Lendário Devil Hunter.

Me distrair é uma boa ideia.

Não imaginava que Fortuna, uma cidade outrora estritamente regrada e vivendo sob uma óptica quase anacrônica do resto do globo, realizava festivais tão animados e fora da curva com direito a atrações tanto para o público infantil, incluindo um carrossel que, alegremente, fora instalado na praça comunal e as atividades voltadas a temáticas mais adultas, nada obsceno, somente peças com abordagens de entretenimento mais sérias e que poderiam aborrecer os mais novos. A decoração vibrante e a variação de aromas agradáveis, sobretudo, de comidas que atiçava até mesmo o estômago mais resistente e o meu clamava pelos aperitivos que poderia experimentar.

Talvez estivesse sendo precipitada ao anunciar isso com tamanha convicção, mas, de certa forma, parecia interessante a prospectiva de morar ali — temporariamente ou não. As pessoas estranhavam um pouco forasteiros, como se espera de uma cidade que se está abrindo aos poucos, contudo, uma vez que te acolhem é como se também pertencesse a comunidade. Sem a manipulação de pessoas corruptas com ideais distorcidos a população de sente menos pressionada a não criar conexões com gente de fora, o que é um grande passo para o desenvolvimento do lugar.

As barracas exibiam uma variedade de doces e salgados que nunca tinha visto antes: desde misturas com chocolate à pequenos doces com formatos delicados de flores feitos com legumes que, na minha cabeça, criariam uma combinação bem esquisita, porém, ao prová-lo, mudei de ideia totalmente. Experimentar um pouco de normalidade em um mundo que, de início, não parecia tão normal era revigorante.

— Sabe, a gente deveria testar a montanha russa. — argumentei apontando para o brinquedo que não se assemelhava em nada com versões maiores e mais radicais que já vi antes, no entanto, tinha também sua parcela de curvas e uma altura considerável se fosse colocar em pauta o fator: é uma versão menor dos brinquedos convencionais.

— Eu não sei, parece um pouco assustador. — Kyrie comentou mirando Nero que decidiria desempatar.

— Se o Nero estiver lá, ele vai proteger a gente!

Kyrie riu, mas concordou no fim.

Assim que me acomodamos e senti o carrinho se locomover nos trilhos e parar segundos antes da primeira descida foi que recordei o motivo de não gostar muito de montanhas russas, pois no segundo que ia dizer algo soltei um grito com a queda livre e a velocidade desenfreada que nos fez percorrer curvas e loopings muito loucos.

— Não era você que queria ir? — Nero alfinetou, rindo da minha cara de pavor.

— Vai se ferrar. — repliquei caindo no embalo da risada enquanto via Kyrie toda deslumbrante com a emoção proporcionada pelo brinquedo. — Não é justo, a Kyrie saiu mais empolgada e foi a que não gostou muito de primeira.

— Achei divertido e empolgante.

Nero e eu nós entreolhamos com uma expressão de surpresa antes de sorrirmos feito velhos amigos.

— Deveríamos ir de novo! — ela sugeriu toda alvoroçada.

— Nem ferrando. — disse rindo.

Seguimos juntos pelas outras atrações, parando em uma que basicamente seria um jogo no qual atiraríamos dardos na mosca com o objetivo de acertar determinadas cores que valeriam um prêmio de acordo.

— Se eu não fosse ruim nesse tipo de coisa, até testaria.

— E qual o mal de tentar? — Kyrie encorajou.

— O máximo que pode acontecer é você acertar alguém. — Nero gracejou e revirei os olhos sarcasticamente.

— Tente, Diva. Torceremos por você.

Kyrie era mesmo um amor de pessoa. Depois um breve discurso de motivação e ligeira mordacidade por parte do Nero sobre meu desempenho pouco fiável, decidi que testaria uma vez para pegar a prática e se não funcionasse, veria outros. O gentil homem que cuidava da barraca me entregou três dardos e mirei os três alvos, pensando se deveria ir em um só ou lançar cada um em seus respectivos centros. Por via das dúvidas, reunindo toda coragem necessária, disparei todos pensando, meio arrependida, que teria sido uma péssima ideia.

— Parabéns! — o homem saudou. — Você conseguiu o prêmio máximo!

Franzi o cenho com aquilo, aturdida ao ver os dardos fincados no centro, no círculo vermelho de cada alvo, em uma precisão assustadoramente estratégica.

— Pra alguém que dizia ser ruim de mira, você foi muito bem.

Fitei Nero e ele compreendeu que nem eu esperava tal resultado de uma empreitada tão aleatória.

— Mas foi incrível! — Kyrie afirmou empolgada. — Parabéns, Diva.

Assenti mecanicamente e peguei o grande urso que tinha ganhado, deixando sob os cuidados de Nero para carregá-lo. Depois de testemunhar absurdos, enfrentar pessoas pra lá de medonhas e malucas, já deveria estar preparada para situações irreais, inclusive vindo de mim mesma se levasse em conta a descoberta recente dos meus poderes — sendo que não os ativava quando queria.

Um estalo, ao analisar o contexto, lembrei de Alexander que optou por ficar distante. Ele que simbolizava o comprometimento acima de tudo e que estava, literalmente, sempre ao meu lado aparentava estar disperso em seu próprio mundo. As vezes me pergunto se isso significa que ele tenha recuperado a memória ou próximo a tal. Fora a coisa toda de “ser fantasma”, Alexander geralmente sério e com ar de sabedoria bastante proeminente, se portava com mais introversão para os meus padrões.

— Deveríamos tirar uma foto. — Kyrie mostrou uma câmera. — Há tantas coisas bonitas hoje, seria bom algo para recordar.

— Não curto muito tirar foto, mas não ligaria se for tirar com vocês. — dei uma risadinha constrangida.

Nos preparamos para a foto quando gritos irrompem a euforia, implodindo em uma sequência perturbadora de desastres. Involuntariamente ergui a cabeça, uma sombra se assomou sobre mim e Kyrie e meu cérebro travou pelo horror e a certeza de que dessa vez a sorte não iria nos dar a graça. Fechei os olhos aguardando o impacto, ciente de que seria um golpe rápido e mortal, porém tudo que senti fora se arremessada para longe em uma queda que fora amortecida.

Arregalei os olhos e mirei Nero protegendo Kyrie e eu.

— Vocês estão bem? — ele indagou.

— Sim, e você, Diva? — Kyrie me ajudou a levantar.

— Estou bem. — respondi em choque. — Isso é... Estranho.

Nero se prontificou para o combate.

— Eles estão se atraindo pela sua aura — Alexander informou, observando com prudência os movimentos do Nero. — Precisa treinar para contê-la.

Não virei a cabeça para fitá-lo após a revelação, simplesmente aceitei o fato: precisava mesmo de orientação e o único a fornecê-la até o momento era o próprio Alexander. Tinha vários motivos para confiar em seu senso de julgamento e sabedoria para me guiar.

— Ele é incrível — assisti Nero, em toda desenvoltura, eliminando os demônios.

Kyrie o olhava apreensiva e, ao mesmo tempo, orgulhosa. Ficava nítido que mesmo ela consciente do potencial do Nero, ainda se preocupava com qualquer mera possibilidade dele se ferir.

Isso é o verdadeiro significado de amor, pensei.

Alexander, incapaz de tocar em uma matéria sólida, encostou — no sentido de tentar ao menos — a mão em meu ombro e, em minha visão ansiosa, amenizou o frenesi alucinante em meu entorno.

— Isso vai ajudar, por enquanto.

Tal qual uma observadora à parte, vi Kyrie se aproximar do namorado checando se ele estava bem e um sentimento inquietante de solidão se instaurando em meu âmago.

Respirei fundo e um único nome me ocorreu: Dante.

Chacoalhei a cabeça e retornei a realidade.

— Isso... Acabou com a foto. — brinquei, ambos riram tão constrangidos quanto eu.

— Acho que ainda dá — Kyrie sussurrou avaliando o estrago que, graças a reação rápida do Nero, não se estendeu além do espaço ali.

— Nesse caso — Saltei entre os dois e tirei duas fotos ignorando o cabelo despenteado do rapaz.

Mais dias fluíram feito o fluxo contínuo de um rio sem precipitações pluviais, ocasionalmente ia ao píer ter aquele típico momento de reflexão contemplando o horizonte para fingir que estava plena, totalmente em paz e a mente limpa. Entretanto, a verdade se resumia a: certa dosagem de angústia e receio de que Ace tivesse razão e Dante não iria mais aparecer. Teria que me conformar em prosseguir minha jornada sozinha, embora não soubesse por onde começar.

Dante não morreria, ele não era alguém que seria derrotado facilmente.

— Algum problema, Diva? — Kyrie perguntou, percebendo que estava aérea.

— Não... Sim... Não... Quer dizer, sim! — rebati nervosa, engoli em seco.

— É por causa do Sr. Dante, não é? — ela sentou ao meu lado no sofá. A Kyrie bem que podia tentar a carreira de adivinha. — Seu rosto diz tudo.

— Eu acho que ele se esqueceu de mim — confessei, deprimida.

— Você o ama? — ela perguntou repentinamente e sem rodeios. O calor subiu até meu rosto. Nunca pensei que ela perguntaria algo assim na lata. Kyrie não era a pessoa que eu pediria conselhos amorosos, principalmente vendo ela e Nero “nesse chove não molha”.

— Bem, ele salvou minha vida varias vezes... — enrolei, envergonhada.

— Isso não respondeu minha pergunta.

Kyrie arqueou as sobrancelhas.

— Faremos o seguinte, no almoço nós conversamos.

Com a insistência, eu aceitei.

As horas passaram num borrão. Encontrei com Kyrie num restaurante simples e bastante bonito: a atmosfera acolhedora e convidativa somada às cores pastéis facilmente chamaria de recanto de serenidade. Na cidade que morava antes de ser arremessada pra esse universo doido e potencialmente mortal, os estabelecimentos nesse horário eram bastante concorrido.

— Diva! Diva! — Kyrie invocou.

— Hm? — chiei, dando uma garfada numa apetitosa macarronada com molho rose.

— Podemos conversar agora?

— Sim... — rebati sem empolgação alguma. Eu sabia bem o assunto e não queria falar sobre ele.

— Então, você gosta do Sr. Dante? — repetiu a mesma questão polêmica de antes.

— Não o chame de senhor... É estranho. — afirmei, fazendo careta e torcendo para que isso desviasse atenção dela.

— Ok. — respondeu resignada. — Me responda.

— Sim. Eu gosto dele.

— Gosta?

— Ah! Não engrossa, Kyrie. Eu gosto. Ponto. — repliquei um pouco rabugenta. Por incrível que soasse, achava engraçado como ela aparentava apoiar uma relação que sequer existe

— Você esta protelando. — Kyrie acusou.

— Não estou! — me defendi.

— Está protelando, sim!

— Kyrie! — repreendi.

Sentia que conversava com uma velha amiga, alguém que implicava, não a um nível incômodo, e transmitia uma aura de confiança e cumplicidade. O sorriso dócil me comoveu, sobretudo, com o toque terno de sua mão sobre a minha como uma versão muda de “te entendo muito bem e estou aqui para lhe oferecer um ombro”. De repente, tudo que guardei, e que parcialmente transbordava, queria se dissolver em lágrimas por uma série de fatores diferentes: raiva, tristeza, desolação e confusão em uma mistura complicada de conciliar.

A última coisa que desejava era desmoronar na frente de desconhecidos e revelar uma vulnerabilidade de maneira tão leviana — claro que meus olhos não obedeciam os comandos primordiais de não dar sinais de choro. Kyrie arregalou ligeiramente os olhos, não de forma assombrosa, e sim uma compleição mais epifânica, de que compreendia o que, a custo, tentava ocultar.

— Vamos para casa. — murmurou com suavidade.

Assenti

Ela não falou mais nada.

— Quer que eu fique com você? — indagou, apreensiva. — Podemos passar um tempo juntas pra que desabafe.

— Agradeço a gentileza, Kyrie. — forcei um sorriso. — Mas você tem o orfanato e não quero incomodar.

Persisti em convencê-la a ir logo e não se preocupar comigo, o que demorou alguns minutos e vi o quanto ela era altruísta. Respirei fundo assim que entrei, encostando a porta e escorreguei até o chão gélido.

Sendo honesta comigo mesma: minha miséria se devia a simples chance de não ver Dante novamente. Por mais patético que tudo isso soe, quem quer perder alguém que admira e, sobretudo, não ter nenhuma expectativa de reencontro.

— Diva? — ouvi Nero falar. Elevei a cabeça e o encontrei ajoelhado na minha frente com um olhar preocupado, reparei as peculiaridades da vida caseira e normal em seu avental fofo. Ele se ocupava das tarefas domésticas enquanto a namorada trabalhava no orfanato e aquilo me enchia com uma sensação de familiaridade e aconchego. — O que houve?

Buscar palavras para explicar, na minha cabeça frenética, surgiam apenas frases embaralhadas e imagens confusas, nada conclusivo para balbuciar uma sentença larga e coerente. Um soluço irrompeu pelos meus lábios entreaberto e meus olhos ardiam pelas lágrimas que desejavam se liberar.

Para o bem da minha própria compostura, agradecendo a sorte, para chorei.

Nero me amparou, ajudando a levantar e me direcionou para fora. Eu sabia onde ele estava me levando. O píer se tornara o lugar que eu usava como válvula de escape. Desde a primeira vez, que tinha vindo — eu não tinha certeza que era a primeira vez —, Nero me trazia sempre que eu precisava de um refugio — um cara apaixonante, não?

O vento soprou por entre nós. O cheiro de mar invadiu minhas narinas trazendo boas lembranças. Aquilo despertou minhas memórias. Lembrei-me de como meu pai brincava falando sobre as crenças das antigas civilizações de que o horizonte era o fim da linha. Se o cruzasse teria a surpresa de dar de cara com um monstro.

— Quer conversar? — indagou gentilmente.

— Não muito.

Escovei meus curtos fios castanhos com minhas mãos. Eu sentei na beira do cais, tocando a água fria com a ponta dos pés. Uma brisa fria arrepiou minha pele. A temperatura mudara bruscamente. Nem me importei e fiquei com os olhos vidrados no horizonte. O sol estava se pondo deixando as águas brilhando com sua luz alaranjada. A visão era perfeita para uma foto. Concentrada, ouvi um ruído de passo firmes e fortes no piso de madeira lascada.

Não dei importância.

— Uma bela vista, não? — comentou uma voz familiar. Olhei por cima do ombro. Meu coração batia acelerado, quase saltando do meu peito.

— Dante... — gemi.

Virei-me abruptamente, escorregando na beira do cais. Uma mão segurou-me antes que eu caísse, puxando para longe da beirada e chocando-me com um peito duro e quente. Fui envolvida num abraço reconfortante. Finalmente poderia acalmar aquela inquietação no meu coração: o vazio que a falta daquele meio demônio arrogante fazia. Respirei inalando o doce perfume que Dante exalava. O mesmo frescor que eu experimentei na primeira vez que cheguei a esse mundo. Braços fortes serpenteavam minha cintura trazendo ainda mais para perto.

Afastei-me com as lágrimas deslizando livremente pelas minhas bochechas, nem liguei por estar com a cara toda vermelha e molhada.

— Dias! Foram dias incontáveis sem notícias! — respirei fundo para conter a corrente de emoções que ameaçavam estourar. — Onde você estava? Pensei que tinha me esquecido! — choraminguei, afundando meu rosto em seu peito. — Achei que não me queria por perto, por isso não vinha me buscar... Eu sei que ando causando muitos problemas...

— Ah, doçura. Eu nunca te esqueceria. — ele começou, sussurrando no meu ouvido. — Calma. Estou aqui, seu herói está aqui.

Não pude segurar a risada com esse comentário.

— Está atrasado, sabia?

Notas finais
A musica que acompanha o capitulo: http://www.youtube.com/watch?v=34yUP8KM6gs (Your Rain - Akira Yamaoka & Mary Elizabeth McGlynn) Não sou o tipo que adere a musica ao que esta acontecendo com exatidão, mas essa musica me inspirou enquanto escrevia a historia :3 ~Sinto cheiro de muitas pessoas querendo me pegar ~lê multidão fervorosa atrás dela~ Eaí povinho, o que acharam? Só espero que não tenha ficado tão agua com açúcar... Até porque sou péssima nisso ~chorando num canto escuro Espero que tenham gostado :3 E se não, espero que não me matem u-u