Next Dimension
66 Sonhos Infinitos

Restless sleep, the mind's in turmoil
Sono sem descanso, a mente em confusão
One nightmare ends, another fertile
Um pesadelo acaba e o outro começa
[...]
Even though its reached new heights
Mesmo tendo atingindo novas intensidades
I rather like the restless nights
Eu prefiro as noites sem descanso
It makes me wonder, it makes me think
Elas me fazem indagar, me fazem pensar
There's more to this, I'm on the brink
Existe mais que isso, ou estou no extremo
It's not the fear of what's beyond
Não é o medo do que está além
[...]
I have an interest, almost craving
Eu tenho uma curiosidade, um desejo forte
But would I like to get too far in?
Mas eu gostaria de ir tão longe?
[...]
But wouldn't you like to know
Mas você não gostaria de saber
The truth?
A verdade?
Infinite Dreams — Iron Maiden
A FORTE LUMINOSIDADE obrigava minhas pálpebras a se fecharem contínuas vezes, embora arduamente tentasse mantê-las bem abertas para que as imagens se filtrassem. Precisei de muito tempo para me acostumar a ela e, mesmo quando não estava tão ofuscante quanto outrora, ainda assim cegava. A densa claridade foi lentamente substituída pela suavidade normal e sem exageros da luz do dia. O céu acima de mim parecia uma mistura esquisita em um godê como aquelas nuvens altocumulus lenticulares, leitoso e o sutil azul combinado com cinza. E muito diferente de que posso considerar comum, havia um curioso brilho dourado salpicando em meio às cores que se torciam em outro fenômeno incomum, as nuvens iridescente. Nada muito forte no qual não poderia ver, somente radiante demais para o meu gosto.
Parei para analisar o local onde chegara e minha primeira impressão fora que, de alguma forma, entrei em uma dimensão distorcida e sem nexo. Estava sobre uma espécie de placa de terra suspensa no ar, outras semelhantes surgiam diante de mim formando uma paródia bizarra da verdadeira realidade. Eram placas de terra com ruas, casas e até mesmo veículos. Destroços voavam sem rumo como balões, distinguindo apenas pelos tamanhos e formas. Aquilo parecia muito com uma versão melhorada do limbo.
O choque inicial foi camuflado pela curiosidade. Fiquei verdadeiramente impressionada com o fato de ainda estar de pé firme em meio aquele caos, talvez aqui também tenha a bendita gravidade. Caminhei para longe do portal que prontamente desapareceu, ficando poucos metros do fim da placa. O vento soprou fraco e agradeci mentalmente por poder senti-lo tocando em minha pele, era a única forma de saber se realmente estava desperta — aflorando meus sentidos. Escovei meus cabelos para trás, procurando uma maneira de sair daquele lugar esquisito demais para meus padrões. Olhei atentamente ao redor, esperando alguma coisa significativa — milagrosa — acontecer para me auxiliar. Com a espera não adiantou nada, tomei fôlego e saltei para uma pequena porção de terra que um dia já fora um terreno e uma casa. Fiz meu percurso dessa forma, pulando de peça em peça.
— Bem vinda a sua dimensão. — Alexander alegou, gentil e solene como um professor para com seu pupilo, assim que pousei nas ruínas de uma igreja.
— Minha dimensão? — inquiri confusa e incrédula.
— Essa dimensão você criou baseada em suas memórias — explicou calmamente.
— A parte de ser "minha" dimensão já entendi, mas como a criei?
— Aparentemente logo depois de despertar seus poderes, o choque abrupto, ocasionou uma nova dimensão espelho. Posso até afirmar que há uma conexão direta com suas memórias tanto dessa vida como da sua vida passada. Você reconhece algum deles?
— Hm — ponderei observando meu entorno — Não.
De fato nada ali me inspirava lembranças, principalmente por estar em total desordem e com isso ficava difícil identificar ao certo cada ponto de referência possível. Insistente, meus olhos vasculharam mais atentos o campo aberto procurando por algo familiar e encontrei o que meramente assemelhava-se a minha casa, porém nada realmente conclusivo.
— Aqui você tem vantagem, pois tanto sua força física como outras habilidades ganham mais poder, isto é, são ampliadas consideravelmente. Resumindo: esse terreno é feito por você e para você. — explicou serenamente.
Sorri.
— Até agora não há nada de tão terrível aqui. Pensei que fosse um desafio muito pior que o anterior — avaliei um pouco aborrecida pela falta de ação. — Isso deveria ser meu pesadelo, não é?
Não houve respostas para minhas indagações, o único som audível era do vento e da minha respiração.
— Alexander? Alexander? — chamei.
Bufei impaciente.
— Percebi vou ter que me virar sozinha. — ironizei.
Aterrissei numa cidadela flutuante, havia casas e estabelecimentos e todos estranhamente silenciosos e calmos. Obviamente não deve ter ninguém, até por que não senti nenhuma presença desde que cheguei. Próxima ao final que dava direto para uma fileira de grandes pedras que poderia usar para saltar e assim encontrar outro ponto como esse, esquadrinhei novamente o espaço. Minha linha de raciocínio foi interrompida por um som estridente de trilhos descarrilado vindo perigosamente em minha direção e, em seguida, um trem em alta velocidade avançou no segundo que me atirei a tempo para fora da passagem. O trem chocou-se a um rochedo e reestabeleceu seguindo inabalável e desaparecendo da minha vista. Foi por pouco que não fui atingida em cheio por ele.
Pressionei minha mão sobre meu peito sentindo os acelerados batimentos cardíacos, causado tanto pelo medo quanto pela descarga de adrenalina. Eu preciso ser mais cuidadosa e não concluir nada antes de ter certeza: esse lugar pode ser muito pior que aparenta. E no momento que baixar a guarda possa ser um alvo extremamente fácil. Todo cuidado é necessário. Com as forças renovadas, pulei em uma rocha que devido ao peso girou. O susto me fez cair pesadamente de joelhos, ficando de ponta cabeça. Não me sentia muito bem naquela posição, o instigante era que — o correto — a gravidade me derrubasse, mas nem cai tampouco existia algum poder me puxando para baixo. Permaneci estupefata observando tudo virado, sem diferença de quando se esta virada: como o desconforto do sangue indo para a cabeça, a eventual tontura ou simplesmente as roupas e os cabelos mantinha-se intactos. Tomando coragem, me pus de pé e ignorei a vertigem desencadeada pelo medo inicial. Só conseguia pensar quão perturbador era essa dimensão.
Emergindo de algum ponto desconhecido um ruído de sons de asas batendo muito próximo de onde estava. Então algo posicionou a rocha que me apoiará para cima, mudando-a para como deveria estar anteriormente. Encarei a coisa impressionada que apesar de ter o dobro — ou quádruplo — do meu tamanho pude reconhecer sendo este um falcão. Ele possuía penas brancas e douradas, os olhos negros me estudavam: pensando, quem sabe, em uma possível presa. Preparei-me para caso dele querer me utilizar para forrar o estômago, mas a ave não fez absolutamente nada. Nenhum músculo se mexeu, somente os olhos que piscavam.
— Certo, acho que posso considerá-lo um amigo? — questionei incerta. O falcão guinchou e um fulgor radiante o encobriu, obrigando-me a fechar os olhos. Quando voltei a abri-los o falcão esvanecera sem deixar rastros, só não completamente pois onde ele ficava um compacto feixe de luz prateada surgiu — lembrando-me vagamente do jogo Devil May Cry quando Dante ganhava alguma nova arma.
Empolgada com a possibilidade de ter uma arma incrível, toquei-a sem hesitar. As minhas companheiras: Conquest, Promise, Oblivion e Glamour foram substituídas por lâminas de adagas com sutis ondulações que saiam de um mecanismo anexado em meus calcanhares e pulsos. O braçal tinha desenhos e símbolos dourados emoldurados pelo puro branco que, de certa forma, parecia um bracelete confeccionado no mais alto padrão de sofisticação e beleza, assim como os que jaziam nos calcanhares que se adequavam ao salto da minha bota. Perfeitos demais para descrever em palavras. Admirei minutos a fio as obras de arte que minhas novas armas eram, mal contendo a excitação em poder usá-las em uma batalha.
— Ainda posso garantir que não está sendo tão apavorante. Na verdade, isso é incrível. Acho que houve um engano ou erro de interpretação, não há nada de ruim aqui. — declarei agitada, demonstrando toda minha alegria.
A atmosfera mudou repentinamente, tornando-se abafada e seca. O céu adquiriu tonalidades mais sombrias de cinza e o vento inquieto aumentou, conforme a nebulosidade absorvia a pouca clareza do azul celeste e transformando num azul neutro escuro e sem graça. A brisa ficara mais intensa e batia de frente com meu rosto. Doía minimamente, nada que não pudesse suportar. A força nas rajadas de ar jogavam objetos pequenos em mim como pedras, fragmentos de vidros até mesmo peças de carro. Sem me preocupar, atirei-me em outra rocha. Uma misteriosa energia enviou um sinal de alerta para todo meu corpo. Mecanicamente olhei para baixou e um par de olhos vermelhos me encarou de volta. Passei por cima dele e nesse exato instante, a criatura serpenteou contra mim. A surpresa e a falta de atenção no momento de me estabilizar levaram-me abruptamente ao chão, deixando-me meio aturdida. Com movimentos ligeiros, ele aproximou-se de onde estava e sua respiração quente gelou minha espinha.
O pânico e o temor dominaram minha mente. Os olhos rubros cintilavam enraivecidos, duas bocas se sobrepunham uma na outra — uma mandíbula cheia de dentes assustadoramente afiados enquanto a outra se sobressai por ser muito maior em todos os aspectos —, seu corpo esguio envolvido por camadas de couraça escura dura e resistente em toda superfície de pele acinzentada, seu corpo se estendia longamente por repetidas curvas que ele faziam quando se mexia, asas se agitaram para planar impecável, um par de braços com garras firmes se alongavam deformes. Sua apareciam era grotesca, semelhante a um dragão — especificamente o Dragão Celeste de Osíris —, só que mais bizarro. Ele abriu ambas as mandíbulas e soltou um assombrosamente alto rugido, que fez com que a terra tremesse e arrastou coisas pendentes para longe. Tampei meus ouvidos, tentando inutilmente proteger meus tímpanos sensíveis.
— Você só pode estar brincando! — resmunguei nervosa. — Eu não tenho nem um décimo do tamanho dele, então como vou matá-lo?
O monstruoso ser cravou os dentes no local onde estava, porém consegui esquivar antes.
— Ei! Nunca ouviu que é falta de educação avançar nos outros assim? — apontei em um tom mais debochado do que pretendia. Algo que adquiri do tempo de convivência com Dante: brincar com os adversários não importa quão poderosos sejam. — Fala sério, como vou lutar com você?
Lembrei do comentário de Alexander sobre aquela dimensão incrementar minha performance e agarrei um pedaço de terra e atirei na besta.
Carpentia — um nome carinhoso que lhe dei por ser parecido com Sapientia misturado com Slifer — bateu propositalmente a cabeça contra mim, sem me atingir. Essa irritante insistência dele em querer a todo custo me esmagar, tirou-me do sério. Nesse âmbito sou mais propensa a me incomodar com esse tipo de enrascada que Dante, preciso aprender com ele a não perder a paciência e ficar calma independente da dificuldade. Aterrissei na cabeça dura de Carpentia, e ele se sacolejou violentamente. Segurei-me em sua couraça para não cair ou ser jogada para longe. Ele iniciou um voou frenético e chocou-se em uma torre, o impacto atirou-me num prédio. A dor imediata entorpeceu meus outros sentidos. Um grande fragmento de vidro perfurou minha coxa enquanto sentia como se o golpe tivesse aberto meu crânio. E sabia que ainda estava em perigo levando em conta que meu amiguinho me esperava lá fora ou iria me atacar do jeito que estava. Em outras palavras estou muito ferrada!
Com custo levantei-me, retirei o pedaço de vidro fazendo o sangue jorrar descontrolado, manchando o chão e impregnando o ar com o amargo aroma de ferrugem. Meu estômago se revirou, respirei fundo para aliviar o enjoo crescente. Cortei uma parte do meu casaco amarrando no local da ferida, estancando o sangramento.
— Agora compreendi a parte do pesadelo — conclui meio tonta. — E acho que só tende a piorar.
— Desperte seu verdadeiro poder, criança — uma voz pediu, mas não a reconhecia. Pelo tom suave e o timbre masculino que parecia carregar sabedoria inigualável, fez com que sentisse como se estivesse recebendo um conselho de um sábio avô preocupado e ao mesmo tempo severo, que esperava resultados do meu empenho.
— Quem... — sussurrei ainda sob o efeito da pancada e a perda de sangue. Talvez tudo não passasse de um delírio. No entanto, tive a sensação de que muitas pessoas depositaram seus sonhos em mim — forças antigas, mas até que a humanidade. Isso também podia ser uma alucinação projetada pela minha mente embriagada. Um ponto que devo ressaltar era que estava em território ancestral e pode realmente ser que esteja sendo ajudada por eles, afinal sou uma parte dali. Esse grande motivo é suficiente, além disso, tenho responsabilidades. Não posso de maneira nenhuma desistir. O ferimento em minha coxa não incomodava tanto para que não pudesse me mover com liberdade, e foquei a energia curativa para a região mais necessitada que seria minha cabeça e a dor pulsante nela. O sangue emaranhou meus cabelos, deixando-os com o aspecto meio nojento. Caminhei para fora, dando de cara com Carpentia.
Ele bufou, soltando uma rajada quente em meu rosto.
— Tira esse bafo da minha cara!
Ele abriu uma das bocas pra me lanchar.
— Retiro o que eu disse! Está tudo bem com o bafo.
Retrocedi.
— Confesso que é bastante lisonjeiro o tamanho interesse que desperto. Assim até tenho a impressão que sou uma artista. — ralhei sarcástica, minhas mãos pousadas na cintura. — Mas isso não vai me impedir de chutar seu traseiro.
Rapidamente tomei impulso e saltei novamente sobre a cabeça dele, porém não permaneci parada naquela parte continuei correndo até alcançar a cauda e pisei impiedosa. Carpentia grunhiu e o som reverberou por todo seu corpo. Sem esperar alguma reação de defesa dele, agarrei a cauda e deliberadamente cai num rochedo, segurando-o sem afrouxar.
— Alexander disse que aqui minha força física aumenta, está na hora de testar a teoria. — a pressão que exercia no músculo da cauda poderia facilmente arrancá-lo, Carpentia tentou se livrar de mim e foi engraçado ver aquilo. Dupliquei a pressão até ouvir um estalido que lembrou ossos partindo, então o puxei para perto e comecei a girar. Foram duas voltas antes de largá-la em uma boa distância.
— Melhor terminar logo com esse jogo.
Carpentia berrou feroz e avançou. Sua velocidade diminuiu, mas nada muito sério que consequentemente o retardaria. No momento em que estava prestes a me apanhar o mesmo falcão que aparecerá para mim o pegou de surpresa. Automaticamente olhei para onde minhas armas que ainda estavam ali, a diferença relevante era que um fio dourado conectava a ave aos braçais. Refleti sobre o ocorrido: essas armas geralmente são almas mudadas, ou seja, minhas lâminas tem o poder — ou seria o espírito — de uma ave de rapina, ou mesmo elas o invoca. Creio que preciso entender mais antes de chegar a uma conclusão exata.
O falcão utilizou as garras para apreender a presa, pondo-a em desvantagem e apertando-a firme. Com o bico desconjuntou as vértebras de Carpentia que urrou lutando bravamente contra o predador que parecia irredutível em larga-lo e matou-o.
— Devo me preocupar? — questionei insegura. O falcão se iluminou e bateu as asas, o cordão dourado tremeluziu e tornando-se transparente. Reparei que em meu pescoço pendia uma corrente com duas pedrinhas: dourada com detalhes brancos e cinza salpicada de ouro. Carpentia transformou-se em uma espiral luminosa e estendi um braço. A luz agitou-se e flutuou até mim, o contato direto com minha mão fez a luz tomar forma sólida e fria. Completando a formação, pude sentir e ver o que era: um leque metálico, no lugar de tecidos havia lâminas com intervalos entre uma e outra. A base era de coloração cinza e dourada.
— Esta ficando cada vez melhor. — enunciei deleitosa, lambendo os lábios.
— Estou muito impressionado com seu desempenho, Diva. — Alexander expôs contente. — Mas lembre-se que resta encontrar a saída.
— Alexander, por que essa dimensão é desse jeito? — perguntei quando a dúvida surgiu subitamente em meus pensamentos.
— Esse é o reflexo de suas memórias e logicamente não possui estrutura para se estabilizar. Você ainda não encontrou uma forma de moldar a si mesma para solidificar.
— Traduzindo: Enquanto não estiver certa das coisas que me rodeiam e das minhas escolhas essa dimensão ficara assim, toda bagunçada.
— Sim, exatamente isso.
— Olha, é provável que fique dessa maneira para sempre.
Conforme prosseguia pelo nada convencional trajeto, notei uma coisinha minúscula — não literalmente — encolhida no meio de uma praça. Aproximei em passos silenciosos e cuidadosos e quando ela se virou foi uma luta não ofegar em choque, justamente quem deparara fora uma menina idêntica a mim na idade dela. A garotinha possuía os longos cabelos ondulados presos num rabo de cavalo, o rosto corado e olhos grandes cor de chocolate.
— Quem é você? Por que se parece comigo?
Então ela também percebeu, já é meio caminho andado.
— Bem, eu sou você só que mais velha. — contei esperando uma reação de receio ou susto, mas ela me encarou com cenho franzido em visível incredulidade.
— Me prove que é realmente sou eu. — mandou intrigada e exigente demais para uma criança. Não recordava o quanto chata eu era.
— Ótimo — bufei sarcasticamente — no seu aniversário de sete anos você ganhou um ursinho e colocou o nome de Sr. Fofo. — analisei o que falara — Parando para pensar, esse nome é um pouco ridículo.
— Ei, não ofenda o Sr. Fofo! Peça desculpa! — exigiu com a expressão irritada e os lábios repuxados num biquinho, estendendo o bicho de pelúcia diante de mim.
Revirei os olhos.
— Não, obrigada.
— Chata. — ela mostrou a língua.
Eu era insuportável assim?
— Não vou ficar discutindo com você... Ou comigo... Que confuso.
— Que lugar é esse? Eu quero minha mãe — choramingou abraçando o urso.
— Calma, vou dar um jeito nisso. Aliás, o que faz aqui? Tudo bem que aqui é a projeção das minhas lembranças, mas me encontrar numa versão mais jovem é bizarro demais para conceber.
— Não sei... Eu não lembro.
— O melhor a fazer no momento é não ficar por longos períodos de tempo no mesmo lugar para não ter encontros desagradáveis.
Peguei a menina nos braços e corri.
— Isso é divertido. — gritou empolgada enquanto pulava de destroço em destroço.
Chegamos a uma plataforma que ironicamente dava para rua da minha casa na outra dimensão. Conforme andava senti algo estranho e perturbador — como se estivesse ameaçada. A sensação desagradável cresceu em meu interior, enraizando-se como ervas daninha. Irrompi pela porta entreaberta com a esperança que alguém viesse me receber, podia até ouvir minha mãe descendo as escadas reclamando que eu passo tempo demais jogando vídeo game ou mexendo no computador ou mesmo minha irmã anunciando aos quatro ventos que conseguiu comprar o livro que queria por um preço acessível — que poderia eu pensaria pegar emprestado sem ela desconfiar. Eu sabia muito bem que não deveria me iludir, nada do que acontece é real.
— Mamãe! Papai! — a pequena gritou, saindo dos meus braços. Ela correu para as escadas, deixando-me para trás. Avistei retratos numa cômoda e fiquei observando-as. Tinha se passado um bom tempo desde que a menina saiu e tudo estava estranhamente silencioso.
Isso geralmente é um péssimo sinal.
Andando pelas a escadaria, relembrei quando fui atacada e trazida a esse mundo. Meus olhos ávidos buscaram em cada movimento suspeito denunciasse algum invasor. Subi e vasculhei os cômodos; suspeitava que não achasse ninguém, entretanto ainda queria acreditar no contrario. Nem encontrei a garotinha. Meu nariz se irritou com o cheiro estranho vindo da sala: uma mistura de sangue com algo podre. Havia respingos de sangue no chão e paredes criando manchas rubras e desenhos macabros, meu coração se apertou em meu peito com a possibilidade que surgia. Acelerei o passo e vi uma pessoa caída numa poça de sangue, corri até ela e a virei.
— Lyana? — chiei em abismada. Ela não se mexia e não senti sua pulsação. Duas perfurações jaziam em seu peito, acertando corretamente no coração. Meus olhos arderam com as lágrimas que queriam sair. Deixei-a no lugar e prossegui. As imagens que aparecia à medida que entrava mais eram catatônicas e terríveis demais para minha sanidade: meus pais jogados do chão sangrando e dilacerados. A mente a mil por hora e o coração apressado, permiti que as lágrimas escorressem livres enquanto tentava me recuperar. Um cano de arma tocou minha cabeça.
— Vire-se devagar! — ordenou, e sem escolha o fiz. Depois de encontrar minha versão mais nova não me surpreendeu também dar de cara com outra projeção minha, no entanto, essa tem a minha aparência atual: a de uma jovem adulta.
A raiva começou a fervilhar em meu estômago, limpei as lágrimas.
A garotinha reapareceu empurrando meu outro eu (Isso já está ficando no limite de confusão de pronomes) se agarrou em mim e gritou desesperada, olhei para ela e decidi coloca-la em algum local seguro até acabar com o convidado inconveniente. — Preciso que se esconda.
— Estou com medo.
— Eu sei, mas será pior se ficarmos juntas.
— Esta bem — murmurou resignada e correu para fora de vista.
— Vamos acabar com isso.
— Não me vai dizer que teremos que fazer um show de exibicionismo para provar qual de nós é melhor? — ralhei, cinicamente. — Por que se for o caso, eu aviso de antemão que você vai perder.
— Não ficaria debochando se fosse você.
— Vamos cortar o papo furado e começar a ação, estou com pressa. — posicionei-me preparando para atacar, fiz um gesto para provoca-la. Ela sacou Promise & Conquest atirou em mim sem parar enquanto eu ricocheteava as balas com as lâminas do braçal. Ambas partimos para um golpe mais direto e — na esperança — mais eficaz. Para minha frustração, cada ataque investido contra minha cópia ela repetia da mesma maneira daquela vez quando havia voltado no tempo.
— Você não pode me derrotar, posso prever seus movimentos. Além disso, somos iguais nos golpes e não há nada que você faça que não saiba — declarou convencida. Apesar da lógica estar em lado dela, talvez eu devesse tentar algo diferente do habitual, uma coisa completamente inesperada.
— Tem razão, mas acho que terei que usar algo novo — dito isso bati minha cabeça na dela, o impacto a deixou atordoada e ela recuou, aproveitei aquela breve ocasião proveitosa para atacá-la, segurei uma das suas mãos e a puxei para perto usando meu braço para atravessar o peito dela. O sangue escorreu por toda extensão do meu braço e manchou minha camiseta e molhou-me ainda mais quando retirei-o, mas não era isso me importava. Cai de joelhos e a menina veio correndo até mim com um sorriso de orelha a orelha.
— Agora posso ver claramente — disse completamente absorta, mergulhada em meus próprios pensamentos. Encarei a criança parecida comigo, ela encarava de volta. — O porquê de você estar aqui – dela estar aqui. Eu sempre me enxerguei como uma menina indefesa e ignorava minhas responsabilidades, mas tudo que passei provou que não preciso mais fugir, que finalmente posso ser sincera comigo mesma e a grande força que tenho. — peguei a mãozinha dela e acariciei seus cabelos. — Sua existência não é mais necessária, eu aprendi minha lição!
Ela sorriu e sua imagem sumiu em minúsculas fagulhas de luzes como estrelas até desaparecer por completo.
Cursei para um portal que se acendeu ali, adentrando-o. Coloquei minha mão frente aos meus olhos para protegê-lo da luz.
— Estou feliz que estamos reunidos. — a voz de Alexander foi tão intensa que apesar da luminosidade extremamente forte, fixei minha visão na sua imagem.
— É sempre bom revê-lo, Alexander.
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